O Guardião
Capítulo 22
Na hora que voltei ao Conde o movimento do jantar estava em seu auge. Peguei uma cadeira livre no balcão e consegui desviar Adolnphus de sua condição de anfitrião por tempo suficiente para pedir um prato de comida e algo escuro e forte para tomar. Estava quente e a compressão dos corpos somada ao grande barulho de vitalidade tinham um efeito letárgico. Esfreguei a cabeça e tentei me manter acordado.
Adeline apareceu dos fundos, com um prato de carne com batatas em uma das mãos e uma caneca de boa cerveja escura na outra.
- Obrigado - disse eu.
Ela assentiu agradavelmente e perguntou:
- Cadê o Garrincha?
- Ele saiu. Disse que tinha uma coisa para resolver.
Por mais que eu pudesse trocar meias verdades e mentiras deslavadas com os mais perigosos kirens de Rigus, eu parecia totalmente incapaz de repassar uma falsidade diante do rosto rechonchudo de Adeline.
- Você o mandou embora, não foi?
- Nós tivemos um desentendimento sobre os méritos relativos dos direitos à propriedade. Ele vai acabar voltando.
Ela se projetou de um jeito substancialmente maior do que sua envergadura diminuta.
- Vai acabar voltando - repetiu. Não era uma pergunta, era mais uma frase em tom de condenação.
- Deixa isso pra lá, Adeline. Ele dormiu na rua quase a vida inteira. Mais uma noite não vai fazer diferença.
- E a criança que foi morta esta manhã?
- Garrincha não é meu filho, Adeline, e também não é seu. É melhor não se apegar tanto. Ele vai acabar mordendo sua mão no fim.
- Você é um merdinha inacreditável - disse ela antes de se virar e ir na direção da cozinha, como se não fosse se controlar se ficasse mais tempo diante de mim.
- É - disse eu a ninguém em particular. - Provavelmente sou.
Cortei minha carne enquanto tentava transformar as peças soltas que flutuavam pela minha cabeça em um cenário coerente.
Não estava funcionando. Eu podia achar Beaconfield corrupto, mercenário e sádico, mas eu já havia chegado àquelas conclusões antes mesmo de conhecê-lo. Mas nada disso encaixava. Não havia muitos crimes capazes de perturbar a posição de alguém com sangue nobre, mas trazer uma criatura do vazio e usá-la no sacrifício de crianças certamente seria um deles. Se o Espada fosse pego, seu sobrenome não seria suficiente para o livrar. Ele se enforcaria, ou então tomaria uma dose de veneno enquanto estivesse à espera de julgamento. Não há dúvidas de que o duque passou a maior parte da vida nadando nas águas turvas da corte, tentando derrubar seus adversários com intrigas baratas e ocasionais atos de violência, mas esses são passatempos comuns nas classes mais abastadas, como os adolescentes com a malhação. A aristocracia goza muito do conforto que tem para arriscar tudo em uma coisa só e isso a faz alvo fácil de compreender. O que ele estaria querendo de algo que acarretaria riscos tão terríveis? E se Beaconfield não estivesse envolvido, por que o talismã de Célia quase perfurou meu peito enquanto conversávamos? Estaria o duque condenando sua alma em alguma outra empreitada totalmente desvinculada daquela que eu investigava?
Talvez Ling Chi estivesse certo e tudo isso não passasse de uma elaborada armação do Comandante para tentar desarticular alguma ameaça potencial a seu poder. Mas isso também não acrescentava nada. Eu não tinha nenhuma ilusão em relação a meu antigo chefe, mas soltar uma abominação daquelas sobre o povo da Cidade Baixa causaria transtornos demais só para reprimir alguma camarilha meia-boca, até mesmo uma chefiada por alguém tão cruel quanto meu honrado irmão. E se ele quisesse uma vida para destruir, não se daria a todo o trabalho de pegar uma criança. Ele simplesmente iria até os subterrâneos e sumiria com algum filho da puta. Além disso, o Comandante não seria tolo ao ponto de me envolver nessa operação. Se ele quisesse manter aquele rolo de barbante se desenrolando, ele não iria me querer seguindo sua trilha. Jamais. Se o Comandante estava por trás de tudo aquilo, eu nunca teria saído de dentro da Casa Negra. Teria?
Talvez Ling Chi estivesse mexendo os pauzinhos e o encontro tenha sido um ardil para me tirar de seu encalço. A única pessoa que eu podia afirmar com certeza que estava envolvida nesse negócio todo era o kiren, e eu já ouvi todas as fofocas sobre as artes negras dos hereges, apesar de que no passado eu atribuiria tudo isso a uma antipatia geral contra a raça. Talvez fosse outro grupo criminoso, ou algum frequentador da corte. Ou, que droga, talvez fosse alguma retaliação demoníaca dos drens.
Virei os sedimentos do fundo do meu copo de cerveja e tentei ficar com a cabeça no lugar. Havia muita sujeira no ar e eu não conseguia ter uma visão clara do jogo, isolar os jogadores.
Já fui melhor nisso, no passado. Agora eu estava sem prática. Ser um criminoso de sucesso não exige o mesmo pacote de habilidades que é necessário para se pegar um. Também não suponho que meia década mergulhado em meus próprios estoques tenha feito maravilhas com meus poderes de dedução. Talvez Crispin estivesse certo e eu já estivesse longe fazia tempo demais para participar daquilo. Talvez meu acordo desesperado com o Comandante tenha sido uma aposta tola, um cheque pré-datado para cobrir um rombo inevitável.
Eu estava me afundando bastante em minha auto depreciação quando fui interrompido por dois tapas rápidos em meu ombro. Garrincha estava atrás de mim. Tinha o rosto vermelho de humilhação, ou então de resfriado. Fiquei surpreso e um pouco impressionado. Imaginei que ele precisaria de um dia inteiro para criar coragem e tomar seu remédio.
De qualquer forma, aquilo ainda não o tiraria totalmente da linha de tiro:
- De volta para lavar a louça de Adeline? Está lá na cozinha. Você pode conseguir uma pratas ainda.
- Você rouba - acusou ele.
- Não porque não tenho nada pra fazer. Não porque vejo algo reluzente que quero que seja meu. O roubo é uma tática, não um passatempo. Não é algo que eu faça porque tenho alguns minutos de sobra e não tenho o que fazer com eles. E jamais de um amigo. Jamais de qualquer pessoa que esteja ao meu lado - disse eu enquanto os olhos dele se desviavam dos meus. - Além disso, nada disso é por você ter roubado. É por você ter sido burro. Um delito eu posso tolerar, mas a burrice é algo repreensível.
Como a maior parte das pessoas, Garrincha preferia ser considerado imoral a incompetente:
- Eu não fui pego.
- Você quer dizer que conseguiu sair pela porta da frente. E daí? Agora ele já percebeu e você queimou uma ponte com um dos homens mais poderosos de Rigus por causa de uns trocados. Pare de pensar como um menino de rua. Se você não aprender a enxergar além da próxima refeição, um dia vai acordar com a barriga cheia e uma faca enfiada nela.
- Eu sou um menino de rua.
- Isso é uma coisa que a gente precisa conversar. Vou começar a ter mais coisas para você fazer e não posso ficar na dependência de ter que te achar sempre que precisar de alguma coisa feita. A partir de agora você vai dormir no bar.
- E se eu não quiser?
- Você não é um escravo. Se você prefere dormir na sarjeta a dormir no colchão é uma escolha sua, mas se você fizer essa escolha também ficará desempregado. Não preciso de um parceiro com o qual perco metade do dia atrás dele.
Houve uma longa pausa.
- Tudo bem - respondeu ele finalmente.
Aquilo deveria tirar Adeline do meu pé durante algumas horas. Pelo Primogênito, ela é quase tão cruel quanto o Comandante.
- Ótimo. Agora corra até a propriedade do lorde Beaconfield - ordenei e expliquei a ele o caminho. - Diga ao guarda no portão que eu quero aparecer lá esta noite para entregar o restante do que prometi.
Ele saiu. Eu voltei para minha bebida e desejei poder solucionar todos os meus outros problemas com a mesma facilidade que lidava com essas preocupações domésticas. Pensei nos meus primeiros dias de agente, antes de me atolar em Operações Especiais, quando éramos somente eu e Crispin arrombando portas e seguindo pistas. Fizemos aquilo muito bem durante algum tempo. Crispin era afiado, muito afiado, mas eu era melhor. Aprendi uma coisa naquela época, uma coisa relacionada à natureza do crime e ao que as pessoas fazem e que deveria ficar escondido.
Solucionar um mistério não tem a ver com encontrar pistas ou ter sorte com um suspeito, mas decidir o que procurar, estruturando a narrativa na cabeça. Se você conseguir montar as perguntas que devem ser feitas, as respostas virão.
A maior parte dos crimes é fruto defeituoso da paixão e é cometida por alguém íntimo da vítima. Um marido chega em casa bêbado e bate na mulher com um martelo de carpinteiro, uma vida de discórdia entre dois irmãos termina em violência.
É terrível e de mau gosto, mas fácil o bastante de se investigar.
Se não fosse um caso assim, se não houvesse um suspeito claro, então você já teria a primeira pergunta: quem se beneficiaria daquele crime?
Essa pergunta, no entanto, não me ajudaria aqui. A primeira criança foi morta por um monstro e não havia mistério sobre seus motivos. Satisfação sexual, o silenciamento de alguma voz maluca que ecoava por sua cabeça no silêncio da noite. No segundo caso, se as suspeitas de Marieke estiverem corretas e amenina foi sacrificada, então o motivo poderia ser praticamente qualquer um. Mas já é alguma coisa então, não é? Foi um crime monstruoso, que exige uma represália brutal. Quem quer que tenha feito isso devia estar desesperado o suficiente para contemplar um risco tão grande.
Eu não sabia o porquê daquilo, mas pelo menos estava formando uma imagem do responsável. Se você não consegue entender o motivo, então você passa para a oportunidade. Quem seria capaz de cometer aquele crime? Nesse aspecto eu já tinha um pouco mais com o que trabalhar.
Não estamos falando de uma bolsa roubada, de uma garganta cortada ou de alguma coisa que qualquer alma suficientemente depravada seria capaz de arquitetar. A abominação era fruto de magia grandiosa, reza brava. Chamar aquela coisa era obra de um artista habilidoso. Melhor ainda: havia um número limitado de pessoas capazes daquele tipo de trabalho específico. A Operação Ingresso era um projeto militar secreto e as técnicas usadas não seriam divulgadas.
Tudo dependia de Crispin. Se ele conseguisse me arranjar uma lista de participantes eu poderia começar a ter a quem fazer perguntas. Se ele não conseguisse, eu teria que me enfiar em encrenca na esperança em que algo que eu fizesse resultasse em uma pista decente. Comecei a me arrepender de ter me esforçado tanto para antagonizar meu antigo parceiro.
Em me demorei em cada uma das possibilidades ao invés de pensar na situação que obscurecia o restante dos meus pensamentos: o prazo do Comandante, a ideia de passar minhas últimas horas, e sem dúvida seriam longas horas, talvez dias, com um homem de capuz vermelho revirando minhas entranhas enquanto Crowley se divertia. Aquilo não era pouca coisa. Mas eu posso dizer sem bravata que passei uma boa parte da minha vida na iminência de tão distinta possibilidade e aprendi a viver apesar disso. Mas o que Marieke havia me mostrado, algo que abriu portas nos recônditos mais profundos da minha mente e que eu imaginava fechadas e bloqueadas, é o tipo de medo que faz uma pessoa acordar no meio da noite com a garganta seca e os lençóis molhados. Se a Febre Vermelha estivesse de volta à Cidade Baixa, todo o resto não passaria de uma distração secundária, de um chuvisco para antecipar o dilúvio que se aproximava.
Será que as proteções do Grou estavam fraquejando? Será que a deterioração da saúde dele estaria enfraquecendo os feitiços feitos por ele para nos proteger? Pensei primeiro nisso, mas depois desconsiderei. Mesmo que fosse isso, quais seriam as chances de somente as crianças mortas terem sido infectadas?
Não tinha ouvido falar de mais ninguém doente, e eu tenho certeza de que a notícia correria, pois toda a Cidade Baixa vivia com um medo constante da febre. Aquela peste se espalhava, bem, como uma maldita praga. Se ela estivesse entre a população, a cidade inteira estaria em alvoroço. Não, eu não imaginava que a febre estivesse de volta entre o público em geral, nem que a morte de Caristiona estivesse dissociada do fato de ela a ter pego. Não era coincidência, mas pela minha vida eu não conseguia imaginar qual seria a conexão.
Sinalizei para Adolphus que queria mais uma caneca de cerveja e pensei em correr para o quarto para tirar um breve cochilo, mas Garrincha logo estaria de volta e eu teria que sair não muito depois que ele chegasse. Adolphus me atendeu e eu tomei minha cerveja enquanto absorvia cada informação como uma criança com um pedaço de doce duro.
Alguns minutos se passaram e eu percebi que Garrincha estava de volta ao Conde, em pé ao meu lado. Pelo Guardião dos Juramentos, como aquele moleque era silencioso. Era isso ou então minha cabeça estava ainda mais fora de sintonia do que eu imaginava. Decidi acreditar na primeira opção.
- Pelo Guardião dos Juramentos, como você é silencioso. Ele deu uma risadinha marota, mas não disse nada.
- E então? O que você tem para mim?
- O mordomo disse que o lorde Beaconfield está indisposto, mas quer que você passe lá para conversar com ele por volta das dez.
- Ele disse se quer falar comigo pessoalmente?
Garrincha balançou a cabeça afirmativamente.
Eu tinha a esperança de ter a chance de conversar com o Espada, ver se conseguia investigar alguma coisa, mas imaginei que teria ao menos de ludibriar seu subalterno. Por que Beaconfield queria conversar comigo? Seria mera curiosidade, a fascinação macabra dos bem-nutridos por aqueles de nós que batalham nas miseráveis entranhas da cidade que todos nós habitamos? De alguma forma eu duvidava que aquela fosse a primeira vez que um antro do vício cruzava o caminho de um traficante de drogas.
Do fundo do bar eu peguei uma caneta e um pergaminho e rabisquei uma anotação:
Não fale com o Espada ou com o pessoal dele até segunda ordem. Evite qualquer um que ele mande te procurar. Apareço amanhã, na hora do almoço.
Dobrei o papel, virei e fiz outra dobra.
- Leve isso à casa do Yancey e deixe com a mãe dele - disse eu ao entregar a mensagem para Garrincha. - Ele provavelmente não vai estar, mas diga a ela para entregar isso assim que ele aparecer. Depois disso você está dispensado por hoje à noite. Faça o que Adolphus mandar.
Garrincha se mandou.
- E não leia a carta! - gritei para ele, provavelmente sem necessidade.
A voz de Adolphus estava baixa no meio da tagarelice de fundo.
- Qual é o problema?
- Quanto tempo você tem? - disse eu ao pegar meu casaco. - Se eu não voltar hoje à noite, diga a Crispin para dar uma boa investigada no lorde Beaconfield e especialmente em qualquer ex-militar no bolso dele - orientei. Sem esperar resposta, fui em direção à porta e saí do Conde, deixando a multidão animada e entrando no tranquilo silêncio da noite.