O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 12 de 49

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O Guardião

Capítulo 12

Quando terminei de contar a história adaptada para o consumo público, o Grou se serviu de um copo de remédio amargo e o bebeu em pequenos goles, tendo arrepios. Eu nunca havia visto o Grou assustado. Não era um bom presságio para o meu futuro imediato.

- Você tem certeza que o monstro de Adelweid foi a mesma coisa que matou o kiren?

- Foi a impressão clara que eu tive.

- Uma criatura do vazio do além-mundo solta na Cidade Baixa - ele tomou o restante do remédio e depois secou os lábios com seu braço ossudo. - Pelo Guardião dos Juramentos.

- O que você pode me dizer sobre isso?

- Eu já ouvi lendas. Dizem por aí que Atrum Noctal, o falso monge de Narcassi, é capaz de espreitar o vazio entre os mundos e que as coisas que ele vê ali o atenderiam quando chamadas. Sessenta anos atrás, meu mestre, Ruão, o Implacável, liderou os feiticeiros do reino contra a Ordem da Quadratura do Círculo, cujas violações das altas leis eram tão chocantes que todos os registros de suas atividades foram destruídos. Mas por minha própria experiência... - ele parou e encolheu seus estreitos ombros - eu nunca vi. O estudo da Arte é um caminho sinuoso e repleto de ramificações. Antes da criação da Academia de Fomento às Artes Mágicas, os praticantes aprendiam o que seus mestres tinham a ensinar e estudavam o lado para o qual pendiam suas inclinações. Ruão não tinha bagagem de escuridão e, apesar de eu não mais servi-lo, mantive-me fiel a seus preceitos.

Ele então sorriu e eu percebi de certa forma surpreso que era a primeira vez que ele havia sorrido desde que eu tinha entrado.

Pelo Guardião dos Juramentos, ele estava indo rápido.

- Para mim, a Arte nunca foi um caminho para o poder, muito menos uma forma de me aprofundar em segredos ocultos em um lugar onde nada que vive mora - as mãos dele começaram a emitir uma clara luz azul, com o calor gradualmente formando uma bola cintilante que descia por seus braços. Ele havia feito aquele truque uma vez para mim e para Célia quando éramos crianças, rolando a esfera por baixo das mesas e das cadeiras, sempre um pouco além do nosso alcance. - Meus dons servem à cura e à proteção, para abrigar os fracos e para dar descanso aos exaustos. Nunca desejei ser capaz de nada além disso.

Duas batidas agudas soaram de uma porta externa e Célia entrou. As ilusões diminuíram de tamanho e logo desapareceram.

O Grou voltou rapidamente seus olhos na direção dela.

- Célia, minha querida, veja quem voltou - havia um tom estranho na voz dele.

Célia cruzou a sala enquanto seu vestido verde-claro balançava suavemente, de acordo com seus movimentos. Eu me inclinei e ela beijou minha bochecha enquanto passava as mãos pelo meu rosto. Em torno de seu dedo indicador havia um anel de prata com uma enorme safira, símbolo de sua ascensão a Feiticeira de Primeiro Escalão.

- Que surpresa mais agradável. O Mestre suspeitou que não o fosse ver novamente, que a última visita tivesse sido um acaso feliz. Mas eu estava certa -disse ela.

- Sim, você estava certa, minha querida! Completamente certa! - admitiu Grou, com um sorriso tenso no rosto envelhecido. - E agora estamos todos juntos de novo aqui, como era antes - disse ele estendendo as mãos e as pousando levemente, uma em cada um de nós. - Como devia ser sempre.

Achei bom quando Célia se desvencilhou, assim eu também pude me soltar do aperto do Mestre. A boca de Célia formava um pequeno arco que parecia um sorriso.

- Tanto quanto eu amaria achar que tudo isso é puramente social, não posso evitar imaginar o que é que vocês dois pararam de falar assim que eu entrei na sala.

Dei um olhar na direção de Grou, na esperança de manter em segredo o teor da conversa, mas ou ele não percebeu meu sinal ou simplesmente o ignorou.

- Nosso amigo quer saber mais sobre a criatura que o atacou. Ele contou que viu algo parecido na Guerra. Eu acho que ele está pensando em se tornar um novo Guy, o Puro, caçando os inimigos de Sakra com uma espada de fogo sagrado -disse Grou antes de soltar uma gargalhada que se transformou em uma tossida.

Célia pegou o copo vazio das mãos de Grou e colocou um pouco mais de líquido verde do decantador antes de devolvê-lo a ele.

- Eu pensei que você estivesse cansado de brincar de herói. Na verdade, pouca gente sobrevive a um encontro com o vazio, e aqueles que o vivem raramente anseiam por repetir a experiência - disse Célia.

- Sobrevivi a algumas coisas. Se o Primogênito quiser, sobreviverei a algumas mais.

- Sua bravura é inspiradora. Nós certamente vamos nos lembrar de encomendar um poema épico quando seu corpo estiver num caixão.

- Se vocês não conseguirem, façam então uma música. Sempre achei que merecesse uma ode.

Eu pensei que aquilo fosse pelo menos arrancar umas risadas, mas Célia não estava rindo e o Grou parecia não estar ouvindo.

- Talvez não seja uma escolha minha - eu disse. - Outra menina desapareceu.

O Grou interrompeu seu repouso e seus olhos anêmicos pousaram sobre meu rosto antes de se desviarem para os de Célia.

- Eu não sabia. Pensei que... - ele interrompeu o raciocínio, voltou a ficar em silêncio e bebeu o resto do conteúdo de seu copo. O que quer que fosse aquilo, sua ressaca seria grande no dia seguinte.

Célia colocou uma mão nas costas do Mestre e o conduziu até uma cadeira. Ele primeiro hesitou, mas depois se permitiu ser conduzido, afundando na poltrona e olhando para o vazio.

Ela se inclinou e mexeu na cabeça dele, com seu colar de madeira pendendo sobre a abertura de seu vestido, que se apertou contra sua pele quando ela voltou a ficar em pé.

- É uma notícia terrível, mas não entendo o que isso tem a ver com você.

- A Coroa sabe que eu estava lá no primeiro caso. É só uma questão de tempo até virem atrás de mim, e se eu não tiver algo para dar pra eles... a coisa pode ficar ruim.

- Mas você não tem nenhuma habilidade com Arte. Eles precisam entender isso. Você era um agente. Eles vão ter que te dar ouvidos.

- Eu não deixei o serviço à Coroa com uma baixa honrosa. Eu perdi minha patente. Eles vão adorar ter algo para pregar em mim só pra juntar os pontos -disse eu. Que estranha concepção as classes mais elevadas têm das forças da lei. -Eles não são homens de bons modos.

Quando Célia voltou a falar, seu tom era firme e sério. -Tudo bem então. Se você está nessa, nós estamos nessa. Qual é o próximo passo?

- Nós?

- Por mais que sirva a sua vaidade bancar o lobo solitário, você de fato não é a única pessoa preocupada com o que acontece na Cidade Baixa. E por mais difícil que seja acreditar nisso, o tempo passa dentro do Ninho da mesma forma que passa fora - ela levantou a mão para a luz, o que chamou a atenção para o seu anel. - Dada a natureza da sua investigação, talvez não seja de todo ilógico confiar na assistência de uma Primeira Feiticeira do Reino.

- Talvez não seja - admiti.

Ela mordiscou os lábios, pensativa. Tentei não notar sua sensualidade.

- Espere aqui. Tenho uma coisa que pode ajudá-lo.

Eu a observei enquanto saía e depois me voltei para o Grou.

- Sua pupila assume com competência suas novas responsabilidades.

Ele respondeu sem olhar para cima.

- Ela não é mais a menina que era antes.

Eu ia continuar a falar, mas quando vi seu rosto na luz que diminuía, frágil como se pudesse de repente se desfazer em poeira, achei melhor não e esperei em silêncio até que Célia voltasse.

- Tire sua camisa - ordenou ela.

- Sei muito bem do meu irresistível poder de sedução, mas eu não imaginei que fosse a hora certa de sucumbir a ele - ela revirou os olhos, fez um gesto de desprezo com a mão. Eu atirei meu casaco em uma cadeira próxima e tirei minha túnica pela cabeça. Sem ela, percebi que a sala tinha uma corrente de ar forte. Esperei que a ideia de Célia não fosse perda de tempo.

Ela vasculhou um bolso de sua roupa e pegou uma safira, de um azul perfeito e aproximadamente do tamanho de uma unha.

- Eu enfeiticei isso aqui. Se ele parecer quente ou se lhe causar dor significa que você está na presença da magia negra, seja o próprio praticante ou alguém próximo dele.

Ela pressionou a pedra contra meu peito, abaixo do ombro. Senti uma queimação e quando ela tirou o dedo, a joia estava presa em meu corpo.

Dei um grito baixo e esfreguei a pele em torno da joia.

- Por que você não me avisou que ia fazer isso?

- Pensei que você encararia melhor se fosse surpresa.

- Isso é bobagem - respondi.

- Acabei de lhe conceder uma dádiva poderosa, uma dádiva que pode muito bem salvar a sua vida, e você reclama da picada necessária para implantá-lo.

- Você está certa. Obrigado - senti como se tivesse algo mais a dizer, mas a gratidão é uma emoção cuja demonstração raramente me é exigida, e a inversão de nossos papéis tradicionais me deixou abalado. - Obrigado - repeti meio sem jeito.

- Não precisa agradecer. Você sabe que eu faria qualquer coisa por você

- os olhos dela baixaram para meio peito nu. - Qualquer coisa.

Coloquei a camisa e peguei meu casaco, o melhor que eu pude fazer para mascarar minha incapacidade de achar algo para dizer.

- E agora? - perguntou Célia, toda empolgada.

- Tenho algumas ideias. Voltarei dentro de um ou dois dias e te avisarei se alguma coisa acontecer.

- Faça isso. Farei contato com algumas pessoas que conheço no Birô de Assuntos Mágicos, para ver se tem algo que eles possam me dizer.

Grou quebrou o silêncio com uma nova tossida e decidi que era hora de ir. Agradeci ao Mestre, que me fez um rápido aceno enquanto tossia.

Célia acompanhou-me até a porta.

- Preste atenção na joia - ela disse seriamente. - Ela o levará ao culpado. Dei uma olhada para trás enquanto descia as escadas. A tosse de Grou ecoava pelas pedras azuis enquanto Célia me observava do terraço, seu rosto preocupado, seus olhos negros.