O Guardião
Capítulo 19
Eu estava pensando na última vez que havia levado um órfão até o Grou na tentativa de chamara atenção do guardião. Não estava funcionando. Enfatizei uma série de epítetos enquanto atirava um pedregulho na gárgula, mas ela não esboçava nenhuma reação.
- Por que você está fazendo isso? - perguntou Garrincha, sentado no muro interno do labirinto.
- Normalmente ele responde.
- Ele quem?
- O monstro mágico pendurado sobre a porta, é claro.
Garrincha teve o bom senso de não me contrariar. Sentei–me ao lado dele, peguei a bolsinha de tabaco de dentro da minha bolsa e comecei a enrolar um cigarro.
- Maldita magia. Estaríamos todos bem melhor sem ela.
- Isso é bobagem - respondeu Garrincha, estranhamente exaltado.
- É mesmo? Então me diga uma coisa boa que já veio da Arte?
- A proteção do Grou.
Acendi meu cigarro com a mão em concha para não o deixar apagar.
- Agora diga mais uma.
- Eu ouvi dizer que o Monge Hallowell tem o dom e cura pessoas na Igreja da Matriarca Prachetas.
- O monge Hallowell já lhe curou alguma vez? - perguntei enquanto inalava veneno barato para dentro de meus pulmões.
- Não.
- Ele já curou alguém que você conheça?
Garrincha sacudiu a cabeça negativamente.
- Então não conta, não é verdade?
- Não - admitiu ele, como sempre rápido para entenderas coisas -, não conta.
- Não misture as coisas na sua cabeça. Esses dois no Ninho são anomalias, exceções que confirmam a regra. Se não entender isso, você vai se meter em encrenca.
O menino ficou pensando naquilo enquanto eu terminava meu cigarro. E então perguntou:
- Há quanto tempo você conhece o Grou Azul?
- Há vinte e cinco anos.
- Então por que ele não te deixaria entrar na torre?
Pois é, por quê? Até mesmo nas raras ocasiões que o Grou não me recebeu, seu porteiro sempre se animou ao rechaçar meus apelos. Se as defesas do Ninho estavam malconservadas, isso significava que a saúde do Grou Azul estava pior do que eu imaginava. Peguei outra pedra, maior dessa vez, e atirei no guardião. Não teve mais efeito que a primeira e eu voltei a me sentar.
Tentei esfriar a cabeça. Ainda havia trabalho a ser feito. Garrincha balançava as pernas sobre a pedra branca. Fiz o mesmo enquanto olhávamos na direção da cidade.
- Eu gosto desse dédalo - disse Garrincha.
- Isso é um labirinto - corrigi.
- E qual é a diferença?
- O dédalo possui apenas um caminho certo e termina no meio. O labirinto tem diversos caminhos e termina onde você encontrar a saída. Levantei-me para cumprimentar Célia. Seu vestido parecia suave na luz da tarde e ela sorria.
- Desculpe-me pela espera. Eu já aprendi a controlar o Ninho, mas ainda não sei operar direito o guardião - disse ela enquanto segurava minha mão suavemente. - Quem é esse aqui?
Olhei para baixo e vi que Garrincha havia fechado a cara. Atribuí isso ao instinto perverso tão comum entre os adolescentes quando apresentados a alguém do sexo favorito, um impulso tão incontrolável que levaria garotos a esfregarem lama nos cabelos de sua futura namorada. Havia poucas mulheres andando pelas ruas da Cidade Baixa que pudessem ser comparadas a Célia.
- Garrincha, está é a Célia. Célia, este é o Garrincha. Ignore a carranca. Ele pisou numa barra de metal enferrujado ontem. Acho que ele está ficando com tétano.
- Bom, então fico feliz que ele o tenha trazido aqui. O Mestre vai dar uma olhada nisso - disse Célia, mas sua tentativa de ganhar o garoto depois de sua manifestação irracional de antipatia não teve sucesso. Acho que ele até fechou um pouco mais a cara. Com um movimento gracioso dos ombros, Célia voltou a atenção para mim. - Você continua recolhendo crianças abandonadas?
- Ele está mais para um aprendiz. A gente vai ficar conversando na rua ou você tem planos de nos convidar para entrar?
Ela deu uma risada. Eu sempre conseguia fazê-la rir. Nós subimos até o alto da torre e Célia nos conduziu até a sala de estar do Grou.
- O Mestre deve aparecer em breve. Eu o avisei de sua chegada antes de deixá-lo entrar.
Nós vimos o sol da tarde baixar pela janela virada para o sul.
Garrincha ficou por perto. Com os olhos, observava os tesouros do Grou com a intensidade de uma pessoa cujas posses todas caberiam confortavelmente dentro de uma sacola.
A porta do quarto se abriu e o Grou entrou, empolgado, mas com uma rigidez que nenhum bom-humor seria capaz de ocultar.
- Voltou por conta de algum propósito clandestino, sem dúvida - começou ele antes de notar a criança ao meu lado.
Então seus olhos se acenderam como antes, apesar de os anos parecerem tê-los apagado um pouco, e fiquei contente por ter tirado Garrincha do Conde.
- Vejo que você trouxe um convidado. Venha aqui, criança. Estou velho e minha vista já não anda mais como antigamente.
Ao contrário da animosidade demonstrada para com Célia, Garrincha foi até o Grou sem pestanejar, e uma vez mais eu me impressionei com a facilidade graciosa que o Mestre possuía com as crianças.
- Você está mais magro do que deveria para uma criança da sua idade, mas o seu mestre também era assim. O peito dele parecia um cabo de vassoura. Qual seu nome?
- Garrincha.
- Garrincha? - a gargalhada do Grou encheu a sala, desta vez sem ser acompanhada de uma tosse. - Garrincha e Grou! Podíamos muito bem passar por irmãos! É claro que o meu nome é o de uma criatura de dignidade e equilíbrio, enquanto o seu é o de uma humilde ave, notável apenas por seu canto irritante.
Aquilo não era o bastante para fazer um garoto sorrir, mas estava perto, bem perto no caso de Garrincha.
- Então, Garrincha. Você vai nos agraciar com seu canto?
O menino sacudiu a cabeça negativamente.
- Então parece que eu terei que cuidar da diversão - disse o Grou, que numa corrida jovial foi até uma prateleira sobre a lareira e pegou uma velha criação sua, um instrumento de aparência esquisita, no meio do caminho entre um trompete e um berrante, com pistões curvos de cobre polido recobertos com marfim claro. -Você tem certeza que não vai querer mostrar seus talentos musicais, jovem Garrincha?
Garrincha voltou a sacudir a cabeça, desta vez com fúria.
O Grou primeiro simulou tristeza, depois levou a coisa à boca e soprou com toda força. O som que saiu era parecido com o urro de um touro enquanto um caleidoscópio de fagulhas vermelhas e laranjas saíam pela abertura, num redemoinho para o alto.
Garrincha tentou tocar as luzes cintilantes que giravam no ar. Eu adorava aquela coisa quando era criança. É estranho que há anos não me lembrava daquilo.
Célia interrompeu:
- Mestre, se você fizer a gentileza de entreter nosso novo amigo, eu preciso trocar algumas palavras com o mais velho aqui.
Pensei que ele não fosse querer, mas então me soltou um rápido sorriso antes de se voltar para o garoto.
- Cada nota solta uma cor diferente, você vê? - disse o Grou antes de dar outro sopro e soltar fagulhas azul-esverdeadas, como a espuma da água do mar.
Nós descemos para a estufa sem nada dizer. A porta de vidro estava embaçada por conta do calor. Célia a abriu e me conduziu para dentro. Antes que eu tivesse tempo de apreciar as novas flores que haviam desabrochado, Célia foi direto ao assunto:
- E então, como anda nossa investigação.
- Não deveríamos incluir o Mestre nisso?
- Se você quiser separar um homem no fim da vida de um dos poucos prazeres que lhe restam, é por sua conta.
Depois de tê-lo visto, aquele comentário não foi um choque completo. Ainda assim, não gostei de ver confirmadas as minhas suspeitas.
- Ele está morrendo?
Célia sentou-se em um banco ao lado de uma orquídea rosa e fez que sim com a cabeça, denotando tristeza.
- O que ele tem?
- Ela está velho. Ele não me contaria com exatidão, mas ele já tem, por baixo, uns setenta e cinco anos.
- Lamento muito.
- Eu também - disse ela, antes de voltar rapidamente ao assunto. - Isso o chateia, esse negócio com as crianças. Ele sempre teve o coração mole.
- Não acho que uma pessoa precise ser hipersensível para considerar repugnante o assassinato de crianças - disse eu enquanto tentava tirar um grão de pólen do meu rosto sem espirrar.
- Não quis dizer isso. O que aconteceu com as crianças é terrível. Mas não existe nada que o Mestre possa fazer. Ele já não é mais o que era antes - disse Célia com o olhar firme. - O Grou serviu ao povo dessa cidade por meio século. Ele merece paz em seus últimos dias. Certamente você deve isso a ele, não é?
- Eu devo ao Mestre muito mais do que eu seria capaz de pagar - e ao dizer isso me veio uma lembrança do como era o Grou, com seus olhos cintilantes de sagacidade e travessura, as costas nem inclinadas nem arqueadas.
- Mas não é essa a questão. Essa coisa precisa ser detida e meus recursos não permitem que eu perca um aliado - disse eu antes de dar uma risada cáustica.
- Dentro de uma semana isso não vai mais importar mesmo.
- O que você quer dizer com isso?
- Deixa pra lá. Foi uma tentativa fracassada de piada.
Ela não se convenceu, mas não tentou ir além.
- Eu não estou conseguindo ajudar. Se você precisa de ajuda... Eu jamais serei como o Grou em habilidade ou em sabedoria, mas eu sou uma Feiticeira de Primeiro Escalão - disse ela antes de olhar modestamente para o anel que provava sua afirmação. - O Mestre já cuidou da Cidade Baixa por tempo suficiente. Agora que eu já assumi o Ninho, talvez seja hora de assumir o restante da túnica.
Os anos durante os quais não nos vimos envelheceram Célia.
Ela não era mais a criança que eu havia trazido ao Ninho décadas atrás. Mas às vezes ela fala como naqueles tempos, adotar a túnica, que os Daevas nos salvem.
Célia interpretou meu silêncio como um consentimento.
- Você conseguiu alguma pista?
- Tenho suspeitas. Eu sempre tenho suspeitas.
- Não deixe que eu o apresse. Se você tiver algum outro assunto mais urgente sobre seus ombros, fique à vontade para cuidar disso antes.
- Eu fui a uma festa dada pelo lorde Beaconfield, o Espada Sorridente. Sua joia pulsou em meu peito enquanto conversávamos.
- E você não achou que essa fosse uma informação boa de ser compartilhada.
- Não acho que seja uma informação tão boa quanto você pensa. No que diz respeito à lei, não significa nada. Se estivéssemos falando de um vagabundo qualquer da Cidade Baixa já poderia ser suficiente, e provavelmente seria. Eu poderia apontar o dedo e o Comandante o levaria à Casa Negra para encontrar seus podres. Mas um nobre? A jurisprudência básica precisa ser mantida, e isso significa que você não pode ir buscar o camarada em sua casa e pegá-lo só por causa do palpite do talismã mágico obtido de forma ilegal por um ex-agente da Coroa.
- Não - disse ela desanimada. - Suponho que não possa.
- Além disso, eu não tenho certeza de que o amuleto esteja certo. Falei com Beaconfield. Ele parece ser um tipo violento, daquele tipo que existe aos montes nas classes mais altas. Mas matar crianças, convocar demônios... Não condiz com o jeito dele. A aristocracia tende a ser preguiçosa demais para realmente cometer um ato de malevolência. É mais fácil torrar a herança em trajes de gala e prostitutas caras.
- É possível que você o esteja sobrevalorizando?
- Não é o tipo de erro que eu costumo cometer. Mas é o que digo, digamos que seja o duque. Ele não é um artista. Eu ficaria surpreso se ele soubesse somar. Como ele seria capaz de entrar em contato com o vazio?
- Existem praticantes que acham certo vender seus conhecimentos a qualquer um com dinheiro suficiente. Havia alguém próximo desse Beaconfield que poderia se encaixar nisso?
- Sim - disse eu. - Havia, sim.
Célia cruzou as pernas. O rosa de suas coxas quase não era visível através do vestido.
- Isso pode ser algo que você queira averiguar.
- Pode ser - comentei meio atrapalhado para depois recomeçar: - Na verdade há uma outra coisa que eu queria lhe perguntar, algo que nem o Mestre conseguiu me ajudar.
- Como eu disse, estou aqui para ajudar.
- Eu gostaria de saber sobre o tempo que você passou na Academia.
- Por quê?
- Aborrecimento abjeto. Não tenho absolutamente nada para ocupar a cabeça, então imaginei que suas farras da juventude poderiam me dar algo para poder remoer.
Ela pigarreou, ficou com um sorriso amarelo, mas tudo tão de leve que o som quase não escapou de sua boca. Ela fez uma breve pausa enquanto media as palavras:
- Tudo isso aconteceu muito tempo atrás. Eu era jovem. Todos nós éramos jovens. O Mestre e todos os outros praticantes de sua estirpe não estavam interessados em ingressar na academia, então éramos somente nós os aprendizes, os fracos e os inexperientes, quem quer que eles pudessem colocar para dentro. Os instrutores, se é que os podemos chamar assim, eram pouco mais velhos que nós e em poucos casos mais competentes. Não existia realmente currículo, não naquela época, logo que estávamos começando. Eles apenas... nos reuniram em uma sala e nos deixaram soltos. De qualquer forma, aquela era a primeira vez que algo assim acontecia, a primeira vez em que éramos encorajados a compartilhar nossos conhecimentos, ao invés de escondê-los em livros de magia cifrados e em grimórios protegidos com feitiços duplos.
- Você conheceu um homem chamado Adelweid? - perguntei. Célia apertou os olhos e mordeu os lábios.
- Não éramos um grupo grande. Todo mundo conhecia todo mundo, mais ou menos - respondeu. Célia era o tipo de pessoa que viveria alegremente o resto da vida isolada do restante de sua espécie, mas tinha grande dificuldade em reunir a má vontade de falar mal de qualquer espécime específico dela.
- O feiticeiro Adelweid era... muito talentoso - disse ela. Pensei que ela fosse continuar, mas depois ela fechou a boca, sacudiu a cabeça e foi só.
Então eu achei melhor dar um incentivo:
- O feiticeiro Adelweid participou de um projeto militar nos dias finais da Guerra, a Operação Ingresso.
- O Mestre me contou sua história.
- Você sabe alguma coisa relacionada a isso?
- Como eu disse, nós éramos deixados livres para seguir qualquer caminho de estudo que nos interessasse. Eu e Adelweid tínhamos inclinações diferentes. Ouvia rumores, coisas feias, mas nada muito específico. Se eu soubesse de qualquer coisa que achasse que pudesse ajudar, já teria lhe contado - Célia disse isso e encolheu os ombros, ansiosa por encerrar o assunto. - Adelweid está morto, e há muito tempo.
De fato ele estava morto.
- Mas Adelweid não era o único envolvido - prossegui. - Quem quer que tenha matado o kiren deve ter participado daquilo. E coisas desse tipo, um projeto militar... eles mantiveram algum registro.
Sua cabeça elevou-se do apoio nos ombros.
- São segredos de Estado - disse ela, quase insistindo. - Devem estar escondido. Você nunca vai conseguir encontrar.
- Eles devem estar escondidos e eu imagino que quem estiver cuidando dos arquivos secretos do exército não estará muito ansioso por compartilhá-los comigo. Felizmente, eu tenho outras linhas de investigação a seguir.
- Outras linhas?
- Crispin, meu antigo parceiro. Ele está cuidando disso.
- Crispin - repetiu - ele ainda é confiável? Ele vai conseguir isso pra você depois de... todo o tempo em que estiveram separados?
- Não acredito que ele esteja feliz por estar me fazendo um favor, mas ele não vai deixar que isso se transforme num obstáculo. Crispin... Crispin vale ouro. Não importa o que tenha acontecido entre nós. Se isso puder ajudar a parar com os assassinatos, se for a coisa certa a fazer, ele vai fazer.
Ela assentiu lentamente, seu rosto desviou-se do meu.
- Crispin, então é ele.
Em torno de nós, legiões de zangões voavam alegremente de uma pétala a outra para se guarnecer. A toada daquele zunido constante era um pouco soporífica.
Célia levantou-se do banco, seus olhos negros em contraste com a pele cor de mel.
- Fico feliz... - ela começou a falar e parou, sacudiu a cabeça, como que para reiniciar o discurso, e seus longos cabelos escuros foram para frente e para trás, balançando em charmoso uníssono ao redor de seu pescoço. - Tem sido bom vê-lo novamente, ainda que nessas circunstâncias. De certa forma, fico agradecido por você ter sido envolvido nessa bagunça - disse ela então tomando levemente minhas mãos nas suas e olhando-me nos olhos sem piscar.
O coração dela batia rápido por baixo da pele e o meu acelerou-se para acompanhar. Pensei em todos os motivos que faziam daquilo uma má ideia, tudo o que havia de podre, estragado e barato em relação àquilo. Depois pensei em tudo aquilo novamente. Teria sido muito mais fácil dez anos antes.
- Você e o Mestre estão sempre em meus pensamentos - eu disse baixinho.
- Isso é tudo o que você tem a dizer? Que eu ainda não saída sua memória?
- Eu preciso ver como está o Garrincha - desconversei.
Foi uma desculpa péssima para não dizer algo que era de fato verdadeiro. Ela assentiu e me acompanhou até a porta, com a tristeza fechando seu rosto em forma de coração.
Na sala do andar de cima, o Grou estava sentado em uma velha cadeira, de costas para nós, rindo e batendo palmas ritmadamente. Cada vez que ele fazia isso, a coleção de faíscas que girava na antecâmara mudava de cor e de direção, percorrendo o teto e descendo para a janela. Garrincha não demonstrava tanta alegria quanto o Mestre, mas para minha surpresa ele tinha no rosto um sorriso sincero, algo que estava mais em seus olhos, como se tivesse medo que alguém percebesse. Isso acabou abruptamente quando ele percebeu que eu e Célia havíamos voltado.
O Grou deve ter lido nossa entrada no rosto do menino porque parou de bater palmas e as fagulhas começaram a cair lentamente para o chão para depois sumirem no espaço. Coloquei minha mão nas costas do Grou. Os ossos de seus ombros eram perceptíveis por baixo da túnica.
- Eu sempre gostei desse brinquedo.
O Grou voltou a gargalhar, um sorriso iluminado, como suas faíscas. Iria sentir muita saudade de tudo isso quando ele tiver partido. Depois o sorriso se desfez e ele levantou a cabeça em minha direção.
- Aquele assunto que falamos da última vez...
Célia o interrompeu:
- Está tudo bem, Mestre. Foi isso que ele veio nos contar. Já estamos cuidando de tudo. Você não precisa mais pensar nisso.
Os olhos do Grou percorreram o rosto de Célia e depois o meu para ter a confirmação. Fiz algum movimento que deve ter sido uma encolhida de ombros ou um aceno com a cabeça. Ele estava velho e cansado e interpretou como se fosse uma confirmação. O sorriso voltou a seu rosto, ou pelo menos algo muito parecido com um, e ele falou então para Garrincha:
- Você é um bom menino. Não é como era esse aí - comparou o Mestre, dando depois um olhar para mim.
Garrincha, porém, não estava captando nada daquilo. Para renegar seu momento de iluminação, ele tinha agora o rosto fechado no mau-humor e fez um breve gesto de despedida coma cabeça para o Mestre.
O Grou tinha muitos anos de experiência com a ingratidão de jovens extremamente orgulhosos e sabia lidar com graça com o esnobismo.
- Foi um prazer essa oportunidade de diversão, Mestre.
- Garrincha - disse o Grou. Depois, com a mesma austeridade fingida de antes, disse a mim: - E você, senhor, como de costume, será bem-vindo aqui sempre que desejar.
Diga isso para a gárgula lá fora, pensei, mas ele parecia feliz e jovial, então mantive a boca fechada.
Célia ficou na escada e agachou-se quando Garrincha se aproximou.
- Foi muito bom te conhecer. Talvez, quando você voltar, nós tenhamos mais chance de conversar.
Garrincha não respondeu. Célia manteve o rosto amistoso e acenou quando nós dois passamos por ela.
Nós saímos do Ninho e começamos a andar para o norte.
Caminhamos por algumas quadras enquanto eu digeria o que havia aprendido, peneirando o barulho em busca de algo de valor, algo que fechasse com o resto de tudo.
Garrincha interrompeu meus devaneios:
- Eu gostei da torre.
Concordei com a cabeça.
- E gostei do Grou também.
Fiquei esperando Garrincha continuar, mas ele não o fez. Continuamos andando em silêncio.