O Guardião
Capítulo 7
O garoto estava sentado em uma mesa de frente para Adolphus. O sorriso largo e os gestos amplos indicavam que o grandão estava no meio de alguma piada exagerada mesmo antes de eu conseguir ouvir o que ele dizia.
- E o tenente diz: “O que te faz pensar que é pro leste?” E ele fala: “Porque ou o sol da manhã está nos meus olhos ou estou sendo cegado por seu brilho, e se fosse o segundo caso, você saberia usar uma bússola”. - Adolphus riu ruidosamente da piada enquanto seu enorme rosto sacudia. - Você consegue imaginar uma coisa dessas? Ali, na frente de um batalhão inteiro. O tenente não sabia se borrava as calças ou se levava ele à corte marcial!
- Garoto - interrompi. Garrincha desceu lentamente de sua cadeira, talvez tentando deixar claro para Adolphus que suas histórias de nossas carreiras militares não haviam infundido nele nenhuma espécie de influência.
- Você conhece bem Kirentown? - perguntei.
- Encontro o que você precisar que eu encontre - ele respondeu.
- Siga pela Rua do Largo, passe a Fonte do Viajante e você vai ver um bar à sua direita, abaixo de um desenho de um dragão azul. No balcão estará um cara gordo com cara de vira–lata espancado. Diga a ele para dizer a Ling Chi que eu te mandei lá. Diga a ele para dizer a Ling Chi que eu andarei pelo território dele amanhã. Diga a ele que não tem nada a ver com negócios. Diga a ele que eu considero isso um favor. Ele não vai te dizer nada. Esse pessoal é todo silencioso. Mas ele não precisa dizer nada. Apenas passe o recado e volte aqui - orientei.
Garrincha fez sinal com a cabeça de que havia entendido e se dirigiu para a saída.
- E me traga alguma coisa pra comer quando voltar - gritei, sem saber se ele tinha ouvido.
Virei para o gigante e disse:
- Pare de contar histórias da guerra ao garoto. Não há necessidade de deixar a cabeça dele cheia dessa insensatez.
- Insensatez! Cada palavra dessa história é verdadeira! Ainda há pouco você ria enquanto ele saía.
- O que aconteceu com o tenente?
Adolphus parou de sorrir.
- Ele cortou os pulsos uma noite depois de ter forçado a carga em Reaves -recordou.
- Nós o encontramos já sem sangue depois que ele não apareceu para o toque de alvorada. Então vamos parar com os bons e velhos tempos. Eles não têm nada de bom.
Adolphus fixou seu olho em mim.
- Pelo Primogênito, você está num humor.
Ele não estava errado.
- Tive um dia complicado - aleguei.
- Vamos lá, vou lhe servir uma cerveja - ofereceu Adolphus. Ele foi até o bar e pegou para mim uma caneca alta de cerveja. Fiquei bebericando enquanto aguardávamos o movimento noturno começar a pegar fogo.
- Eu gosto desse menino - disse Adolphus, como se tivesse acabado de perceber aquilo. - Ele não incomoda muito, já que fica quieto com relação à maior parte do que vê. Você tem alguma ideia de onde ele estaria dormindo?
- Na rua, eu suponho. É onde meninos de rua costumam viver.
- Não seja tão sentimental. Vai acabar deixando o balcão manchado de lágrimas.
- Você tem ideia de quantas crianças perdidas vivem na Cidade Baixa? -perguntei. - Esse moleque não tem nada demais. Ele nem é meu parente. Até ontem à noite eu nem sabia que ele existia.
- Você acha mesmo que acredita no que diz?
O dia pesava sobre meus ombros.
- Estou cansado demais para discutir contigo, Adolphus. Deixe de rodeio e vá direto ao assunto.
- Eu ia convidá-lo a dormir nos fundos. Adeline também gosta dele.
- O bar é seu, Adolphus, você pode fazer o que quiser aqui. Mas aposto um ocre que ele vai sumir com seu colchão.
- Apostado. Diga isso ao garoto quando ele voltar. Tenho que trabalhar. Os clientes estavam chegando e Adolphus voltou ao trabalho. Fiquei ali tomando minha cerveja enquanto começava a ficar sentimental. Depois de algum tempo o garoto retornou, trazendo consigo uma embalagem pequena de bife com pimenta. Ele tinha ouvido apurado. Eu ia me lembrar disso. Comecei a comer e perguntei:
- Adolphus te deu comida?
O garoto fez sinal afirmativo com a cabeça.
- Você ainda está com fome? Quando eu tinha sua idade tinha fome o tempo inteiro.
- Estou bem. Peguei um negócio de uma barraca de peixe no caminho de volta- disse ele, como se fosse algo de que se orgulhar.
- Eu te dei dinheiro hoje de manhã, não dei?
- Deu.
- E você já gastou tudo?
- Nem um cobre.
- Então não tem necessidade de você roubar comida. Só os degenerados roubam quando não precisam. Se você quiser seguir esse caminho, afaste-se de mim. Não preciso dar trabalho a nenhum maluco que rouba bolsas só porque acha isso emocionante.
A julgar pela careta dele, ele não se incomodou nada com minha comparação, mas também não disse nada em resposta.
- Onde você dorme? - perguntei.
- Diferentes lugares. Eu dormia embaixo do cais quando estava quente. Ultimamente tenho me abrigado em uma fábrica abandonada perto de Brennock. Lá tem um vigia, mas ele só faz ronda quando escurece e um pouco antes do amanhecer.
- Adolphus disse que você pode dormir nos fundos. Adeline provavelmente fará uma cama para você - falei.
Seus olhos ganharam um certo ar de revolta, como se a domesticação fosse o pior dos insultos a um jovem selvagem.
- Eu pedi um trabalho, nada mais. Não preciso de sua caridade - respondeu ele.
- Tem uma coisa que você deve saber sobre mim, garoto, caso seja burro demais e ainda não tenha percebido: eu não faço caridade. E eu não me importo nem um pouco com onde você dorme. Vá dormir dentro do rio Andel se quiser. Estou repassando uma oferta do grandão. Se quiser, aceite. Se não quiser, amanhã eu não vou lembrar que tivemos essa conversa - rebati. Como prova, voltei para minha bebida e depois de um momento ele se esgueirou pela multidão.
Terminei minha refeição e subi antes que o bar começasse a lotar. Em algum ponto da caminhada de volta do Ninho meu tornozelo machucado começou a doer de novo, e a curta escalada foi mais desagradável do que deveria ter sido.
Deitei-me na cama e enrolei um trabuco de vinonírica. O ar da noite entrava pela janela, trazendo um cheiro almíscar. Acendi o cigarro e pensei no trabalho do dia seguinte. O cheiro que vinha do corpo era forte, mais forte do que qualquer desinfetante usado para limpar cozinhas ou banheiros. E um desinfetante comum não seria forte o bastante para contornar um bom vidente. Talvez as fábricas de sabão, ou então as fábricas de cola, com seus solventes pesados. Os kirens detinham o monopólio daquele tipo de trabalho, e foi por isso que eu mandei o garoto liberar minha passagem com o chefe deles. Eu não iria causar problemas para o meu verdadeiro negócio enquanto fazia um desvio para tratar disso.
Apaguei a luz e dei baforadas de fumaça colorida no ar. Era uma mistura boa, doce para o paladar e forte para o meu peito, e enchia o quarto de sienna queimada. Quando o pavio estava pela metade, apaguei a ponta embaixo da minha cama e adormeci, com uma euforia discreta se espalhando pelo meu corpo com intensidade suficiente para anular o barulho de nossos clientes lá embaixo.
* * *
No meu sonho eu era criança novamente, perdida e sem ter onde morar, a mãe e o pai mortos pela peste, minha irmãzinha morta durante os distúrbios que acabaram com o pouco que restava de autoridade civil três semanas antes. Era minha primeira vez nas ruas da Cidade Baixa. Foi quando eu aprendi a arrumar comida, a ter apreço pela sujeira por conta do calor que ela emite enquanto você dorme. Foi quando eu vi as profundezas nas quais afunda um homem comum e aprendi que havia algo a ganhar indo ainda mais a fundo.
Eu estava no fundo de um beco, com as pernas bem encolhidas contra meu corpo, quando a aproximação deles me fez despertar.
- Viadinho. Ei, viadinho. O que você tá fazendo no nosso território? - gritou um deles. Estavam em três e eram mais velhos que eu, apenas alguns anos, mas aqueles poucos anos seriam suficientes. A tendência de poupar crianças foi uma das mais curiosas características da Febre Vermelha. Era bem possível que aqueles fossem os seres humanos mais velhos em um raio de dez quadras.
Eu nunca tive nenhum objeto de valor. Minhas roupas eram farrapos que não sobreviveriam se fossem arrancadas e eu havia perdido meus calçados em algum momento do caos do mês anterior. Eu não comia nada havia um dia e meio e dormia num buraco que havia escavado na parede de uma rua lateral. Mas eles não queriam nada de mim além de uma oportunidade para praticar a violência, e as redondezas aguçavam a crueldade natural das crianças a um nível febril.
Fiquei em pé, mas a fome tornava exaustivo até mesmo esse simples movimento. Os três tomaram posições. Eram jovens esfarrapados, de roupas e aparência não muito melhores que a minha. O que falava era um sobrevivente da febre, as marcas em seu rosto atestavam uma luta árdua mas vitoriosa contra a peste. Fora isso, havia pouco que o diferenciasse de seus colegas, com a fome e a miséria transformando-os em catadores esqueléticos, em fantasmas no meio do lixo, praticamente indistinguíveis.
- Você tem coragem, seu chupeteiro de meia tigela, para vir no nosso bairro sem ter a decência de pedir permissão.
Continuei calado. Ainda criança eu já achava absurdas as inócuas discussões que precediam as brigas. É só ir direto ao assunto.
- Você não tem nada a me dizer? - o líder se voltou para os outros dois, como se estivesse chocado com a minha falta de educação, e deu um soco na lateral da minha cabeça que me fez cair girando no chão. Deitei e esperei a surra que viria a seguir, resignado demais para questionar a justiça disso, resignado demais para pensar em algo além de sangrar. Ele me deu um chute na têmpora e minha visão ficou borrada. Eu não gritei. Não achei que tivesse forças para tanto.
Havia algo em meu silencio que o incomodava e de repente ele estava no meu peito, com os joelhos me prendendo no chão, com o antebraço em meu pescoço.
- Viado! Viadinho de merda!
De algum lugar distante eu ouvia os colegas de meu agressor tentando dissuadi-lo, mas os protestos deles foram ineficazes.
Resisti brevemente, mas ele me acertou novamente no rosto, acabando com minhas tentativas ineficazes de autodefesa.
Estava deitado no chão com o cotovelo dele na minha garganta, o mundo girando ao meu redor, o sangue na minha língua, então pensei: isto é a morte. Passei um tempão daquele jeito. Aquela que Espera por Trás de Todas as Coisas devia estar tendo muito trabalho na Cidade Baixa naquele ano e eu era um garotinho. Ela poderia ser perdoada por esse pequeno deslize, especialmente agora que ela viria retificar seu erro.
As luzes começaram a se apagar.
Um barulho alto se fez em meus ouvidos, parecido com o som de uma queda d’água.
Então minha mão se fixou em algo firme e pesado e eu bati com uma pedra na cabeça do garoto. A pressão em meu pescoço diminuiu e eu dei socos para cima até que ele perdesse todo o domínio. Eu estava agora em cima dele e o barulho que eu ouvia era o de seus gritos e o dos meus. Continuei assim, até que então somente eu gritava.
Depois veio o silêncio e eu estava sobre o corpo dele. Os amigos dele não riam mais. Em vez disso, olhavam como ninguém nunca havia me olhado e, apesar de os dois serem maiores que eu, recuaram cautelosamente e depois saíram em disparada. E enquanto eu os via ir embora, percebi que tinha gostado do olhar que vi nos olhos deles, tinha gostado de não ser a pessoa que olhava daquele jeito. E se aquilo significasse que eu precisava ter minhas mãos molhadas de pequenos pedaços do cérebro do garoto, que assim fosse, pois não era um preço alto demais apagar. Não chegava nem mesmo a ser um preço.
Um sorriso selvagem veio de dentro de mim e eu o vomitei para o mundo.
* * *
Quando eu acordei, meu peito estava pesado e eu estava sem fôlego. Eu me levantei e forcei meu coração a entrar no ritmo, contando as batidas, um dois, um dois. Já estava quase de manhã. Vesti minhas roupas e desci as escadas.
O bar estava quieto. Nossos clientes já tinham ido para casa bater em suas mulheres ou dormiam de porre. Tomei assento em uma mesa lateral e fiquei sentado no escuro durante alguns minutos, depois fui para os fundos.
O fogo já estava reduzido a brasas e o lugar estava frio. No chão, perto do fogo morto, havia um colchão que não havia sido usado. Não havia nenhum vestígio do garoto.
Saí pela porta da frente do Conde e me recostei em uma parede, enrolando um cigarro enquanto tremia. Ainda faltavam alguns minutos para o amanhecer e no lusco-fusco a cidade era da cor da fumaça. Minha tosse cortante, causada pelo frio do outono, ecoou com vigor pelas ruas abandonadas. Acendi o cigarro para atenuá-la. À distância, um galo anunciou a aurora.
Quando eu achar o filho da puta que fez aquilo com a menina, farei com que o que aconteceu com Lábio Leporino se pareça com a carícia de um novo amor. Por tudo o que é sagrado, ele terá uma morte lenta.