O Guardião
Capítulo 32
Acordei no dia seguinte com um inchaço do tamanho de um ovo no ombro, mas nada mais que demonstrasse que eu chegara muito perto da morte menos de vinte e quatro horas antes. Eu já havia vivido a cura pela magia antes, mas nada que se assemelhasse àquilo. O Grou ensinara muito bem a Célia.
Afastando os últimos resquícios de sono, puxei a gaveta debaixo de minha escrivaninha, levantei o trinco escondido e abri o nicho. Tirei algumas dúzias de ampolas de Sopro de Fada de meu estoque de negócios, assim como um punhado de outros produtos químicos, sentei-me à escrivaninha e me pus a trabalhar. Foi demorado e quarenta e cinco minutos se passaram antes de eu vestir as roupas e arrumar minhas armas. Eu precisava me apressar para meu encontro com o Espada.
Garrincha estava sentado a uma mesa, ouvindo as bobagens de Adolphus sobre sua juventude. Era agradável descer as escadas sem ser submetido à notícia de mais alguma terrível tragédia, só pra variar.
- É verdade. Uma vez eu comi um pernil inteiro de uma vez só.
- Ele comeu mesmo. Eu estava junto. Foi tão impressionante quanto grotesco. Ele ficou um mês e meio fedendo a porco. Os drens o chamavam de Varken van de Duivel e desmaiavam com o cheiro de toucinho cozido.
Adolphus começou a gargalhar e até Garrincha ensaiou uma risada. O porco do diabo levantou e ajeitou as calças.
- Quer que eu peça a Adeline para lhe fazer um desjejum?
- Acho que não. Já estou atrasado.
- Vou pegar meu casaco - disse Garrincha.
- Não precisa, está bem quente aqui.
Com o olhar enfurecido ele disse:
- Eu vou junto.
- É interessante, mas você não vai. Você vai ficar aqui fazendo companhia a Adolphus, mas é bom ver que você tem uma imaginação tão fértil assim - respondi. A expressão de fúria que ele me dirigiu foi um esforço em vão. Havia gente demais tentando me matar pra eu ficar preocupado com a raiva de um adolescente.
A neblina do dia anterior havia se dissipado, deixando como resultado a manhã de céu limpo que costuma anteceder a neve.
Segui ao norte pela Rua Pritt, em direção à Cidade Velha. Eu chegaria alguns minutos atrasado para minha reunião com Beaconfield, mas poderia conviver com isso. Um pouco de rudeza é sempre bom quando se lida com sangues-azuis, lembra–os que você não está tão interessado neles quanto eles mesmos. No meio do caminho começou a nevar e os flocos anunciavam o início de uma nevasca. Acelerei meu passo e tentei esquematizar na cabeça o andamento da hora seguinte.
Os Jardins de Seton são um parque agradável na direção da periferia da cidade, perto das antigas muralhas e logo ao norte do enclave asher. Avenidas ladrilhadas conduzem pelo meio de um bosque preservado, uma grande área verde no meio de uma paisagem cinza, longe o bastante dos cortiços para manter a ralé afastada. No centro há uma amável fonte de granito perto de uma área verde impecavelmente bem cuidada, uma adição estranha à topografia e que não teria o menor significado para o visitante comum. Na maioria das manhãs ela fica praticamente vazia, longe demais do interior para ser muito frequentada.
Em raras ocasiões, porém, a solidão pacífica dos jardins é interrompida pelo atrito das espadas e pelo rasgar das camisas de seda. Por tradição, o parque foi designado à arena onde a camada superior diminui seu rebanho. Aquela curta faixa de gramado bem cuidado já ficou quase tão empapada de sangue quanto as planícies da Gália. Duelos são ilegais no Império, mas só no papel, já que na prática a Coroa normalmente fica contente em fazer vista grossa a assassinatos ocasionais. Nesse aspecto pelo menos a lei trata os de cima e os de baixo igualmente.
Aquele era o principal motivo pelo qual não queria Garrincha junto a mim. O lorde Beaconfield não tinha me chamado para um passeio no parque. Ele havia me chamado para vê-lo matar alguém. Pelas minhas contas, seria a quarta pessoa naquela semana.
Entrei no parque e fui logo envolvido por suas árvores. Algumas centenas de metros caminhando pela trilha cultivada e o barulho da cidade já estava perdido no silêncio da manhã.
Mais adiante a quietude foi perturbada pela comoção de uma pequena multidão. Aparentemente eu não seria o único presente entre o público.
Um pequeno grupo estava reunido em frente aos campos de duelo. Uns vinte ou trinta homens, amigos e conhecidos dos participantes. Essas coisas não costumam ser exatamente anunciadas. Abriguei-me abaixo de uma árvore erma e fiquei observando. Eu estava na presença de alguns nomes tradicionais. Fazia tempo que eu não precisava estar familiarizado com a corte, mas minha memória esfarrapada foi suficiente para identificar dois condes e um marquês que costumava passar informações para a Casa Negra. Provavelmente ainda o fazia, se formos pensar nisso.
No lado oposto ao público estavam os combatentes e seus grupos, separados entre si por uma faixa de cerca de vinte metros de grama. Beaconfield estava sentado em uma banqueta, reclinado confortavelmente vestido em uma túnica multicolorida e por um longo casaco preto. Ele estava cercado por meia dúzia dos membros de sua turma, todos eles vestidos com menos extravagância para a festa, mas segundo minha própria estética ainda em trajes inadequados para o que iria acontecer.
Eles estavam se divertindo entre si, dando cambalhotas por seu capitão, que sorria, mas não gargalhava.
Do outro lado a atmosfera era totalmente diferente. O oponente do Espada estava praticamente sozinho, a não ser por um ajudante, e ambos davam pouca demonstração de estarem alegres. O duelista sentado no banco tinha o olhar distante, sem foco, mas duro. Ele estava mais para a meia-idade do que para a juventude, não muito velho, mas velho demais para se envolver nesse tipo de insensatez. Seu ajudante estava em pé ao seu lado.
Tinha a saliência da barriga visível mesmo usando um sobretudo e esfregava as mãos nervosamente.
Nunca descobri por que eles estavam brigando. Alguma desobediência à etiqueta, algum tipo de bobagem nebulosa pela qual as classes mais altas adoram derramar sangue. Suspeitava que a falta tivesse sido cometida por Beaconfield. As pessoas gostam de demonstrar o que faz delas excepcionais, e a excepcionalidade do Espada Sorridente estava em sua cintura.
O duque percebeu minha presença e fez um discreto aceno.
Ele fazia aquilo com tanta frequência ao ponto de poder usa-lo como um ponto de exclamação em nosso relacionamento? Filho da puta doente.
De canto de olho vi o mordomo de Beaconfield descolar-se da multidão e vir em minha direção.
- Você trouxe a mercadoria? - perguntou como se aquilo fosse jeito de cumprimentar uma pessoa.
- Não vim andando até aqui só porque faz bem para a saúde - respondi, repassando a ele um pacote sem nada escrito contendo a vinorífica e o Sopro de Fada no valor de alguns ocres.
Ele colocou tudo por dentro da cinta e me entregou uma bolsinha que parecia mais pesada do que devia. Nobres gostam de esbanjar dinheiro, se bem que, se Mairi estivesse correta, Beaconfield não dispunha de tanto assim para desperdiçar. Tuckett parecia estar à espera de que eu dissesse mais alguma coisa.
Quando percebeu que eu não diria mais nada, ele disse:
- Espero que você aprecie o privilégio que tem. Você foi convidado a testemunhar um espetáculo extraordinário.
- Sinto muito por lhe contar uma coisa assim, Tuckett, mas a morte não é um acontecimento tão raro. Nem o assassinato, pelo menos não lá de onde venho.
Ele fungou e voltou para o meio da multidão. Eu enrolei um cigarro e fiquei olhando os flocos de neve derreter em meu casaco.
Alguns minutos se passaram. O juiz se posicionou no centro do campo e fez um sinal para os dois ajudantes, que se aproximaram.
- Eu falo em nome do senhor Wilkes - disse o gordo, cuja voz era firme o bastante para não o constranger.
O adjunto do Espada não era tão ruim quanto poderia. Até onde eu sabia, o código duello não exigia que os participantes enrolassem o cabelo, mas ele pelo menos caminhava ao invés de saltitar.
- Eu falo em nome do duque Rojar Calabbra Terceiro, o lorde Beaconfield.
O ajudante de Wilkes voltou a se pronunciar, suando apesar do frio.
- Não pode haver um acordo entre os dois cavalheiros? Meu lado, por sua vez, deseja fazer uma admissão de que sua informação foi obtida de segunda mão e não representa uma exata transcrição da conversa.
Não pude decifrar inteiramente o júridiquês, mas a linguagem parecia um passo no sentido da reconciliação.
O assessor de Beaconfield respondeu com arrogância:
- Meu lado não se satisfará com nada que não seja uma completa retratação e um pedido de desculpas feito em fórum público.
Já essa declaração não tinha nada de aparentemente conciliadora.
O gordo olhou de volta para Wilkes, com um olhar implorador e o rosto pálido. Wilkes não olhou para ele, mas sacudiu a cabeça uma vez, negativamente. O gordo fechou os olhos e engoliu seco antes de começar a falar:
- Então o assunto deve ir adiante.
O juiz então falou novamente:
- Cavalheiros, aproximem-se de mim com suas armas desembainhadas, mas abaixadas. O combate continuará até que haja desistência ou a primeira ferida de sangue.
O Espada desvencilhou-se de sua massa de simpatizantes vivamente coloridos e dirigiu-se até o centro do campo. Wilkes ergueu-se da banqueta e fez o mesmo. Eles ficaram a apenas alguns poucos metros um do outro. Beaconfield deu um sorriso, como de costume. O rosto de Wilkes estava impassível. Contra minhas próprias noções de probabilidade, peguei-me torcendo por ele.
- Ao meu sinal - disse o juiz, saindo do gramado. Wilkes ficou em guarda. Beaconfield manteve a ponta de sua espada arrogantemente para o lado.
- Comecem.
Descobri ainda bem jovem que Aquela que Espera por Trás de Todas as Coisas é uma senhora que não discriminava ninguém, quando a peste levou velhos e crianças bem nascidas sem distinção. A Guerra reforçou essa lição. Anos e anos vendo lançadores drens e guerreiros ashers morrendo ao serem atingidos por cápsulas de artilharia bem disparadas corrigiriam qualquer ilusão tardia em relação à inviolabilidade da carne. Ninguém é tão bom ao ponto de não poder perder de um amador se a luz estiver errada ou se o pé prender num buraco. Algumas dezenas de quilos de carne, uma estrutura óssea não tão vigorosa quanto parece. Nós não fomos desenvolvidos para a imortalidade.
Dito isto, eu jamais vi ninguém como Beaconfield. Nem antes e nem depois. Ele era mais rápido do que pensei que uma pessoa fosse capaz de ser, rápido como um raio vindo do vazio. Ele lutava com uma espada pesada, algo no meio do caminho entre um florete e uma espada longa, mas com a destreza de quem maneja uma navalha. Nenhum movimento era desperdiçado, nenhuma gota de energia era exaurida desnecessariamente.
Wilkes era bom, muito, e não apenas no estilo arcaico e formal de duelo. Ele já havia matado homens antes, talvez na Guerra, talvez em algum daqueles pequenos tête-à-têtes nos quais os ricos se envolvem ao invés de trabalharem honestamente, mas ele não era estranho ao derramamento de sangue. Fiquei pensando se eu seria capaz de duelar com ele e achei que talvez pudesse vencê-lo, se tivesse um pouco de sorte ou se meu estilo o surpreendesse.
Independentemente disso, ele não tinha a menor chance de competir com seu oponente, sua habilidade embaraçosamente inferior. Enquanto assistia ao Espada duelar com ele me pus apensar em o que em nome de Maletus pode ter convencido esse pobre bastardo a cruzar espadas com Beaconfield, em qual absurda questão de honra o obrigava a um gesto tão tolo.
No meio do mêlée, os olhos do Espada se levantaram e se prenderam nos meus, um floreio que teria custado a vida de qualquer outra pessoa. Ao perceber uma abertura, Wilkes foi com tudo ao ataque, projetando-se, com a ponta de sua arma em busca de carne. O Espada esquivou-se dos golpes de seu oponente, desviando de cada investida com a ajuda de algum instinto sobrenatural.
Beaconfield então atacou num piscar de olhos. Um golpe tão rápido que quase não fui capaz de acompanhar e Wilkes tinha um buraco no peito, para o qual olhou sem jeito antes de deixar sua arma cair e afundar no chão.
Vou admitir que cheguei a pensar uma ou outra vez depois que o conheci em até que ponto a reputação do Espada Sorridente derivava de rumores e diz-que-diz. Eu não perderia mais tempo. É importante conhecermos nossas limitações, não sermos cegados pelo orgulho ou pelo otimismo em relação à própria capacidade. Eu nunca pelearia como Adolphus nem tocaria tambores melhor do que Yancey, jamais seria aceito de volta pelo Comandante, nunca seria o tipo de homem de valor que se permite recomeçar a vida, jamais conseguiria sair da Cidade Baixa. E eu nunca, jamais, seria capaz de vencer o lorde Beaconfield em um duelo justo. Erguer a espada contra aquele homem era um ato de suicídio, assim como engolir leite de viúva.
Wilkes teve o que pediu, eu suponho. Não se pode sair por aí brigando com gente que leva “espada” no apelido. Ainda assim, a pequena multidão não parecia muito empolgada com o resultado. O golpe de misericórdia de Beaconfield fora um mau hábito. Uma coisa é o combatente sangrar até a morte de um corte na barriga sofrido no meio da luta, outra é ser abatido com um golpe deliberadamente mortal. Havia um código de conduta para essas coisas. O primeiro sangue derramado também não era o último. Os homens do Espada fizeram as mesuras adequadas, é claro, cumprimentavam-se entre si, mas o restante do público não estava com muita pressa para enaltecer o vitorioso.
Um médico correu para o campo, seguido pelo adjunto de Wilkes, mas eles não deviam estar com muita esperança e, se estavam, ela logo foi frustrada. Eu pude ver que o ferimento fora mortífero de cinquenta metros de distância.
O Espada voltou para seu poleiro no banco de madeira, cercado por seu entourage de cortesãos, bajulando-o com congratulações pelo assassinato ritual. A camisa dele estava desabotoada abaixo de seu pescoço e flocos de neve acumulavam-se em seu cabelo negro. À exceção de um rubor vigoroso, havia pouco que indicasse sua recente participação em alguma forma de disputa atlética. O bastardo nem suava. Ele ria de algo que eu não sabia o que era quando me aproximei.
Cumprimentei-o com uma reverência.
- Devo dizer que foi um prazer ver meu senhor demonstrar suas habilidades a serviço de tão nobre esforço.
Ele assumiu um leve ar de desdém e eu fiquei impressionado em como seu comportamento mudava diante de seus lacaios.
- Fico contente que você tenha tido a oportunidade de testemunhar isso. Como você não respondeu ao meu convite, eu não tinha certeza que viria.
- Ainda sou um criado de meu senhor, tanto nisto como em todas as outras coisas.
Os bajuladores interpretaram aquilo como a adulação devida a seu líder, mas o duque me conhecia bem o bastante para apreciar o sarcasmo. Ele se levantou e afastou os parasitas que o cercavam:
- Caminhe ao meu lado.
Fiz como ele mandou, entrando em um estreito caminho de pedra que saía da fonte. O céu esbranquiçado emitia luz, mas nenhum calor atravessava os galhos das árvores. A neve caía forte agora e apenas pioraria depois.
Beaconfield manteve-se em silêncio até sairmos do alcance dos ouvidos das demais pessoas e então saltou na minha frente e disse:
- Analisei nossa última discussão.
- É elogioso saber que tenho um lugar nos pensamentos do meu senhor.
- Suas palavras me deixaram perturbado.
- Ah?
- Assim como suas ações contra mim no intervalo.
- E quais alterações em meu comportamento satisfariam meu senhor?
- Para com essa merda. Eu não acho isso engraçado - disse ele, projetando-se com a arrogância de um galo agora que tinha por trás de si o rastro de um homicídio. - Pare de investigar. Diga a seus superiores o que precisarem ouvir para sair detrás de mim. Farei compensar o seu lado. Tenho influência na corte e tenho dinheiro.
- Não, você não tem.
Seu rosto, vermelho do esforço recente, tornou-se pálido e ele respondeu sem jeito, não tão habilidoso com as palavras como com sua arma.
- Tenho outros meios de quitar minhas dívidas.
- Você gasta muito verbo - disse eu - para uma pessoa com tantos trunfos.
Ele deu um sorriso discreto e eu me lembrei que havia algo nele que não era totalmente condizente com o arquétipo que ele gostava de personificar.
- Eu falei sem pensar - ele engoliu seco. A humildade tinha um gosto desconhecido em sua boca. - Tomei algumas decisões ruins, mas não vou permitir que a Casa Negra as use para me destruir. Ainda não foi longe demais. Não é tarde para perdoar.
Pensei no corpo arrebentado de Tara, no de Crispin caído na podridão da Cidade Baixa e discordei.
- Eu o avisei da outra vez, Beaconfield. Isto não existe.
- Isto me desagrada - disse ele então, projetando-se imperiosamente. - E você dispõe de evidências suficientes em relação ao que acontece com quem me desagrada.
Como se eu já tivesse esquecido da parte da manhã na qual ele matou um homem para me impressionar.
- Você justifica o apelido, mas eu não vou me preparar pra isso nem marcar a melhor hora para ser assassinado. Não construí minha reputação esfaqueando nobres em gramados bem cuidados. Eu a construí na escuridão, nas ruas, sem um grupo de cortesãos para me aplaudir nem um manual para me ensinar a agir -expus os dentes em um sorriso agudo, feliz por não ter mais que dissimular, feliz por finalmente pôr na mesa o ódio nutrido em banho-maria por esse almofadinha monstruoso. - Se vier atrás de mim, é melhor começar a pensar torto, e também é melhor começar a colocar seus assuntos em ordem - disse eu e saí andando, sem querer dar a ele a chance de uma última palavra.
Porém, ele a aproveitou mesmo assim:
- Mande lembranças a Wilkes quando o vir!
Você vai encontrá-lo primeiro, seu filho da puta, pensei, seguindo ao leste de volta para a cidade. Você vai encontrá-lo primeiro.