O Guardião
Capítulo 2
Passei alguns segundos tomando pé da situação.
Os ratos da Cidade Baixa são uma multidão insolente, então o fato de o corpo da menina continuar intacto sugeria que ele não estava ali há muito tempo. Eu me agachei e pousei a palma de uma das mãos sobre seu pequeno peito. Frio. Ela fora morta algum tempo antes de ter sido despejada ali. De perto eu podia ver com mais clareza as indignidades que seu torturador havia infligido a ela. Estremeci e recuei depois de perceber um cheiro estranho, não o cheiro enjoativamente doce da carne em decomposição, mas um cheiro abrasivo e alquímico, que entrou rasgando no fundo da minha garganta.
Saí da viela para a rua principal e fiz sinal para uma dupla de crianças de rua que estavam sem fazer nada sob uma cobertura.
Entre as classes mais baixas meu nome tem algum pequeno peso e eles se apresentaram como se estivessem à espera de que eu os envolvesse em alguma espécie de esquema, pareciam empolgados com a oportunidade. Mostrei um cobre para o olhar bestificado dos dois e pedi a um deles que procurasse um guarda. Quando ele dobrou a esquina, virei-me para o que ficou.
Eu mantenho metade da guarda da Cidade Baixa com prostitutas e cerveja aguada, então os guardas não seriam um problema.
Acontece que um assassinato desse tipo exigiria a atenção de um agente, e quem quer que eles enviassem poderia ser tolo o bastante para me considerar um suspeito. Eu precisava me livrar da minha mercadoria.
O garoto me olhava com seus olhos castanhos fundos no rosto pálido. Como a maior parte das crianças de rua, ele parecia um vira-lata - características dos três povos Rigun misturadas a um sem número de raças estrangeiras. Até mesmo para os padrões dos despossuídos, ele era de uma magreza de dar aflição e os trapos que usava como roupa eram insuficientes para esconder a protuberância dos ossos das clavículas e dos cotovelos.
- Sabe quem eu sou? - perguntei.
- Você é o Guardião.
- Sabe onde fica o Conde de Sinuosa?
Ele fez que sim com a cabeça. Os olhos escuros, mas límpidos. Joguei minha bolsa na direção dele.
- Leve isso até lá e entregue para o ciclope atrás do bar. Diga a ele que eu disse que ele te deve uma prata.
Ele foi até a bolsa e eu afundei meus dedos na curva do pescoço dele.
- Eu conheço todas as putas, todos os batedores de carteira, todos os viciados e todos os valentões da Cidade Baixa, e já marquei o seu rosto. Se minha bolsa não estiver lá quando eu for procurar por ela eu irei atrás de você. Entendido? -Afrouxei os dedos de seu pescoço.
Ele não se acovardou.
- Não sou desonesto. - A voz do menino me surpreendeu pela confiança e pela calma. Eu tinha escolhido o garoto certo.
- Vai embora então. - Soltei a bolsa. Ele saiu correndo e dobrou a esquina.
Voltei para a viela e fumei um cigarro enquanto esperava a fraude aparecer. Eles demoraram mais do que eu imaginei que fossem, dada a gravidade da situação. É perturbador constatar que a má impressão que se tem das forças da lei é injustamente elogiosa. Dois cigarros queimados depois o primeiro menino voltou com uma dupla de guardas a reboque.
Eu os conhecia vagamente. Um era novo, tinha entrado para a força havia uns seis meses, mas o segundo estava no meu bolso fazia anos. Veremos se o suborno compensou se as coisas azedarem.
- Olá, Wendell. - Estendi minha mão. - É bom te ver de novo, ainda que sob essas circunstâncias.
Wendell retribuiu o aperto de mão com vigor.
- Igualmente - respondeu. - Eu esperava que o menino estivesse mentindo.
Não havia muito que falar a respeito. Wendell ajoelhou-se ao lado do corpo, com seu sobretudo se arrastando na lama.
Atrás dele, seu parceiro mais jovem começava a ganhar os tons de brancura que precedem o vômito. Wendell olhou para trás, por cima do ombro, e o repreendeu.
- Para com isso. Você é uma porra de um guarda. Demonstre um pouco de dignidade. - Ele se voltou então para o cadáver, em dúvida sobre o que fazer a seguir. - Acho que tenho de chamar um agente agora - disse ele, quase como que pedindo a mim para que o fizesse em seu lugar.
- Acho que sim.
- Vá até o quartel - ordenou Wendell a seu subordinado - e diga a eles para mandarem para um gélido. Diga a eles que mandem dois.
A guarda preserva as leis e os costumes da cidade, a não ser que seja paga para fingir que não vê, mas a investigação de crimes está mais ou menos além de sua alçada. Se o assassino não estiver ajoelhado sobre o cadáver empunhando uma faca ensanguentada, os guardas não são de muita utilidade. Quando ocorre um crime que interesse a alguém influente, um Agente da Coroa é enviado, oficialmente incumbido de aplicar a Justiça do Trono. Frios, gélidos, homens da neve, demônios cinzentos, chame-os como preferir, mas abaixe a cabeça quando eles passarem e responda prontamente se te perguntarem alguma coisa, porque o gélido não é a guarda e a única coisa mais perigosa que uma guarda incompetente é um Agente da Coroa competente. Normalmente, um corpo desovado na Cidade Baixa não atrai à atenção deles, o que é um fato assombroso dado a taxa de homicídios. Mas não se trata de um bêbado afogado numa poça nem de um viciado esfaqueado. Eles mandariam um agente para atender esse caso.
Depois de alguns minutos, um pequeno grupo de guardas chegou ao local. Dois deles isolaram a área. O que sobrou ficou olhando em volta com ar de importante. Eles não estavam fazendo um grande trabalho, mas não fui deselegante ao ponto de dizer isso a eles.
Cansado de esperar, ou querendo mostrar ser mais importante que os novatos, Wendell decidiu tentar fazer o trabalho da polícia.
- Provavelmente algum herege - especulou ele enquanto coçava o queixo dividido. - Passava pelas docas a caminho de Kirentown, viu a menina e... - fez um gesto grave.
- É, ouvi dizer que tem muito disso por aí.
O parceiro dele entrou na conversa, com sua carinha de bebê destilando veneno e o forte hálito da bile engasgada.
- Ou talvez um ilhéu. Você sabe como eles são.
Wendell assentiu sabiamente. Ele realmente sabia como eles eram.
Ouvi dizer que, em muitos dos manicômios mais novos, os médicos colocaram os loucos e os estúpidos congênitos para desempenhar tarefas de rotina, pondo-os a pregar botões em montanhas de tecido, fazendo do trabalho fútil um curativo para suas mentes danificadas. Às vezes me pego a pensar se a guarda não seria uma extensão dessa terapia numa escala bem maior, como parte de um elaborado programa social destinado a dar aos menos capacitados um propósito ilusório. Mas isso não seria feito em detrimento dos internos.
A tentativa de raciocínio pareceu ter cansado tanto Wendell quanto seu subordinado, e ambos ficaram em silêncio.
A noite outonal perseguiu os últimos resquícios da luz do dia até o horizonte. Os sons do comércio honesto, se é que existe algo assim na Cidade Baixa, foram substituídos por um silêncio tenso. Nas habitações ao redor alguém estava com o fogo aceso e a madeira queimada quase anulou o cheiro do corpo em decomposição. Enrolei um cigarro para anular o restante.
É possível senti-los chegar antes mesmo de vê-los, as massas aglomeradas da Cidade Baixa abrindo caminho como os destroços de um naufrágio levados por uma enxurrada. Alguns segundos se passam e você os vê, separados do movimento da multidão. Os gélidos orgulham-se da uniformidade de suas roupas, cada um deles um integrante intercambiável do pequeno exército que controlava a cidade e a maior parte da nação.
Um casaco cinza-gelo com a gola voltada para cima, levando a um chapéu de aba larga combinando com o traje. Uma espada curta com empunhadura prateada pende do cinto, sendo ao mesmo tempo uma maravilha estética e um perfeito instrumento de violência. Uma joia escura presa em um cordão de prata pendendo da garganta - o Olho da Coroa, símbolo oficial de sua autoridade. Em cada detalhe a personificação da ordem, um punho cerrado numa luva de veludo.
Por tudo que eu jamais diria em voz alta, por tudo o que me envergonharia até de pensar, eu não podia mentir: sentia falta daquele uniforme.
Crispin reconheceu-me ao olhar de aproximadamente uma quadra de distância e seu rosto endureceu, mas a velocidade de seus passos continuou a mesma. Cinco anos não foram suficientes para mudar sua aparência. A mesma cara de nobre me encarava por baixo da aba do chapéu, o mesmo porte ereto que denunciava uma juventude vivida sob a tutela de mestres de dança e professores de etiqueta. Seu cabelo castanho havia regredido um pouco em relação à antiga profusão, mas a curva de seu nariz continuava revelando a longa história de seu sangue a quem quisesse saber. Eu sabia que ele lamentava me ver ali, assim como eu lamentava o fato de ele ter sido chamado.
O outro eu não reconheci. Devia ser novo. Assim como Crispin, ele tinha um nariz de rouender, comprido e arrogante, mas seu cabelo era tão loiro que parecia quase branco. À exceção da juba platinada, ele parecia o arquétipo do agente, com olhos azuis inquisidores sem sagacidade, o corpo sob o uniforme rijo o bastante para convencer qualquer um de seu perigo, levando-se em conta que você não soubesse o que estava procurando.
Eles pararam na entrada da viela. O olhar de Crispin lançou-se sobre a cena, repousando brevemente sobre o cadáver coberto antes de cair em Wendell, que estava em prontidão, passando sua melhor impressão de um agente da lei.
- Guarda - saudou Crispin, fazendo um sinal agudo com a cabeça. O segundo agente, ainda sem nome, não fez nada disso, mantendo-se com os braços firmemente cruzados e uma espécie de sorriso forçado no rosto. Suficientemente atento aos protocolos, Crispin dirigiu-se a mim: - Você que a encontrou?
- Quarenta minutos atrás, mas ela já devia estar aqui um pouco antes disso. A menina foi despejada depois que ele acabou com ela.
Lentamente, Crispin deu uma volta pelo local. Uma porta de madeira levava a um prédio abandonado um pouco para dentro da viela. Ele parou e pôs a mão na porta.
- Você acha que ele veio por aqui?
- Não necessariamente. O corpo é pequeno o bastante para ser escondido, fosse numa cestinha ou num barril de cerveja vazio. No pôr do sol essa rua não tem muito movimento. Era possível desovar e sair andando - respondi.
- Crime organizado?
- Você sabe que não. Uma criança imaculada custa quinhentos ocres nos currais de Bukhirra. Nenhum traficante de escravos seria idiota o bastante para arruinar seu lucro e, se o fizesse, arrumaria um jeito melhor de desovar o cadáver.
O subordinado de Crispin achou que havia muita deferência da parte de seu superior em relação a um estranho. Ele deu alguns passos, tomado pela arrogância de quem tem uma noção hereditária de superioridade cimentada pelo desempenho de um cargo público.
- Quem é este homem? O que ele estava fazendo quando achou o corpo?
- questionou. Ele me olhou com ar de desprezo. E preciso admitir que sabia como desprezar alguém. Por se tratar de algo com múltiplas manifestações, o desprezo não é uma coisa que qualquer um consegue controlar.
Como eu não respondi, ele então se dirigiu a Wendell:
- Onde estão as coisas dele? Qual foi o resultado da revista?
- Bem, senhor - começou Wendell, com seu sotaque da Cidade Baixa ficando mais acentuado. - Ao ver a forma como ele alertou para o corpo, nós imaginamos que... isso quer dizer... - ele coçou o nariz com as costas de sua mão gorda e soltou uma resposta - Ele não foi revistado, senhor.
- É isso que acontece quando a guarda investiga? Um suspeito é encontrado ao lado de uma criança assassinada e vocês conversam cordialmente com ele sobre o cadáver? Faça seu trabalho e reviste este homem.
A cara de bobo de Wendell corou. Ele encolheu os ombros, como que se desculpando, e se mexeu para me averiguar.
- Isto não será necessário, agente Guiscard - interrompeu Crispin. - Este homem é... um velho aliado. Ele está acima de qualquer suspeita.
- Apenas nesta questão, posso lhe assegurar. Agente Guiscard, não é? De qualquer forma, agente Guiscard, reviste-me. Ser cuidadoso nunca é demais. Quem pode assegurar que eu não sequestrei, violentei e torturei a criança, desovei o corpo, esperei uma hora e chamei a guarda? - argumentei. O rosto de Guiscard ficou vermelho, contrastando com seu cabelo. - Que prodígio, não é? Acho que toda essa esperteza já vem junto com seu pedigree. - provoquei. Guiscard cerrou o punho. Eu forcei um sorriso.
Crispin meteu-se no meio de nós dois e começou a dar ordens.
- Nada disso. Temos trabalho a fazer. Agente Guiscard, volte para a Casa Negra e diga a eles que mandem um vidente; se você for rápido talvez haja tempo para que ele capte alguma coisa. O restante de vocês estabeleça um perímetro. Vai haver meia centena de cidadãos aqui em dez minutos e eu não os quero bagunçando a cena do crime. E, pelo amor de Sakra, um de vocês vá chamar os pais desta pobre criança.
Guiscard olhou para mim com ar de raiva e depois saiu. Peguei um pouco de tabaco da minha bolsinha e comecei a enrolar um cigarro.
- O novo parceiro é uma peça rara. Sobrinho de quem ele é?
Crispin deu um sorriso discreto.
- Do conde de Grenwick - respondeu.
- É bom ver que nada mudou.
- Ele não é tão ruim quanto parece. Você ficou provocando.
- Esse caiu fácil na provocação.
- Assim como já aconteceu com você um dia.
Ele estava provavelmente certo quanto a isso. A idade me tornou mais calmo, ou pelo menos isso é o que eu gosto de pensar. Ofereci o cigarro a meu ex-parceiro.
- Parei. Isso estava acabando com meu fôlego.
Coloquei o cigarro entre os lábios. Os anos de amizade se embrenhavam desajeitadamente entre nós.
- Se você descobrir alguma coisa, me procure. Não faça nada sozinho - disse Crispin, no meio do caminho entre um pedido e uma ordem.
- Eu não soluciono crimes, Crispin, porque não sou mais um agente. - Risquei um fósforo na parede e acendi meu fumo. - Você garantiu que isso acontecesse -acusei.
- Você que garantiu que isso acontecesse. Eu apenas assisti à sua queda -respondeu.
Aquilo já tinha se estendido demais. - Havia um cheiro forte exalando do corpo. Pode ser que já tenha desaparecido, mas é bom averiguar - sugeri. Não consegui me recompor ao ponto de lhe desejar sorte.
Uma multidão de curiosos estava se formando quando saí da cobertura da viela. O espectro da miséria humana é sempre uma atração popular. O vento estava mais forte. Fechei bem meu casaco e acelerei o passo.