O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 37 de 49

Páginas do PDF

O Guardião

Capítulo 37

Existem dois meios infalíveis de se encontrar com o melhor gatuno de Rigus. O primeiro é rápido e fácil. Tome uma facada em qualquer lugar entre o cotovelo do canal e Kirentown. Se você tiver sorte o bastante para não sangrar até a morte na rua mesmo, você será levado ao Hospital da Misericórdia de Prachetas.

Dentro desse edifício triste, caso não seja esquecido pela imensa e incompetente burocracia, você acabará sendo levado a um profissional da medicina sobrecarregado de trabalho que vai declarar seu ferimento intratável e prescreverá algumas gotas de ataráxio para acelerar sua ascensão ao além-túmulo. Quando as luzes estiverem se apagando, você provavelmente ficará chocado ao descobrir que o cavalheiro baixinho e cordial que está acelerando seu encontro com Aquela que Está por Trás de Todas as Coisas é o responsável por três dos cinco mais lucrativos roubos da história de Rigus, inclusive pelo lendário assalto ao Pagode de Âmbar, cujos detalhes exatos nunca foram reconstituídos com êxito.

Se a primeira opção não for a mais adequada, é possível escolher por uma segunda: passar uma informação qualquer para o agente dele, algum rouender desagradável e de cara gorda, e esperar que o cliente dele decida que seu trabalho é interessante o bastante para se abrir um espaço na agenda.

Para este fim, eu estava sentado à mesa de um pequeno bar de bairro na periferia da Cidade Velha. Eu havia deixado Garrincha em uma mesa no canto, sem querer assustar meu enviado prospectivo. Se bem que o Doutor teria que ser um homem de pouquíssimo sangue frio para se acabrunhar com a imagem de um pré-adolescente com menos de cinquenta quilos.

Eu já estava esperando havia uns vinte minutos quando ele chegou. O mais talentoso gatuno desde a execução do cruel Jack Libre era um tarasaihgn baixinho, com a pele de certa forma mais bonita que a da maioria dos habitantes do pântano, mas com exceção disso nada fora da média. Nós havíamos nos encontrado algumas vezes antes, sempre em circunstâncias previsivelmente clandestinas que não estimulavam nenhuma espécie maior de intimidade.

- Quanto tempo - disse ele.

- Doutor Kendrick, é um prazer.

Ele pendeu o casaco em um cabide perto de nossa mesa e sentou-se de frente para mim.

- Não por isso. Na verdade eu fiquei surpreso quando Mort me disse quem havia me contatado. Sempre tive a impressão de que você nunca me deu muita bola.

A impressão dele era correta. Nunca gostei muito do Doutor Kendrick. Ele era amistoso e suas habilidades estavam fora de qualquer questionamento, mas nunca trabalhei com ele e preferia que continuasse assim.

O código do crime é claro, ainda que desonesto, baseado cruamente em interesses próprios e acúmulo de capital. Não é necessário respeitar um homem para se trabalhar com ele, nem ao menos confiar nele. Você só precisa estar ciente de que está dando a ele o melhor negócio. Mas Kendrick não se importava com dinheiro. Médicos não são pobres. Além disso, ele havia angariado, por intermédio de seus vários assaltos, dinheiro suficiente para se aposentar rico por umas doze vidas. Ele estava nessa pela excitação. Era possível enxergar isso nos olhos dele.

No fim do dia eu não me importaria com quantos ocres ele havia roubado nem que seu nome fosse pronunciado em tom de reverência em todo o submundo. Eu não me importava com o fato de ele conseguir escapar um muro difícil ou de ser capaz de destrancar fechaduras complicadas enquanto virava doses de aguardente de milho. Aprendi rápido ao crescer na Cidade Baixa que a única desculpa aceitável para o crime é a sobrevivência. Excitação e renome são coisas que ocupam uma pessoa de barriga cheia. O Doutor estava atrás de frio na barriga. Para ele não se tratava de um negócio, mas de um jogo. Não se pode confiar em um homem assim. Ele é capaz de ferrar tudo em momentos inoportunos.

É claro que nenhum profissional que se dê o respeito chegaria a cem metros de um trabalho tão mal esquematizado. Eu não me dei nem ao menos ao trabalho de acionar o restante de meus contatos. A natureza peculiar da missão limitava minhas opções.

- Não costuma ter necessidade de subcontratar. Normalmente eu mesmo prefiro cuidar dos meus negócios. Mas tenho uma situação que requer seus talentos especiais.

- Mesmo - disse ele, acenando para nossa humilde atendente e pedindo uma cerveja. Esperei até ela se afastar para poder continuar.

- Também não me refiro a sua reconhecida habilidade com o bisturi.

- Imaginei que você não tivesse vindo aqui para discutir minha pesquisa sobre a cavidade ocular.

Tomei um gole de cerveja. - Você já executou algum trabalho sem muito aviso prévio, sem muito planejamento?

Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça, sem se impressionar com a pergunta.

- Você já trabalhou em público? Tipo, durante um jantar?

- Uma ou duas vezes. Não é meu estilo normal, mas... - ele deu de ombros. - Já fiz de tudo um pouco.

- Você já fez as duas coisas no mesmo trabalho?

- Não ainda.

A garçonete retornou com a bebida de Kendrick e tentou olhar nos olhos dele, mas ele não estava prestando atenção. Ela se afastou aborrecida e eu tomei um longo gole para deixar o Doutor na expectativa.

- Preciso que você entre na casa do lorde Beaconfield amanhã à noite e invada o escritório dele. Será durante a festa de Solstício de Inverno, então metade da nobreza de Rigus estará por lá. Tenho apenas um conhecimento superficial da topografia. Posso lhe passar uma ideia geral da coisa, mas é só isso.

- Você fala do Espada Sorridente - ele mordeu o lábio para não rir na minha frente. - O que eu terei que roubar?

- Na mesa do escritório, sob um fundo falso, você encontrará um compartimento secreto. Eu gostaria de ler com atenção o que tem ali dentro -percebi que o interesse dele estava diminuindo, então eu precisava dar uma exagerada. - Está bem selada, tenho certeza. E é claro que a fechadura será a melhor que o dinheiro pode comprar.

- Como você sabe que tem alguma coisa ali?

- Estou bem informado.

- Uma fonte interna, né? Por que sua fonte não faz isso?

- Porque caso contrário eu não teria o prazer desse nosso encontro.

- Se está fechado como você diz, não haverá jeito de eu disfarçar minha presença. Haverá alguém atento às coisas dele e o que tiver desaparecido será notado logo a seguir.

- Sem problema. Eu prefiro que ele saiba que desapareceu.

- Uma dessas, hein? - ele mordeu a ponta do polegar com ar de preocupação. -Eu não costumo fazer esse tipo de coisa.

- Seria um favor. Pode perguntar por aí e você vai ouvir que sou um homem bom para se fazer favores.

- É o que dizem - ele arrancou a pelinha da ponta de um dedo e a cuspiu no chão. - Por que durante a festa?

- Precisa ser feito logo e a festa será a melhor oportunidade.

- Haverá bastante gente por perto. Eu poderia usar alguma distração.

- Por coincidência - disse eu. - Já arranjei uma.

A semente de um sorriso espalhou-se como se contagiasse o rosto dele quando contei o que havia planejado para a festa de Solstício de Inverno do Espada. Quando terminei, o Doutor deu a resposta que eu esperava.

- Parece divertido.

Imitei seu gesto simpático na esperança em que não tivesse de depositar minha vida nas mãos daquele diletante.

- Qual seu preço?

Ele era estrelinha demais para gostar de discutir dinheiro.

- Normalmente eu ganho uma participação sobre uma porcentagem, mas suponho que isso não esteja à venda - ele coçou o queixo com ar pensativo. - Vinte ocres?

Absurdamente pouco para o trabalho diante dele, mas eu não iria reclamar.

- Tem mais uma coisa que devo lhe dizer - disse eu - em relação ao homem que você vai roubar, às coisas que você vai roubar. Se você for pego, a fraude será a última das suas preocupações.

- Melhor eu não ser pego.

- É melhor - respondi, desejando que ele fosse tão habilidoso quanto era confiante.

Ele estendeu a mão e se levantou.

- Preciso retornar ao hospital. Meu turno começa em vinte minutos. Vou dar uma olhada no local hoje à noite. Darei notícias depois de amanhã.

- Entre em contato se precisar de qualquer coisa.

- Não vou - ele vestiu o casaco. - Quem é aquele garoto que está com você?

Pelos urros de Kor, ele era ligado. Eu não tinha percebido nenhum sinal.

- Ele é uma espécie de protegido. Esperava que se o trouxesse aqui talvez você pudesse dar a ele algum conselho de carreira.

- Sobre qual delas?

- Sobre qual você prefere dar?

- Roubar - respondeu com confiança.

- Então é melhor pularmos a introdução.

Ele gargalhou e saiu.

Depois de alguns instantes Garrincha se aproximou.

- É tudo por agora? O tempo está piorando.

- Ainda não. Preciso ver uma pessoa e preciso que você leve uma nova mensagem. Preciso que você visite o Espada. Diga ao guarda no portão da frente que eu irei à festa de amanhã.

- Eu não sabia que você tinha sido convidado.

- Nem o lorde Beaconfield.

Garrincha esperou que eu dissesse mais alguma coisa. Como eu não disse nada, ele saiu. Esperei um ou dois minutos depois da saída dele e tomei meu caminho.