O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 14 de 49

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O Guardião

Capítulo 14

Acordei com a cara gorda de Adolphus em cima da minha enquanto suas enormes mãos me sacudiam rudemente em meu repouso.

- Eles encontraram a menina - avisou.

Estava claro que ele não queria dizer que ela estava viva. Eu o empurrei e me sentei.

- Os gélidos já vieram aqui? - perguntei.

- Ainda não.

Nós não tínhamos muito tempo. Peguei minha bolsa da cadeira e a entreguei para Adolphus.

- Diga à Garrincha para levar isso até o Kid Mac. E dê a ele algo para fazer que o deixe longe do bar por algumas horas.

- Mais alguma coisa?

- Apenas não arrume confusão quando eles chegarem. Deixe que eles subam e não fique nervoso. Eu cuido disso.

Ele engoliu em seco e saiu.

Vesti minhas roupas, calcei as botas e voltei a me deitar. Pelo menos eu não estaria nu quando eles chegassem; aquele era o máximo de preparativo que era possível realizar.

Adolphus estava certo de estar nervoso - Crispin era uma coisa, o que quer que houvesse entre nós, ele sabia que eu não estava matando crianças por aí. Mas eles não mandariam Crispin atrás de mim, pois Crispin ia atrás de assassinos e criminosos e ninguém importante estava interessado na menina morta.

Eles estavam interessados no praticante que a havia matado, e aquilo significava Operações Especiais, e a Operações Especiais era toda uma nova caldeira de vermes.

O Império é uma imensa máquina, um grande motor, milhões de engrenagens em funcionamento, e nada assim tão complexo opera perfeitamente. Quando ele quebra, quando uma mancha de sujeira embaça uma lente ou quando a engrenagem trava, alguém precisa estar a postos para fazer os reparos necessários. Esta é a função da Operações Especiais: manter as engrenagens em rotação rápida e suave e garantir que qualquer coisa pega entre elas saia de cena sem ser percebida.

Dei um suspiro melancólico. Um dia eu cheguei a ser a estrela brilhante naquela engrenagem. A vida é estranha de vez em quando.

Quando eles vêm, eles vêm com força. Eu pude ouvir a porta lá de baixo sendo aberta com um chute e ameaças obscenas sendo gritadas. Esperava que Adolphus não fizesse nenhuma tolice.

Toda aquela gordura e todo aquele bom humor escondem um homem capaz de extraordinária violência. Se a coisa azedasse, eles teriam que matá-lo para passar por ele, mas no fim o sangue no chão não seria somente o dele.

Mas eu não ouvi os sons de vidros se estilhaçando ou de móveis quebrando que sucederiam a perda das estribeiras por parte de meu amigo, então eu presumi que ele estivesse seguindo minhas ordens à risca. Passos reverberaram pela escada, a porta se abriu e de repente eu estava de frente para o lado errado de um arco enquanto um jovem agente gritava ordens para que eu me deitasse no chão. Logo atrás dele vinha uma dupla de cavalheiros grandalhões que garantiram que eu obedecesse já ao primeiro comando.

Eu estava com o rosto no chão, as mãos algemadas e com um joelho nas costas quando ouvi uma voz já quase esquecida.

- Eu sempre achei que se rodasse por aí por tempo suficiente a gente se encontraria de novo. Só não pensei que fosse ser tão bom assim.

A pressão sobre minha coluna diminuiu e mãos ásperas me colocaram novamente em pé. Diante de mim estava um homem de rosto duro sobre um corpo musculoso e repleto de cicatrizes.

- Olá, Crowley. É bom ver que a estupidez não é um empecilho para uma carreira duradoura no serviço à Coroa - provoquei.

- Ainda temos a língua afiada, hein, garoto? - ele riu de um jeito sombrio, com seus olhos pequenos e brilhantes sobre um nariz achatado e reluzente. Seu punho me atingiu e logo eu estava de joelhos, tentando não vomitar e desejando voltar atrás os últimos dez segundos. Crowley gargalhou e se inclinou perto de mim. -Peguei você, garoto. Te peguei pelos culhões.

Eu sussurrei uma resposta:

- Você sempre foi fascinado pelas minhas bolas. - Foi uma tentativa infantil de piada e eu lamentei tê-la feito antes mesmo de Crowley sentar sua outra pata gorda no meu rosto.

- Você sempre foi de aguentar uma boa surra - disse ele enquanto estalava os dedos. - Você é o campeão dos pesos-pesados de ficar com a bunda arrombada. Mas eu não sou burro ao ponto de arrancar mais pele dessa sua cara de pau. Temos especialistas para isso.

Cuspi um pouco de sangue no chão sujo e tentei parecer valente. Crowley ergueu-me novamente.

- Cochrane, você e Talloway ficam comigo. O restante de vocês vai para a cena do crime. Levem homens suficientes - disse. Depois ele se voltou para mim. - Vou admitir que, da mesma forma que fico puto por você se safar, valeu a pena ter a chance de te quebrar de novo.

Dessa vez eu fui espeto o bastante para continuar quieto.

Adeline estava lá embaixo, ao lado da lareira, olhando feio e com toda a ferocidade de uma matriarca ferida. O momento de crise revelava sua essência firme. Adolphus estava sentado em uma mesa. Um agente com um arco o vigiava. Os dois estavam sendo muito valentes por mim. Foi algo que apreciei muito.

A caminhada pareceu muito longa. Eles não me deixaram pegar um casaco e eu tremia de frio. De vez em quando Crowley dizia algo ofensivo e nada original, mas a maior parte do que ele disse se perdeu com o vento. Em torno de nós as multidões abriam caminho. Os habitantes da Cidade Baixa não tinham a menor pressa em compartilhar o destino para o qual eu me encaminhava.

Na hora que chegamos à Casa Negra tinha começado a garoar. Crowley parou por um segundo, o suficiente para esmurrar minha barriga. Olhei para o céu cinza e fiquei vendo gotas de água fria caindo das nuvens. Uma gota caiu na minha testa. Eles então me levaram para dentro e eu tratei de manter o rosto firme, mesmo quando passamos pela porta sem nada escrito que leva aos subterrâneos da Casa Negra, mesmo quando eles abriram a porta da minha cela.

O espaço era deliberadamente vazio, exceto por uma cadeira de aço para o prisioneiro e a mesa diante dela. No centro, havia um cano de ferro pequeno, mas impossível de não ser percebido, que ia para os esgotos. Eu sempre odiei aquele lugar quando era agente e não gostava nem um pouco mais dele agora que estava do outro lado.

Parado num canto havia um interrogador. Ele vestia um tradicional traje vinho, uma capa que descia até altura dos pulsos abaixo do capuz afunilado. Uma sacola preta com seus instrumentos de trabalho pendia de sua mão. Esse era grande, gordo na verdade, com uma massa de carne saltando de seu uniforme vinho. Mas a tortura não é particularmente exigente com o físico, pelo menos não para aquele que tortura. E a corporação seguia padrões estritamente rigorosos - eu tinha certeza deque ele estava apto para a tarefa.

- Curte o cenário? - perguntou Crowley. Um chute nas costas me fez cair. Tentei me levantar com dificuldade, mas, antes que eu conseguisse, os homens de Crowley me agarraram e me levaram à força até a cadeira, soltando minhas mãos algemadas atrás das costas e prendendo-as novamente com as duas amarras de couro instaladas nos braços da cadeira.

- Eu sabia que um dia você voltaria aqui. O Comandante pensou que você fosse deixar a gente triste, que talvez você escapulisse da Cidade Baixa numa noite qualquer. De jeito nenhum, eu dizia. O garoto gosta muito da gente para um dia partir. Ele vai voltar. Mas nem mesmo eu achei que você fosse estar desesperado a esse ponto. Magia negra? - disse ele com o dedo gordo em riste na frente do meu rosto. - Desta vez você se fodeu.

Crowley pegou um cigarro no bolso. Ele mordeu a ponta com seus dentes acinzentados e quadrados e, com os lábios rosados, tragou até conseguir uma boa puxada. Uma espessa trilha de fumaça atravessava seu olhar malicioso.

- Quem você acha que nós estamos esperando agora?

Como se fosse ensaiado, entrou ali um homem de uniforme impecável e cara de avô e aí então eu constatei que estava mesmo fodido e mal pago.

A pessoa mais poderosa de Rigus podia ser a Rainha, ou então o Alto Chanceler, ou então um pequeno homem de olhar franco que trabalha em uma sala sem janelas no centro da Casa Negra e que tem dentro um recuo onde sua alma deve estar. O Comandante, o Guardião de Operações Especiais, um título até ingênuo para o chefe dos serviços de espionagem do Império.

Os olhos na janela são dele. O ouvido atrás da porta também. Se alguma porcaria acontecer com você ele vai saber e se não houver nenhuma porcaria e ele precisar de uma, vai fazer acontecer.

Mais homens morreram por um sinal da mão dele do que por causa da peste.

Há um quarto de século ele está no comando da maior organização já construída pelo homem com o propósito de usurpar e manter o controle sobre seus semelhantes.

Se você passar por ele na rua, ele te cumprimentará com um toque no chapéu e você retribuirá o cumprimento. A maldade muitas vezes é assim.

O riso do Comandante enrugou seu rosto e seus olhos brilhavam de alegria.

- Que coisa maravilhosa é ver um de meus meninos voltar depois de uma ausência tão longa. Sentimos muito sua falta aqui em seu velho lar.

A simples visão dele foi suficiente para iniciar um pequeno incêndio em meu estômago.

- Pensei em passar aqui para ver como as coisas estavam. Vocês todos parecem muito ocupados. Talvez eu volte outra hora.

Ele continuou a sorrir e depois fez um sinal para o Interrogador, que começou imediatamente e sem alarde a desempacotar seus apetrechos em cima da mesa.

- Nós vamos usar isso em você - disse Crowley. - Nós vamos usar isso em você com força. Na hora que tivermos acabado com você, saberemos de cada pecado que macula sua alma.

Forcei um riso, o que não era fácil diante das amarras nos meus braços.

- É melhor você adiar seus planos para o jantar - eu disse.

Se fosse apenas Crowley, eu não me daria ao trabalho de dizer nada. Ele é um gorila, útil apenas por sua selvageria. Mas o Comandante era afiado como uma adaga e extremamente frio. O visual de vovô oculta a mente de um grande estrategista e de um completo louco de pedra. Ele gostaria de me ver no chão, sem dúvida, mas aquilo não o influenciaria. Somente os humanos baseiam suas decisões em emoções. - Além de dar ao interrogador aqui um pouco mais de prática, o que ele não precisa, o que mais você acha que vai conseguir exatamente com toda essa bagunça?

Crowley mantinha o cigarro entre a linha irregular de seus dentes.

- Você sabe alguma coisa sobre a criança e sobre o demônio, alguma coisa que nos ajudará a chegar mais perto. E se você não souber - o sorriso dele sugeria violência - eu vou continuar aqui olhando até ver essas paredes pintadas de vermelho com suas entranhas.

- Veja só, Crowley, é por isso que você era subordinado a mim. É por isso que você nunca vai chegar aos pés do Comandante. Você não consegue enxergar além da sua próxima vítima. Você é um instrumento bruto, inútil se não houver ninguém à sua frente para indicar o caminho.

Ao meu lado, o Interrogador continuava a organizar seus instrumentos, coisas afiadas de prata sobre uma manta de veludo negro.

- Depois que vocês acabarem comigo hoje e outra criança desaparecer amanhã, o que vocês vão fazer então? Há questões aqui que vão além da submissão ao seu sadismo.

Crowley conseguiu manter a calma, apesar de seus olhos pequenos terem ficado quase do tamanho de duas gemas de ovo.

- Nós vamos pegar quem quer que esteja matando essas crianças. Não se preocupe com isso.

- Bobagem - disse eu, agora olhando para o Comandante. - Você não tem ninguém aqui tão bom quanto eu, e você sabe disso. Quem fez isso aprendeu com a Coroa. Você não pode contar nem com sua própria gente. Eu tenho apoio fora do Trono, tenho contatos em todos os cantos da Cidade Baixa e eu sei com o que isso se parece - engoli seco, era hora de jogar meu trunfo.

- Eu tenho uma pista.

- Então nós vamos arrancá-la de você com uma faca e segui-la aonde ela levar- disse Crowley.

- Você não vai. Ninguém vai falar com você e você não vai conseguir juntar as peças mesmo que as pessoas falem.

Pela segunda vez apenas o Comandante falou:

- Você está tão desesperado assim para querer voltar a trabalhar comigo? Pelo que ouvi dizer, você se tornou um pouco mais que um cachorro, um viciado à espera de uma facada em qualquer beco por aí.

- Eu fui esperto o bastante para resolver o primeiro caso. Você pode deixar isso comigo ou então com o gorila, mas nós dois sabemos que isso é importante demais para deixá-lo estragar tudo.

O Comandante abriu um sorriso largo e eu sabia que suas próximas palavras iriam selar meu destino: liberdade a seu serviço ou uma sessão com o Interrogador e meu corpo jogado numa vala comum. Foi um intervalo longo. Pensando em retrospectiva, acho que me comportei de maneira admirável, e isso quer dizer que eu não me mijei todo nas calças.

Ele colocou a mão nodosa sobre meu ombro e o apertou com uma firmeza surpreendente.

- Você não vai me desapontar, meu garoto. Você vai descobrir quem está machucando essas pobres meninas e juntos nós vamos fazer com que haja justiça -Crowley ameaçou esbravejar um protesto, mas um olhar do Comandante foi suficiente para calar sua boca. O Comandante desatou um dos meus braços com o cuidado de uma mãe fazendo curativo no joelho esfolado de seu filho. Ele chegou perto da outra amarra e parou.

- Uma semana deve ser suficiente, creio eu, para que um homem com o seu intelecto descubra quem foi o responsável por essas monstruosidades. - Ele sacudiu a cabeça com tristeza, como se seu lado nobre estivesse ofendido pela crueldade de um mundo insensível.

- Duas - disse eu. - Não disponho dos seus recursos. Preciso de tempo para trabalhar meus contatos.

Em uma piscadela seus olhos mudaram de expressão e cederam espaço ao monstro interior, e eu quase me retrai, mas seu rosto estava voltado em minha direção e sua voz continuava amistosa.

- Nós voltaremos a vê-lo em uma semana - decretou. A ilusão de humanidade voltou e ele soltou a segunda amarra. O Comandante falou então para Crowley -Pode acompanhar nosso querido amigo até a porta - O comandante deu um último sorriso e saiu pela porta de ferro, acompanhado dos demais agentes.

Crowley ficou olhando. Ele apertava tão forte o cigarro na boca que eu achei que fosse engasgar com ele. Ele passou algum tempo tentando pensar ou dizer alguma coisa capaz de desfazer a humilhação que acabara de sofrer. Como nada lhe ocorreu, eles e virou e saiu.

O Interrogador estava guardando suas ferramentas com um ar vago de descontentamento. Depois de perceber que minhas pernas realmente estavam firmes o bastante para andar, fiquei em pé e falei para o homem que teria me torturado.

- Você tem um cigarro?

Ele sacudiu a cabeça, com a coroa vermelha de seu capuz balançando junto.

- Eu não fumo - disse ele sem tirar os olhos do que fazia.

- Essa porcaria vai acabar te matando.

- Se o Primogênito quiser.

Lá fora a chuva havia parado, mas estava frio como nunca.

Massageei os punhos e fiquei imaginando quanto daquilo tudo havia sido planejado pelo Comandante. A coisa toda teve um toque teatral. Não para Crowley, é claro. Ele não estava no esquema. Mas foi uma obra bem bufa para alguém tão sofisticado como o Comandante.

Nada daquilo importava, na verdade. Mesmo que tudo fosse um esquema para reaver meus serviços, eu não tinha nenhuma ilusão de que o prazo fosse alguma coisa além de mortalmente sério. Voltei para casa, para me equipar e fazer planos.