O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 4 de 49

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O Guardião

Capítulo 4

Acordei com uma dor de cabeça que fazia meu joelho inchado parecer uma punheta batida por uma puta de dez ocres a hora. Tentei ficar em pé, mas tudo girava e meu estômago se dizia pronto para repetir a performance da noite anterior, então me sentei de novo. Pela boceta de Pracheta, mesmo se eu nunca mais usar Sopro de Fada, ainda assim não seria cedo demais.

O sol em minha janela indicava que já passava do meio-dia.

Minha sensação sempre era a de que, se você perdeu a manhã, poderia muito bem perder a tarde também, mas havia trabalho a fazer. Eu me firmei, vesti minhas roupas e desci as escadas.

Tomei um assento no balcão. Adolphus tinha se esquecido de cobrir o olho e aquele buraco em sua cabeça me fez adotar um ar de reprovação.

- Já está muito tarde para os ovos. Nem pense em pedir - foi logo avisando. Eu imaginava que uma da tarde fosse provavelmente bem depois do movimento do café da manhã, mas não fiquei feliz em ver minha suspeita confirmada. - O garoto da noite passada passou as últimas três horas esperando você acordar - disse.

- Tem pelo menos um pouco de café? E onde está minha sombra exatamente?- perguntei.

- Não tem café e ele está ali no canto - respondeu Adolphus.

Virei-me para ver o garoto da noite anterior surgir de uma parede. Ele tinha um talento peculiar para passar despercebido, ou talvez minha ressaca estivesse pior do que eu imaginava. Olhamos um para o outro em silêncio, uma discrição natural impedindo-o de começar.

- Não fui eu quem passou metade da manhã na frente da sua porta - falei. - O que você quer?

- Um trabalho - foi a resposta do garoto.

Ele pelo menos era direto, e conciso. Já era alguma coisa. Minha cabeça latejava e eu tentava pensar em como ter um desjejum.

- E de que jeito você poderia me ser útil?

- Posso fazer serviços pra você, como na noite passada - disse ele.

- Se você acha que é todo o dia que eu me deparo com cadáveres de crianças, está enganado. O caso da noite de ontem foi uma ocorrência rara. Não acho que eu possa ter um empregado em tempo integral apenas na expectativa de que aquilo ocorra novamente - disse eu, mas minha objeção parece ter feito pouco para dissuadi-lo. - O que você acha que eu faço exatamente? - perguntei.

Ele sorriu maliciosamente, como se tivesse feito algo errado e estivesse contente em me fazer perceber.

- Você manda na Cidade Baixa.

E que maravilha de domínio era o meu.

- Os guardas podem discordar disso - rebati. Ele bufou. E era para bufar mesmo.

- Eu tive uma noite longa. Não estou no clima para essa insensatez. Cai fora.

- Eu posso fazer serviços, entregar mensagens, qualquer coisa que você precise. Conheço essas ruas como a palma da minha mão, posso brigar e ninguém me enxerga quando não quero que me vejam - insistiu.

- Veja só, garoto. Este é um trabalho de um homem só. E se eu fosse arrumar um assistente, minha primeira exigência seria que ele já estivesse na puberdade.

A provocação de pouco serviu para irritá-lo. Não tenho dúvida de que ele já ouviu coisa bem pior.

- Eu fiz o seu mandado ontem, não fiz?

- Ontem você andou seis quadras e não me ferrou. Eu poderia treinar um cachorro pra fazer a mesma coisa e não teria que pagar nada pra ele.

- Me dê outra coisa então.

- Vou te dar uma surra se você não parar de me encher - disse eu, levantando a mão em um gesto que deveria ter parecido ameaçador.

A julgar por sua falta de reação, ele não estava nem um pouco impressionando com a ameaça.

- Pelo Perdido, você é um pentelho chato - esbravejei. A descida pela escada havia reacendido uma dor aguda no meu tornozelo e aquela conversa toda estava embrulhando meu estômago. Procurei algum dinheiro no bolso e achei uma prata. -Vai correndo até o mercado e me traga duas laranjas, uma bandeja de damascos, um rolo de barbante, um moedeiro e uma faca de carpinteiro. Se você não trouxer metade disso de troco, vou saber que você é uma fraude ou ruim demais na hora de pechinchar.

Ele saiu correndo numa velocidade que me deixou pensando se ele iria se lembrar de tudo. Alguma coisa naquele menino me impedia de apostar contra ele. Voltei-me para o balcão e esperei a chegada do meu desjejum, mas me distraí com a carranca de Adolphus.

- Você tem algo a dizer? - perguntei.

- Não sabia que você estava tão desesperado por arrumar um parceiro.

- O que você queria que eu fizesse, batesse nele? - questionei enquanto massageava minha têmpora com os dedos. - Alguma notícia?

- Vão fazer um funeral para Tara em frente à Igreja de Prachetas daqui a algumas horas. Não deveria supor que você fosse?

- Você não supôs corretamente. Tem mais alguma coisa pegando?

- A notícia do seu encontro com Lábio Leporino já correu, se é isso que você quer saber.

- Era isso mesmo.

- Então, já se espalhou - confirmou Adolphus.

Foi mais ou menos nessa hora que meu cérebro decidiu que era hora de se libertar dos longos anos de aprisionamento e iniciou um furioso e nada produtivo esforço de bater contra o crânio. Dos fundos, Adeline percebeu minha agonia e me mandou uma caneca de café fervendo.

Eu estava já na segunda caneca, o café era preto e doce, quando o garoto retornou. Ele colocou as coisas em cima do balcão e deixou o troco do lado.

- Sobraram sete cobres - reparei. - Do que você se esqueceu?

- Está tudo aí - disse o garoto. Ele não estava exatamente sorrindo, mas sua boca queria dizer alguma coisa. - Surrupiei a faca de carpinteiro.

- Parabéns, você é um batedor de carteira. Este é realmente um clube bastante seleto - ironizei. Peguei uma laranja na sacola e comecei a descascá-la.

- De quem você comprou as frutas, da Sarah ou do Ilhéu Yephet?

- Do Ilhéu. As da Sarah estavam meio passadas.

Mordi o pedaço da laranja.

- O Ilhéu estava sendo ajudado pelo filho ou pela filha hoje?

- Pela filha. O filho não aparece por aí há semanas.

- Qual era a cor da blusa dela?

Ele fez uma pausa e disse:

- Ela usava um avental cinza - o sorriso de canto de boca voltou. - Mas você não saberia dizer se é verdade ou não, pois ainda não saiu do bar.

- Eu saberia se você tentasse mentir pra mim - rebati. Terminei a laranja, joguei a casca dentro do bar e coloquei dois dedos no peito dele. - Eu sempre sei -disse.

Ele concordou sem tirar os olhos dos meus.

Joguei as moedas do troco dentro do moedeiro que ele tinha comprado e o segurei na minha frente de maneira convidativa.

- Você tem nome? - perguntei.

- Os outros garotos me chamam de Garrincha - respondeu.

- Considere isto o pagamento do resto da semana - disse enquanto jogava o moedeiro pra ele. - Use um pouco do dinheiro pra comprar uma camiseta nova. Você está parecendo um vagabundo. Passe aqui mais tarde, já à noite. Talvez eu tenha alguma coisa pra você fazer.

Ele aceitou tudo aquilo sem dar nenhuma resposta nem demonstrar nenhuma emoção, como se tanto fizesse.

- E pare de roubar - prossegui. - Se você vai trabalhar pra mim, não quero você sugando fundos da vizinhança.

- O que “sugando fundos” quer dizer?

- Neste contexto, roubar - esclareci e fiz um sinal com a cabeça para a saída. -Agora vai embora - mandei. Ele se dirigiu para a porta da frente, mas sem nenhuma pressa. Tirei a segunda laranja da sacola. Adolphus estava carrancudo de novo.

- Você tem algo a me dizer? - perguntei.

Ele fez que não com a cabeça e começou a limpar copos sujos da noite anterior.

- Você é tão sutil quanto uma pedra. Desembucha logo o que tiver a dizer ou pare de me fuzilar com os olhos.

- Você não é carpinteiro - disse ele.

- Então o que estou fazendo com essa faca de carpinteiro?- perguntei, mexendo na ferramenta. Adolphus continuava de cara amarrada. - Tudo bem, eu não sou um carpinteiro.

- E você também não é ferreiro.

- Nem há nenhuma espécie de confusão quanto a isso.

Adolphus bateu uma caneca com tudo e em sua expressão de raiva eu me lembrei de um dia em Apres no qual aqueles braços enormes esmagaram a cabeça de um dren com tanta facilidade que mais pareciam quebrar um ovo, sangue e pedaços do cérebro vazando do crânio.

- Se você não é um carpinteiro e não é um ferreiro, o que diabos você acha que está fazendo pegando um aprendiz? - indagou. Ele cuspiu essa última frase olhando na minha direção, junto com um pouco de, pois bem, cuspe.

O buraco de seu olho vazio dava a ele uma vantagem injusta e eu desviei o olhar. - Não o julgo pelo seu trabalho, mas não é algo que uma criança deva aprender.

- Qual o problema em pedir a ele que me traga um desjejum?

Adolphus encolheu os ombros, mas continuava incomodado.

Terminei a segunda laranja e comecei a comer os damascos em relativo silêncio.

Era sempre perturbador ver Adolphus de mau humor. Em parte porque isso me fazia lembrar que se ele perdesse a cabeça será preciso chamar metade da fraude da cidade para contê-lo, mas mais porque era extremamente desagradável ver um homem gordo atordoado.

A expressão do seu rosto ficou mais fechada, castigada mais que o de costume pela idade.

- A criança - disse ele.

Estava claro que ele não falava do garoto que acabara de sair.

- Este é um mundo doente, mas não é a primeira vez que temos uma evidência disto - comentei.

- Quem vai acertar as contas pela criança?

- A guarda vai dar uma olhada nisso - disse eu, bem capaz de apreciar o duplo consolo daquela frase.

- A guarda não pegaria gonorreia em um puteiro.

- Eles chamaram a Coroa. Dois agentes em seus melhores trajes. Chamaram até os videntes. Eles vão descobrir alguma coisa - argumentei.

- Se essa criança for confiar na Coroa para ter justiça, sua alma nunca vai ficar em paz - disse ele. Seu único olho hesitou ao me encarar.

Dessa vez eu não demonstrei hesitação.

- Não é problema meu. - esquivei-me.

- Você vai deixar o estuprador livre por aí? - questionou.

Os vestígios do sotaque Skythan ficam mais acentuados em seus frequentes momentos de melodrama. - Vai deixá-lo respirar o nosso ar, sujar as nossas fontes?

- Ele está em algum lugar por aqui? Diga onde ele está e eu arrumo alguma coisa pesada para dar na cabeça dele.

- Você poderia procurar por ele.

Cuspi a casca de um damasco no chão.

- Quem é mesmo que estava dizendo por esses dias que eu opero no lado oposto ao da lei?

- Isso mesmo. Dê de ombros, faça piadas, se faça de bobo - reclamou. Adolphus deu um soco no balcão de madeira pesada, fazendo-o tremer todo. - Mas eu sei por que você saiu daqui ontem à noite e eu me lembro de quando te resgatei do campo em Giscan, quando todos já haviam fugido e o cheiro da morte pairava no ar - prosseguiu. As prateleiras do bar pararam de balançar. - Não finja que isso não te incomoda.

O problema dos velhos amigos é que eles se lembram de histórias que você preferiria esquecer. É claro que eu não precisaria de muito esforço para lembrar. O último damasco desapareceu.

- Tenho algumas coisas para resolver - falei. - Jogue o resto desse lixo fora e dê comida para o garoto se ele retornar.

O abrupto fim de nosso conflito deixou Adolphus arrasado, sua raiva extravasada, o olho saltado, o rosto cansado. Enquanto eu deixava a taverna, Adolphus limpava o balcão sem ver por onde passava o pano, tentando não chorar.