O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 10 de 49

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O Guardião

Capítulo 10

Quando regressei ao Conde, tomei um barril de cerveja e dormi por cerca de um dia e meio, acordando somente para fazer um relato superficial a Adolphus em cima de um prato de ovos. Fui vago quanto ao que aconteceu exatamente ao kiren- quanto menos as pessoas soubessem, melhor seria para todos. Ele estava convenientemente impressionado.

Pela semana seguinte eu toquei meus negócios com bastante atenção, voltando sobre meus próprios passos e deixando falsos rastros para o caso de alguém estar atrás de mim, mas eu tinha em mente que estava por contra própria. Nada de espíritos etéreos, nada de aparições sombrias surgindo na minha visão periférica - apenas a fervura na bunda de Rigus que é a Cidade Baixa, cozinhando toda a sua glória fétida.

Por algum tempo eu presumi que as coisas fossem ficar daquele jeito mesmo. Tive algumas noites mais longas pensando na monstruosidade, mas mesmo que eu estivesse interessado em localizá-la, não tinha um ponto de partida. E para bem da verdade, eu já tinha tido minha cota de brincar de detetive. Fingir ser um agente mostrou-se ainda menos satisfatório do que ser um de verdade.

Então a Gangue da Adaga Quebrada entrou em guerra com uma facção de ilhéus de perto das docas e eu não tinha tempo para pensar em nada que não fosse a sobrevivência cotidiana de meu negócio. Passava as tardes explicando a hereges caras-de–pau por que eu não devia a eles nenhum imposto por minhas operações e as noites convencendo um grupo de rudes garotos viciados que eu estava doido demais para sair de onde estava, então não sobrava muito tempo para atividades extracurriculares.

Até onde o restante de Rigus sabia, as pessoas importantes consideravam o assunto esquecido e as pessoas desimportantes não contavam. Os gélidos controlavam a situação como um todo com rédeas bem curtas. Havia rumores sobre magia negra e demônios escondidos nas sombras e, por um momento, houve uma explosão nas vendas de encantos de proteção de eficácia duvidosa, especialmente entre os kirens, um povo supersticioso por natureza. Mas a Cidade Baixa é um lugar movimentado e, quando o outono dava lugar ao início do inverno, o assassinato de Tara Potgieter havia se transformado em uma sutil lembrança que se apagava da memória.

Pensei na possibilidade de voltar ao Ninho e contar ao Grou o que tinha acontecido. Imaginei que devesse isso a ele.

Mas então eu me lembrei que devia a ele muitas coisas mais e, como eu jamais conseguiria retribuir tudo, resolvi cancelar aquela dívida também. Ele entenderia, mesmo que Célia não entendesse. Coce uma ferida por muito tempo e logo ela irá começar a abrir novamente. Aquela época da minha vida estava acabada. Até onde eu estava ciente, aquele reencontro fora um incidente isolado.

Apesar de todo esforço de Adeline, Garrincha recusava-se a passar a noite inteira dentro do Conde. Como uma versão bem treinada de seu xará alado, ele viria para filar um pouco de comida e depois sairia voando novamente sem dizer aonde iria. Um dia eu o flagrei pegando alguma coisa de uma barraca no bairro e ele sumiu por uma semana inteira, o que deixou Adeline com pena dele e furiosa comigo. Mas ele reapareceu numa certa noite, entrando pela porta dos fundos como se nada tivesse acontecido.

Mesmo sendo reticente demais para viver parado num lugar só, Garrincha estava sempre por perto quando eu precisava dele e transformou-se num ajudante, se não um agente ativo, em minhas operações. Eu o mantinha afastado das coisas mais sérias e nunca o deixava carregar nenhum peso, mas suas pernas ágeis eram úteis quando eu precisava passar uma mensagem e de repente me vi me acostumando a sua presença lacônica, um daqueles poucos indivíduos desapegados da necessidade de encher o ar com retórica.

Adolphus ofereceu-se para ensinar pugilismo ao garoto e, por mais que lhe tenha custado admitir que aquela era uma habilidade que ele precisava dominar, Garrincha teve o bom senso de aceitar a proposta do grandão. Ele provou ser talentoso e eu gostava de passar algumas horas ocasionais vendo os dois boxeando, queimando um cigarro de vinonífera enquanto Adolphus fazia uma demonstração básica do trabalho dos pés com seu corpo colossal. Era com esse negócio ocioso que eu estava envolvido quando Adeline, sem saber, me colocou no caminho da ruína.

- É mais fácil aguentar cinco golpes no peito do que um na cabeça - dizia Adolphus, com o rosto cheio de suor, quando sua esposa veio até o quintal.

- Sempre mantenha as mãos levantadas - continuou Adolphus enquanto Garrincha imitava suas ações como uma miniatura a seu lado.

A voz de Adeline é tão suave que, nas poucas vezes que ela altera pouco além de um sussurro, soa como se ela estivesse gritando.

- Outra menina desapareceu - disse ela.

Eu me lembrei de soltar a fumaça do peito. Adolphus baixou as mãos para os lados e perguntou com a voz baixa e gutural:

- Quem? Quando?

- Ontem à noite. A Anne da padaria que me contou. A guarda está vendo isso agora. Eu não conheço a menina. A Anne disse que o pai é alfaiate de perto do canal - relatou Adeline.

Adolphus me olhou de um jeito amargo, depois falou para Garrincha:

- O treino acabou. Vá se lavar e ajude Adeline.

Pude ver que o garoto não gostou de ter sido excluído, mas Adolphus podia ficar nervoso e o garoto manteve a língua descansando dentro da boca.

Esperamos até que os dois entrassem antes de continuarmos.

- O que você acha? - Adolphus me perguntou.

- Talvez ela tenha se perdido brincando de esconde-esconde. Talvez ela tenha ficado no caminho de um traficante de escravos e agora está dentro de um barril a caminho do leste. Talvez o pai dela a tenha espancado até a morte e escondido o corpo em algum lugar. Pode ser um monte de coisa.

Seu olho observou meu rosto, fazendo dupla jornada como sempre.

- Pode ser um monte de coisa. Certo. É isso então?

É sempre melhor prever o pior e agir a partir disso.

- Provavelmente - disse eu.

- O que você vai fazer? - insistiu ele.

- Eu vou manter meu nariz limpo e ficar de fora disso - respondi. Apesar de eu duvidar que aquela opção estivesse disponível. Se fosse trabalho da mesma turma que pegou a outra menina, haveria problemas. A Coroa garantiria isso. Ela pode não estar nem aí para a filha morta de um trabalhador das docas da Cidade Baixa, mas se envolve quando alguém tenta descobrir que está mexendo com entidades de outro mundo.

Somente a Coroa se envolve com as artes negras. Trata-se de um privilégio que ela preserva com extremo rigor. Naquele momento eu era a única conexão com o que quer que tenha matado o kiren, o que já bastava para me render uma sessão nos porões da Casa Negra.

- Será que os que mataram a menina virão atrás de você? - Adolphus perguntou.

- Já cansei de bancar o homem da lei.

- E os seus ex-camaradas deixaram você sair tão facilmente?

Eu não disse nada. Adolphus sabia a resposta.

- Lamento por tê-lo envolvido nisso.

Eu me dei conta então dos pelos brancos que pipocavam em sua barba e de tufos esparsos em sua cabeleira.

- Eu vou até o Ninho, ver se é possível encontrar uma forma melhor de lidar com essa situação. Faz tempo que falei como Grou - disse eu. Deixei Adolphus no quintal e subi para pegar minha bolsa. Pensei em levar uma navalha, mas achei melhor não. Se a menina aparecesse flutuando no canal eu tinha certeza de que seria visitado pela lei e se aquilo acontecesse, eu jamais veria novamente nada daquilo que estivesse comigo.

Além disso, até onde me constava, uma simples navalha não seria de grande utilidade contra a abominação que presenciei.

Saí do bar e caminhei num passo ligeiro, pensando naquele que eu pensava ter sido meu primeiro e único encontro com a coisa que matou o kiren.