O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 11 de 49

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O Guardião

Capítulo 11

A Guerra estava quase acabada - nós pairávamos no precipício da vitória. Por todos os lados a prostituta dren se prostrava, as defesas superadas, os castelos defendidos por velhos empunhando lanças tortas e meninos imberbes. Dos dezessete territórios que antes integravam as Províncias Unidas, apenas quatro estavam nas mãos dos drens e assim que tomássemos Donknacht, suas outras posições restantes certamente também cairiam. Meus cinco longos anos de serviço, matando e sangrando para avançar coisa de cem metros por dia, estavam quase acabando. Nós todos passaríamos o Solstício de Inverno em casa, tomando chá quente ao redor de uma lareira acesa. Naquele exato momento, Wilhelm van Agt, chefe de Estado da República Dren, avaliava um armistício como prelúdio de uma total capitulação.

Infelizmente, parece que as notícias da solução de nosso conflito ainda não haviam chegado aos ouvidos dos próprios drens, que resistiam como leões nos arredores de sua capital, rugindo sua resistência ante o poder Aliado. Meia década de preparação e o controle de táticas de sítio permitiram a eles criar aquele que provavelmente foi o perímetro defensivo mais perfeito da longa história de violência da humanidade. Parecia que eles nunca tinham ouvido falar na fome e nas doenças que atingiam suas fileiras, das terríveis derrotas por eles sofridas em Karsk e Lauvengod, da natureza totalmente perdida de sua causa. Ou, se ouviram falar, a notícia não enfraqueceu em nenhum momento sua determinação.

Era aquela intransigência coletiva, uma intransigência que beirava a total estupidez, que eu culpava por me obrigar a sair da cama no meio da madrugada para levar a cabo alguma missão secreta. Era à estupidez de nossos oficiais, no entanto, que eu atribuía o fracasso logístico que deixara a mim e a meu grupo carente da camuflagem adequada para realizar a missão.

Interiormente, pelo menos. Exteriormente, nossos oficiais não resmungavam sobre esses pequenos contratempos administrativos, mesmo daqueles que provavelmente resultariam em morte.

O soldado Carolinus não sofria dessas fraquezas.

- Tenente, como espera que a gente realize uma missão noturna sem nenhuma tinta de camuflagem? - perguntou ele nervoso, como se eu tivesse uma explicação ou então um tonel daquela coisa escondida embaixo do meu rolo de dormir. Carolinus era ruivo e tinha o rosto avermelhado, um rouender do norte, de uma raça específica de homens cujos ancestrais invadiram o Vaal três séculos antes e nunca mais saíram de lá. Atarracado e duro como o carvão que ele cresceu extraindo, ele era tão veloz para reclamar quando para ir às vias de fato. Ele havia se transformado, com sinceridade, numa fonte constante de aborrecimento, mas com Adolphus inválido em casa ele era o único homem que eu considerava capaz de assumir caso eu fosse pego por um dardo perdido.

- Tenente, os drens têm olhos de coruja. Nós vamos ser presas fáceis com certeza se não estivermos camuflados - insistiu.

Ajustei com força as amarras de minha armadura de couro, verifiquei se as armas estavam no lugar e se meu punhal estava comigo.

- Eles não esperam que você faça nada, soldado. Eu, no entanto, ordeno que você feche essa porra da sua boca e se arrume, pois vai atravessar a muralha em 15 minutos se estiver sem roupa ou coberto de fuligem. E não se preocupe com o inimigo. Pelo que ouvi dizer, eles só atiram em homens.

Os outros riram e até Carolinus deu um riso forçado, mas os risos de todos eram tão forçados quanto o meu. Não era somente a ausência da tinta de camuflagem. Eu nem sabia em que estávamos metidos até quarenta minutos antes, quando um ajudante do comandante da companhia me acordou bruscamente da primeira noite decente de sono que eu tinha em uma semana dizendo para eu pegar os melhores homens disponíveis e me apresentar ao major.

A verdade é que nada daquilo parecia direito. Donknacht, a imbatível, era a capital dos Estados Drens e estava livre de jugo estrangeiro havia um milênio e meio. Quando todas as demais províncias dren foram engolidas por seus vizinhos, Donknacht sozinha continuou a ser uma cidade livre. E quando um aumento do nacionalismo dren setenta anos antes acabou unificando aqueles diferentes Estados em uma forte confederação, Donknacht transformou-se no pivô em torno do qual aquela comunidade havia sido formada.

Não posso falar pelo restante das províncias, mas os soldados separados de nós por apenas uma terra de ninguém de menos de um quilômetro de extensão morriam em missões suicidas amaldiçoando nossas mães. Suas defesas não seriam superadas sem um ataque com força total precedido por cargas de artilharia e bruxaria, e ainda assim era provável que a ofensiva nos custasse meia divisão de guerreiros. Isso se os bastardos não voltassem para a cidade para lutar por cada casa e cada rua. Como todos os demais, eu tinha esperança em que os rumores de armistício fossem verdadeiros e nosso penoso avanço terminasse ali, nas planícies de frente para a capital. De qualquer modo, eu estava sendo obrigado a imaginar como cinco milicos solitários fariam para mudar a situação, com ou sem tinta de camuflagem.

Fui até Saavedra, nosso ponteiro desde que uma cápsula perdida de artilharia arrancou o alto do crânio do pobre Donnely.

Seus olhos negros e seu rosto fechado entregavam sua descendência asher, mas por que ele se inscreveu como membro de nossa unidade mista em vez de nos regimentos de seu próprio povo nenhum de nós saberia dizer. Saavedra recusava-se a conversar sobre este ou qualquer outro assunto e os homens da Primeira Infantaria da Capital não eram do tipo que davam atenção aos detalhes dos documentos desde que o candidato assumisse sua posição e fizesse mais do que se exigia dele. Apesar de seu exílio entre nós parecer agressivo, Saavedra não negava sua raça, taciturna e indecifrável, e era o melhor jogador de cartas do regimento, assim como um terror com o espadim. Ele devia ter tintura de camuflagem estocada em algum lugar para poder enegrecer ainda mais suas próprias características, mas tão certa quanto a crueldade do deus único de sua raça, ele não teria o suficiente para duas pessoas.

- Faça o resto dos homens ficarem prontos. Vou ver o major.

Saavedra consentiu, silencioso como de costume. Fui até o centro do acampamento.

Nosso major, Cirellus Grenwald, era tolo e covarde, mas não era um completo lunático e somente aquilo já era suficiente para distingui-lo na metade superior dos corpos de oficiais. Se seu maior talento era o de ter nascido no alto de uma ladeira, era verdade ao menos que ele ainda não a tinha descido. Ele estava conversando com um homem que vestia um colete de couro com ornamentos prateados, que à primeira vista pareceu-me tratar-se de um civil.

O major me ofereceu um sorriso ingênuo que, mais do que sua real competência, acelerou sua ascensão na hierarquia.

- Tenente, eu conversava com o Terceiro Feiticeiro Adelweid justamente sobre você. À frente do mais feroz pelotão desta divisão. Ele fornecerá uma defesa impermeável para sua... missão.

O feiticeiro Adelweid tinha o rosto branco e era magro, mas revestido por uma verminosa capa de pele em excesso. Ele havia encontrado tempo para prender seu cabelo negro e lustroso na altura dos ombros com uma presilha pontilhada de joias, um adorno que, junto com seu cinturão de fivela dourada e seus braceletes prateados, pareciam especialmente inadequados para a situação em que nos encontrávamos. Eu não gostei dele e passei a gostar menos ainda quando descobri que minha missão envolvia protegê-lo. À exceção do Grou, eu odiava feiticeiros.

Nenhum milico da força gostava e não era apenas porque eles eram exibicionistas, resmungões e tinham seus pedidos para itens misteriosos atendidos no minuto seguinte enquanto nós precisávamos mendigar botas de couro e reforços. Nada disso.

Cada um daqueles milicos odiava os feiticeiros porque, para um homem e sem exageros, todos sem exceção tinham alguma história na qual perderam camaradas enquanto algum fazedor de feitiços cometia algum descuido no meio de alguma guerra de mágica e aniquilava metade de uma unidade em meio a uma saraivada de sangue e ossos. Os comandantes certamente os achavam muito divertidos, convencidos de que qualquer novo esquema que eles propusessem seria uma arma secreta que nos permitiria vencer a guerra.

Mas nada daquilo faria meu rancor ficar evidente no rosto. Cumprimentei o homem com uma reverência firme que ele retribuiu com apatia e sem comentários. O Major Grenwald continuou:

- Bem-vindo à Operação Ingresso, tenente. Suas ordens são as seguintes. Você e seus homens levarão o feiticeiro Adelweid por quatrocentos metros dentro da terra de ninguém, parando no lugar que ele escolher. Nesse ponto, o feiticeiro realizará um trabalho. Você deixará um homem para protegê-lo. Depois, você e o restante de seus homens avançarão por mais duzentos metros na direção das linhas dren, onde você deixará este talismã - ele me entregou então uma pequena joia negra - em algum lugar de onde seja possível avistar as defesas inimigas. Você manterá essa posição até que o feiticeiro Adelweid conclua sua parte na missão.

Calculando as distâncias eu cheguei à infeliz conta de seiscentos metros, mais perto do território dren do que do nosso e ao alcance até mesmo das patrulhas de curta distância. Também não pude deixar de notar que Grenwald não apresentou nenhuma estimativa com relação ao tempo que Adelweid precisaria para completar seu trabalho. Seriam dez minutos? Vinte? Uma hora? Além disso, por que todos nós deveríamos acreditar que aquele pedaço escorregadio de vidro negro iria realmente funcionar? Pelo que eu já tinha visto da Arte, era mais provável que aquilo explodisse nas minhas mãos.

Eu não imaginei que fosse obter respostas, mesmo que eu fosse idiota o bastante para fazer perguntas. Em vez disso, fiz um aceno para Grenwald, rezando para que aquela não fosse a última vez que eu saudaria aquele filho da puta orgulhoso. A seguir, me virei para Adelweid:

- Senhor, nossa unidade está agrupada na trincheira dianteira. Queira me acompanhar.

Ele fez um aceno vago na direção do major e depois veio atrás de mim sem nenhum comentário. Aproveitei para fazer um:

- Senhor, agora seria uma boa hora de remover qualquer item reflexivo que o senhor possua. Aquela presilha de cabelo entregaria nossa posição para qualquer atirador–explorador por que passássemos.

- Obrigado por sua sugestão, tenente, mas meus trajes continuam como estão- sua voz era tão pastosa quanto eu imaginava e ele esfregava aqueles braceletes brilhantes de um jeito possessivo. - Nossa missão seria impossível de ser concluída sem isso. Além do mais, não desejo retornar do campo vitorioso para chegar aqui e descobrir que algum milico sumiu com os braceletes dados a mim pelo líder da Ordem do Carvalho Torto.

Melhor isso do que não voltar, pensei, e melhor ainda do que sacrificar a mim e a meus homens para satisfazer a seu ego inflado. Apesar de que ele estava certo, pois alguém roubaria suas coisas mesmo.

Na hora que chegamos à extremidade do acampamento, os homens já estavam em posição, com as armas preparadas e a armadura bem apertada. Nós seis formamos um círculo e eu repeti as ordens. Ficou claro que eles não estavam nada contentes, nem com a missão nem com Adelweid, mas eram todos profissionais e ficaram quietos. Ao terminar, ordenei uma última checagem dos equipamentos, subimos as escadas e ficamos sozinhos no devastado descampado entre nosso acampamento e o dos drens.

- Daqui em diante estão em vigor às restrições de luz cheia e barulho - fiz um sinal para Saavedra, que estava com o rosto coberto de fuligem, como eu previa. Ele saiu andando em um silêncio treinado e depois de quinze segundos eu mal conseguia percebê-lo. Carolinus foi atrás dele e eu segui com Adelweid alguns passos à minha frente.

Atrás de mim estava nosso atirador de elite, Milligan, um perspicaz e decente tarasaihgn capaz de perfurar a face da rainha em uma moeda de um ocre a cem passos de distância. Eu não sabia que serventia ele teria para nós. Estava escuro demais para ficar lançando dardos. Ele pelo menos era calmo no meio da confusão, nada especial, mas estável e confiável.

No fim da fila vinha Cilliers, um gigante vaalão sério que sorria pouco e falava menos ainda. Ele era o único homem da companhia que ainda não havia aderido exclusivamente ao punhal de lâmina cerrada, levando ainda consigo sua espada ondulada nas costas, uma arma que passou de geração em geração desde antes de seus ancestrais terem jurado fidelidade ao Trono Rigun. Ele era muito grande para que fosse de muita utilidade em uma operação secreta, mas ficaríamos felizes de poder contar com sua espada de lâmina dupla e ondulada se houvesse um entrevero em campo aberto.

Anos de combates haviam transformado aquele cenário antes exuberante em um deserto estéril. Bombardeios, artilharia e mágica haviam destruído a maior parte da vegetação e toda a fauna de variedade não roedora. Até mesmo a topografia do terreno havia mudado. Explosivos aplainaram colinas e deixaram pilhas de escombros em seu lugar. Além de qualquer questão estética, a devastação significava que havia pouco lugar onde se esconder. Sem tinta de camuflagem, numa noite de luar, seríamos presas fáceis para qualquer patrulha que chegasse a uns cinquenta metros de distância.

Precisávamos andar rápido e em silêncio. Não era de surpreender que o feiticeiro estivesse tendo dificuldade com as duas coisas. Seu jeito de andar era mais adequado para uma caminhada matinal do que para nossa missão clandestina. Eu dava um passo atrás cada vez que a luz batia em seus adornos brilhantes e percebi que Milligan fazia a mesma coisa. Se algum de nós se machucasse porque aquele idiota não havia tirado suas joias, acho que não teria como impedir que os homens acabassem com ele num episódio de “fogo amigo”. Acho que eu nem tentaria impedir.

Depois de algum tempo de caminhada eu me inclinei perto de Adelweid e sussurrei:

- Quatrocentos metros. Avise-nos onde parar.

Ele apontou para um pequeno aclive e disse em um tom de voz que não nos ajudava em nada a permanecer ocultos:

- Aquela colina é um bom lugar. Levem-me até lá e depois posicione o talismã.

Fiz sinal para Saavedra e seguimos em fila na direção do aclive. Vou fazer uma concessão a Adelweid: o bastardo entendia do assunto. Assim que chegamos ao alto ele tirou alguns materiais estranhos de dentro de sua sacola e começou a desenhar símbolos intrincados na terra com um galho curto de carvalho negro.

Seus movimentos eram certeiros e naturais e eu conhecia a Arte bem o suficiente para saber que não era uma coisa simples desenhar um pentagrama no escuro, ainda mais quando qualquer erro significa ficar sujeito a forças que poderiam fritar seu cérebro. No meio de seu trabalho ele se dirigiu a mim:

- Continue a missão, tenente. Eu cuido da minha parte.

- Soldado Carolinus, você fica de guarda. Se nós não voltarmos em quarenta e cinco minutos, pegue o feiticeiro e retorne à base - disse eu. Carolinus sacou seu punhal e fez sinal de que havia entendido a ordem. Saavedra voltou para a ponta e os quatro restantes de nós seguimos em fila na direção do território dren.

Duzentos metros adiante nós avistamos uma pequena inclinação de geometria diferente demais para ser outra coisa que não o resultado de uma cápsula de artilharia. À distância eu podia avistar a primeira linha das trincheiras inimigas e atrás as luzes de suas fogueiras. Sinalizei aos homens que se formassem ao meu redor, tirei o talismã de uma bolsinha em minha armadura e o coloquei na terra, sentindo-me um pouco constrangido enquanto o fazia.

- É isso? - sussurrou Milligan. - Subir numa colina e deixar um cristal no chão?

- Soldado, cale a boca e fique de olhos abertos - disse eu.

A indignação de Milligan era compreensível. Aquela era a parte da missão que menos me agradava, e eu não estava particularmente estimulado por nada daquilo. No alto daquela elevação nós seríamos alvos fáceis de qualquer patrulha dren que passasse por perto, e ela estaria muito mais próxima de seus reforços do que nós.

No escuro, naquelas circunstâncias, toda sombra esconde um sentinela e todo reflexo de luz parece aço, então eu não tinha certeza de ter visto nada até que Milligan fez um sinal. Nós fizemos poeira, tentando nos esconder atrás de qualquer coisa que fosse possível. A uns vinte metros da base de nossa colina, um deles percebeu nossa presença. Ele deu um grito de alerta e eu sabia que estávamos fodidos.

Milligan lançou um dardo na direção da sentinela, mas o tiro se perdeu no escuro. Depois eles começaram a subir correndo o monte e nós nos preparamos para aguentar a carga.

Saavedra pegou o primeiro, eu peguei o segundo e depois disso ficou difícil me concentrar no âmbito geral da batalha, tendo a atenção voltada para os pormenores.

O meu era jovem e com sorte tinha idade suficiente para agradar a uma mulher. Recuei ante sua falta de habilidade. Cinco anos matando qualquer um que usasse um uniforme cinza me fizeram deixar de lado minha aversão natural a matar o que era praticamente uma criança, e meu único pensamento era acabar com ele rápido. Uma finta para um lado e uma ajuda de sua defesa desajeita e ele estava no chão, com o sangue jorrando de um golpe mortal em se abdome.

Foi bom eu ter acabado com ele porque nem tudo ia bem no nosso lado. Cilliers estava mostrando a um de nossos inimigos o motivo pelo qual ele nunca abandonava sua arma ancestral e Saavedra era o mesmo de sempre, derrubando uma dupla de drens com uma demonstração de um frio e eficaz exercício de espadas. Mas Milligan estava em apuros, com um dren atarracado com um punhal numa mão e uma machadinha na outra rapidamente fazendo recuar ladeira abaixo pela colina. Peguei uma faca que levava em minha armadura e a atirei nas costas do agressor de Milligan, desejando que aquilo fosse suficiente para deixar tudo em pé de igualdade. Não tive tempo de fazer mais, porque um dos homens que encarava Saavedra se desvencilhou e partiu para cima de mim. Ergui meu punhal e peguei o porrete que pendia de meu cinto.

Este era melhor, bom para falar a verdade, e eu não precisava ver a cicatriz que separava seu nariz em duas massas desiguais de carne para saber que se tratava de um veterano em nosso conflito. Ele sabia como matar com uma lâmina curta, interrompendo o reconhecimento em círculo com uma rápida troca de golpes e uma mão livre para encerrar o negócio com firmeza.

Mas aquela também não era minha primeira briga e minha arma ficou bem perto da dele, enquanto meu porrete espinhado de pregos pendia da mão esquerda à espera de uma abertura.

A abertura veio quando ele se esticou tentando um empurrão e eu acertei meu porrete em seu punho. Ele deu um berro enfurecido, mas não largou a espada. Esse porra era resistente como gusa, mas esse estoicismo, apesar de impressionante, não foi suficiente para salvar sua vida. Com a mão ferida, ele não conseguiu manter o ritmo e meio minuto depois ele estava no chão com um par de ferimentos mortíferos.

Por um momento eu pensei que a gente até pudesse recuar, até que eu ouvi o agudo da corda de um arco e observei o enorme corpo de Cilliers cair para trás com a pena de uma flecha que havia penetrado profundamente em seu peito. Quando já era tarde demais eu vi o assassino chegando ao topo da colina e recarregando seu arco enquanto seu parceiro, um dren desajeitado do tamanho de Adolphus, vinha ao lado dele com um martelo espinhado de aparência desagradável. Soltando meu porrete, saí correndo e me atirei em cima do arqueiro, derrubando-o e descendo rolando com ele pela ladeira. Nós lutamos enquanto caíamos, mas na hora que paramos de rolar eu estava por cima e acertei a cabeça dele com a empunhadura de meu punhal, até que ele perdeu a força para me segurar e eu pude virar o punhal e cortar sua garganta.

Recuperei o fôlego, corri de volta ao alto da colina. Quando cheguei, Saavedra era o único de nós que ainda restava em pé, e estava numa situação ruim. O dren gigante o havia dominado.

O estilo sofisticado do asher não combinava com a selvageria de seu oponente. As defesas de Saavedra, porém, serviram de distração suficiente para que eu me aproximasse e atacasse o ogro.

Meu camarada não hesitou quando dei a ele uma abertura, despachando nosso último inimigo com um golpe rápido e certeiro abaixo de sua mandíbula.

Nós dois ficamos nos olhando até que Saavedra caiu no chão e eu percebi que ele havia sido atingido. Uma mancha de sangue gotejava de sua armadura de couro. O bastardo resistente não havia mostrado aquilo até o fim do combate.

- Como está isso? - perguntei.

- Ruim - respondeu ele, com o mesmo comportamento indecifrável com que rendia a ele metade dos soldos da unidade.

Removi cuidadosamente sua armadura. Ele hesitou, mas não falou nada. Saavedra estava certo. Ele estava mesmo mal. A extremidade pontuda do martelo de combate havia perfurado a armadura e entrado em seus intestinos. Ele teria uma chance se eu conseguisse levá-lo de volta ao acampamento. Eu o recostei em uma inclinação e fui ver como estava o restante de meus homens.

Mortos: isso não era surpresa. Aquela flecha acabou com Cillers, o fim inglório de um soldado tão valoroso. Eu queria levar sua espada ondulada de volta para a base, tentar um jeito de entregá-la a sua família. Ele teria gostado disso, mas era muito pesada e eu já teria que dar um jeito de levar Saavedra.

A cabeça de Milligan havia sido esmagada enquanto eu peleava com o arqueiro inimigo. Ele nunca fora acima da média no corpo a corpo. Eu estava contente por pelo menos nós termos dado um fim no bastardo com o martelo. Sempre gostei daquele anão amistoso. Eu sempre gostei daqueles dois, verdade seja dita.

Saavedra rezava nos tons dissonantes de sua língua estrangeira, e era o máximo que eu já ouvira falar. Aquilo era inquietante e eu desejava que ele parasse, mas não disse nada, pois não queria negar a um homem prestes a morrer a chance de se acertar com seu deus.

Eu me agachei ao lado da colina e observei o horizonte. Se uma outra patrulha aparecesse, nós estaríamos fodidos. Pensei em pegar o arco de Milligan, mas estava escuro e eu não era bom com aquelas coisas. Eu queria ter um pouco de fuligem. Eu queria que aquela joia começasse a funcionar.

Minutos se passaram. Saavedra continuava em seu monólogo estrangeiro. Comecei a pensar se uma unidade dren não havia achado Carolinus e o feiticeiro, o que me deixou à espera de um clímax que não viria. Então de trás de mim veio um som que eu não sabia o que era seguido da respiração assustada de Saavedra. Levantei-me num salto.

Uma mancha estava se formando no ar acima da joia, um buraco no universo que expelia uma estranha secreção de suas extremidades. Eu já havia visto magia antes, desde as divertidas zombarias do Grou até a capacidade de uma batalha de mágica de exterminar meio pelotão, mas nunca tinha visto nada como aquilo. O rasgo emitia um assobio agudo, quase um grito, e contra minha vontade eu olhei para dentro daquilo.

Coisas estranhas e terríveis olhavam de volta para mim, vastas membranas de olhos girando num frenesi apoplético, buchos escancarados de animais roncando incessantemente em um vazio infinito e escuro, orifícios pulsando eroticamente, rebentos se enrolando e desenrolando na noite eterna. Um gemido obsceno foi dirigido a mim numa língua semi-inteligível, prometendo recompensas terríveis em troca de sacrifícios ainda mais tenebrosos.

O barulho parou de modo tão abrupto como começou, uma gosma preta foi expelida pela abertura. Saiu do nada para a realidade e trouxe consigo um cheiro tão asqueroso que eu tive que segurar o vômito, uma podridão mais profunda que a concepção e mais antiga que a pedra. Gradualmente a gosma se aglutinou, formando o que parecia uma túnica negra que cobria uma forma de ossos esbranquiçada. Saavedra fez um barulho entre um grito e um gemido e eu sabia que ele estava morto.

Tive um vislumbre da cara da criatura, com olhos vidrados sobre fileiras e mais fileiras de dentes pontudos.

Então ela se foi, indo na direção das linhas drens. Ela se movia sem sinais visíveis de esforço, como se fosse propelida por uma força externa a seu corpo. O fedor continuava.

Minha mente tinha dificuldade para se restabelecer diante de antes rígidas leis de existência. Precisava me recompor e sair.

Saber que havia mais patrulhas drens perambulando pela área e a suspeita de que a simpatia delas pelo meu estado mental quando me vissem ao lado dos corpos de seus camaradas seria limitada foram argumentos suficientes para que eu me recolocasse em movimento.

Uma breve inspeção foi suficiente para confirmar que Saavedra não estava mais vivo. Ele era um patife mal-humorado, mas havia morrido como um homem e eu não tinha queixas quanto a sua conduta ou a seu caráter. Os ashers acreditam que a morte no campo de batalha é o único caminho para a salvação. Com relação a isso, sua divindade ameaçadora estava bem servida.

Não havia tempo para lamentações, e raramente há. Nove homens estavam mortos e haveria um décimo se eu continuasse mais tempo ali. Guardei meu punhal no cinto e fui ver o feiticeiro.

Adelweid estava no alto de uma pequena duna, com as mãos apertadas com firmeza na cintura, tão orgulhoso quanto um pavão, mas duas vezes mais enfeitado.

- Você viu aquilo? Deve ter visto. Você estava tão próximo do epicentro. Você deve ter conseguido um vislumbre dos reinos que existem além do nosso, deve ter visto as paredes que separa nosso mundo do seguinte bem diante de seus olhos. Você percebe o privilégio que teve?

Recostado em uma pequena pedra acinzentada estava Carolinus. Ele estava morto havia pelo menos alguns minutos. Um par de soldados drens jazia a alguns metros dele, unindo-se ao inimigo no repouso.

- O que aconteceu com ele? - perguntei, sabendo que não receberia exatamente uma resposta.

O devaneio de Adelweid foi momentaneamente interrompido.

- Quem? Ah, meu guardião. Ele está morto - limitou-se a dizer. O feiticeiro estava empolgado ao falar comigo agora, a excitação perceptível em sua voz, o mais perto de um humano que eu o havia visto até aquele momento.

- Mas o sacrifício dele não foi em vão! Minha missão teve êxito e por essa terra arrasada eu posso sentir que meus camaradas também tiveram! Você foi duplamente abençoado, tenente, pois tem o privilégio de assistir ao colapso da Comunidade Dren!

Como eu não respondi, ele se virou na direção de onde deviam estar suas criações, observando enquanto explosões ocasionais de luz aconteciam ao fundo. À distância eu conseguia observar ondas daquelas criaturas seguindo em fluxo constante em direção ao leste. Adelweid tinha razão. De longe havia algo etéreo e de certa forma bonito sobre aquelas coisas. Mas a lembrança daquele fedor terrível e o som emitido por Saavedra quando seu coração parou ainda estavam frescos na minha memória e eu não compartilhava o conceito de Adelweid e pensava que o que eu havia visto não passava de uma abominação ante o Guardião dos Juramentos e todos os Daevas.

Então começou a gritaria. Um coro de gritos vindo das linhas drens. Em combate, o som da morte se mistura ao da batalha, os gritos dos feridos se misturam com os sons das espadas e dos tiros de canhão. Mas os últimos sons dos drens não eram diluídos por nenhum outro barulho, e por isso eram mil vezes mais terríveis. Adelweid abriu um sorriso.

Eu me ajoelhei ao lado de Carolinus. Ele havia cumprido sua missão e depois sangrou até a morte enquanto o feiticeiro executava horrores na escuridão bem ao lado dele. Seu punhal estava quebrado a seu lado e seus olhos estavam abertos. Eu os cerrei e peguei na mão sua arma danificada.

- Depois que você invoca aquelas coisas, seu trabalho termina? - perguntei.

Adelweid continuava olhando para o leste, à terrível devastação que sua criatura e seus irmãos estavam provocando, com uma cara em algum ponto entre a luxúria e o orgulho.

- Depois de conjuradas, as criaturas completarão suas missões e desaparecerão de volta a seu mundo - respondeu.

Ele estava tão entretido com a carnificina que não prestou atenção quando fiquei parado a seu lado e ficou ligeiramente mais atento quando enfiei a arma quebrada de Carolinus através de seu casaco feito sob medida. Retirei o punhal e joguei-o de lado. O corpo de Adelweid rolou atabalhoadamente pela colina.

Achei que alguém tinha que pagar pela morte de Saavedra e dos demais e, como não havia ninguém mais elevado na hierarquia por perto, Adelweid pagaria. E também achei que o mundo seria um lugar melhor sem ele.

Regressei a nossas linhas e informei que a missão fora concluída com sucesso, apesar do elevado número de baixas. O major não estava preocupado com as baixas, nem com a dos meus homens nem com a do feiticeiro. Fora uma grande noite e a véspera da carga final que destruiria a espinha dorsal da República Dren, e havia muita coisa a ser preparada. Ao amanhecer eu formei meu pelotão como parte de uma ofensiva total, daqueles que precisaríamos de dez mil homens para executar. Mas as defesas estavam fragmentadas, setores inteiros das trincheiras inimigas não tinham nada além de homens mortos, de corpos terrivelmente contorcidos, a causa de suas mortes incerta mesmo à plena luz da manhã. Os drens restantes estavam muitos dispersos e desestimulados para oferecer muita resistência.

À tarde o general Bors aceitou a capitulação da capital Dren e no dia seguinte recebeu a rendição incondicional de Wilhelm van Agt, o último e maior chefe de Estado da Comunidade Unida Dren.

Não é assim que a história é contada no Dia da Lembrança, e eu não imagino que ela um dia chegará aos livros de história, mas eu estava lá e foi assim que a Guerra acabou. Ganhei uma medalha por aquilo - toda a companhia ganhou por ter sido a primeira a entrar em Donknacht - de ouro lavrado com um piqueiro montado em uma águia dren. Troquei a minha por uma garrafa do melhor uísque de centeio e por uma noite com uma prostituta Nestriann. Até hoje acho que quem lucrou com isso fui eu.