O Guardião
Capítulo 27
Acordei na manhã seguinte com meu travesseiro empapado em um líquido que eu sinceramente esperava que não fosse vômito. Ao despertar do sono eu cocei meu nariz e constatei uma crosta de sangue ressecado. Não havia bile, somente os efeitos colaterais de uma noite de abuso de Sopro de Fada. Não sabia ao certo se isso era bom ou ruim.
Uma espessa camada de fleuma pousou no penico e foi seguida de uma série de outros dejetos. Depois abri a janela e o esvaziei na viela abaixo, recuando da rajada congelante que entrou enquanto o fazia. Uma nuvem negra pairava sobre a cidade, engolindo a luz de forma a dificultar até mesmo saber que horas eram.
Pela rua eu pude ver as poucas pobres almas que caminhavam apertando seus casacos enquanto lutavam contra a ventania.
Lavei o rosto com a água da bacia. Estava fria e velha, ali desde ontem ou anteontem. O reflexo em meu espelho de mão revelava os olhos injetados, com cada veia perversamente inchada.
Estava com uma aparência de merda e me sentia pior que isso. Desejei que não fosse tarde demais para um café e alguns ovos.
Lá embaixo o salão dianteiro estava vazio. O tempo ruim afastava os clientes. Adolphus e a esposa estavam ocupados nos fundos. Sentei-me no bar e retirei o formulário que peguei de Crispin, lendo o nome de cada praticante relacionado e tentando ver se algum deles deflagrava alguma lembrança.
Nenhum deflagrou. Com a exceção de Brightfellow, cujo nome não era tão comum ao ponto de eu razoavelmente imaginar que havia um homônimo por aí, eu não tinha ouvido falar de nenhum deles. Li então a segunda coluna. Dos doze outros nomes na lista de feiticeiros, oito estavam mortos e três continuavam na ativa. Sobre os mortos seria difícil escavar informações e eu não podia conceber alguém ainda a serviço da Coroa empolgado em falar de uma experiência secreta solta por eles uma década antes. Tudo isso deixava apenas um nome: Afonso Cadamost, um Mirad adaptado, a julgar por seu nome.
A ajuda de Célia vinha sendo inestimável, fundamental até, mas havia coisas que ela não podia me dizer. Eu precisava saber com exatidão o que estava enfrentando, a essência da terrível criatura de Brightfellow e como detê-la. Para isso eu precisaria conversar com alguém que tivesse as mãos sujas, e eu tinha a impressão de que as de Cadamost estariam tão imundas quanto as dos outros.
Até ali tudo bem. Mas eu não tinha a menor ideia de como encontrá-lo. Eu poderia acionar meus contatos, mas isso provavelmente não daria muito resultado. Ele não estaria necessariamente em Rigus, nem mesmo vivo. Não é só porque o governo não sabe que algo aconteceu que significa que não tenha acontecido, e pode incluir a solvência constante de meu negócio nesta categoria.
Eu estava ruminando isso quando Adolphus apareceu com o rosto pálido e trêmulo, pronto para descarregar a calma da terrível notícia. Aquilo estava se transformando num ritual matinal particularmente desagradável.
- Tudo bem. Eu já soube.
- Já soube sobre Crispin?
Fiz um sinal afirmativo com a cabeça.
Ele pareceu primeiro intrigado, depois aliviado e, por fim, apologético. Adolphus tem um rosto expressivo.
- Sinto muito - limitou-se a dizer. O fato de ele sinceramente sentir muito era mais valioso do que qualquer tentativa de discurso.
- Se você quiser melhorar as coisas para mim, poderia pedir para Adeline me fazer uns ovos - disse eu, interrompendo-o no meio do caminho para a cozinha. -Como você ficou sabendo? - perguntei, mas o questionamento óbvio já não parecia tão óbvio depois de ter passado a noite judiando do cérebro.
- Um agente passou aqui quando você estava dormindo. Ele disse que voltaria depois.
- A Coroa apareceu e não foi para cima de mim?
- Ele não estava em missão oficial. Ele disse ter vindo apenas por cortesia. Aquilo sugeria um grau de civilidade improvável sob as melhores circunstâncias.
- Qual era o nome dele? - perguntei.
- Ele não disse e eu não estava muito interessado em saber. Sujeito jovem, loiro platinado, meio indesejável.
O que Guiscard queria comigo agora? Revanche? Não consigo imaginar Crispin sendo tolo ao ponto de divulgar a ação altamente ilegal que havia praticado.
Adolphus recomeçou a viagem até a cozinha.
- E passe um café, quando voltar aqui - gritei enquanto aporta se fechava por trás dele.
Ponderei as circunstâncias que me envolviam enquanto tentava me desvencilhar de minha dor de cabeça. O grandalhão voltou depois de alguns minutos com o desjejum.
- Adeline cozinhou isso aqui? - perguntei, mastigando um pedaço de toucinho queimado.
Ele sacudiu a cabeça.
- Ela foi com Garrincha ao mercado. Isto é obra minha.
Cuspi um pedaço de casca de ovo.
- Chocante.
- Se não gostou, você mesmo pode fazer seu próprio café da manhã.
- Não creio que nosso amigo seja um grande cozinheiro - comentou uma voz vinda de trás de mim.
- Feche a porta - disse eu.
Guiscard fez justamente aquilo e o uivo do vento tornou-se novamente inaudível. Adolphus olhou por cima do meu ombro para o recém-chegado com uma expressão indisfarçada de desgosto.
O agente acomodou-se em um banco próximo de onde eu estava. Ele parecia cansado e irritado e tinha os cabelos louros despenteados. Havia até mesmo uma pequena mancha de comida em sua lapela direita, evidência da perturbação que a morte do ex-parceiro estava provocando nele. Lançou para mim um rápido cumprimento com a cabeça e disse a Adolphus:
- Café preto, por favor.
- Não estamos abertos - disse Adolphus, atirando seu paninho no balcão e desaparecendo pelos fundos.
Eu tomava minha xícara de café em silêncio.
- Ele não gosta muito de mim, não é? - perguntou Guiscard.
Adolphus na verdade tem um coração macio e uma política de acesso mais macia ainda. Ele provavelmente atenderia o Chefe de Estado da República Dren, caso sua eminência desse o ar da graça. Desconfio que as crueldades por ele sofridas na última vez que a Coroa entrou em seu estabelecimento o deixaram menos enamorados das forças da lei.
- Tenho certeza de que eu teria uma recepção similar em seu bebedouro predileto.
- Você provavelmente teria. Ele pelo menos lhe repassou meu recado?
- Já soube da notícia.
- Sinto muito.
Todo mundo ficou tão pesaroso de repente.
- Não sinta por mim. Eu mal conversei com ele durante meia década. Você era o parceiro dele.
- Um parceiro bem menor, e isso durante apenas seis meses. Acho que ele nem gostava de mim.
- Eu sei que ele não gostava de mim e mesmo assim sinto muito pela morte dele. Alguma pista na Casa Negra?
- A investigação inicial não revelou nada. A Cadela de Gelo está indo agora para a cena do crime. Alguns dos homens queriam interrogar você, mas recebemos ordens de cima para deixá-lo quieto. Acho que você ainda tem alguns amigos nos andares superiores.
O Comandante não era amigo, por mais maleável que alguém considere a palavra, mas não queria interferência em minha investigação.
- E quanto a você? Tem alguma ideia? - perguntou Guiscard. Olhei para minha bebida, o líquido grosso e negro.
- Tenho minha suspeitas - disse eu.
- Devo supor que você as queira compartilhar?
- Suponha o que você quiser.
Pela primeira vez na conversa eu tive um vislumbre do homem que conheci sobre o corpo da Tarinha. Ele estava tentando se desarmar e, a seu favor, quando abriu a boca novamente sua voz estava livre de qualquer desdém.
- Eu gostaria de ajudar se possível.
- Eu pensei ter ouvido que você não gostava dele?
- Eu disse que ele não gostava de mim. Eu sempre gostei dele, mas isso não vem ao caso. Ele era meu parceiro e existe um código em relação a essas coisas. Se a Casa Negra não puder descobrir quem o matou, creio que minha aposta melhor é com você.
Esse último comentário parecia cheio demais do sentimentalismo dos jovens para o meu gosto. Cocei o rosto e pensei na possibilidade de ele estar mentindo, e também em que diferença isso faria.
- Por que eu deveria confiar em você?
- Eu não tinha percebido que você estava tão inundado de recursos para poder se dar ao luxo de rejeitar uma oferta de ajuda.
- Tudo bem - disse eu, mostrando para ele o pedaço de papel que tinha guardado em meu bolso. - Foi por causa disso que Crispin foi morto. Peguei isso do corpo dele antes de vocês chegarem. É uma informação fundamental para a solução de um crime. Ao não entregar isso imediatamente para o agente encarregado da investigação você viola seu juramento de árbitro imparcial da Justiça do Trono; ao não me entregar para a Casa Negra você está ajudando um potencial suspeito de relação com um crime capital. O primeiro caso pode resultar em rebaixamento de posto e o segundo em exoneração.
- Por que você está me mostrando isso?
- Existe um homem citado nesta lista com o qual eu gostaria muito de falar, uma pessoa que pode lançar alguma luz sobre a morte de Crispin. Eu não posso encontrá-lo, mas você pode. E se você o encontrar e eu estiver ali para ouvir... isto me seria útil. Desde que, é claro, eu não seja engaiolado por ter violado uma cena de crime.
Nós nos encaramos. O costume obrigava uma última rodada de desafio. Então ele disse com firmeza:
- Você não será.
- É o Mirad, terceiro nome de baixo para cima. Ele se levantou da banqueta.
- Aviso quando descobrir algo.
- Agente, você se esqueceu de uma coisa.
- E o que foi? - perguntou ele, com o que parecia ser uma confusão honesta.
- Você não devolveu meu formulário.
- É verdade, desculpe-me - respondeu ele, retirando-o do casaco e entregando-o para mim antes de dirigir-se para a saída.
Talvez Guiscard não fosse tão lerdo quanto eu acreditava. Beberiquei meu café e pensei nos passos seguintes do dia. Adolphus voltou dos fundos.
- O sangue azul já foi? - perguntou.
- Ele não está escondido embaixo da mesa.
Bufando, Adolphus procurou em seu bolso e depois me entregou um pergaminho branco selado com cera.
- Isto chegou antes de você acordar.
Segurei-o contra a luz, prestando atenção ao selo, um leão cortado por um trio de diamantes.
- No futuro você pode simplesmente me informar de qualquer coisa que eu não saiba logo quando me vir. Não precisava me passar tudo em conta-gotas, como um velhinho mijando.
- Eu não sou carteiro.
- Você não é cozinheiro, você não é carteiro, o que você faz aqui então? Adolphus revirou seu olho e começou a limpar as mesas.
Os bêbados da tarde logo começariam a chegar, com ou sem tempo inclemente. Parti o selo de cera com a unha do polegar e li a missiva.
Percebi que os suprimentos pedidos na noite em que nos conhecemos provaram-se insuficientes para minhas necessidades. Talvez você possa vir aos Jardins de Seton amanhã, antes das nove, com uma quantidade similar, e devemos conversar depois que eu concluir alguns negócios não relacionados a este.
De seu amigo de confiança, Sua Alteza o Lorde Beaconfield.
Normalmente Meus Amigos de Confiança não me dão ordens disfarçadas de pedidos, mas era preciso dar um desconto para os hábitos da crosta superior. Dobrei a nota e a coloquei em minha bolsa.
- Está aberto? - perguntou um cliente de voz indistinta atrás de mim. Aquela pareceu uma boa deixa e já estava quase na hora de a prostituta mais cara de Rigus cuidar dos meus problemas. Peguei meu casaco no quarto e saí para a tempestade.