O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 6 de 49

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O Guardião

Capítulo 6

O Ninho está para a Cidade Baixa assim como Sakra, o Primogênito, está para Chinvat.

Um pilar perfeitamente erigido, azul–escuro contra o cinza dos cortiços e dos puteiros infinitamente enfileirados. Com a exceção do Palácio Real, com suas fortificações cristalinas e amplas ruas, é a mais extraordinária obra da cidade. Havia quase trinta anos ele subjugava o horizonte, proporcionando um glorioso contraste aos cortiços ao redor. Era um conforto, quando jovem, ter uma evidência visível que o restante do que você enxergava não era tudo o que existia para ver, que alguma parte da existência permanecia impoluta pelo fedor e pelo mijo.

Aquela expectativa provou-se falsa, é claro, mas era um problema só meu e de mais ninguém. Fazia muito tempo que eu via a torre como nada além do que restou de uma promessa descumprida, da esperança inocente de uma criança tola.

Eles aplanaram todo um quarteirão para abrir espaço para a Praça da Exultação, como o pátio ao redor do Ninho era chamado, apesar de ninguém se lembrar. Foi nos tempos sombrios da grande peste, quando a população da Cidade Baixa foi reduzida a uma fração do que era nos anos anteriores. No lugar dos cortiços foi construído um labirinto de pedra branca em torno da torre, extremamente complexo, mas pouco acima da linha da cintura, o que permitia a todos olhar por cima do muro.

Quando criança, passei horas incontáveis ali brincando de pegar e esconder, correndo pelas fileiras de granito ou correndo na ponta dos dedos sobre as fortificações.

A praça era provavelmente a única parte da Cidade Baixa onde o povo ainda não havia agido ativamente para dilapidar.

Não há dúvida que a reputação de Grou como um dos mais habilidosos praticantes de magia da nação fez sua parte para conter o vandalismo, mas o mais próximo da verdade era que o povo da Cidade Baixa venerava seu patrono e não aceitaria a profanação de seu monumento. Falar mal do Grou era pedir para ser espancado em qualquer taberna entre as docas e o canal ou para levar uma facada nos intestinos nos lugares mais barra-pesada. Ele era nossa figura mais amada, tido em mais alta estima que a Rainha e o Patriarca juntos, com sua caridade financiando uma meia dúzia de orfanatos e suas dádivas sendo alegremente recebidas por um público agradecido.

Parei na frente da casa de meu mais antigo amigo e acendi um cigarro. O vento havia diminuído o bastante para permitir a satisfação de meus pequenos prazeres. Havia muitos bons motivos para eu não ter visitado meu mentor nos últimos cinco anos. Soprei a fumaça do fumo no ar frio e soltei uma sobre a outra até elas desaparecerem na loucura que me havia levado até ali. Eu ainda podia acabar com minha idiotice, voltar ao Conde, acender algumas vinoníferas e dormir até o dia seguinte. A impressão mental de lençóis suaves e fumaça colorida desapareceu quando pisei no primeiro arco, com meus pés me conduzindo adiante contra os meus mais aguçados instintos, instintos estes que eu parecia estar ignorando bastante ultimamente.

Caminhei pelo labirinto em meio a lembranças meio esquecidas me levando para a direita ou para a esquerda. Meu cigarro havia apagado, mas eu não tinha energia para reacendê-lo e coloquei o que sobrou no bolso do casaco para não sujar o pátio do Grou.

Mais uma curva e eu estaria de frente para a entrada, um esboço de uma porta na parede completamente azul, sem uma aldrava nem outros meios óbvios de anunciar a chegada. Empoleirada sobre a entrada, instalada perto da entrada do edifício, havia uma gárgula da mesma pedra branca que o labirinto, com seu papo sugerindo mais um sorriso disfarçado do que um ar ameaçador. Segundos se passaram. Fiquei feliz por não haver ninguém por perto para testemunhar minha covardia. Por fim decidi que não havia atravessado o labirinto para nada e bati duas vezes na porta.

- Saudações, jovem.

A voz que Grou havia criado para sua sentinela não combinava com o propósito, mais suave e amistosa do que se esperaria da composição da criatura. Seus olhos de concreto me observaram de cima a baixo lentamente.

- Talvez não tão jovem atualmente. O Mestre está avisado e o receberá no sótão. Tenho ordens expressas para permitir sua entrada sempre que aqui vier -prosseguiu a gárgula.

A abertura da fachada expandiu-se, as pedras escorregando uma após a outra. Acima o rosto da gárgula contorceu-se com ar de orgulho, o que não era pouco para uma criatura mineral.

- Mas eu nunca pensei que um dia precisaria segui-las - troçou.

Não era a primeira vez que eu me pegava pensando em o que, em nome do Primogênito, levou Grou a imbuir sua criação de um senso de sarcasmo, uma vez que não se trata de algo escasso entre a raça humana. Entrei na sala de espera sem responder.

Era um lugar pequeno, não mais do que uma plataforma de acesso a escadaria circular que levava para o alto. Comecei a subir para os andares superiores, com meu caminho iluminado por candeeiros igualmente espaçados na parede liberando uma luz clara e branca. Na metade da subida eu parei para recuperar o fôlego. Era muito mais fácil quando eu era criança, subir correndo as escadas em curva com a naturalidade de quem não era viciado em tabaco. Depois de descansar um pouco eu continuei a subir, lutando contra a vontade de recuar a cada degrau.

Uma espaçosa sala de estar ocupava a maior parte do andar superior do Ninho. Os móveis eram sóbrios e funcionais, compondo uma estética límpida e sem opulência. Duas grandes cadeiras estavam posicionadas diante de uma estreita lareira construída na parede que separava essa área da ala privada do Mestre. A decoração continuava a mesma desde a primeira vez que eu havia vislumbrado o interior. Vieram então à tona lembranças espontâneas de tardes de inverno à frente da lareira e de uma infância já esquecida.

Eu vi a silhueta dele pela grande janela de vidro com vista para o sudeste, sobre o porto. Naquela altura o fedor e o barulho da Cidade Baixa evaporavam, abrindo caminho para o oceano infinito na distância.

Grou se virou lentamente e pousou suas mãos atrofiadas sobre as minhas. Eu estava consciente de meu desejo de desviar o olhar.

- Faz muito tempo - falei.

Os anos eram a prova. Grou sempre tivera aparência frágil. Seu corpo era magro demais para suportar seu peso, tufos desordenados de cabelos brancos pendiam de sua cabeça e de sua bochecha ossuda. Ao mesmo tempo, ele sempre dispôs de uma energia improvável que parecia disfarçar sua idade. Agora eu já não era capaz de detectar muitos vestígios disto. Sua pele estava esticada sobre o esqueleto, fina como papel, e havia um matiz de ictérico em seus olhos. Pelo menos suas roupas continuavam as mesmas, uma túnica sem adornos, azul escura como tudo o mais nesta fortaleza.

- Minhas saudações a você, Mestre - comecei. - Agradeço por me receber sem marcar horário.

- Mestre? É assim que se saúda um homem que despejou unguento sobre seus joelhos esfolados, que lhe fez chocolate quente para espantar o frio?

Estava claro que ele não iria facilitar as coisas.

- Achei que não seria de bom tom presumir intimidades do passado - respondi.

Sua expressão azedou-se e Grou cruzou os braços com firmeza.

- Eu entendo sua reticência em retornar. Mesmo quando criança você era mais orgulhoso do que metade da corte real. Mas não ache que virei minhas costas para você, ou que um dia viraria. Mesmo depois de você ter deixado o Serviço da Coroa e assumido sua nova vocação.

- Você quer dizer depois de eu ter perdido a patente e começado a vender drogas nas ruas?

Ele suspirou. Eu podia me lembrar de quando ele fez o mesmo som uma vez que cheguei com o olho roxo de uma briga, ou do dia em que ele percebeu que todos os meus brinquedos novos eram roubados. - Passei anos tentando desviá-lo daquele hábito.

- Qual hábito? - perguntei.

- Esse seu jeito de interpretar tudo como insulto. Isto é um sinal de má criação.

- Eu sou malcriado.

- Você poderia se esforçar mais para esconder isso - ele disse isso, sorriu e eu me peguei sorrindo também. - Seja como for, você regressou e, da mesma forma que sou agradecido por poder lhe ver, não posso deixar de me perguntar a que devo o retorno de meu filho pródigo? Ou você reapareceu aqui na minha soleira depois de cinco anos apenas para saber como estou de saúde? - perguntou.

Quando eu era criança, Grou foi meu benfeitor e meu protetor, fazendo por mim tantas gentilezas que fariam ceder o mais violento filho da Cidade Baixa. Quando agente, recorri a ele algumas vezes, tanto por aconselhamento quando pela ajuda que suas prodigiosas habilidades poderiam proporcionar. E a despeito de toda a minha prática, essa nova rodada de súplica sufocou-me na hora de falar.

- Preciso de sua ajuda.

O rosto dele ficou tenso, uma reação justa a um pedido de ajuda de um homem com quem não se falou durante meia década, particularmente se tratando de alguém à margem da lei.

- E de que tipo de serviço você precisa?

- Eu encontrei a pequena Tara - comecei - e preciso saber se você captou algo vindo dela por meio de seus canais. Se houver alguma visão que você ache que possa ser útil, eu pediria que me contasse também, mas sem alertar a Casa Negra nem o ministério em questão.

Acho que ele pensou inicialmente que eu estivesse ali por causa de dinheiro, ou por conta de alguma coisa ilícita. A descoberta de que não era nada disso fez voltar seu comportamento natural, amigável e sutilmente ferino.

- Parece que eu estava enganado sobre todo o alcance de suas novas atividades.

- Não sei se entendi - respondi, apesar de certamente ter entendido.

- Deixe-me ser mais claro então. De que forma exatamente encontrar o assassino de uma criança se encaixa em suas atuais funções?

- Como ajudar um criminoso se encaixaria nas funções de um Primeiro Feiticeiro do Reino?

- Ah, Primeiro Feiticeiro! - disse ele e depois tossiu em sua mão, fazendo um som úmido e desagradável. - Não frequento a corte desde o Jubileu da Rainha. Nem sei por onde andam minhas túnicas.

- Aquelas com uns cordões douradas que valem metade das docas?

- Irritavam meu pescoço demais - brincou. O riso de Grou foi forçado e a seguir a luz do fim da tarde repousou sobre um homem velho e cansado. - Sinto muito, meu amigo, mas não tenho certeza de que haja algo em que possa ajuda-lo. Ontem à noite, quando soube do crime, mandei uma mensagem para o Departamento de Assuntos Mágicos. Eles disseram que um vidente foi chamado, mas não descobriu nada. Se eles não conseguiram nada, não imagino que eu venha a ter muito mais sorte.

- Como isso é possível? - perguntei. - A vidência está bloqueada?

- Seria necessário um artista de excepcional habilidade para apagar completamente qualquer vestígio de sua presença. Não há duas dúzias de praticantes em toda a Rigus capazes de um trabalho tão complexo, e eu não consigo imaginar nenhum deles recorrendo a um artifício tão vil.

- Poder não é garantia de decência. O mais comum é justamente o contrário. Mas eu posso lhe garantir que um mago de tamanha capacidade teria meios mais fáceis de satisfazer seus desejos se inclinar-se nesse sentido - comentei. Eu podia perceber os velhos músculos em funcionamento novamente, abandonando o ostracismo depois de anos de negligência. Fazia muito tempo que eu não investigava nada. - Além de magia, o que mais poderia funcionar contra sua vidência? - perguntei então.

Ele pegou um decantador cheio de um líquido verde de aparência esquisita de cima de uma prateleira e o despejou num copo que estava perto.

- Remédio, para a minha garganta - explicou ele antes de virar o fluido em um rápido gole. - Se o corpo dela tiver sido limpo muito a fundo, ou desinfetado com algum tipo de produto químico. Se a roupa que ela estava vestindo havia ficado em contato com o corpo durante apenas pouco tempo também poderia funcionar. Essa não é a minha especialidade. Não posso afirmar nada com certeza.

O cheiro que eu havia sentido vindo do corpo da menina poderia muito bem ser um produto de limpeza. Poderia ser uma dúzia de outras coisas também, mas aquilo já era alguma coisa para começar.

- Já é um começo ao menos - eu disse. Depois de ter encontrado coragem para voltar, agora relutava em ir embora.

Parte de mim queria se sentar em sua macia cadeira azul e deixa-la me envolver, tomar uma xícara de chá com meu velho mentor e falar de tempos passados. - Agradeço por sua ajuda. E agradeço por ter recebido a mim. Eu aviso se descobrir alguma coisa.

- Eu espero que você encontre a pessoa que fez isso, e espero que esta não tenha sido sua última visita. Senti falta de você, e também dos problemas que você causava, como um gato de rua com um pombo morto.

Retribuí o sorriso e fiz menção de sair, mas sua voz me conteve, repentinamente severa.

- Célia quer vê-lo antes de você sair - disse ele. Tentei não hesitar ao ouvir o nome dela, mas acho que não consegui. - Ela está no conservatório. Você ainda sabe o caminho - aquilo não era uma pergunta.

- Como ela está? - perguntei.

- Ela será promovida a Primeiro Escalão dentro de algumas semanas. É uma grande honra - contou.

Feiticeira de Primeiro Escalão era o cargo mais elevado que um praticante poderia alcançar, ocupado talvez por vinte artistas em todo o reino, e todos eles realizavam serviços nobres pelo melhor interesse do país - ou haviam realizado os favores certos para as pessoas certas. Grou estava totalmente correto: trata-se de uma grande honra, especialmente na idade de Célia. Mas também não era o que eu tinha perguntado.

- E como ela está? - insisti.

Os olhos de Grou desviaram-se e ele me deu a resposta que eu precisava ouvir.

- Bem - disse ele. - Ela está... bem.

Voltei pelos degraus e parei em frente a uma porta de vidro jateado um andar abaixo da cúpula. Resisti à tentação de dar uma cheirada de Sopro de Fada. Era melhor fazer isso logo, e sóbrio.

O conservatório era bonito, assim como tudo no Ninho.

Plantas cultivadas vindas de todas as Treze Terras armazenadas em pequenas estufas, deixando um colorido espectro de flores que complementava as paredes de pedra azul. Cepas violetas de Dedos de Rainha opunham-se aos tons alaranjados de Peles de Pato, enquanto o aroma dos ramalhetes de Daevas se espalhava por todo o espaço, também ocupado por algumas coisas ainda mais estranhas naquele ambiente quente e úmido.

Ela ouviu minha aproximação, mas não parou o que estava fazendo e continuou trabalhando em uma pequena samambaia num canto com um decantador de prata trabalhada. Uma blusa azul apertava-lhe a cintura e terminava pouco abaixo da coxa, mas quando ela ficava ereta descia até o joelho. Ela então virou-se na minha direção e tive um primeiro vislumbre de seu rosto, ainda familiar apesar da distância no tempo, de seus macios cabelos castanhos e de seus olhos amendoados. Um colar barato abraçava as curvas de seu pescoço cor de mel, um medalhão de madeira laqueada suspenso por um cordão, com ideogramas kiren gravados na frente.

- Você voltou - disse ela, mas eu não estava muito seguro quanto ao tom que ela usou nem a como se sentia quanto a isso.

- Deixe-me olhar pra você - continuou ela, colocando as duas mãos perto do meu rosto e podia tanto me acariciar quanto me dar um tapa. Qualquer uma das opções seria adequada. - Você envelheceu - sentenciou ela finalmente, optando pela primeira, passando os dedos pelo meu rosto enrugado.

- Dizem que isso é culpa do tempo - comentei. Apesar de o passar dos anos ter atrofiado meu corpo e marcado meu rosto, para ela os efeitos não tinham sido outra coisa que não positivos.

- É o que dizem por aí - rebateu. Quando ela sorriu, vi alguma coisa da menina que ela foi um dia, no jeito aberto e amistoso com o qual me olhava, na rapidez com que perdoava minha ausência, na luz que ela irradiava instintivamente e sem pensar duas vezes. - Estive no Conde todos os dias durante um mês inteiro depois que você saiu da Casa Negra. Adolphus dizia que você estava na rua. Ele dizia isso sempre. Depois de algum tempo eu parei de aparecer.

Eu não respondi, fosse para corrigir sua crença em relação a como eu deixara de servir à Coroa ou para explicar minha ausência.

- Você nos deixou por cinco anos, desapareceu completamente, sem deixar nenhuma mensagem, sem dizer uma palavra - expressou. Ela não parecia brava, nem ao menos triste, a ferida perdera o viço, mas ainda era perceptível. - E agora você não pode nem ao menos dar uma explicação? - cobrou.

- Tive meus motivos - disse eu.

- Foram motivos ruins.

- Eles podem ter sido ruins. Tomei um monte de decisões ruins.

- Não vou discutir isso - sentenciou Celia. Não era bem uma piada, mas foi engraçado. - É muito bom te ver - disse ela enfim, escolhendo bem cada uma das palavras, como se quisesse dizer mais.

Olhei para os meus pés. Eles não pareciam me dizer nada que eu já não soubesse.

- Fiquei sabendo que você esta para ser promovida a Feiticeira de Primeiro Escalão. Parabéns.

- É uma honra que eu não sei bem se mereço. Certamente a palavra do Mestre muito ajudou para suavizar minha ascensão.

- Isso quer dizer que agora você estará livre para destruir qualquer coisinha de que não gostar e transformar servos desobedientes em roedores?

As feições de seu rosto ganharam uma pose esticada que às vezes via em seu rosto quando ela era criança e não entendia uma brincadeira.

- Eu me dediquei para seguir os passos do Mestre, e por isso estudei as especialidades que ele aperfeiçoou: alquimia, feitiços de proteção e cura. O Mestre nunca achou adequado aprender os caminhos pelos quais os praticantes fazem mal a seus semelhantes, e eu não pensaria em trilhar vias que ele decidiu ignorar. E preciso um certo tipo de pessoa até mesmo para praticar os matizes mais escuros da Arte. E nenhum de nos é capaz disto.

Qualquer um é capaz de qualquer coisa, pensei eu, mas não em voz alta.

- Ele é extraordinário. Não acho que em nenhum momento tenhamos percebido isso quando éramos crianças. Ter tido a honra de aprender a seu lado... - ela levou suas pequeninas mãos ao peito e balançou a cabeça. - Você tem ideia do que o feitiço de proteção do Mestre significou para esta cidade? Para este país? Quanta gente morreu na peste? Quantos mais teriam morrido se suas salvaguardas não nos protegessem até os dias de hoje? Antes do trabalho dele, o crematório precisava funcionar vinte e quatro horas por dia no verão para dar conta - e isso foi quando a peste estava em declínio. Quando veio a Febre Vermelha não havia sobrado ninguém nem para se desfazer dos corpos.

Uma lembrança me veio à mente, uma criança de seis ou sete anos andando com cuidado sobre os corpos de seus vizinhos, com cuidado para não pisar nos membros espalhados, gritando por uma ajuda que nunca viria.

- Eu sei o que o trabalho dele significou - respondi.

- Você não sabe. E acho que ninguém sabe, na verdade. Nós não temos a menor ideia do número de mortos na Cidade Baixa, entre os ilhéus, entre os trabalhadores das docas. Com o saneamento do jeito que era, pode ter chegado a um terço, à metade, talvez até mais. Ele é o responsável por termos vencido a guerra. Sem ele, não haveria homens vivos em quantidade suficiente para lutar - os olhos dela voltaram-se de maneira reverente para cima. - Nós nunca poderemos retribuir o que ele fez. Nunca.

Eu não respondi e ela ficou um pouco corada, repentinamente autoconsciente.

- Mas você me provocou de novo - seu sorriso solto revelou uma fina rede de linhas pela pele, linhas estas que contrariavam a lembrança que eu tinha dela de quando jovem, imagens que eu sabia não existirem mais, mas que eu não podia esquecer.

- Tenho certeza de que você não voltou aqui para ouvir minhas velhas opiniões sobre o Mestre.

- Não especificamente.

Demorei demais a perceber que minha resposta pela metade permitiu a ela elaborar uma explicação própria para minha aparição.

- Isso é um interrogatório forçado? Acaso devo te amarrar a uma cadeira e forçar uma confissão?

Eu não havia planejado contar a ela. Eu nem ao menos havia planejado conversar com Célia. E era melhor eu dizer a ela quais eram meus verdadeiros motivos do que alimentar quaisquer que fossem as fantasias às quais ela estava se apegando.

- Você ouviu falar da pequena Tara? - perguntei.

Ela ficou pálida e seu sorriso quente despareceu.

- Nós não estamos tão apartados da cidade quanto você pensa - defendeu-se.

- Eu encontrei o corpo dela ontem - continuei. - E eu vim aqui para saber se o Mestre sabia de algo.

Célia mordeu o lábio inferior - aquele cacoete, pelo menos, era alguma coisa que havia sobrado de nossos tempos de criança.

- Vou acender uma vela para que Prachetas possa confortar a família dela, e uma para Lizben, para que a alma da menina encontre o caminho de casa. Mas, francamente, eu não sei o que você tem a ver com isso. Deixe a Coroa resolver isso.

- Por que, Célia? Isso parece mais uma frase que eu diria, e não você.

Ela ficou corada novamente, ligeiramente envergonhada.

Dei alguns passos na direção de uma planta alta totalmente desabrochada, trazida de algum canto distante do globo. O odor era enjoativo e forte.

- Você se sente feliz aqui, seguindo os passos dele? - perguntei.

- Eu jamais terei o mesmo conhecimento que ele, nem serei capaz de ter tanto domínio sobre a Arte. Mas é uma honra ser a herdeira do Grou. Estudo dia e noite para ser merecedora desse privilégio.

- Você pretende substituí-lo?

- Não substituí-lo, é claro. Ninguém jamais poderia substituir o Mestre. Mas ele não vai viver para sempre. Alguém terá de assegurar a continuidade de seu trabalho. O Mestre entende isso, o que é parte do motivo de minha promoção -explicou. Célia levantou o queixo, confiante, quase soberba. - Quando chegar o momento eu estarei pronta para proteger o povo da Cidade Baixa.

- Sozinha na torre? Parece-me uma busca solitária. O Grou já havia passado da meia-idade quando se retirou para cá.

- O sacrifício é parte da responsabilidade.

- O que houve com seu cargo no Birô de Assuntos Mágicos?- perguntei ao me lembrar da posição que ela ocupava na última vez que conversamos. - Você parecia gostar, pelo que me lembro.

- Eu percebi que tinha ambições maiores do que passar o resto da minha vida remexendo papéis em uma mesa e discutindo com funcionários e burocratas - os olhos dela congelaram, em contraste com a doçura que até aquele momento ela me oferecera.

- É uma meta com a qual você estaria mais familiarizado se ao menos tivesse se dado ao trabalho de falar comigo em algum momento nos últimos cinco anos.

Difícil rebater uma dessas. Virei-me de costas, em direção às plantas.

Célia extravasou a raiva e no momento seguinte voltara seu costumeiro jeito jovial.

- Vamos parar já com isso - temos anos e anos para repor a conversa. O que você tem feito de bom? Como está Adolphus?

Não era bom estender aquela conversa, para nenhum de nós dois.

- Foi bom te ver. É bom saber que você continua cuidando do Mestre - falei. E que ele continua cuidando de você, pensei comigo.

O sorriso dela vacilou.

- Você vai voltar amanhã então? Apareça para jantar - deixaremos um lugar na mesa para você, como nos velhos tempos - convidou.

Dei um peteleco em uma flor para a qual olhava, espalhando pólen pelo ar.

- Tchau, Célia. Fique tão bem quanto for possível - saí dali antes que ela pudesse responder. Quando cheguei ao fim da escadaria eu já estava praticamente correndo, empurrando a porta da torre e fugindo para a noite em seu início.

Meia quadra depois da Praça da Exultação eu me encostei na parede de uma viela e procurei em minha bolsa por um pouco de Sopro de Fada. Minhas mãos estavam trêmulas e me peguei tendo dificuldade para destampar a garrafa antes de finalmente arrancar a rolha e levar o frasco até meu nariz. Dei uma puxada longa e profunda - e depois outra.

Foi uma caminhada conturbada de volta ao Conde e eu teria sido alvo fácil de qualquer ladrão que quisesse me pegar, mas isso se houvesse algum por perto. Não havia. Eu estava sozinho.