O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 40 de 49

Páginas do PDF

O Guardião

Capítulo 40

Peguei Garrincha e passei o restante da manhã em um alfaiate que eu costumava ir para ajustar a roupa para a festa de Beaconfield. A neve não dava trégua. Eu havia vivido em Rigus durante trinta dos meus trinta e cinco anos, tendo saído apenas para lutar a Guerra contra os drens, e nunca tinha visto nada como aquilo. As ruas estavam desertas, todo o barulho da cidade havia sido substituído por uma quietude quase pastoril, e as festividades do inverno acabaram canceladas.

Na hora que chegamos à torre me arrependi de não ter chamado uma carruagem, mas o tempo inclemente pelo menos eliminou a primeira barreira para se chegar ao Ninho, já que uma pequena montanha de neve cobria totalmente o labirinto.

Garrincha parou em um declive.

- Eu não sabia que estávamos vindo aqui - disse ele.

- Vai demorar apenas um minuto. Quero parar para explicar a Célia o que está acontecendo.

- Dê um oi ao Grou se o vir.

- Você não vai entrar?

- Vou esperar aqui.

Ondas de flocos de gelo caíam sobre nós como cortinas. Coloquei uma mão no ombro dele.

- Esqueça o negócio da corneta. Já cuidei disso. Ele se desvencilhou.

- Vou esperar aqui.

- Seu orgulho vai acabar fazendo você morrer congelado. Engula o orgulho e entre na porra da torre.

- Não - respondeu ele, pura e simplesmente.

Assim terminou a minha vontade de discutir o assunto.

- Se você perder um dedo congelado, não espere agrados - disse eu. O guardião do Ninho abriu sem nada a dizer.

Ele não conversava comigo desde que o Grou havia caído doente. Eu me sentia vagamente nostálgico de suas concretas tiradas sarcásticas.

Célia estava esperando por mim no último andar, tomando chá ao lado da lareira, a fumaça subindo por seu rosto luminoso.

- Eu não esperava que fôssemos ver você hoje.

- Eu vim ver como vocês estão. Como está o Mestre?

- Melhor. Ele estava ativo hoje cedo. Tomou o desjejum e ficou olhando a nevasca.

- É bom ouvir isso - disse eu. - Eu queria que você soubesse que recebi sua mensagem. Hoje à noite eu irei visitar o lorde Beaconfield, dar uma olhada no que deu seu trabalho. Se tudo der certo, repassarei a informação à Casa Negra amanhã em algum momento.

Célia enrugou a testa, confusa, ou talvez desapontada.

- Pensei que nós concordássemos que isso era importante demais para deixar a lei estragar tudo. Achei que tivéssemos combinado que você cuidaria disso sozinho.

- Infelizmente matar um nobre ainda é considerado crime. E isso não me deixaria quite com os gélidos, não se eu não puder mostrar por que o fiz. Além disso, cruzar com o Espada é algo que eu logo pretendo deixar para alguém cuja vida não seja tão valiosa para mim quanto a minha própria. A Casa Negra vai cuidar disso. Com o que eu conseguir, eles terão o suficiente para colocá-lo sob os holofotes. Depois disso, tudo será apenas uma questão de tempo.

- E se ele fizer alguma coisa contra você antes?

- Ele já fez uma coisa contra mim. Agora será a minha vez de fazer algo enquanto ele se recupera.

Ela segurou seu colar entre os dedos e não respondeu.

- Quando tudo isso acabar, vou trazer o garoto aqui e nós quatro vamos construir uma fortaleza de neve, como quando nós éramos crianças.

A atenção dela se voltou para mim.

- Que garoto?

- O Garrincha.

Houve mais uma longa pausa e então o sorriso voltou ao rosto dela.

- Garrincha - disse ela. - Sim, é claro - ela me deu um leve tapa no braço. - Mal posso esperar.

Desci as escadas um pouco apressado. Qualquer que fosse seu capricho, eu não podia deixar Garrincha esperando lá por muito tempo na tempestade. Adeline me mataria se alguma coisa acontecesse com ele.