O Guardião
Capítulo 42
Na manhã seguinte eu me agasalhei bem e saí para ver o Doutor. Ao caminhar contra a tempestade eu sentia um otimismo no andar que não vinha sentindo havia dias. A não ser que meu gatuno tivesse estragado totalmente sua missão, eu conseguiria limpar minha barra com o Comandante com um dia inteiro de vantagem. Esse pensamento foi suficiente para me fazer esquecer da neve durante alguns minutos.
Assim que cheguei ao pub Daeva’s Work sentei-me em um banco no fundo e pedi uma xícara de café. O Doutor chegou alguns minutos depois, limpando o gelo de seu pesado casaco de frio. Ele se sentou e passou para mim um pacote de papéis por baixo da mesa.
- Estava no fundo falso na mesa dele. O dardo da armadilha estava empapado em peçonha de enguia do brejo.
- Espero que tenha sido difícil o bastante para interessá-lo - disse eu.
O Doutor não respondeu e eu comecei a folhear o arquivo que ele me havia conseguido. Mairi podia ser uma prostituta traiçoeira, mas as fontes dela não eram ruins. A primeira metade do pacote consistia no livro de contabilidade do Espada e não era necessária a ajuda de um contador para perceber que ele estava mais vermelho que uma virgem na noite de núpcias.
Eu tinha o motivo.
Aquela, porém, não era a parte interessante. Junto com o livro de contas havia uma série de correspondências trocadas entre Beaconfield e diversos homens que eu sabia serem espiões de uma série de embaixadas estrangeiras. Parece que, antes de ingressar no assassinato de crianças, o Espada andara envolvido em traição. Miradin, Néstria, até a porcaria dos Drens. Não existia nenhum país em todo o continente para o qual o pobre Beaconfield não havia tentado vender a alma. Mas não tinha ido muito longe.
Como todo amador no ramo da espionagem, Beaconfield confundia fofoca com informação. Na verdade, as cartas continham pouco além de polidas respostas de diversos agentes de baixo escalão, todas elas rejeitando os serviços do Espada. Sua incompetência, no entanto, não serviria de defesa num julgamento e seu status de nobre faria qualquer contato com um emissário estrangeiro um crime passível de enforcamento.
Era interessante, mas nada daquilo estava ligado aos assassinatos, e eu sabia que não seria o bastante para o Comandante, não com a volúpia que ele tinha por mim. Meu coração se acelerou e tentei controlar os batimentos.
- Isto era tudo?
Desde a hora que havia se sentado diante de mim eu pude perceber que Kendrick tinha um ar fechado que contrastava com a afabilidade demonstrada em nossa primeira conversa. A situação agora progredira de tal forma que minha pergunta casual o fez olhar com uma cara feia que não combinava com seu rosto.
- Não, isto não era tudo. Isto não era nada na verdade - por baixo da mesa ele me passou um pacote enrolado em papel pardo.
Desfiz o laço e deixei o objeto que estava dentro cair em minhas mãos.
Se eu a visse numa prateleira ou atrás de um copo, não significaria nada para mim: uma navalha aberta, de um tipo que podia ser comprado em qualquer esquina, um pedaço afiado de lâmina preso a uma armação grosseira de ferro. Mas com ele em mãos eu podia afirmar claramente o que era. Assim que encostei no metal senti a bile subir por minha garganta e meus testículos encolheram. Coisas vis haviam sido feitas com aquela arma, atos que manchavam sua própria substância. Seu contato com o vazio havia penetrado em nossa realidade e deixado para trás uma lembrança de suas blasfêmias. Não era preciso ser um vidente para identificar aquilo, nenhuma espécie de grau extraordinário de percepção. Era possível sentir nas vísceras, na alma. Enrolei a coisa de volta no papel e coloquei dentro da minha bolsa.
O Doutor percebeu tudo e não estava contente com aquilo.
- Você não vai dizer nada sobre isso?
- Eu não sabia disso. Ele se levantou e disse:
- Mande o dinheiro para o meu agente. E não entre em contato comigo novamente. Não gosto de estar na escuridão.
- É um jeito de merda de se passar o tempo - respondi.
Fiquei ali sentado enquanto ele ia embora e continuei ali por mais um tempo. O Doutor não era a pessoa que eu mais gostava no mundo e eu não passaria outro trabalho para ele nem se ele estivesse a fim de pegar, mas eu não podia deixar de perceber que no fim das contas eu estava convencendo muita gente a parar de falar comigo.
De qualquer forma, eu tinha em mãos o que precisava. Não havia como o Comandante ignorar o instrumento de sacrifício com o qual Beaconfield havia disposto de duas crianças.
Cheguei ao Conde em vinte minutos. Entre sair e voltar eu havia levado menos de uma hora. Gritei uma saudação, pavoneado com o êxito e à espera dos aplausos das galerias. Eu sabia que Adeline teria saído para ir às compras, mas achei que Garrincha e meu parceiro estariam por ali para se condoerem de meu sucesso.
O garoto, no entanto, não estava à vista e Adolphus estava sentado ao lado do fogo, com o rosto endurecido e um pedaço de papel aberto em uma das mãos. Ele me passou o bilhete sem nada dizer e antes de o abrir eu já tinha uma boa ideia do que devia ser.
Estou com a criança.
Você não vai fazer nada enquanto eu não entrar em contato.
Esmaguei o bilhete na mão e amaldiçoei a mim mesmo por ter sido tão burro.