O Guardião
Capítulo 25
Deixei o garoto e fui ver Yancey. Quanto mais eu remoia a conversa da noite anterior com Beaconfield, menos eu gostava dela. Ele sabia onde eu dormia. Não havia nada que eu pudesse fazer quanto a isso. Mas se o Espada decidisse partir para cima de mim, ele começaria pelo Rimador, e esta era uma coisa que eu podia tentar influenciar.
Bati de leve na porta. Depois de um momento ela se abriu, revelando a mãe de Yancey, uma nativa da ilha com idade na casa dos cinquenta. Estava envelhecendo, mas continuava bonita. Tinha os olhos castanhos, sorridentes e vivos.
- Bom dia, senhora Dukes. É um prazer vê-la novamente depois de tão longa ausência - cumprimentei. Havia algo na Mama Dukes que despertava o cortesão que havia em mim.
Ela desconsiderou meu cumprimento e me abraçou. Depois ela me afastou delicadamente, segurando meus braços com os dedos longos de suas mãos.
- Por que você não tem passado para me ver atualmente? Já encontrou uma moça?
- Muito trabalho. Sabe como é.
- Sei tudo sobre seu tipo de trabalho. E por que você ficou tão formal de repente?
- Nenhuma reverência além da devida a tão honrada matriarca.
Ela riu e me conduziu para dentro.
A casa de Yancey era quente e clara, independentemente da estação. Os ilhéus eram considerados os melhores navegadores das Treze Terras e acabavam servindo mais do que sua cota na Marinha Imperial. Naturalmente, o filho mais velho dela pegava o cobre da Rainha e passava nove meses por ano no mar, mas mesmo com um morador a menos a casa parecia cheia, inundada de bricabraques conseguidos em portos estrangeiros e da coleção de tambores e de curiosos instrumentos feitos à mão de Yancey. Mama Dukes levou-me até a cozinha e sentou-se em uma banqueta junto à mesa.
- Você já comeu? - perguntou ela enquanto me servia um prato com o conteúdo das panelas fumegantes que estavam no fogão.
Eu ainda não tinha comido, mas não que isso importasse.
O almoço era peixe frito com vegetais e eu avancei sobre a comida com gosto.
Uma vez cumpridas suas obrigações de anfitriã, Mama Dukes acomodou-se em uma cadeira de frente para mim.
- Está bom, né?
Murmurei alguma coisa afirmativa com a boca cheia de cebola e pimenta.
- É uma receita nova. Peguei de uma amiga minha, Esti Ibrahim - contou ela.
Mandei mais um pedaço de peixe para o bucho. Aquilo não falhava nunca. Em algum momento da vida Mama Dukes convenceu-se que todos os meus problemas decorriam da ausência de uma mulher da ilha para dividir comigo a cama e cozinhar minhas refeições e estava determinada a suprir aquela ausência. Isso tornava minhas visitas um pouco cansativas.
- Viúva, cabelo bonito. Podia ser bem pior.
- Não tenho certeza de que eu seja a aposta mais estável no momento. Lembre-me disso na próxima vez que me vir.
Ela balançou a cabeça, numa expressão próxima da decepção.
- Você está com problemas de novo? Sempre se metendo em encrencas, pelo Primogênito. Poder rir o quanto quiser, mas você não é mais criança. Você está mais perto da minha idade que da de Yancey, estou errada?
Eu esperava que aquilo não fosse verdade, mas poderia ser.
- Ele está lá em cima - disse ela, batendo em meu braço com uma esponja molhada. - Diga a ele que o almoço já está pronto, se quiser comer - os olhos dela então tornaram-se duros. - Ele fica de fora de qualquer coisa que você estiver dentro. Não se esqueça que você é um convidado em minha casa.
Dei um beijo de leve em seu rosto e subi as escadas.
O fundo da casa de Yancey dava para a Fortaleza dos Indigentes, um despenhadeiro escarpado que funciona como fronteira de facto entre os ilhéus e os habitantes brancos das docas.
O fundo da fenda era repleto de lixo e a vista disso poderia trair a impressão de que a divisão natural era um adendo positivo à paisagem. Mas do alto, a quebra na linha do horizonte que a fenda proporcionava era bastante tranquilizadora. Quando eu apareci, o Rimador estava queimando uma folha de bananeira cheia de vinonífera. Dividimos o fumo e a vista durante alguns momentos em silêncio.
- Preciso de dois favores - comecei.
Yancey tinha uma das melhores risadas que eu conhecia, gostosa e satisfeita. Todo o corpo dele sacudiu com a risada.
- Você tem um jeito de começar as conversas.
- Esse é o meu encanto - admiti. - Primeiro, preciso de alguém que possa me manter informado sobre Beaconfield.
- Essa pessoa não sou eu, cara. Eu só o vi duas vezes até hoje - ele riu com um ar conspiratório e sua voz ficou uma oitava mais grave. - Além disso, não é muito inteligente para um empregado ficar prestando atenção ao mestre da casa, não é mesmo? - ele soltou uma série de anéis de fumaça, esverdeados e alaranjados. O vento os levou na direção do porto, ao sul, e a agitação das docas era perceptível até mesmo àquela distância.
- Mas pode ser que eu conheça alguém. Já ouviu falar na Mairi Olhos Negros, que cuida de um negócio ao norte do centro chamado Arca de Veludo?
- Uma casa de orações, sem dúvida.
- Pode apostar sua vida nisso, irmão. Glória ao Primogênito! - disse ele rindo e me dando um tapa nas costas. - Nem, cara, ela é uma velha amiga. Dizem que ela foi amante do Príncipe Herdeiro, tempos atrás. Agora ela vende rabos de alta classe a nobres e banqueiros e - ele piscou para mim - chama pelo primeiro nome todos os esqueletos escondidos em armários daqui até Miradin.
- Bruxa total.
- Ela tem talentos múltiplos - confirmou ele. - Vou avisar que você passará lá para falar com ela.
- Este é o primeiro favor. Você não vai gostar do segundo. Preciso que você suma por um tempo.
Ele se inclinou sobre a grade, o baseado pendurado sem seus lábios.
- Qual é agora? Não me diga uma coisa dessas.
- Viaje para a costa por uns dias ou, se quiser ficar na cidade, vá visitar seus amigos ashers. Apenas fique longe dos lugares onde costuma ir e não faça apresentações.
- Não estou no clima de fazer nenhuma viagem, cara.
- Se for por causa de dinheiro - comecei.
- Não é por causa de dinheiro. Tenho dinheiro suficiente. Não preciso mendigar- os olhos dele atravessaram a cortina de fumaça com uma ferocidade inebriada. -É você, seu merda, é tudo o que você faz. Você é um veneno. Todo mundo que você conhece torna-se uma pessoa pior por causa disso, sabia? Todo mundo. Eu não tenho problemas com ninguém, até que um dia lhe faço uma gentileza e o que acontece? - o tom da fala de Yancey mudou da crítica para a lamentação. - Viro um exilado em minha própria cidade - sentenciou. Ele soltou um suspiro e deu outro trago, soltando a seguir uma fumaça multicolorida no ar. - É por causa do Espada?
- Sim.
- Eu lhe disse que ele era perigoso. Você não presta atenção em ninguém?
- Provavelmente não o bastante.
- Por que ele está atrás de você?
- Tenho certeza que...
Yancey me interrompeu com uma quebrada de mão:
- Desencana, cara. Eu não quero saber.
Seria provavelmente melhor assim.
- Vou contornar isso pra você.
- Não vou botar muita fé nisso.
Ficamos um bom tempo inclinados sobre a barreira, passando o fumo de um para o outro até ele ficar reduzido a um toco.
Yancey finalmente rompeu o silêncio.
- Minha mãe tentou te arrumar namoro de novo?
- Esti Ibrahim, acho que era esse o nome dela. Ele sugou os dentes em contemplação.
- Faz o melhor peixe frito de Rigus, mas tem uma bunda do tamanho de um forno que daria pra cozinhar você.
- O peixe era realmente maravilhoso - admiti.
Ele deu risada e eu deveria ter rido também, como cortesia pelo menos. Mas a conversa com Meskie havia me deixado desorientado e tinha dificuldade em ser uma companhia alegre naquele momento.
- Então você fala com a Mairi pra mim?
O vislumbre de bom-humor do Rimador logo se desfez e ele deu as costas azedamente para a grade.
- Eu já disse que falaria, não disse? Eu olho pelos meus. Quando digo que vou fazer uma coisa, eu faço. Vou mandar alguém lá depois do almoço. Você pode ir vê-la na maldita hora que quiser - ele deu uma última baforada na vinonífera e expeliu uma fumaça alaranjada. - Se não houver mais nada que eu possa fazer por você, por que é que você não vai embora da minha casa? Tenho que encontrar um lugar pra dormir hoje à noite.
A profissão de Yancey exigia uma certa habilidade com a língua e acredito que eu merecia a extremidade mais afiada dela.
Para enfatizar a dispensa ele atirou a ponta no vazio abaixo de nós. Fiquei pensando se um dia voltaríamos a fumar juntos.
Sem nada mais a fazer eu desci pelas escadas e me dirigi à porta tomando cuidado para que Mama Dukes não me pegasse saindo. Depois de hoje ela provavelmente não teria mais tanto entusiasmo para me achar uma namorada.
Mais uma ponte queimada, creio eu.