O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 23 de 49

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O Guardião

Capítulo 23

Minha ansiedade diminuiu quando me aproximei da entrada dos fundos da mansão de Beaconfield e vi Dunkan acenando em minha direção com um grande sorriso estampado no rosto.

- E eu aqui pensando que não iria te ver. Seu garoto não sabia direito quando você iria voltar e meu turno já estava quase acabando.

- Olá, Dunkan - disse eu ao apertar sua mão estendida com um sorriso verdadeiro. - Mantendo-se aquecido?

Ele deu uma gargalhada honesta, com o rosto quase tão vermelho quanto seus cabelos.

- Está tão frio que estou até com os mamilos arrepiados, como dizia meu pai! É claro, somente entre nós, cavalheiros, que eu me abasteci com uma arma secreta contra o ataque do inverno - disse ele, pegando de seu casaco uma garrafa sem rótulo e chacoalhando-a de maneira convidativa. - Não achou que eu fosse te oferecer um gole?

Tomei um gole e meu estômago se encheu daquele líquido em chamas.

- Coisa boa, não é? - perguntou ele.

Fiz que sim com a cabeça e tomei outro trago. Era bom, forte como um coice, mas com um gosto doce no fim.

- Fermentado no fogo. É o único jeito de fazer. Meu primo tem um alambique no quintal. Ele me manda um carregamento todo mês. Um dia eu terei economizado o bastante para voltar para casa e fazer uma destilaria de verdade. Já tenho até o nome: Companhia de Destilados Ballantine. Este é o plano. É claro que eu posso mudar de ideia e gastar tudo com mulheres.

Gargalhei junto com ele. Ele era aquele tipo de companheiro.

- Se você seguir pelo primeiro caminho, quero que me mande um barril de sua primeira leva.

- Com certeza. Já tagarelamos demais. Tenho certeza que você tem coisas mais importantes para conversar. Já avisei lá dentro que você chegou. O Capitão Serragem deve estar esperando você. Se eu ainda estiver de guarda quando você sair, dê um grito e a gente toma mais um pouco.

- Espero que seja assim mesmo - disse eu antes de me dirigir para a entrada.

Ele tinha palavra e, antes que eu chegasse à porta branca externa, ela se abriu e Tuckett, o Capitão Serragem, como Dunkan se referira a ele, me media com os olhos murchos sobre o nariz pontudo.

- Você chegou - constatou ele.

- Parece que sim - respondi. O vento entrou na casa e o serviçal estava sem casaco. Foi divertido observá-lo enquanto tentava manter a compostura.

- Você vai entrar? - perguntou ele enquanto seus maneirismos meticulosos eram de certa forma maculados pelo ranger de seus dentes.

Depois de prolongar a cortesia, entrei na casa. Ele bateu palmas e um garoto apareceu para pegar meu casaco. Quando dei meu pesado casaco de lã na mão dele percebi que havia esquecido de me desarmar antes de sair do Conde. Tuckett olhou longamente para minha arma para me fazer perceber que a havia visto, mas não por tempo bastante para transformar aquilo num problema.

Ele então pegou uma lamparina presa na parede e lançou luz sobre o corredor diante de nós.

- O mestre está em seu escritório. Vou leva-lo até lá - disse ele, com sua fala no meio do caminho entre um pedido e uma ordem, incorporando os piores aspectos de ambas.

Eu o acompanhei pelo corredor, fazendo anotações mentais do lugar. Não havia nada pela linha de salas que passamos que indicasse que ali fossem celas construídas para crianças ou altares manchados de sangue, mas numa casa daquele tamanho era possível esconder praticamente qualquer coisa. Tuckett percebeu meu fascínio pela arquitetura e, para evitar que ele ficasse muito tempo pensando naquilo, decidi alfinetá-lo um pouco.

- O mestre costuma entreter traficantes de drogas em suas câmaras privadas? -perguntei quando subíamos a escada principal.

- Quem o mestre recebe não é da nossa conta.

- Bom, mas é da minha conta, pois estou prestes a ser recebido por ele. Chegamos ao topo da escada, viramos à direita e prosseguimos mais alguns instantes em silêncio. Não pude evitar de achar que os movimentos irritantemente lentos dele eram mais uma tentativa de me incomodar do que motivados por sua idade, já que ele só tinha passado um pouco dos quarenta anos, apesar do jeito enfadonho fazê-lo parecer mais velho. Era uma retaliação insignificante, mas nem por isso ineficaz. Na hora que chegamos ao gabinete do Espada, eu estava tão desesperado por me afastar de Tuckett quanto ele de mim.

Aguardei ansiosamente enquanto ele fazia mais uma pausa interminável para reunir as energias para seguir adiante. De dentro eu ouvi o som de passos e a porta se abriu.

Beaconfield havia suavizado a aparência em relação à última vez que o vira, o que quer dizer que ele não estava vestido como uma prostituta. Um casaco preto cobria seu peito e ele vestia um par de calças sóbrio, ainda que bem costurado. Seu rosto estava limpo de maquiagem e outras frescuras e a garganta e os dedos longos pareciam quase nus sem os enfeites de antes. Na realidade, o único item de seu vestuário inalterado em relação à noite da festa era o florete pendurado a seu lado. Estaria ele usando aquilo por minha causa, eu pensei, ou será que ele costumava andar armado até mesmo dentro da própria casa.

- Obrigado, Tuckett. Isso é tudo.

O mordomo me lançou um olhar falso e pigarreou de um jeito perturbador.

- Devo lembrar ao meu senhor que o feiticeiro Brightfellow é esperado?

Beaconfield assentiu com ar sério.

- Certamente. Avise-me quando ele chegar.

Tuckett desapareceu com a alegria de um verdadeiro servo. Beaconfield cedeu passagem.

O escritório do Espada era surpreendentemente lúgubre em relação ao que eu havia visto de suas inclinações. Nenhuma tapeçaria recordando loucas bacanais nem troféus sangrentos de inimigos assassinados. Em lugar disso eu tinha diante de mim uma saleta bem equipada, luxuosa, mas de bom gosto, com as paredes repletas de prateleiras de livros com volumes antigos e tapetes kiren cobrindo o chão perto delas. Beaconfield ficou em pé atrás da mesa de ébano, de um tipo de coisa sólida e antiga capaz de sugerir que o restante da estrutura foi exclusivamente construído para acomodá-la. Ele olhou para minha arma e perguntou:

- À espera de problema?

- Seu mordomo é um mau freguês - respondi.

Ele deu uma risada decente, robusta e quase honesta, e não aquela risadinha nasalada comum a sua classe, mais próxima de uma eliminação de excessos do que de uma expressão de leveza.

- Sim, é verdade - disse ele, enquanto notava meu interesse pela decoração de seu escritório com o riso que lhe rendera parte de seu apelido. - Não é bem o que você esperava?

- Não me parece muito de seu gosto - respondi.

- É um dos aspectos negativos de se herdar uma propriedade da família. Nada do que há neste escritório já não estava aqui quando eu nasci. Olhe aquele ali -disse ele e apontou para o retrato de um homem na parede que lembrava Beaconfield. O protagonista da imagem estava todo coberto de prata e estava em pé sobre uma impressionante pilha de cadáveres, olhando para o vazio com uma expressão que parecia indicar a gravidade da situação. Se bem que o que ele fazia olhando o horizonte no meio de uma batalha ia além da minha compreensão.

- Sim.

- O que você acha dele?

- É uma pintura - respondi.

- É uma cena terrível, não é? O velho rei o deu a meu tio-avô para celebrar sua famosa vitória em... - ele fez um aceno apático com a mão - em algum lugar. Faz parte do pacote. Não posso redecorar sem trair o sangue.

- Não se trata de um problema que me atormente.

- Não, imagino que não - disse ele. - Normalmente eu sou um bom fisionomista, mas não consigo gravar a sua. Alto demais para um tarasaihgn, largo demais para um asher. Seus olhos dizem rouender, mas você é escuro demais, quase da cor de um ilhéu. De onde você veio?

- De um útero.

Ele voltou a rir e fez sinal para que eu me sentasse em uma cadeira. Tomei assento, acomodando nela meu corpo cansado com um suspiro quase audível. Beaconfield sentou-se depois de mim, acomodando-se firmemente no trono de recosto alto atrás de sua mesa.

- Teve um longo dia?

Abri minha sacola e coloquei dois itens sobre a mesa. O primeiro era um frasco sem nada escrito de resina viscosa e o segundo, um maço de raízes trançadas. -Tome cuidado com esse mel. Não foi diluído. Não use mais que um toque no lábio dele a não ser que queira realmente tornar-se íntimo do fundo de seu penico -recomendei.

- Excelente. Darei um baile de Solstício de Inverno na próxima semana. Não o faria sem que pudesse proporcionar prazeres a meus convidados - disse ele enquanto pegava um dos caules ressecados e os inspecionava distraidamente. - E como é a raiz? Eu nunca experimentei.

- É uma boa desculpa para passar três ou quatro horas olhando para o nada.

- Parece batedor.

Um riso escapou antes que eu pudesse segurá-lo.

Ele recolocou as raízes de uróboro sobre a mesa e ficou me olhando. Ele estava tentando criar coragem para me perguntar alguma coisa, mas eu me antecipei antes que ele tivesse a oportunidade. - Então Brightfellow vem daqui a pouco? Então você marca as conversas desagradáveis uma atrás da outra para depois queimar o estofamento?

- É assim que você se considera? Desagradável?

- É assim que eu considero Brightfellow.

- Eu não o apresentaria à Rainha, mas ele é útil e inteligente, muito inteligente.

- Como vocês se conheceram? Não creio que vocês dois frequentassem os mesmos círculos.

Beaconfield recostou-se na cadeira e pensou na pergunta enquanto sua mão pousava carinhosamente na empunhadura de sua espada. Tive a impressão de que a intenção dele não era intimidar, de que o duque fosse simplesmente o tipo de pessoa que gostava de acariciar seu instrumento predileto de assassínio.

- Você acredita em destino, Guardião?

- Não creio que os Daevas tenham algum envolvimento na bagunça em que transformamos sua criação - respondi.

- Normalmente eu me inclinaria a concordar com você. Mas no caso de Brightfellow, parece-me que seja a melhor maneira de descrever a situação. Tive alguns... infortúnios recentemente. Ele vai me ajudar a mudar minha sorte.

- Conheci um sacerdote que gostava de dizer que o Guardião dos Juramentos preferia agir por intermédio de vassalos imperfeitos - comentei. Suspeito que aquele fosse o provérbio preferido do sacerdote porque ele não conseguia passar uma hora sem meia ampola de Sopro de Fada, então não estava nem lá nem cá.

- E o feiticeiro cumpriu sua promessa? - perguntei.

- Ainda não. Mas estou confiante no sucesso de nosso empreendimento

- respondeu ele.

E esse empreendimento envolveria o assassinato de duas crianças e a abertura de uma porta para o abismo? Eu não perguntaria isso a ele, mas suspeitar não é o mesmo que ter certeza, sem contar provas. Já havia levado o duque ao mais longe que ele iria, então resolvi ficar quieto. Ele havia me chamado ali por um motivo. Se eu esperasse o bastante, ele chegaria a isso.

- Você não vai ficar surpreso em saber que fiz perguntas sobre o seu passado, sobre sua conduta e seu caráter, antes de decidir fazer negócios contigo.

- Minha vida é um livro aberto - falei. Com as páginas arrancadas, mas alguém como o Espada não teria dificuldade para chegar a um perfil. - E eu não me surpreendo com facilidade.

- Eles dizem que sua presença no mundo do crime é modesta, sem ligação com nenhum dos participantes de mais envergadura. Dizem que você é confiável, quieto.

- Eles dizem isso?

- Eles dizem uma outra coisa também. Dizem que você estava do outro lado da cerca, que se vestia de cinza antes de assumir sua ocupação atual.

- Eles vão dizer que eu era um bebê de cueiros se você regredir o bastante.

- Sim, eu imagino que sim. Não diriam? O que levou a isso, à sua queda em desgraça? - perguntou ele.

- Coisas acontecem.

- É verdade. Exatamente como você disse, coisas acontecem - disse ele enquanto seus olhos se fixavam na parede atrás de mim e o fogo crepitava no canto. O rosto dele ganhou contornos de ansiedade que tendem a induzir ao monólogo e é claro que aquela causa prenhe deu à luz um solilóquio.

- São estranhos os caminhos nos quais um homem se embrenha. Nos livros de história todos têm um momento crítico, quando o caminho se divide e as opções ficam claras diante de si, o heroísmo ou a vilania. Mas não funciona desse jeito, não é? Decisões acompanham decisões, cada detalhe intrínseco, tomadas no calor do momento ou borradas pelos instintos. Então um dia você olha adiante e percebe que está parado, que todas as respostas murmuradas representam uma grade da prisão que você construiu para si mesmo e o momento de cada decisão o faz ir adiante de modo tão inexorável quando o desejo do Primogênito.

- É um raciocínio bem articulado, mas não é verdadeiro. Eu tomei uma decisão. Se as consequências dela foram piores do que antecipei, significa que foi uma decisão ruim - argumentei.

- Mas é a isso que quero chegar, entende? Como é possível saber quais decisões são cruciais e quais não são? Há decisões que tomei e lamento, decisões que não foram quem eu sou. Há decisões que eu desfaria, caso existisse essa possibilidade.

Pelo Perdido, ele era pior que os hereges. O que ele estaria querendo admitir? As crianças estavam mortas. Não havia como voltar atrás em relação àquilo. Ou estaria eu enxergando alguma sutileza onde não havia nenhuma? Será que Beaconfield era o tipo de aristocrata que gostava de repassar com a gente do povo a difícil e miserável natureza da existência humana?

- De um jeito ou de outro a gente paga o que deve - disse eu.

- Então não há esperança para nenhum de nós?

- Nenhuma.

- Você é um homem frio.

- Este é um mundo frio. Eu apenas me ajustei à temperatura. Ele apertou a boca e o momento de abertura terminou.

- Está certo, está certo. Nós soltamos a mão no final do jogo.

Beaconfield começou a irradiar algo que poderia ter sido ameaçador, ou então um desdém aristocrático comum, era difícil afirmar com certeza. Fiquei aliviado quando uma batida sinalizou o fim de nossa reunião.

Nós dois nos levantamos e caminhamos até a saída. O Espada abriu a porta e Tuckett enfiou a cabeça para dentro, cochichando algumas palavras para seu mestre antes de desaparecer.

- Obrigado por seus serviços - começou Beaconfield. - Acontece que eu posso precisar deles no futuro, talvez antes do Solstício. Você ainda mora no Conde de Sinuosa, então, com seu companheiro da guerra e a esposa dele? - perguntou ele, numa ameaça clara e imprevista.

- A casa de um homem é seu castelo.

Ele sorriu e disse:

- Realmente.

O dia tinha sido longo, tão longo quanto eu conseguia me lembrar, e enquanto eu percorria o caminho de volta parte de mim esperava que eu conseguisse sair dali sem me deparar com a pessoa que o duque encontraria a seguir. Mas o restante de mim achava que valeria a pena passar por ele, esta porção ficou agradecida quando cheguei ao alto das escadas e vi Brightfellow sentado em um banco lá embaixo, com o mesmo rosto simpático da primeira vez que nos vimos. Ele se levantou, abriu um largo sorriso e tantos eram os degraus de Beaconfield que eu passei uns bons quinze segundos olhando para eles enquanto descia.

Eu não imaginava que Brightfellow tivesse se transformado em um membro respeitável da raça humana desde o dia em que nos vimos e ele foi gentil em não refutar minha conclusão. Se ele não estava usando o mesmo casaco preto imundo de quando nos conhecemos, ele usava um parente muito próximo, o que tornava minha confusão razoável.

Havia, no entanto, algo que me intrigava, algo que eu já havia percebido antes, mas ainda não tinha conseguido encaixar com o restante dele. Muitos homens exageram a própria dureza, fortalecendo-se com sonhos de ameaça potencial como se fosse um tonificante. Era uma espécie de passatempo típico da Cidade Baixa, garotos de aluguel e meninos perdidos encostados nas paredes de tijolo esfarelado, convencendo-se uns aos outros de que são mais mortíferos do que feridas abertas, que sua reputação mantém os passantes no lado oposto da rua. Depois de um tempo eles se transformam em parte do cenário. Existem algumas coisas que um homem não é capaz de falsificar, e a letalidade é uma delas. Um cãozinho consegue aprender a uivar, até mesmo a mostrar os dentes de vez em quando, mas isso não faz dele um lobo.

Os de verdade não botam banca. Você consegue sentir o que eles são no fundo do estômago. Brightfellow era um matador.

Não como o kiren que levou Tara, não um maníaco, apenas um assassino, um tipo comum de pessoa capaz de matar alguns membros de sua espécie sem sentir nada de especial em relação a isso. Fiquei com aquele pensamento sincero na cabeça enquanto ia em sua direção, de que o exterior burlesco era apenas uma parte de quem ele era, e talvez não uma grande parte, uma espécie de fenda que ele inflou para acobertar o resto.

Peguei minha bolsa de tabaco para enrolar o cigarro que eu queria ter acendido desde o momento em que entrei na mansão do Espada, imaginando que a fumaça pudesse fazer algo para disfarçar o cheiro de pele não lavada de Brightfellow. Ele estava de chapéu na mão e seus dentes desiguais formaram um sorriso falso no rosto.

- Veja só se não é o cara engraçado em pessoa. Como você está, engraçadinho?

- Me diga uma coisa, Brightfellow, você come fígado sempre que vai me ver ou esse já é um costume tão arraigado que faz a coincidência inevitável?

Ele deu uma risada grosseira, rangendo seus dentes amarelados.

- Você lembrou do meu nome então, engraçadinho? Bom saber que ganhei alguma fama. Às vezes tenho a impressão de que todo o meu trabalho duro não tem apreciadores.

- E o que você faz exatamente?

- O que você acha que eu faço?

- Eu imagino que a maioria das pessoas aqui trabalhe para limpar qualquer merda em que o duque esteja pisando. Como você fede como uma latrina, imagino que você esteja nessa mesma linha.

Brightfellow latiu mais uma risada feia. Aquela risada era uma arma de verdade. Permitia a ele distribuir golpes e continuar avançando.

- Tenho a honra de ser o mago da corte do lorde Beaconfield e me esforço diariamente para fazer jus a isto - disse ele, deixando uma boa impressão de mordomo, mas com um sorriso cheio de dentes deixando claro que não era mais que isso.

- E o que faz um mago de corte além de ocupar o degrau mais baixo a que um artista é capaz de descer, não muito mais do que vender poções do amor em feiras ambulantes?

- Sei que pode não parecer muita coisa, mas não somos todos nós que podemos vender drogas para ganhar a vida.

- Eu vou parar por aqui, pois não quero que essas provocações fiquem no caminho de uma tentativa de salvar sua pele. Sei que você e o duque estão empenhados em alguma coisa. Você me dá sua versão agora e pode ser que eu consiga achar um equilíbrio para que você não carregue todo o peso. Não preciso de uma vela para saber que você não está no comando - aponta de um fósforo se acendeu na madeira do corrimão e eu acendi meu cigarro. - Mas se você me deixar com o trabalho de descobrir tudo sozinho, não vai ganhar nada, ouviu? As fichas vão cair onde tiverem que cair - dei uma baforada no cigarro.

- Pense nisso, mas pense rápido, pois o relógio está andando e, se você acha que o sangue azul vai te dar apoio quando a corda estourar, então você é mais burro do que parece. E você não tem cara de gênio.

Eu não imaginava que ele fosse se sentir intimidado, mas esperava alguma outra reação além da repetição daquela risada áspera que ele vinha dirigindo a mim. Mas foi o que eu tive e, pela segunda vez, eu tive a desagradável impressão de que eu tinha calculado mal, que em nosso jogo particular estava dois a zero para ele.

Pude ouvir Tuckett descendo as escadas e imaginei que aquele fosse um bom momento para tomar o caminho da saída, pelo acesso dos serventes e pelo portão dos fundos. Dunkan já tinha ido embora, passado o turno para um colega de cara azeda que cumpriu sua tarefa sem nada dizer. Foi bom assim. Eu não estava no clima para lidar com a exuberância tarasaihgn. Cocei a pele em torno do talismã do Grou. Só agora o calor estava começando a diminuir. Voltei para o Conde na esperança de chegar antes de desmaiar.