O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 39 de 49

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O Guardião

Capítulo 39

Acordei cedo e saí discretamente do bar. O endereço que Guiscard havia passado para mim era de um lugar bem no meio de Kirentown, numa parte da cidade na qual era possível andar cinco quadras inteiras sem ver ninguém que não fosse um servo leal do Imperador Celestial. É claro que, depois de três dias da tempestade do século, era possível caminhar cinco quarteirões sem ver praticamente ninguém, ponto. Na hora que cheguei debaixo da placa da Lanterna Cinza, minhas botas estavam todas ensopadas e me peguei pensando na possibilidade de o Comandante me dar um tempo a mais por conta do mau tempo.

Dentro havia uma frente de loja comicamente pequena, talvez com dois metros e meio da porta até o fundo. As prateleiras estavam repletas de uma distinta variedade de itens diversos: potes e panelas, agulhas e carretéis de linha, consistentes apenas em relação à camada de poeira acumulada. Pouco empenho era feito no que dizia respeito a manter a fachada de que aquele era um empreendimento funcional, mas então supus que, por se tratar de um lugar tão dentro de território kiren, a fraude não aparecia tanto e era facilmente subornável quando aparecia. Um herege de rosto espremido estava sentado em uma banqueta e olhou para mim com uma expressão que me deu vontade de ensinar a ele relações básicas com os consumidores com meus próprios punhos. Ele fez um discreto sinal com a cabeça quando passei por ele, feliz por ter entrado facilmente, mas perturbado por aparentemente não ter sido diferenciado de um viciado qualquer.

Contra uma parede nos fundos uma cerca de ferro havia sido levantada e longos caules de erva pendiam da cela, para ser cortados e vendidos conforme o necessário. Dentro, uma garota kiren esperava pronta para dar algumas horas de esquecimento a qualquer que tivesse uma moeda para pagar. Ela me olhava convidativamente. Eu não tinha certeza se ela estava chapada ou se era apenas burra. O restante da sala era ocupado por todos os tipos de mesas e cabines, adquiridas sem o menor cuidado com uniformidade ou limpeza que tendem a empestear os negócios legítimos. Flutuando sobre tudo aquilo estava a inconfundível mistura da droga em si, nociva e sedutora, como quitutes assados e carnes defumadas.

Era cedo ainda, e o frio desencorajava saídas casuais, mas ainda assim havia uma dúzia de vítimas esparramadas pelo local, soprando seus cachimbos ou perdidas em alguma viagem. Somente uma dessas pessoas não era herege, porém, o que facilitou para que eu encontrasse quem procurava. Ele estava contraído em uma cabine nos fundos, com a cabeça pendendo desajeitada sobre a mesa diante de si. Ele não reagiu a minha aproximação.

- Afonso Cadamost?

Ele respondeu sem levantar a cabeça da mesinha:

- Cai fora.

Joguei uma prata sobre a mesa de madeira diante dele.

O tilintar da moeda fez seu rosto se erguer e desejei que ele ainda estivesse indiferente. A cor castanha de sua raça havia sido alterada para um cinza doentio e sua pele pendia amarelada e sem cor. Dentes podres são a marca mais comum de um viciado em erva, mas mesmo sabendo disso, o sorriso preto-esverdeado dele era inquietante. Mais inquietantes ainda eram os olhos dele, acéticos, nebulosos, com terríveis pontos pretos centrados em meio à íris esbranquiçada.

Sentei-me na cadeira diante dele, com cuidado para não pensar em quem havia sentado a bunda ali antes de mim. - Preciso saber de algumas coisas - disse eu.

Ele mordeu a moeda de prata e temi que seus dentes fracos pudessem se quebrar ao forçar o metal. Isso não aconteceu e ele guardou a moeda no bolso.

- Diga.

- Ouvi dizer que você fez parte da Operação Ingresso.

O medo é a última coisa que um viciado perde. Aparentemente Afonso ainda tinha bastante coisa na cabeça para se amedrontar com a minha menção.

- O que você sabe disso? - perguntou ele, lambendo os lábios e espalhando saliva pela rede de feridas que desfigurava a porção inferior de seu rosto.

Eu pensei em mentir, mas não o fiz. Ele não se lembraria daquela conversa depois de vinte minutos e ninguém daria ouvidos a um degenerado daqueles mesmo que ele falasse no assunto.

- Minha unidade estava no cerco a Donknacht na noite anterior ao armistício. Dei proteção a um colega seu - não muita, eu poderia ter acrescentado, mas ele não precisava saber disso-, o feiticeiro Adelweid.

- Adelweid - repetiu ele lentamente, como se estivesse tendo dificuldade para se situar.

- Vocês dois foram colegas de classe na Academia.

- Eu sei quem ele era - Cadamost respondeu. - Com quem você pensa que está falando?

Com um viciado, obviamente. Cadamost deu uma tragada em seu cachimbo para se acalmar, pouco contribuindo para que eu mudasse de opinião.

- Eu me lembro de Adelweid - recomeçou ele. - Ele foi o início de tudo, sabe, o início de tudo. Um dia ele encontrou um diário no meio de uns arquivos... A Coroa tinha toneladas daquela merda, papéis confiscados ao longo dos anos, mas que ninguém jamais havia se dado ao trabalho de ler. Estava bastante desgastado pelo tempo, escrito numa caligrafia estranha, mas o que havia lá... - ele olhou em volta como se seus olhos fossem lebres em fuga - Você disse que estava lá no final?

- Tenente da Infantaria da Capital. Fomos os primeiros a entrar em

Donknacht, apesar de que vocês já haviam facilitado bastante as coisas na hora que chegamos lá.

- Sim, eu suponho que sim. Você... viu uma?

- Sim, eu vi uma - não era difícil imaginar ao que ele se referia.

- De onde você acha que veio aquilo?

- De outro mundo? Eu não sei. Metafísica nunca foi o meu ponto forte.

- Não é de outro mundo, mas de mundo nenhum na verdade, da ausência entre os mundos. Do nada entre os universos, do espaço onde a luz não chega, foi de lá que ela veio.

- Ela? - perguntei eu.

- Ela - confirmou ele. - Ela estava dançando na escuridão quando a chamei, valsando na escuridão do centro da eternidade. À espera de alguém que a cortejasse.

Controlei a náusea e perguntei:

- Como você a evocou?

O hálito dele era putrefato, fedido e artificial.

- Ela não era uma vagabunda qualquer que você chama e ela vem! Ela era uma dama, limpa e decente, como alguma dessas bocetas bonitas que você vê aí pela capital! Ela não abriu as pernas para mim porque eu lhe fiz um sinal! Eu tive de cortejá-la! - ele deu mais uma baforada e soltou no meu rosto.

- O que você quer dizer com isso, que teve de cortejá-la?

- Quem é você? Algum tipo de viado que fica de joelhos no banheiro público chupando pintos por um buraco na parede? Você nunca saiu com uma mulher? Você diz a ela palavras doces, diz como ela é bonita. Quando for o momento certo você dará a ela algo especial, uma chave para o seu amor.

- Que tipo de chave?

- Essa é a pegadinha, não é? Ela nunca enxerga as coisas da mesma maneira que nós. Um ser humano era igual a outro. Ela precisava de algo meu para recordar, algo especial, alguma coisa que contivesse algo meu.

- E o que você ofereceu?

- Um bracelete, que minha mãe me deu quando deixei Miradin - a lembrança pareceu inoportuna e ele não deu mais nenhuma explicação. - Eu o lancei no vazio e, quando ele voltou para mim, ele ecoava o zunido dela, zumbia como ela, de manhã até de noite. Era o elo que nos unia. Ela era linda, e devotada. O amor dela era infinito como o mar de escuridão no qual ela nadava. Mas ela era uma dona ciumenta, ficava nervosa fácil. A chave nos conectava - disse ele antes de assumir um ar sombrio. - Sem a chave, ela ficava muito, mas muito irritada.

Na época eu pensei que a recusa de Adelweid de se desfazer de suas quinquilharias fosse apenas vaidade. Aquilo talvez pudesse também explicar o gosto de Brightfellow por joias, apesar de que o mau gosto daria no mesmo.

- Essas coisas... - disse eu - você é capaz de evocar, mas elas não podem continuar aqui?

- Ela era perfeita, sem nenhuma mistura com os dejetos de nossa realidade. Precisou da força do meu amor para poder atravessar.

Estava de acordo com o que eu havia visto, a criatura de Adelweid dispersando-se depois de concluir sua missão.

- Havia um outro aluno da academia com você, Brightfellow, Johnathan Brightfellow.

Cadamost coçou a pele descascada de sua cabeça com uma unha suja.

- Sim, eu me lembro dele. Ele era alguns anos mais velho que o restante de nós, vindo de alguma província insignificante do norte.

- Do que mais você se recorda?

- Ele tinha um temperamento complicado. Tinha um rabo de saia que ele seguia como um cachorrinho, algum dos rapazes disse alguma coisa sobre ela e ele perdeu a cabeça, estourou a cabeça da pessoa na parede antes que alguém pudesse pensar em fazer algum trabalho - Cadamost se empenhava para fazer a cabeça funcionar e o simples ato de tentar lembrar de alguma coisa exigia um esforço parecido com o de uma maratona. - Ele não era muito talentoso, talvez porque tenha começado tarde demais, mas ele era esperto, mais esperto que você poderia imaginar e mais do que ele deixaria transparecer.

- E ele participou da Operação Ingresso?

- Sim, ele fez parte dela. A maior parte de nós fez, os que tinham percepção e habilidade, era possível prever aonde levaria, a tudo o que fora prometido. Para ver o que vai sair quando você abrir a jaula, para olhar o fundo, bem lá dentro das profundezas, o nada que cria o todo. Não tinha a ver com a Guerra. Nós os deixamos pensar assim, mas não tinha nada a ver com a Guerra. Havia deuses, e eles queriam olhar para nós, falar conosco, nos tocar, nos amar.

- O que aconteceu com ela? - perguntei, apesar de já saber a resposta.

- Os outros foram covardes. Eles não entenderam, não queriam se permitir entender. Eu sabia o que ela queria, sabia o que ela queria e queria dar isso a ela. Por isso eles me temiam e a levaram embora - ele deu um soco na mesa e olhou para fora da cabine, como se sua obsessão fosse se revelar na distância. - Eu posso senti-la lá fora, em algum lugar. Eles a têm e a mantêm longe de mim! - ele tossiu isso, junto com algo que mais se parecia com sangue.

- E os outros praticantes, eles ainda mantêm suas chaves?

- Fui escolhido por minha genialidade. Todos os outros foram autorizados a manter as suas chaves, eu suponho. Ou eles pelo menos ainda as tinham quando fui exonerado - os olhos dele ficaram tortos em seu rosto decadente. - Por quê? Qual é o propósito de tudo isso afinal?

- Obrigado por sua ajuda - disse eu, despejando mais uma prata na mesa. A visão de mais uma prata foi suficiente para fazê-lo esquecer suas preocupações.

- Você é um bom homem, por ajudar um companheiro veterano. Há um lugar no Chinvat para você, não tenho dúvida em relação a isso - ele gargalhou e foi buscar mais drogas.

- Vá com cuidado na próxima rodada - disse eu enquanto abotoava meu casaco. - Não quero que seja minha a moeda que o matou - prossegui, mas enquanto saía percebi que não dava a mínima para isso.