O Guardião
Capítulo 9
Com toda aquela agitação, imaginei que fosse um bom momento para ficar desacordado, então eu nunca soube quem chamou a guarda C nem quando foi que eles trouxeram o pequeno grupo de agentes que me cercava na hora que eu acordei. Suponho que o assassinato brutal de um estuprador de crianças por uma força demoníaca superaria até mesmo a aversão à autoridade governamental incrustada nos hereges.
É claro que eu não pensava em nada disso, já que fui rispidamente sacudido em meu repouso, com minha atenção exigida para assuntos mais imediatos. O primeiro deles era a cara nada amigável de um ex-colega na Casa Negra. O segundo era o punho cerrado em frente ao meu rosto.
Então minha mandíbula doía e os homens de cinza–gelo despejavam perguntas sobre mim, com qualquer que fosse a memória de nosso passado compartilhado sepultada nas universais inclinações violentas dos homens da lei por todas as Treze Terras, ou pelo menos de todas as que eu conhecia.
Felizmente, minha posição contra a parede e o número exagerado de participantes - e eu já havia batido em muita gente algemada para saber que mais de três agentes era puro exibicionismo - tornaram o entusiasmo deles menos eficaz do que poderia ter sido.
De qualquer forma, não era nada de mais em uma noite já marcada por tantos dissabores.
Crispin conseguiu afastar meus agressores o bastante para que eu me levantasse e me encostasse no carro funerário. O cadáver estilhaçado do kiren jazia sobre a carroça, ostensivamente descoberto. Apesar do sangue que escorria de minha boca, a loucura da noite havia me deixado perturbado e estranhamente alegre.
- E aí, parceiro, sentiu minha falta? - cumprimentei.
Crispin não estava impressionado. Por um momento pensei que ele fosse descarregar o lado mais negro de sua personalidade em minha cara machucada, mas ele manteve a raiva sob controle como um bom soldadinho.
- Em nome do Guardião dos Juramentos, o que aconteceu aqui? - perguntou ele.
- Eu diria que foi a justiça divina, mas não tenho essa opinião tão terrível dos Daevas - disse isso e cheguei perto o bastante de Crispin para que ninguém mais me ouvisse. - Essa coisa perto de nós é o que sobrou do homem responsável pelo último cadáver sobre o qual conversamos. Com relação ao que o matou, se aquela coisa tem um nome, eu desconheço. Mas se eu fosse o responsável você não teria encontrado seus restos nem eu teria apagado perto do corpo - percebi com certa alegria que nosso contato havia manchado seu casaco com uma borrifada de fluido sanguíneo.
Uma multidão de hereges havia se reunido na entrada do beco sem saída, falando alto, com medo e raiva nos olhos. Os gélidos precisavam cobrir o corpo e estabelecer um perímetro decente, mas precisavam fazer isso rápido. Que diabos havia acontecido na Casa Negra depois que saí de lá? Era bom e produtivo incorrer em um pouco de violência banal contra um suspeito, mas não às custas do profissionalismo. Quem eles pensavam que eram, a fraude?
Os anos que passamos juntos caçando a mais baixa escória da humanidade pelos detritos gerais da civilização eram suficientes para convencer Crispin da minha credibilidade como testemunha, mas as garantias de um ex-agente em desgraça convertido em criminoso não seriam suficientes para o resto.
- Você tem alguma prova? - perguntou-me.
- Nenhuma. Mas se você descobrir o nome e o endereço dele vai encontrar alguma lembrança, talvez algum pedaço da roupa da menina. É provável que você encontre mais de uma recordação.
- Você não sabe nem o nome dele?
- Não tenho tempo para essas trivialidades, Crispin. Trabalho no setor privado agora.
A multidão estava ficando mais agitada, gritando pelo frágil cordão de agentes que bloqueava a entrada do beco, mas eu não sabia o motivo. Será que eles queriam minha cabeça pela morte de um dos deles? Será que correram as notícias sobre os crimes daquele homem? Talvez fosse apenas o desprezo natural pela polícia permitido a qualquer pessoa razoável. Independentemente do que fosse, aquela coisa toda estava começando a ficar feia. Vi um dos guardas ir para cima de uma pessoa na multidão, segurando-a com os braços para trás enquanto gritava xingamentos étnicos.
Crispin percebeu a mesma coisa que eu.
- Agente Eingers, pegue Marat e impeça esses idiotas de piorarem ainda mais a situação. Tenneson, você está no comando. Guiscard e eu vamos levar o suspeito para o quartel–general - ordenou. Ele se voltou para mim. - Eu vou te algemar -disse ele sem rodeios. Não era nada chocante, mas também não me agradava. Fiquei em pé e Crispin prendeu minhas mãos, com firmeza, mas sem nenhuma crueldade desnecessária. Guiscard ficou na minha frente sem falar nada. Sua personalidade normalmente desagradável estava suavizada e percebi com certa surpresa que ele não havia participado dos abusos perpetrados por seus camaradas.
Os dois me levaram algemado até a entrada do beco, onde dois agentes tentavam sem sucesso conter a multidão. Guiscard, indo na frente, tentou abrir caminho para nós, mas os hereges, normalmente uma raça dócil, não se moviam. Um impasse parecia iminente e eu não estava em uma situação vantajosa. Não com aquelas algemas.
Crispin colocou a mão na empunhadura da espada, um ar perigoso, mas sem representar uma ameaça imediata.
- Pela autoridade a mim outorgada como Agente da Coroa, ordeno que se dispersem ou serão considerados fora da proteção do Trono - advertiu.
A multidão não estava dando à mínima. A brutalidade da fraude e a indignidade demonstrada com o corpo eram suficientes para sustentar aquela incomum postura desafiadora.
Apesar de a inclinação natural dos hereges para a obediência ser suficiente para que eles não avançassem sobre nós, eles não reagiram ao comando de Crispin.
Crispin fechou a mão em torno da gema que pendia de seu pescoço. Ele fechou os olhos brevemente e a joia produziu uma luz azul que vazava por seu pulso. Desta vez suas palavras não permitiriam desafio.
- Pela autoridade a mim outorgada como Agente da Coroa, eu ordeno a vocês que se dispersem ou se considerem fora da proteção do Trono. Abram caminho ou serão considerados inimigos da Coroa - ameaçou. E apesar de ele não ter elevado o tom de sua voz enquanto falava, sua voz ecoou pela multidão e os kirens abriram espaço, se aquietando respeitosamente e se encostando nas paredes.
O Olho da Coroa era outra coisa que me fazia ter saudade dos tempos de agente.
Crispin acenou para uma dupla de guardas que tomaram posições nos flancos enquanto ele seguia pela rua principal. Depois de dobrar uma esquina, fora da vista dos kirens, Crispin apoiou-se com as mãos na parede e parou.
- Um momento - suspirou, de boca aberta, com os pulmões precisando desesperadamente de ar. O Olho da Coroa consome a energia de quem o usa. Nem mesmo um agente experiente como Crispin é capaz de usar seu poder sem ficar exaurido.
Esperamos com ansiedade até que Crispin conseguisse recuperar o fôlego. Eu estava ficando impaciente. A coisa ficaria feia se a multidão se reagrupasse e nos cercasse naquela viela estreita. Guiscard pôs uma das mãos no ombro de seu superior.
- Precisamos continuar andando - disse ele, com um olhar firme. Crispin tomou fôlego pela última vez e se recompôs.
Eles me escoltaram por metade da cidade, como um dignitário com uma guarda de honra, embora no passado eu nunca tenha ficado com a impressão de que eles estivessem ligados.
Era a segunda vez que eu chegava algemado à Casa Negra, mas agora não era tão desagradável quanto na primeira.
A Casa Negra é, com sinceridade, menos imponente do que provavelmente deveria ser. É um prédio atarracado e sem atrativos, mais parecido com um grande mercado do que com o quartel-general da mais temida força policial da face do planeta. É uma edificação perturbadora, mas sem grandeza, posicionada em um movimentado cruzamento que demarcava a fronteira entre a Cidade
Velha e Wormington’s Shingle. Três pavimentos de um quarteirão e um labirinto subterrâneo serviam de lembrete à massa que os olhos inabaláveis da Coroa estavam por todos os lugares. Há pouca ornamentação e, de fora, a estrutura não inspira nem intimida.
Ela é, porém, quase toda negra. Então aí está.
Quando chegamos à sombria entrada de ébano, Crispin mandou dois guardas de volta à cena do crime. A seguir, ele e Guiscard me conduziram para dentro. Nós fomos entrando pelo prédio e passamos reto em frente à porta sem nada escrito que leva às salas subterrâneas onde ocorrem os verdadeiros interrogatórios, o que me fez dar um rápido suspiro de alívio.
Era uma experiência que eu não tinha a menor vontade de repetir, nem como participante nem como vítima. Quando chegamos ao saguão principal, Crispin separou-se de nós, presumivelmente para se reportar a superiores, e Guiscard continuou me escoltando. Eu me preparei para novos abusos, mas o rouender não demonstrava nenhum interesse em reacender nosso conflito.
Ele abriu a porta que levava à área de detenção, uma sala de pedra que não tinha nada além de uma mesa de madeira e três cadeiras desconfortáveis. Ele me conduziu até uma delas e disse:
- Crispin vai voltar logo.
Havia sangue ressecado embaixo do meu nariz.
- Não tem interesse em aproveitar sua vez? - provoquei.
- O homem morto, foi ele o responsável pela menina? - questionou. Assenti com a cabeça.
- Como você sabe disso? - prosseguiu ele.
- Todo mundo sabia - respondi. - Apenas não contamos a vocês. Ele virou os olhos e saiu da sala.
Passei cerca de uma hora e meia na cadeira, remoendo a dor na minha cabeça e tentando ter uma ideia de quantas costelas me haviam quebrado. Meu palpite era três, mas não teria como saber com certeza sem usar as mãos. Pensei em deixar as algemas escorregarem como um sinal de foda-se para Crispin e seus comandados, mas parecia uma vingança mesquinha e provavelmente me renderia uma outra surra.
A porta finalmente se abriu e Crispin entrou com um olhar sombrio. Sentou-se de frente para mim.
- Eles vão deixar quieto - disse ele.
Mesmo que eu fosse lerdo para entender, era compreensível em vista das circunstâncias.
- O que isso significa?
- Significa que, no que se refere à Casa Negra, este assunto está encerrado. Zhange Jue, operário e capanga eventual, foi o assassino de Tara Potgieter e de diversas outras meninas, com identidade ainda a ser determinada. Ele foi morto por uma ou mais pessoas desconhecidas de modo ainda indeterminado. Você passou pela pessoa ou pessoas envolvidas no assassinato, mas foi deixado inconsciente antes que pudesse determinar a identidade ou identidade dos agressores.
- Pessoa ou pessoas desconhecidas? Você perdeu o juízo? Você acha que o kiren foi morto a facadas? Você sabe tão bem quanto eu que isso tem cheiro de Arte.
- Eu sei disso.
- Nem mesmo a guarda é estúpida ao ponto de achar outra coisa.
- Nem ela.
- Então o que você está querendo dizer é que o caso está encerrado? -questionei.
Crispin esfregou as têmporas, como se tentasse aliviar alguma dor oculta.
- Você trabalhou aqui por bastante tempo. Vou ter que desenhar pra você entender? Ninguém quer se envolver em algo feio assim, nem com a versão de um traficante. O kiren matou Tara e agora está morto. Ponto final.
Já fazia muito tempo que eu não ficava diante de um ultraje sem estar cansado o bastante para aceitá-lo.
- Entendi. Ninguém se importa com a menina morta. Aliás, por que alguém se importaria? É só mais uma menina do cortiço mesmo. Mas existe algo faltando na Cidade Baixa e foi arrancado do coração do vazio. As pessoas precisam saber.
- Ninguém vai saber de nada. Eles vão queimar o corpo e você vai ficar de bico calado e depois de um tempo isso acaba - disse ele.
- Se você acha que isso acabou, então é tão burro quanto seus superiores.
- Você sabe tanta coisa assim? - perguntou.
- Eu sabia o suficiente para encontrar o assassino de Tara enquanto o resto de vocês estava aqui olhando para o próprio umbigo.
- Então por que você não me conta exatamente o que aconteceu, ou você quer que eu acredite que você estava perambulando por becos de Kirentown quando se deparou com o homem responsável pelo corpo que você encontrou dois dias atrás?
- Não, Crispin. É óbvio que eu estava atrás dele. Supus que, por integrar uma organização investigativa de elite, eu não precisaria soletrar tudo tintim por tintim pra você como se falasse com uma criança.
Seu lábio superior tremeu embaixo de seu nariz pontudo.
- Eu falei para você não ir atrás dele.
- Optei por ignorar sua sugestão - disse eu.
- Não foi uma sugestão. Foi uma ordem de um representante com poder legalmente concedido pela Coroa.
- Suas ordens não significavam muito para mim quando eu era agente e agora, meia década depois de ter deixado o serviço, a importância disso não aumentou nem um pouco - provoquei.
Crispin avançou sobre a mesa e bateu no meu rosto, quase sem querer, mas com força suficiente para que eu tivesse dificuldade para me equilibrar na cadeira. Caramba, o homem continuava ágil.
Mexi com a língua em um dente mole, diminuindo a dor e torcendo para que ele não caísse.
- Vá se foder! Eu não te devo nada.
- Eu passei os últimos quarenta e cinco minutos tentando convencer o capitão a não te deixar nas mãos da Operações Especiais. Se não fosse por mim, eles estariam esquartejando você com um escalpelo neste exato minuto - contou. Um desdém se instalou meio sem jeito em seu rosto. Crispin não era, por natureza, propenso a zombar dos infortúnios alheios. - Você tem ideia de quantos daqueles animais querem que você caia nas mãos deles?
Muitos, infelizmente, eu imaginei. Trabalhei na Operações Especiais perto do fim de minha carreira de agente. A unidade era incumbida de resolver assuntos fora da alçada normal dos agentes da lei. O plano de aposentadoria desse grupo normalmente consistia em morte violenta e uma vala comum. Evitar esse destino infeliz precisava de um pouco mais de sorte do que faria um homem inteligente se arriscar duas vezes. Eu devia a Crispin por ter evitado um reencontro e até mesmo o meu afiado senso de ingratidão não era suficiente para negar aquilo.
De dentro do casaco Crispin puxou um documento e o jogou girando sobre a mesa.
- Aqui está o seu depoimento. Os itens ilegais encontrados na viela foram considerados propriedade de Zhange Jue e serão destruídos conforme a política oficial detalhou. - Tudo bem, eles provavelmente encontraram minha bolsa. Acho que devia mais aquela a Crispin; dez ocres de Sopro de Fada davam cinco anos em um campo de trabalho forçado, três a mais do que um prisioneiro sobrevive em média. - Assine embaixo - disse ele antes de se inclinar na mesa e abrir minhas algemas.
Passei um tempo devolvendo a circulação do sangue aos seus pulsos.
- É bom ver que o caso está encerrado, a justiça foi feita, a retidão foi restaurada e tudo mais - ironizei.
- Isto não me agrada mais do que a você. Se fosse do meu jeito, estaríamos revirando a casa do kiren e metade da força estaria investigando sua história. Isto... - ele sacudiu a cabeça com descontentamento e eu vi ali o mesmo jovem que havia conhecido dez anos antes, que imaginava que seu serviço à Coroa fosse justamente aquilo, em serviço, e que qualquer mal que existisse no mundo poderia ser derrotado pelo braço correto e forte de um homem virtuoso. - Isto não é justiça- disse, enfim.
Por todo o seu intelecto e sua valentia, no fim do dia Crispin não tinha desempenhado muito bem sua função. Suas fantasias sobre o que deveria ser o tornavam cego para a realidade e aquilo o havia limitado aos escalões médios apesar de sua família ser uma das mais tradicionais de Rigus e de serviço à Coroa ser nobre e distinto. Justiça? Eu quase ri. Um agente não busca ajustiça, ele mantém a ordem.
Justiça? Pelo Perdido, o que se pode dizer quanto a isso?
Eu não tinha energia para dar a ele mais uma aula de educação cívica, e de qualquer forma essa é uma discussão antiga.
Crescer cercado de tapeçarias com imagens de seus ancestrais liderando cargas contra adversidades insuperáveis fizeram dele um ser iludido por palavras que não dizem nada. Assinei meu nome no fim do documento com um floreio.
- O kiren teve o que merecia e eu deixo a justiça para o Primogênito. No momento estou mais preocupado com o que vai acontecer quando a coisa que o matou voltar.
- Se eu fosse você, esperaria que ela não voltasse-por enquanto, você é a única conexão. Enquanto ela estiver longe, ninguém dá a mínima para você, não mais. Mas se isso começar a pipocar de novo, o pessoal de Operações Especiais vai reservar um lugar especial para você lá embaixo, e não haverá nada que eu possa fazer.
Foi um comentário tão agradável quanto qualquer outro.
- Enquanto esse dia feliz não chega - disse eu, despedindo-me dele com um aceno.
Ele não retribuiu o aceno e ficou com os olhos abatidos fixados em um ponto no centro da mesa.
Deixei a Casa Negra o mais rápido que pude, na esperança de evitar lembranças e eventuais intenções de ex-colegas de demonstrar fisicamente sua insatisfação com os rumos de minha carreira. Tive mais sucesso com a segunda expectativa do que com a primeira e na hora que alcancei a rua meu humor estava alguma coisa próxima do absoluto desespero. Fui para casa com a esperança de ainda ter algum estoque e poder dar um rápido mergulho nele.