O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 24 de 49

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O Guardião

Capítulo 24

Passei metade da noite me revirando no meio da fumaça da vinonífera que tinha imolado antes de ir para a cama e acordei na manhã seguinte mais tarde do que pretendia. Mais tarde do que deveria, uma vez que, do jeito que as coisas estavam, eu teria apenas mais seis oportunidades para dormir. O sol que atravessava a janela estava no meio do caminho de seu zênite na hora que vesti minhas calças.

O bar estava vazio, o que era normal para àquela hora do dia, e Adolphus estava sentado no balcão com ar de tristeza. Adeline estava limpando embaixo de uma mesa e fez um sinal com a cabeça quando me viu.

Puxei uma cadeira ao lado de Adolphus e perguntei:

- Qual o problema?

Ele tentou esconder a careta com um riso nada convincente.

- Nada. Por que perguntas?

- Quinze anos e você ainda parte do pressuposto equivocado de que pode mentir pra mim?

Por um instante seu sorriso foi real, ainda que sutil. Depois ele foi embora.

- Mais uma criança desapareceu - disse ele. Adeline parou de varrer. Mais uma, Sakra. Eu não esperava que aquilo fosse parar, mas eu esperava ao menos que fosse haver um intervalo maior entre uma e outra. Tentei não pensar em como isto afetaria o prazo do Comandante, ou se os durões do bairro aproveitariam a oportunidade para arrumar encrenca no território de Ling Chi.

- Quem foi? - perguntei.

Por um infeliz segundo eu temi que ele fosse começar a chorar.

- Foi Avraham, o filho da Meskie.

Um dia ruim torna-se pior. Meskie era nossa lavadeira, uma mulher doce vinda da ilha que criou uma ninhada de filhos com partes iguais de amor e rigor. Eu não conhecia Avraham em particular, a não ser como um dos membros da massa de jovens amáveis que cercavam sua matriarca.

Adeline tentou fazer uma pergunta:

- Você acha que ele ainda está... - mas parou no meio, sem querer concluir o pensamento na íntegra.

- Sempre há uma chance - respondi.

Não havia chance. A Casa Negra não iria encontrá-lo, fosse comigo ou sem mim. Eu não podia agir contra o Espada, não com o que eu tinha, mas porra, era possível que ele nem ao menos tivesse feito nada disso. Talvez algo fosse surgir em breve, talvez eu tivesse sorte, mas isso era apenas esperança, não perspectivas, e eu não sou uma pessoa otimista. A criança estava perdida. Eram dez e meia e eu já precisava de um tiro de Sopro de Fada.

Adeline concordou. Seu rosto arredondado parecia envelhecido.

- Vou lhe trazer um café - disse ela.

Eu e Adolphus ficamos ali sentados durante algum tempo, nenhum dos dois preocupado em encher o ar com conversa.

- Cadê o Garrincha? - acabei perguntando.

- Ele foi ao mercado. Adeline precisava de algumas coisas para o jantar - ele disse isso e colocou a mão no bolso, de onde retirou um pedaço de papel. - Isto chegou pra ti antes de você acordar.

Peguei e abri.

Ponte Hermes, seis e meia.

Crispin

Ele foi mais rápido do que imaginei, apesar de que eu não entendi por que ele queria me encontrar se podia simplesmente me mandar a lista. Talvez ele quisesse se desculpar por nosso desentendimento anterior, apesar de eu acreditar mais na probabilidade de ele esperar que eu me humilhasse um pouco antes de ele resmungar a informação. Acendi um fósforo na madeira do balcão e levei-o até o papel, deixando suas cinzas caírem no chão.

- A Adeline vai ter que limpar isso - reclamou Adolphus.

- Nós estamos todos limpando a sujeira de alguém.

No meio do meu desjejum Garrincha voltou com um saco e o rosto de Adolphus se animou um pouco.

- Quanto você me economizou?

- Duas pratas e seis cobres - respondeu Garrincha, despejando o troco no balcão.

Adolphus deu um tapa na perna.

- Ele pode não falar muito, mas você está diante do melhor regateador da Cidade Baixa! Você tem certeza que não tem sangue ilhéu na veia, garoto?

- Sei lá, talvez.

- Não perde uma esse garoto. Enxerga tudo, tudo o que precisa ser visto.

- Você soube do filho de Meskie? - perguntei, interrompendo os elogios de Adolphus.

Garrincha olhou para o chão.

- Vá lá e veja se os gélidos já terminaram qualquer investigação negligente que tenham começado.

- O que significa negligente?

Entornei minha xícara de café.

- Que não é sério.

Subi as escadas para pegar meus armamentos e dar um tiro de Sopro de Fada. Um menino desta vez. Qual seria a conexão?

Três crianças, sexos diferentes, raças diferentes, todas da Cidade Baixa, mas aquilo não significava nada além de que era bem mais fácil pegar uma criança de rua do que o filho de um nobre. Pensei em minha conversa na noite anterior com Beaconfield. Será que aquele filho da puta doente tinha terminado nossa reunião, virado as costas e pegado uma criança? Será que Avraham estava escondido em algum canto da mansão do Espada, amarrado a uma cadeira, chorando à espera do tormento que estava por vir?

Dei mais uma cheirada e tentei esvaziar a cabeça. Ainda não tinha nada contra o Espada. Se eu revelasse meu segredo e estivesse errado, acho que o Comandante não iria gostar muito. Melhor seguir a trilha do que perder as pegadas tentando saltar adiante.

Dei uma terceira cheirada e coloquei o resto do frasco na sacola. Eu sempre gostei de Meskie, dentro dos limites que interagimos. Eu não morria de amores pela ideia de me intrometer em seu sofrimento, mesmo que fosse com o objetivo de que ela fosse a última mãe a sofrer.

O Sopro de Fada me sacudiu de meu torpor matinal. Minha mente parecia limpa novamente. Era hora de sujá-la. Peguei meu casaco e desci as escadas.

Garrincha esperava no pé da escada, tenso como um músculo.

- Ela está sozinha. A lei veio e foi embora - relatou. Fiz um sinal com a cabeça e ele me seguiu para fora.

A Cidade Baixa no inverno é bastante deprimente. Não é tão ruim quanto no verão, quando o ar fede a fuligem e qualquer coisa que não apodreça sob o sol quente, mas é quase tão deprimente quanto. Na maior parte dos dias, a mistura da fumaça das fábricas com o nevoeiro congela em um miasma que gruda na garganta e entre isso e o frio, os pulmões precisam trabalhar o dobro apenas para dar conta da situação.

De vez em quando, porém, um forte vento vem do sul pelas colinas e afasta da cidade o nevoeiro que a envolve. O sol irradia aquela mistura particularmente perfeita de luz que ele muitas vezes oferece em lugar do calor e você fica com a sensação de que consegue enxergar todo o caminho até as docas, assim como com a sensação de que possa querer. Já fui criança em dias como aquele e todos os muros da cidade mereciam ser escalados, da mesma forma que toda estrutura vazia demandava exploração.

- Você conhecia ele? - perguntou Garrincha.

É verdade, nós não estávamos no meio de um passeio matinal, estávamos?

- Na verdade, não. Meskie tem uma ninhada de filhos - disse eu para explicar.

- Acho que tem um monte de crianças na Cidade Baixa, hein?

- Acho que sim.

- Por que ele?

- Então, por que ele?

Eu já estivera na casa de Meskie uma ou duas vezes, deixando coisas para Adeline. Ela sempre me convidava para uma xícara de café, insistia na verdade. A casa dela era pequena, mas bem cuidada, e os filhos dela eram cansativamente educados. Tentei formar uma imagem de Avraham na cabeça, mas não consegui nada. Eu poderia ter passado por ele um dia antes sem saber, uma nova oferenda Àquela que Espera por Trás de Todas as Coisas feita por sua congregação mais devota.

Se Avraham tivesse morrido, a casa dele estaria cheia de pessoas em luto, de mulheres aos prantos e de montes de comida recém-preparada. Como ele estava apenas desaparecido, o bairro não sabia como reagir, uma vez que os gestos comuns de compaixão seriam prematuros. As únicas pessoas na frente da casa de Meskie eram suas cinco filhas, plantadas em pé uma ao lado da outra.

- Olá, meninas. Sua mãe está em casa?

A mais velha fez que sim com a cabeça, com seus cabelos negros balançando para cima e para baixo.

- Ela está na cozinha - respondeu.

- Garoto, espere aqui com as filhas da senhora Meskie. Voltarei em alguns instantes.

Garrincha pareceu deslocado. Crianças domesticadas eram uma espécie à parte para ele, com suas insondáveis brincadeiras triviais. As conversas amistosas entre elas eram estranhas a seus ouvidos. As experiências de sua infância o marcaram de outra forma e o status quo não tem defensor mais rigoroso que o adolescente. Mas ele teria que aguentar aquilo por alguns minutos. Já era uma questão delicada demais sem ter um adolescente ao meu lado.

Bati de leve na porta, mas não houve resposta, então entrei.

Estava escuro. Os castiçais da parede estavam apagados e as sombras avançavam. Um corredor curto levava à cozinha. Entrei e vi Meskie inclinada sobre sua mesa larga, a pele escura espalhada como uma mancha de tinta sobre a mesa lixada. Limpei a garganta com um barulho alto, mas ou ela não ouviu ou preferiu não se manifestar.

- Oi, Meskie.

Ela levantou um pouco a cabeça.

- É bom vê-lo novamente - disse ela, apesar de o tom de sua voz indicar o contrário. - Mas acho que não vou poder lavar nada hoje - prosseguiu. O desespero em seu rosto era nítido, mas os olhos estavam limpos e a voz, firme.

Reuni coragem para continuar.

- Estou investigando o que anda acontecendo no bairro nas últimas semanas -disse eu. Ela não respondeu. Justo. Eu era o intrometido ali. Era hora de jogar as cartas na mesa. - Fui eu que encontrei Tara. Você sabia disso?

Ela balançou a cabeça.

Eu tentava encontrar um jeito de explicar por que eu estava batendo em sua porta antes da hora do almoço, praticamente um estranho a violar as fronteiras da intimidade para conseguir dela informações de um filho provavelmente morto.

- Temos de olhar pelos nossos do melhor jeito que pudermos - a frase pareceu mais pueril em voz alta do que enquanto reverberava em minha cabeça.

Lentamente ela levou seus olhos aos meus, sem nada dizer. Depois os desviou e balbuciou:

- Eles mandaram um agente. Ele me fez perguntas sobre Avraham, colheu meu depoimento.

- Os gélidos vão fazer o que for possível, mas eles não ouvem tudo o que eu ouço e nem sempre estão de ouvidos abertos - aquilo era tudo o que eu podia dizer a favor da Casa Negra. - Estou tentando descobrir se existe alguma ligação entre Avraham e as outras crianças, se há algo nele que salte aos olhos, algo que o torne especial... - silenciei com delicadeza.

- Ele é quieto - respondeu ela. - Ele não fala muito, não tanto quanto as meninas. Tem dias que ele acorda cedo e me ajuda a lavar. Ele gosta de acordar antes do resto da cidade, diz que isso o ajuda a ouvir melhor as coisas - ela sacudiu a cabeça e as contas coloridas de seu cabelo balançaram com o movimento. - Ele é meu filho. O que você quer que eu diga?

Foi uma resposta à altura, eu suponho. Apenas um idiota perguntaria a uma mãe o que torna seu filho especial. Para ela, cada sarda no rosto dele o torna especial, mas aquilo não me seria de muita utilidade.

- Desculpe-me. Foi falta de tato de minha parte. Mas eu preciso entender por que Avraham - era difícil mensurar a imprecisão de qual eufemismo eu deveria usar- por que Avraham pode ter desaparecido.

Ela sufocou a resposta no fundo da garganta.

Segui adiante com o máximo da sutileza de que era capaz.

- Você ia dizer alguma coisa. O que era? - perguntei.

- Não importa. Não tem nada a ver com isso.

- Às vezes a gente sabe mais do que imagina. Por que você não me conta o que estava prestes a dizer? - insisti.

O corpo dela pareceu expandir-se e retrair-se de acordo com a respiração, como se a única coisa que a mantivesse em pé fosse o ar em seus pulmões.

- Às vezes ele sabia de coisas que não tinha como ele saber, coisas sobre o pai dele, outras coisas, coisas que eu nunca tinha contado a ele, coisas que ninguém jamais poderia ter contado. Eu perguntava como ele tinha descoberto, mas ele só dava um sorriso estranho e... e... - o autocontrole dela, firme como uma pedra até aquele ponto, desmoronou, completamente. Ela afundou o rosto nas mãos e chorou com toda a força de seu corpo matronal. Tentei pensar em algo para acalmá-la, mas não consegui. A empatia nunca foi meu ativo de troca.

- Você vai salvá-lo, não vai? A guarda não pode fazer nada, mas você irá trazê-lo de volta pra mim, não vai? - ela me pegou pelo pulso, uma pegada forte. - Eu lhe dou o que você quiser. Pago o preço que for, qualquer coisa que eu tenha, por favor, mas ache meu menino!

Soltei os dedos dela com a maior delicadeza que pude. Ia além da minha força dizer a uma mãe que ela não veria mais seu filho vivo, mas eu não mentiria para ela, não daria meu nome como garantia para uma promessa da qual eu jamais poderia me redimir.

- Farei tudo o que puder.

Meskie não era boba. Ela sabia o que aquilo queria dizer. Ela colocou as mãos sobre o regaço e acabou com o desânimo por total força de vontade.

- É claro - disse ela - eu entendo - seu rosto estava tomado por aquela terrível calma advinda do sepultamento de todas as esperanças. - Ele está nas mãos de Sakra agora.

- Todos nós estamos - disse eu, apesar de duvidar que o pobre Avraham estivesse mais do que todo o restante de nós.

Pensei em deixar algum dinheiro com ela, mas não queria insultá-la. Adeline apareceria mais tarde com alguma comida, apesar de Meskie não precisar. Os ilhéus eram uma comunidade unida. Ela teria ajuda.

Garrincha me esperava do lado de fora, junto com as filhas de Meskie, mas à vontade o bastante para se afastar delas. Contrariando a descrição da mãe, as meninas estavam todas bem quietas. - É hora de ir.

Garrincha voltou-se na direção das meninas. - Sinto muito - disse ele. Era provavelmente a primeira coisa que ele dizia desde a hora que entrei na casa.

A mais nova começou a chorar e foi correndo para dentro.

Garrincha ficou envergonhado e começou a se desculpar, mas coloquei minha mão sobre seus ombros e ele ficou quieto.

Voltamos a pé para o Conde em nosso silêncio habitual, que de alguma forma parecia mais profundo desta vez.