O Guardião
Capítulo 16
Quando Grenwald finalmente apareceu eu estava sentado no escuro havia vinte minutos, reclinado na cadeira de visitantes, com os pés em cima da mesa de madeira manchada que dominava a sala.
Eu temia pela possibilidade de ele ter decidido pular alguma tarefa cotidiana que exigisse sua atenção e me deixasse esperando em seu escritório como um idiota. Mas valeu a pena ver a reação dele quando abriu a porta, seu desprezo arrogante transformando-se em horror abjeto numa fração de segundo.
Uma década havia contribuído muito para melhorar a patente de meu velho superior, mas tristemente pouco contribuiu para melhorar seu caráter e também para endurecer o aspecto de roedor de sua mandíbula. A roupa dele era cara, mas não lhe caía bem, e seu corpo antes firme engordava em uma velocidade maior do que a comum para homens de meia idade. Acendi um fósforo na madeira e o levei até meu cigarro.
- Olá, coronel. Quais as boas novas?
Ele fechou a porta, na verdade a bateu, na esperança de impedir que sua equipe soubesse daquela conversa.
- De que jeito você conseguiu entrar aqui?
Sacudi o fósforo com dois dedos e imitei o movimento com a cabeça.
- Coronel, coronel. Confesso que estou chateado. Ser recebido dessa forma por um amigo tão querido? - Estalei a língua em tom de desaprovação.
- É assim que dois antigos camaradas se reveem, unidos pelos laços de nossa nobre cruzada? - perguntei.
- Não, não, claro que não - respondeu. - Apenas estou surpreso em vê-lo. Desculpe-me - prosseguiu. Essa era uma das coisas engraçadas em relação a Grenwald. Ele cedia muito facilmente.
- Isso é uma gota d’água por baixo de uma ponte - retribuí.
Ele colocou o chapéu e o casaco em um mancebo, tentando ganhar tempo para descobrir por que eu estava ali e o que ele poderia fazer para que eu saísse logo.
- Uísque? - perguntou ele enquanto se dirigia a um bar úmido no canto e servindo a si mesmo uma dose generosa.
- Eu tento não tomar nada muito forte antes do almoço, parte da minha nova vida como abstêmio em desenvolvimento. Mas sinta-se à vontade.
Ele ficou, sacudindo o copo em um movimento rápido, servindo-se mais alguns dedos e passando por trás de mim para sentar-se em sua cadeira.
- Eu pensei, depois daquela última vez - ele engoliu seco -, eu pensei que estivéssemos de relações cortadas.
- Você pensou isso?
- Entendi que você tinha dito que estávamos quites.
- Eu disse isso?
- Não quero dizer, é claro, que eu esteja triste por te ver.
Desfiz essa preocupação com um aceno de mão teatral.
- Do que se trata isso? - perguntou ele então.
- Talvez eu só tenha dado um pulo para dar um rápido alô a meu velho comandante - disse eu. - Você já teve vontade de reviver os velhos tempos com seus irmãos oficiais?
- É claro que já, mas é claro - respondeu, disposto a concordar com qualquer coisa que eu colocasse diante dele.
- Então por que você nunca retribui a cortesia? Você chegou tão alto que se esqueceu de seu velho subordinado?
Ele resmungou algo no meio do caminho entre um pedido de desculpas e uma conversa fiada antes de ficar em silêncio.
Deixei aquilo alimentando o constrangimento entre nós por uns quinze segundos, esforçando-me para não rir.
- Mas acontece que, e já que você tão gentilmente se ofereceu, existe uma coisa que talvez você possa fazer para me ajudar, apesar de minha relutância em pedir, já que você já fez tanto por mim.
- Isso não tem problema - respondeu ele friamente.
- Você se lembra daquela operação em Donknacht, um dia antes do armistício?- perguntei.
- Vagamente.
- Sim, eu tenho certeza que isso tem pouco valor para alguém tão elevado na hierarquia de comando. Quando se lida com importantes questões estratégicas e logísticas, é fácil esquecer os combates que habitam a memória dos escalões inferiores.
Ele não disse nada.
- Eu preciso saber o nome de todos os feiticeiros envolvidos naquele projeto, todos os que participaram e todos os que os treinaram. O Ministério da Guerra deve ter um registro - prossegui.
- Eles não teriam registros mantidos de algo assim - respondeu ele imediatamente e sem pensar. - Nada disso fica registrado.
- Eles têm - insisti.
Ele ficou em busca de alguma desculpa para evitar bancar o peão.
- Não estou certo de que eu tenha acesso a isso. Eles não guardariam isso na biblioteca central junto com o resto dos documentos da Guerra. Se houver algo assim, estará trancado com chave e cadeado na área restrita.
- Isso não deve ser um problema para um subsecretário do exército.
- Eles mudaram os protocolos - desconversou. - As coisas já não são mais como antigamente. Não posso entrar nos arquivos e sair de lá com os documentos embaixo do braço.
- Isso seria fácil como deve ser. Ou então difícil. De qualquer forma, isso será feito.
- Eu... não posso garantir nada.
- Não existem garantias na vida - respondi. - Mas o senhor vai tentar, não vai, coronel? Você vai se empenhar bastante.
Ele bebeu o restante do conteúdo de seu copo e o colocou sobre a mesa. A seguir, ele virou seu rosto de doninha na direção do meu. A bebida estava subindo, inundando-o de uma coragem que ele jamais teria sóbrio.
- Farei o que for possível - disse ele, e o tom de sua voz não me encheu de confiança com relação ao resultado de sua missão. - E então estaremos zerados. Nada mais dessas visitas-surpresa. Estará tudo acabado.
- Engraçado. Você disse a mesma coisa na última vez que estive aqui -comentei. Apaguei meu cigarro em sua mesa, esmagando as cinzas na ponta, levantei-me e peguei meu casaco.
- Nos veremos em breve, coronel.
A porta se fechou à frente de um homem que pouco merecia a patente. Sua secretária, uma jovem bonita e burra que me deixou entrar no escritório de Grenwald por conta de uma mentira sobre a guerra, sorriu em minha direção com doçura. - O coronel conseguiu ajudá-lo com o problema da sua pensão?
- Não vai ser fácil, mas ele vai conseguir me ajudar. Você conhece o coronel. Nada é mais importante para ele do que seus homens. Ele já te contou da vez que me carregou por mais de cinco quilômetros pelas linhas inimigas depois de eu ter sido atingido por um dardo na coxa? Ele salvou a minha vida naquela noite.
- Mesmo? - perguntou ela, com os olhos arregalados e brilhantes.
- Não, claro que não. Nada disso é verdade - respondi, deixando-a ainda mais confusa que o normal enquanto eu saía.