O Guardião
Capítulo 49
Eu estava sentado no alto de uma das casas de Kid Mac alguns dias depois, a mais ou menos uma quadra do Ninho, vendo Rigus velar o Grou Azul. O corpo dele, cuidadosamente preservado e vestido com sua melhor túnica, uma que eu nunca o tinha visto usar, foi colocado sobre um pedestal dourado no alto de um palanque. Sentada no palco estava a nata da elite aristocrática e empresarial e uma dúzia de nobres que o Mestre não teve a oportunidade de escolher. O palanque estava cercado por seguranças. Não era a fraude, mas militares com suas alabardas em posição, de olho na multidão em busca de qualquer sinal de distúrbio. Ao redor desse núcleo, praticamente toda a Cidade Baixa saíra à rua para prestar sua última homenagem.
Continuava muito frio, mas já não nevava desde aquela última noite. O que restou transformou-se em uma mistura nada atraente de neve, sujeira e merda que caracteriza as nevascas na cidade. Eu e Mac estávamos passando o fumo um para o outro, lançando uma fumaça grafite no céu já acinzentado. Aquela última leva de vinonífera estava particularmente ruim. Se a coisa não melhorasse eu teria que começar a procurar outro fornecedor.
O Patriarca estava elogiando as virtudes do morto numa plataforma abaixo. Pelo menos era isso que eu achava que estava acontecendo. Minha audição ainda não estava completamente recuperada e, diante disso e dos murmúrios na multidão, eu tinha dificuldade para entender o que era dito. Mac não parecia impressionado. Tive dúvidas quanto à possibilidade de estar perdendo algo de substância.
- Você conhecia ele, né? - perguntou Mac.
Atrás de nós duas prostitutas fumavam e choravam baixinho, felizes pela oportunidade de externar sua capacidade inata de melodrama.
- Sim.
- Como ele era?
- Ele era bem alto - respondi.
Yancey estava em algum lugar lá embaixo, cercado pela multidão suada que se aglomerou para a cerimônia. Avisei para que saísse de seu esconderijo depois que tudo acabou. Ele disse que estávamos quites, mas eu não acreditei nele. Independentemente disso, ele estava certo em relação ao que disse aquele dia em sua casa: demoraria muito até eu voltar a ser chamado por Mama Dukes para almoçar lá.
Olhando em retrospectiva, não acho que o Espada teria chegado ao ponto de machucá-lo. Eu havia interpretado mal Beaconfield. Eu tinha interpretado erroneamente um monte de gente. O Comandante limpou a bagunça, e não se importaria se soubesse que peguei a pessoa errada, guardando isso para usar contra mim em algum momento mais propício. Até onde lhe interessava, tudo tinha acabado de modo suficientemente ordenado. Os assassinatos na Cidade Baixa pararam e um famoso e irrelevante membro da nobreza sofreu um infeliz acidente com sua fornalha. O lorde Beaconfield era o último de sua linhagem e, ao contrário da esplendorosa festa de noites atrás, seu funeral não foi nada concorrido. Mesmo com toda a sua celebridade, o Espada não era amado e, à exceção de seus credores, pouca gente lamentou a morte dele.
Garrincha estava encostado na grade. Se dependesse dele, ele estaria lá embaixo junto com o restante da cidade. Mas desde que ele voltou Adeline tem medo de deixa-lo sem ninguém por perto. Se ele se lembrava de algo em relação a quando foi levado, ou do tempo que passou enfeitiçado por Brightfellow, nunca disse nada para mim. Garrincha era um anãozinho duro na queda. Ele ficaria bem.
Eu já não tinha a mesma certeza em relação à Cidade Baixa.
Falava-se em transformar o Ninho em uma clínica gratuita, mas ainda não se sabia o que aconteceria. O Grou não tinha família.
Com a morte de Célia, não havia ninguém mais para reivindicar suas posses. Era difícil imaginar o governo dispondo da propriedade do Grou de maneira vantajosa para a população em geral.
Como quer que fosse, a Cidade Baixa sentiria falta de seu protetor.
No que dizia respeito aos feitiços de proteção, ainda teríamos que esperar até o verão para ver o que aconteceria. A peste não voltava todos os anos. Além disso, os serviços médicos e sanitários da cidade melhoraram muito desde a epidemia que me deixou órfão.
Em certas noites, porém, nem a vinonífera era suficiente para evitar que eu acordasse suado, pensando nas carroças enviadas para recolher os corpos, amontoados em armadilhas humanas de carne em decomposição. Em noites assim eu alcançava uma garrafa de uísque, sentava-me ao lado da lareira e bebia até não conseguir lembrar por que havia começado. Não havia muito a ser feito.
- Vou voltar pra casa - disse eu. Mac assentiu e virou-se para acompanhar a cerimônia. Garrincha olhou para mim quando passei. - Se você ficar fora da minha vista, promete que não vai morrer?
Ele gargalhou e desceu as escadas correndo. Ele ficaria bem.
Mais adiante, quando ele tivesse idade suficiente, eu o incentivaria a passar pelos treinamentos que os talentos dele exigiam.
Mas não na Academia. Ele jamais teria um verme do governo sussurrando conselhos em seus ouvidos. Ainda existiam praticantes sem ligação com a Coroa. Eu acharia um.
O caminho de volta pareceu mais longo que de costume, e não apenas porque minhas botas estavam ensopadas de barro.
Não havia nada que me impelisse a voltar ao Ninho, não mais.
Meus dias de trilhar o labirinto de pedra estavam acabados. Teria sido melhor para todos se nem tivessem começado.
O Conde estava devagar na hora que entrei. Adeline preparava-se para o movimento do jantar e Adolphus estava reclinado sobre o bar, as raízes se estendendo pela adega, um sorriso cansado no olhar. Ele acenou para mim e eu retribuí o cumprimento. Nenhum de nós disse nada.
Tomei assento em uma mesa nos fundos. Adolphus levou para mim uma caneca de cerveja escura. Esperei o bar encher, bebericando meu drinque até acabar. Não ajudou em nada, mas pedi outro de qualquer jeito.
CONTINUA
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