O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 18 de 49

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O Guardião

Capítulo 18

Eu estava na rua havia uns quatro anos na noite em que encontrei Célia. Eu devia ter uns dez anos, talvez um pouco mais. Aniversários tendem a ficar em segundo plano quando não se tem uma família para celebrá-los. Isso foi depois de o Grou ter executado suas proteções, então os corpos das vítimas da febre não estavam empilhados como lenha pelas ruas, mas ninguém poderia exatamente considerar a Cidade Baixa um lugar num estado muito melhor que o da anarquia pura e simples. À noite a guarda se retirava para dentro dos limites e não retornava, a não ser que fosse para usar a força. As organizações criminosas também não mexiam com a gente, talvez porque não valesse apena mexer.

Naquela época a vizinhança tinha um estilo solitário e assombrado. Levou quase uma década até que a população voltasse a ser a mesma de antes da febre, e durante anos havia ainda algumas partes do bairro pelas quais era possível andar por meia hora sem ver uma viva-alma. Assim era fácil encontrar um lugar para dormir. Era só achar um lugar vazio, atirar uma pedra na janela e entrar. Se você estivesse com sorte, os donos tinham fugido ou morrido fora da residência. Se não, você teria que dividir o quarto com um cadáver. Qualquer das duas possibilidades era melhor que passar a noite ao relento.

Eu jamais voltaria a levar minha vida com o desprendimento ensandecido dos meus primeiros anos nas ruas. Eu não precisava de nada. A Cidade Baixa me dava. A comida eu roubava. Minhas outras pequenas necessidades eu satisfazia pela força ou pela malandragem. Cresci como um gato escaldado. Nas noites eu perambulava pelas ruas, assistindo aos detritos da cidade de meu lugar no escuro. Foi assim que eu a encontrei, na verdade eu a ouvi primeiro. Seus gritos de horror me retiraram dos devaneios na viela de trás.

Havia dois deles, viciados em erva, e estavam viajando. O primeiro era velho, a um tropeço do abismo, com as gengivas apodrecidas atestando a frequência de seu hábito, farrapo sgastos repletos de fauna urbana. Seu protegido era alguns anos mais velho que eu, mas excepcionalmente magro, com cabelos ruivos revoltos sobre os olhos desconfortavelmente abertos.

Os dois estavam concentrados na pequena criança diante deles. O choro baixinho dela agora estava quase inaudível. O medo roubava sua voz.

Tantos anos de compartilhamento de território iniciaram-me nos segredos das baratas e dos ratos. Eu andava de um jeito mais parecido com a correria deles do que com a forma de caminhar da maioria das crianças da minha idade. Entre aquilo e a escuridão eu era praticamente invisível, mas a dupla diante de mim estava tão concentrada na menina que eles não teriam desviado os olhos nem se passasse uma banda tocando por ali.

Fiquei bem rente à parede do beco e deslizei na direção deles, guiado mais pela curiosidade do que por qualquer outra coisa, com cuidado para ficar fora do alcance do luar.

- Três ou quatro ervas nós vamos conseguir por ela, três ou quatro ervas pelo menos - disse o velho enquanto deslizava seus dedos calejados pelo cabelo da menina. - Simplesmente a mande direto para o herege-mor e diga a ele para nos mandar um cachimbo do seu fumo mais forte - dizia ele enquanto o alvo de sua exultação permanecia mudo. Seu aspecto doentio entregava poucas evidências de compreensão.

- Eu compro ela de você - soltei aquela frase e já não era mais possível voltar atrás. Eu fazia muito aquele tipo de coisa naquela época e não demorava muito até que as consequências do que passava pela minha cabeça ecoassem do firmamento.

O mais novo se virou. Seu corpo desajeitado e seus sentidos inebriados roubaram a graça e a maior parte da velocidade de seu movimento. O mais velho foi mais rápido, agarrando a menina pelos ombros quase como se a protegesse. Por um momento o choramingo dela era a única coisa que se ouvia. O velho então gargalhou, com o som atravessando uma espessa camada de catarro.

- Nós por acaso invadimos seu campo de caça, gentil senhor? Não se preocupe. Não ficaremos aqui por pouco tempo - disse o velho, que era um daqueles viciados que deve ter sido alguém de substância antes de a erva tê-lo esvaziado, um professor ou um advogado, e apesar de sua mente há muito ter sido reduzida a suas compulsões mais básicas, ele ainda detinha uma capacidade incongruente de falar bem.

Abaixei-me e tirei o dinheiro de onde o guardava, em minha bota: três pratas que eu tinha achado ou roubado e um ocre que Rob Caolho tinha me dado por ter ficado de sentinela enquanto ele roubava o antigo banco da Rua da Luz.

- Tenho dinheiro aqui. É um negócio justo - disse eu sem saber ao certo o preço de uma criança, mas ciente de que havia muitas crianças mais vagando pelas ruas da cidade para que valesse muito mais que aquilo.

Os dois se entreolharam, entorpecidos, enquanto suas lentas mentes sujas tentavam processar o novo desdobramento. Se tivessem tempo, um dos dois iria acabar percebendo que era mais fácil me matar e sair com o dinheiro e a menina do que atendera minhas demandas. Era melhor não dar essa chance a eles.

Segurei o pequeno saco de moedas com uma mão e com a outra abri a navalha que havia puxado junto com o dinheiro.

- Estou levando a menina - disse eu. - Vocês podem escolher o pagamento: ouro ou lâmina.

O mais jovem avançou de modo ameaçador, mas eu o encarei e ele se deteve. O saco de moedas tilintava.

- Ouro ou lâmina. Vocês podem escolher.

Outra gargalhada aguda do cara que segurava a criança.

Aquele som estava me irritando e tive a vontade de jogar a toalha naquele lance de negociação e ver como eram as entranhas daquele degenerado cheio de parasitas.

- Nós aceitamos - disse ele. - Isso nos poupa o estorvo de ter de levá-la às docas.

O outro parecia não ter tanta certeza, então eu joguei a bolsa de moedas no chão, diante dele. Ele se agachou para pegá-la e eu pensei em atacá-lo no rosto com minha navalha, alguns golpes rápidos, e depois ir para cima de seu parceiro. Mas o velho continuava segurando a menina com firmeza e eu não tinha dúvidas de que ele podia acabar com ela num piscar de olhos se quisesse. Era melhor jogar limpo e esperar que eles fizessem o mesmo. De qualquer forma, a perda de meu dinheiro doía. Eu não voltaria a ver um ocre por muito tempo, não com o pobre Rob cumprindo vinte em Vaca Velha por ter esfaqueado um sacerdote numa briga de bar.

- Vá andando até a outra saída do beco - disse eu enquanto o jovem se levantava com meu dinheiro suado em suas mãos. - E nem pense em trapacear.

O que segurava a menina olhava para mim. Ele então abriu um sorriso que se parecia com um tabuleiro de xadrez com quadrados pretos e verdes. - Trate de cuidar muito bem de sua protegida agora, jovem guardião.

- Se eu te vir por aqui novamente vou cortar suas bolas do saco e te deixar sangrando na rua.

Ele soltou sua gargalhada horrível e recuou, com o mais jovem logo atrás dele. Fiquei de olho neles até ter certeza que eles não pretendiam vir para cima de mim. Então fechei minha navalha e fui na direção da criança.

Os olhos amendoados e a pele mais escura mostravam sangue kiren. As roupas esfarrapadas e a pele esfolada indicavam pelo menos algumas noites nas ruas. Em torno de seu pescoço havia um colar com pingente de madeira, do tipo de que se podia comprar por um cobre em Kirentown antes de a peste ter fechado o mercado. Fiquei imaginando onde ela tinha arrumado aquilo. Um presente, provavelmente, da mãe, do pai ou demais de uma dúzia de outros parentes agora caídos.

A saída de seus captores pouco ajudou para acalmá-la. Ela ainda soluçava incontrolavelmente. Agachei-me sobre um dos joelhos e dei um tapa em seu rosto.

- Pare de chorar. Ninguém está ouvindo.

Ela piscou duas vezes e depois esfregou o nariz. As lágrimas cessaram, mas esperei sua respiração voltar ao normal antes de continuar.

- Qual é seu nome? - perguntei.

A estreita abertura de sua garganta expandiu-se como se fosse responder, mas ela não conseguiu fazer com que seus lábios formassem as palavras.

- Seu nome, menina - disse eu de novo, tentando transmitir um pouco de delicadeza com minha voz, por tudo aquilo essa foi uma emoção com a qual tive apenas relações efêmeras.

- Célia - respondeu ela.

- Célia - repeti. - Esta foi a última vez que te machuquei, entendeu? Não precisa ter medo de mim. Vou cuidar de você, está bem? Estou do seu lado.

Ela me olhou sem saber direito como responder. O tempo que ela havia passado na rua não a havia deixado transbordando confiança em seus semelhantes.

Levantei e a peguei pela mão.

- Vamos. A gente vai encontrar um lugar quente.

Começou a garoar e depois passou a chover. Meu casaco leve logo ficou ensopado e grudou em meu corpo e o mesmo aconteceu com a roupa esfarrapada da menina. Andamos em silêncio durante algum tempo. Apesar de a chuva machucar seu corpo miúdo, Célia não chorou.

O Ninho já estava pronto. O edifício azul avançava sobre o espaço, mas o labirinto em torno dele ainda estava em construção. Tivemos dificuldade para atravessar uma centena de metros de lama revirada, o que não é uma tarefa fácil para as pernas pequenas de uma criança, mas ela mal se deu conta disso. Assim que ficamos em condições de enxergar, os olhos dela fixaram–se na torre em um misto de assombro e excitação.

Cinco semanas antes, toda a população da Cidade Baixa, inflada por multidões de estrangeiros e conduzidas por um destacamento da guarda, celebrou a instalação do Grou Azul em seu novo paradeiro. Eu vi de longe quando o Alto Chanceler homenageou uma figura alta com uma túnica extravagante. Ninguém da área havia ainda tomado coragem suficiente para se apresentar. Agora parece ser o melhor de todos os momentos para dar as boas-vindas ao mago em nosso bairro.

Com a pequenina ao meu lado, caminhei até a torre com toda a arrogância de que era capaz.

Algumas dezenas de passos adiante havia uma estátua monstruosa sobre uma pequena cumeeira. Ela se projetava da parede do edifício e arruinava a perfeição suave do exterior. Abaixo dela pude ver o contorno de uma porta. Bati no centro do contorno e gritei na noite.

- Abra a porta! Abra agora!

O movimento da gárgula não foi um choque pequeno. Célia deu um berro. Mordi meu lábio para não fazer o mesmo. A coisa em cima da porta moveu suas formas pesadas com uma facilidade artificial e sua voz tinha um tom sobrenatural, para não dizer ameaçador.

- Quem são vocês que perturbam o repouso da noite? O Mestre está dormindo, jovens amigos.

Eu não havia gastado as economias de uma infância mal vivida para recuar diante de uma objeção gentil. Além disso, parecia não haver razão para ter com aquela estátua muito mais deferência do que eu teria com seus equivalentes de carne.

- Então você vai precisar acordá-lo.

- Infelizmente, criança, eu não interrompo o descanso do Mestre por conta da vontade de uma dupla de moleques. Volte amanhã e ele irá querer ver vocês.

Um raio iluminou a paisagem e o pináculo erguendo-se de maneira ameaçadora sobre o solo barrento em torno dele.

- O Grou Azul vai dormir quentinho em sua cama para depois acordar e ver os cadáveres de duas crianças na soleira de sua porta?

As sobrancelhas de concreto curvaram-se para dentro e a estranha criatura parecia menos amistosa.

- Não fale isso do Mestre. Minha paciência não é infinita.

As coisas já tinham ido longe demais para recuar e até mesmo eu já entendia que o avanço muitas vezes é a melhor alternativa ao recuo. Gritei mais alto, a voz já ralhando com a tensão:

- Por acaso o Primeiro Feiticeiro não se importa com o povo de sua cidade? Ele vai ficar descansando em seu castelo enquanto as crianças da Cidade Baixa se afogam nessa tempestade? Chame-o aqui. Chame-o aqui, agora!

O rosto da gárgula brilhou ao luar e eu estava ciente do perigo que me rondava. A criatura não havia se mostrado capaz de movimento além de seu poleiro, mas não se sabia que forças ela poderia reunir na defesa da torre.

- Sua insolência é cada vez mais cansativa. Vá embora, ou as consequências...- ela silenciou no meio da frase, seu rosto congelou, todos os sinais de inteligência ausentes. Até que inesperadamente a consciência voltou.

- Espere aqui. O Mestre se aproxima - anunciou a gárgula. Não pude deixar de sentir que aquilo não era nenhuma espécie de garantia à nossa segurança. O vento manifestou sua ira com um uivo na noite. Célia apertou minha mão.

A porta moveu-se para revelar um homem alto e magro com uma barba longa e olhos que brilhavam até mesmo enquanto ainda atravessavam a neblina do sono. Eu havia visto o Grou apenas uma vez, à distância, e ele parecia mais imponente no meio de uma multidão de pessoas. Eu via uma inclinação à genialidade combater a resposta adequada a ser despertado no meio da noite por uma dupla de seres errantes. De alguma forma não fiquei chocado ao ver a primeira vencer.

- Não estou habituado a ter companhia depois da meia-noite, principalmente de pessoas que ainda preciso conhecer. De qualquer modo, os Daevas nos dão a oportunidade de demonstrarmos gentileza a todos os nossos visitantes, e eu não farei diferente. O que vocês desejam de mim?

- Você é o Grou Azul? - perguntei.

- Sim, sou eu.

- É a você que todos chamam de salvador da Cidade Baixa?

- É o que costumam dizer.

Empurrei Célia na direção dele e disse:

- Então salve-a. Ela precisa de ajuda, não tem para onde ir. O Grou olhou primeiro para ela, depois para mim, e disse:

- E você? Do que precisa?

A água escorria pelo meu rosto desdenhoso.

- Eu não preciso de porcaria nenhuma - respondi.

Ele balançou a cabeça e agachou-se sobre um dos joelhos com um ar de extraordinária falta de pretensão para um dos homens mais poderosos do império.

- Olá, criança. As pessoas me chamam de Grou Azul. É um nome engraçado, eu sei. Você tem algum nome que gostaria de me dizer?

A menina olhava para mim, como se pedisse permissão. Dei um leve toque nas costas dela, até que ela respondeu timidamente:

- Célia.

Os olhos de Grou simularam espanto.

- Esse é o nome que eu mais gosto em todo o mundo. Passei a vida inteira na esperança de conhecer alguém com esse nome, e agora você aparecer na minha porta na calada da noite! - disse o Grou. Célia parecia querer sorrir, mas não se lembrava bem como fazer. O Grou segurou-a pela mão e convidou: - Vamos tomar uma xícara de chá e você vai me contar tudo sobre como é se chamar Célia. Tenho certeza que é muito legal.

A fala do Grou arrancou de Célia um leve sorriso, o primeiro que eu a havia visto dar naquela noite. Ela pegou na mão do Grou enquanto ele se levantava cuidadosamente e a conduzia à torre. Ele virou-se para mim enquanto seguia até a porta e lançou um olhar convidando-me a entrar.

- Voltarei para vê-la em breve - eu disse.

Célia virou-se para me olhar, percebendo então que eu não ficaria. Ela não disse nada, mas seus olhos tremiam. Meu peito estava em chamas e senti uma leveza subindo pela minha barriga. Saí correndo na noite, deixando os dois lá parados, juntos, iluminados pela iluminação suave que saía do interior da torre.