O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 13 de 49

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O Guardião

Capítulo 13

Deixando de lado os recentes sobressaltos, eu ganhava minha miserável vida vendendo drogas e não seria muito benéfico eu me esquivar da Coroa se perdesse meu negócio nesse processo.

Além disso, depois de um dia de caos, um simples vislumbre de tráfico parecia a coisa certa para descansar a cabeça. Yancey tinha me pedido para aparecer na mansão de um dos nobres para o qual não dava a mínima, mas disse que haveria dinheiro na parada. Parei na barraca de um ilhéu perto das docas e pedi um rápido prato de frango apimentado antes de começar a caminhada.

Se você sair do centro e seguir reto rumo ao norte vai chegar ao Morro de Kor, onde as famílias tradicionais e os novos ricos estabeleceram um paraíso fora das vistas das massas. O ar limpo substitui o cheiro ruim das oficinas de fundição e da podridão do porto, enquanto vielas apertadas e edificações compactas dão lugar a amplas avenidas e a mansões belamente mantidas. Eu nunca gostei de ir praquele lado, cada fraude que valesse o suborno saberia que eu não era dali, mas eu também não poderia pedir a qualquer aristocrata atrás de uma grama de mercadoria para fritar seu cérebro se ele queria me encontrar na frente do Conde. Coloquei as mãos nos meus bolsos e acelerei o passo, tentando não fazer parecer que eu estava em uma missão de legalidade duvidosa.

Parei no endereço que Yancey havia me passado. Pelo portão de ferro forjado eu podia ver acres de jardins bem cuidados. A pouca luz da noite era suficiente para deixar visíveis os contornos das floreiras e das podas ornamentais. Segui o muro de tijolos que conduzia ao fundo do terreno - cavalheiros da minha profissão raramente entram pela porta da frente. Depois de algumas centenas de metros cheguei à entrada dos empregados, bem menor e bem mais feia.

O segurança perto da porta era um tarasaihgn de aparência avermelhada e mechas bagunçadas de cabelo de fogo, incomum entre os habitantes do pântano, que avançavam em um círculo quase igual do couro cabeludo até o rosto. Seu uniforme estava um pouco gasto, apesar de bem cuidado, assim como o homem que o vestia, perto dos cinquenta, mas com pouca coisa que demonstrasse isso além de uma modesta protuberância acima da linha do cinto.

- Sou amigo de Yancey, o Rimador - disse eu. - Não tenho convite. Para a minha surpresa ele estendeu a mão para me cumprimentar.

- Sou Dunkan Ballantine e também não tenho convite.

Retribuí o cumprimento.

- Não acho que isso seja um pré-requisito para montar guarda.

- Também não é para obter entrada, pelo menos para aqueles que foram recomendados por Yancey.

- Ele já chegou? - perguntei.

- Não haveria festa sem o Rimador à mão para entreter a nobreza - disse. Ele então olhou em volta em uma mesura exagerada de segredo e disse: - É claro que, cá entre nós, ele guarda as melhores coisas para os intervalos! Você provavelmente irá encontrá-lo do lado de fora, ajudando a fazer fumaça na cozinha- ele piscou os olhos para mim e riu.

- Obrigado, Dunkan.

- Não há de quê. Talvez você me encontre aqui na saída.

Segui por um caminho de pedras pelos jardins verdejantes até o fundo da mansão. Já podia distinguir o som da música, além de um cheiro familiar de vinonífera carregado pela fria brisa da noite. O primeiro eu supus que vinha da festa, mas o segundo eu atribuí à figura pequena e de pele escura oculta pela sombra do casarão de atijolado de três pavimentos e que murmurava algo ritmadamente.

Yancey me passou o fumo que ele estava puxando sem interromper seu fluxo perfeitamente sincopado. A vinonífera de Yancey era boa, como sempre, uma mistura poderosa, mas não excessivamente forte, e eu expeli uma fumaça azul-prateada na escuridão da noite.

Ele terminou sua entonação.

- Vida segura.

- E você, irmão. Fico feliz que tenha aparecido aqui. Você andava um pouco abalado ultimamente.

- Eu estava tirando uma série de sonecas. Perdi sua apresentação?

- A primeira. Pus a banda pra tocar agora. A mãe mandou um alô. Ela quer saber por que você andou sumido nos últimos tempos. Eu disse que é porque ela continua tentando te arranjar um casamento.

- Astuto como sempre - respondi. - Quem eu vim ver?

Ele estreitou o olhar e pegou a ponta da minha mão. - Então você não sabe?

- Sua mensagem só dava o endereço.

- É o rei macaco em pessoa, irmão. O duque Rojar Calabbra III, o lorde Beaconfield - ele sorriu e seus dentes brancos contrastaram com sua pele e com a escuridão da noite. - O Espada Sorridente.

Soltei um assovio baixo, desejando agora que não tivesse saído alto demais. O Espada Sorridente, cortesão famoso, duelista celebrado e enfant terrible. Acreditava-se que ele tinha influência sobre o príncipe herdeiro. Também era considerado o espadachim mais mortífero desde que Caravollo, o Intocável, suicidou-se depois que seu namorado morreu de Febre Vermelha trinta verões antes. Yancey normalmente tocava para os filhos mais jovens de nobres menores e para aristocratas em decadência.

Ele realmente estava subindo na vida.

- Como você o conheceu? - perguntei.

- Você conhece minhas habilidades. O homem me viu rimando alguma coisa em algum lugar e abriu o espaço para eu preencher - gabou-se. Yancey não era muito inclinado à falsa modéstia. Ele soltou fumaça pelas narinas e ela se aglomerou na frente dele, envolvendo seu rosto em uma verdadeira aurora espectral. - A questão é: por que ele quer conhecer você?

- Imaginei que ele quisesse comprar um pouco de drogas e você contou para ele que eu era o homem com quem deveria conversar. Se ele me chamou aqui para aulas de dança, imagino que vá ficar chateado com nós dois.

- Eu te coloquei na linha, mas não te coloquei no esquema. Eles queriam você em particular. Para falar a verdade, se eu não soubesse que sou um gênio, eu suspeitaria ter sido contratado só por conta disso.

Essa última revelação foi suficiente para acabar com qualquer bom humor proporcionado pela vinonífera. Eu não sabia por que o duque queria me ver nem imaginava como ele havia descoberto quem eu era, mas se havia uma coisa que trinta e cinco estranhos anos incrustado nas entranhas da sociedade Rigun haviam me ensinado era nunca chamar a atenção da nobreza. Era melhor continuar sendo apenas mais um soldado do exército de Sakra nascido para atender a seus caprichos, um nome quase esquecido fornecido por outro membro de seu círculo.

- Fica esperto com esse cara, irmão - disse Yancey enquanto se livrava da ponta.

- Perigoso?

Ele respondeu em um tom extraordinariamente solene, dados nossos cinco minutos de recreação.

- E não apenas com a espada.

O Rimador me conduziu pela porta dos fundos e passamos por uma ampla cozinha, onde um exército de cozinheiros trabalhava freneticamente, cada um cuidando de uma série de quitutes tão apetitosos quanto delicados. Lamentei ter me enchido de frango apimentado, se bem que provavelmente eu não seria convidado a desfrutar do banquete. Eu e Yancey esperamos um intervalo naquela movimentação toda e então entramos discretamente no salão principal.

Eu havia ido a muitas dessas pequenas soirées oferecidas pelos contatos de Yancey, mas aquela era definitivamente uma das melhores. Os convidados eram daquele tipo de gente que parece merecer estar em um determinado lugar, o que nem sempre é o caso.

Apesar de que provavelmente muito daquilo se devia à arquitetura. A sala de estar era provavelmente três vezes maior que o Conde, mas com exceção do tamanho praticamente não havia nada ali que pudesse ser comparado com o modesto estabelecimento de Adolphus. Paredes de madeira intrincadamente trabalhadas levavam a elaborados carpetes kiren. Uma dúzia de enormes candelabros de vidro, cada um deles com umas cem velas de cera, descia do teto dourado. No centro daquilo tudo, um círculo de nobres se divertia aos passos complicados de uma contradança, movendo-se ao som da banda que havia entrado depois da apresentação da Yancey. Em torno desse grupo havia pequenas aglomerações de cortesãos rindo e conversando. Ao redor deles, ao mesmo tempo onipresentes e inofensivos, circulavam os empregados, carregando canapés e bebidas de todos os tipos.

Yancey aproximou-se de mim e disse: - Vou avisar o dono da festa que você chegou - e se embrenhou pelo meio da multidão.

Peguei uma taça de champanhe da bandeja de um garçom que passou perto de mim. Ele pigarreou com desdém. O grau de desdém que os subalternos se dispõem a manifestar em nome de seus patrões é uma perpétua fonte de distração para mim. Dei um gole em meu espumante e tentei me lembrar dos motivos pelos quais eu odiava aquelas pessoas. Era difícil lembrar. Elas eram bonitas e pareciam estar se divertindo bastante enquanto eu me esforçava para manter meu ressentimento da classe em meio à efusão de risos e cores. A vinonífera que fumei não ajudava em nada e sua sensação prazerosa embotava meu aguçado amargor.

No meio de toda luz e todo brilho, uma pessoa no canto parecia uma unha quebrada em uma mão bem cuidada. Ele era baixo e robusto, nanico mesmo, e não fazia o suficiente para cuidar do pouco corpo que tinha. Uma capa de gordura cobria a fivela de seu cinto e o nariz avermelhado indicava uma familiaridade mais que passageira com a bebida. Sua roupa adicionava uma nova peça ao mistério, uma vez que eu duvidava muito que o duque contrataria um indivíduo cujo físico denunciasse tão claramente a pobreza de sua criação e tinha certeza que ele não deixaria que a pessoa se vestisse de um jeito tão estranho. Aquela roupa já fora cara, mesmo que nunca tenha entrado na moda, uma camisa preta de botões com calças da mesma cor, com corte e tecido trabalhados por um grande alfaiate. Mas o cuidado do fabricante foi traído pelo uso inadequado e por uma mancha de barro que subia da bota de couro pela barra da calça. O casaco estava num estado um pouco melhor.

Se eu não tivesse sido convidado para preencher a vaga, eu poderia considera-lo um concorrente, pela forma como ele combinava uma incipiente riqueza com um toque de violência.

Se tivesse cruzado com aquele tipo na Cidade Baixa, teria imaginado que ele era um golpista barato ou um vendedor de baixo nível e jamais teria olhado uma segunda vez para ele. Mas aqui, cercado pela nata da sociedade Rigun, ele exigia observação.

Além disso, ele estava olhando deliberadamente para mim desde a hora que passei pela porta, com um leve sorriso de escárnio no rosto, como se soubesse de algum vergonhoso segredo meu, e estava gostando da indiscrição.

Quem quer que fosse ele, eu não tinha o menor interesse em retribuir o seu escrutínio, uma vez que observei tudo aquilo apenas de canto de olho. Mas eu continuava atento o suficiente para vê-lo caminhar lentamente em minha direção, de um jeito esquisito, meio de lado.

- Você vem sempre aqui? - perguntou ele antes de cair numa gargalhada. Sua voz tinha um sotaque carregado e ele tinha uma risada feia, de acordo com tudo mais nele.

Dei a ele o sorriso amarelo que se dá quando se diz a um mendigo que não tem trocado para dar.

- Qual é? Não tenho classe suficiente para que se possa conversar?

- Não é nada pessoal. Eu sou surdo-mudo.

Ele gargalhou novamente. Na maior parte das pessoas a jocosidade é uma qualidade no mínimo inocente, quando não prazerosa. Mas o estranho era daquele tipo de tagarelice que entra pelos ouvidos como uma lona áspera em cima de uma ferida aberta.

- Você é engraçado. Um verdadeiro palhaço.

- Sempre por aí para iluminar a festa.

Ele era mais jovem do que eu inicialmente imaginara, mais jovem que eu - a vida dura o envelheceu precocemente, acinzentando sua pele e enrugando seu rosto e suas mãos. As mãos eram cobertas por uma estranha variedade de anéis, prata legítima incrustada de pedras tão brilhantes e berrantes que eu imediatamente percebi que eram falsas, bugigangas que uma vez mais denunciavam riqueza gasta sem o benefício do gosto.

Ele mantinha a boca entreaberta, filtrando o ar por uma fileira de dentes tortos, encardidos onde não tinham sido substituídos por ouro de tolo. Seu hálito recendia a uma combinação desagradável de carne salgada e vodca.

- Eu sei o que você está pensando - ele disse.

- Então eu espero que você não se sinta facilmente ofendido.

- Você está pensando: como é que eu vou conseguir chegar em alguma dessas belezinhas circulando por aí com esse idiota horrível buzinando no meu ouvido?

Aquilo realmente não era o que eu estava pensando. Eu estava ali a negócios e, mesmo que não estivesse, duvido que teria alguma espécie de sucesso amoroso, por ser o que eu era e pela aparência que tinha. Dito isto, se eu tivesse a esperança de encontrar uma companhia, aquele tumor grudado em mim provavelmente não me ajudaria.

- Mas veja só, essas vagabundas - ele balançou o dedo indicador na frente do meu rosto como um professor dando uma bronca - não estão interessadas em caras como nós. Nós não somos bons o bastante para elas.

Até mesmo para os meus padrões, aquilo era bastante chocante. Eu e o estranho estávamos chegando ao fim de nossa conversa, de qualquer forma.

- Temos muita coisa em comum, eu e você?

- No que diz respeito a mulheres, temos muitas coisas em comum - ele respondeu seriamente, dando ênfase a cada palavra.

- Essa foi boa - respondi. - Mas se estamos os dois na mesma ponta, que tal você me fazer um favor de dar no pé.

- Não precisa ser desrespeitoso. Eu vim até aqui, conversei com você como homem e agora você me manda embora assim. Você não difere em nada desses bastardinhos mimados de nariz empinado. E eu aqui achando que nós dois podíamos até ficar amigos.

Nós estávamos chegando perto de aquilo se transformar num espetáculo, algo que se tenta evitar quando se entra na casa de uma pessoa com a intenção de vender drogas.

- Estou bem de amigos, estou cheio de parceiros e já esgotei minha cota de conhecidos. As únicas aberturas que eu tenho são para os estranhos e para os inimigos. É melhor você continuar sendo o primeiro do que se descobrir no segundo.

Até aquele momento eu havia considerado o homem inofensivo e pensei que seria fácil assustá-lo. Mas minhas palavras tiveram pouco efeito sobre ele, a não ser por um tom de ameaça em seus olhos injetados.

- É assim que você quer. Por mim tudo bem. Já tive muitos inimigos, ainda que não por muito tempo.

Eu me peguei então desejando poder voltar para o início da cena, mas já tendo tirado as luvas, havia poucas opções além de continuar naquele tom.

- Você fala como um homem que ainda não apanhou hoje - disse eu antes de avistar Yancey, que acenava para mim. - Mas agora não é hora de corrigir essa situação.

- Você terá uma nova chance! - gritou ele pelas minhas costas, alto o bastante para chamar a atenção dos convidados que estavam por perto. - Não se preocupe com o placar!

Foi um interlúdio desagradável, daquele tipo que prenuncia futuros desconfortos, mas eu tirei aquilo da cabeça enquanto caminhava na direção do duque, com cuidado para não me intrometer nos grupos de aristocratas em flerte.

Se a raça humana alguma vez já inventou uma instituição mais eficaz na propagação de debilidades intelectuais e éticas do que a nobreza, eu ainda preciso me deparar com ela. Pegue o resultado de meio milênio de cruzamentos entre mongoloides, primos de primeiro grau e hemofílicos. Crie-os com a ajuda de gerações de babás inchadas, confessores estragados pela bebida e acadêmicos fracassados, pois Sakra sabe que a mamãe e o papai estão ocupados demais tropeçando na corte para poder cuidar da criação de um filho. Garanta que os treinamentos recebidos por eles na juventude não se estenda a nada mais prático do que a esgrima e um punhado de idiomas que ninguém mais fala, assegure a eles uma fortuna ao alcançarem a maioridade, deixe-os fora do alcance de qualquer sistema jurídico mais desenvolvido que o código duello, adicione as inclinações gerais humanas para a preguiça, a avareza e a intolerância, mexa bem e voilà, você tem a aristocracia.

À primeira vista, o lorde Beaconfield parecia-se em cada centímetro com um produto de seu motor social infernal. Seu cabelo estava cortado num estilo que imaginei ser a mais nova moda na corte e ele tinha um cheiro forte de mel e água de rosas. Suas bochechas avermelhadas conduziam a um cavanhaque tão perfeitamente barbeado que era possível jurar que tinha sido pintado e ele vestia roupas de um colorido brilhante que chegava ao ponto de ser vagamente enjoativo.

Mas havia algo que não me permitiria desqualifica-lo por completo, uma agudeza no olhar que me deixou a pensar se aquela roupa não seria quase um disfarce. Talvez fosse a forma como a mão dele flutuava sobre a empunhadura do florete, bem usado e surpreendentemente simples em relação ao restante de suas roupas. Talvez fosse o fato de por baixo de todo aquele frufru haver uma musculatura que falava mais de longas horas banhado em suor do que em perfume. Ou talvez fosse por saber que o homem diante de mim provavelmente havia matado mais homens do que o carrasco da Coroa.

Seu entourage, em contrapartida, era formado por exemplos definitivos de seu tipo ao ponto de não valer menção, todos eles vestido como seu chefe, todos eles narcotizados quase ao ponto do esquecimento.

Yancey me deu um olhar destinado a me lembrar de sua advertência anterior e começou a falar no dialeto afetado que ele usava com os ricos e os brancos.

- Este é meu parceiro, a pessoa quem falava a você.

- É um prazer conhecê-lo, milorde - disse eu, recurvando-me de um jeito que seria bem aceito em qualquer corte do reino. - E verdadeiramente posso afirmar que é uma honra ter minha presença aceita num recinto de tamanha elegância. Certamente os Daevas sobre Chinvat não festejariam melhor.

- Uma de minhas festas menores, pouco mais que um aquecimento para o baile de gala da próxima semana - ele sorriu, aberta e vitoriosamente, estranhamente natural até mesmo através da maquiagem parecida com a de uma prostituta.

- Homens de meu calibre considerariam até mesmo a mais modesta de suas diversões algo perto do divino - elogiei. Aquilo já estava ficando maçante, mas eu estava conversando com um homem maquiado.

- Disseram a mim que você era um homem de vastos recursos, mas nada me falaram sobre seu charme.

- Se eu fosse suficientemente arrogante ao ponto de contradizer o meu senhor, eu negaria tão injustificado elogio, mas sendo eu uma alma tímida, posso apenas agradecer ao meu senhor por sua gentileza.

- Você era professor de etiqueta antes de adotar sua atual profissão?

- Eu fiz muitas coisas antes de adotar minha atual profissão, meu bom senhor -respondi. Aquilo estava demorando mais do que precisava. Não havia dúvida que os convidados já começavam a se perguntar por que o anfitrião dava tanta atenção a um homem feio e sujo. - E eu faço uma série de coisas ainda hoje. Talvez sua excelência queira me indicar a qual delas considera mais agradável recorrer?

Houve uma pausa considerável no diálogo enquanto os olhos brilhantes do Espada pousavam sobre mim. Comecei a me questionar se não haveria eu superestimado a sobriedade do duque.

- Talvez um dia nós discutamos em mais detalhes a gama de assistências que você pode me proporcionar. Enquanto isso não acontece, o Tuckett aqui o colocará a par dos detalhes - ele sinalizou para um cavalheiro de boca fechada que vestia um fino casaco preto e estava ao lado. - Regresse em breve. Um homem de tantas inteligência e utilidade é bem-vindo em minha propriedade independentemente da ocasião.

Eu me recurvei uma vez mais diante dele e de seus acompanhantes. Nenhum deles retribuiu a mesura, mas Yancey fez um rápido sinal positivo com a cabeça enquanto eu me afastava. O empregado do Espada me conduziu para fora da sala e entramos em um pequeno corredor adiante.

De perto, Tuckett tinha cheiro de tinta e repartição pública. Mexendo a língua de um jeito desagradável, ele pegou um pedaço de papel de um bolso no seu peito, desembrulhou-o e me entregou.

- Isto detalha os itens que o mestre deseja adquirir.

Tentei não parecer surpreso com o volume e a variedade.

- A vinonírica e o Sopro de Fada eu posso entregar agora mesmo. O restante eu posso conseguir em um ou dois dias. Exceto pelo último item. Eu não carrego essa erva aqui. Vocês vão precisar de outra pessoa para isso.

- Eu não sabia que homens de sua linha de trabalho podiam se permitir tais particulares.

- Fico feliz por ter ajudado a aprofundar seu conhecimento.

Ele ficou irritado e se pôs a pensar em algo inteligente a dizer. Esperei alguns segundos para dar a ele a oportunidade.

Quando ficou claro que ele não iria aproveitar, eu voltei a falar:

- Eu suponho que você seja o responsável pelo pagamento.

Ele pegou uma bolsa grande e a entregou a mim com um terrível ar de superioridade, já que estávamos concluindo uma transação de entorpecentes. Havia mais do que o necessário. Muito mais.

- O duque é muito generoso.

- Meu senhor está comprando o seu silêncio, e a sua lealdade.

- Diga a ele que pelo primeiro eu não cobro e que o segundo item não está à venda - coloquei o saco com o dinheiro dentro da minha sacola e entreguei a ele quase tudo o que eu tinha em mercadoria.

Ele pegou tudo com um impressionantemente coreografado ar de desdém.

- Siga por este corredor até o jardim. Uma trilha o conduzirá até a porta lateral.

- O cavalheiro com quem eu conversava antes - interrompi - quem era ele?

- Acredite o senhor em mim ou não - ele enfatizou a palavra “senhor” para deixar claro que ele não me considerava merecedor de tal tratamento - eu não cheguei ao ponto de acompanhar todos os seus movimentos.

- Você sabe de quem eu estava falando. Ele estava fora de lugar ali.

- Não que seja do seu interesse, mas eu suponho que o senhor esteja falando do feiticeiro Brightfellow.

Se havia uma pessoa que eu não confundiria com o barrilzinho que acabei de conhecer era a Rainha de Ostarrica. Mas se havia uma segunda, era um praticante da Arte. Eu deixei aquela informação encontrar seu lugar enquanto eu procurava meu caminho para a noite aberta.

No fim das contas, aquela noite não estava muito diferente de uma centena de outras, uma reunião de sangues-azuis entediados felizes em trocar a herança herdada por felicidade alquímica, e eu estava igualmente feliz por ser o agente responsável pela entrega. Um negócio como outro qualquer, de verdade, como eu achei que fosse ser, à exceção de um detalhe, uma coisa pequena em que eu mal tive tempo de pensar enquanto caminhava de volta até o Conde.

Do momento em que comecei a falar com Beaconfield até sair de sua vista, a safira no meu peito queimou como se eu estivesse sendo picado por uma vespa. Eu me incomodei com isso enquanto voltava para casa e pensei que eu talvez acabasse me encontrando com o Espada mais cedo do que ele esperava.