O Guardião
Capítulo 20
Encontrei Guiscard mais ou menos uma hora depois na frente de um pequeno puteiro a apenas algumas quadras da Casa Negra. Como naquele dia eu já havia tirado proveito da hospitalidade de meus antigos empregadores, eu não estava exatamente ansioso por voltar ao bairro, mas me consolei no pensamento que, se o Comandante me quisesse morto, a proximidade não seria um problema. Não é exatamente o tipo de conforto que nos faz dormir bem à noite, mas era o que eu tinha.
O prédio em si era o tipo de estrutura que parecia ter sido construída deliberadamente para não dar nenhuma pista das atividades que ocorriam ali dentro. Era um galpão de estoque, você poderia chutar se fosse pressionando a responder, mas apenas porque não seria possível pensar em nada mais vago.
Ao contrário da Casa Negra, o valor da Caixa não aumentava por ter seu propósito amplamente divulgado. Não se tratava de um segredo, mas a maior parte de Rigus preferia manter–se na ignorância. Pois dentro da Caixa os videntes faziam seu ninho, e chamar a atenção deles significava ter seus segredos revelados. E que pessoa no mundo não tem algumas coisas que prefere manter em segredo?
O garoto se colocou atrás de mim, em silêncio desde que havíamos deixado o Ninho, astuto demais até mesmo para seus próprios padrões. Não estava preocupado com a presença dele ali. Minha cabeça estava ocupada com outras coisas.
Meu agente predileto, depois apenas de Crowley, estava de cara amarrada perto da porta, fumando um cigarro como se fosse uma encenação, e não um vício. Ele já havia nos reconhecido quando estávamos a uns cem metros de distância, mas fingiu que não, ganhando tempo para que seu teatro amadurecesse. Ele estava descontente por ter companhia nessa pequena missão e queria que eu soubesse disso.
Quando estávamos próximos demais para que continuasse fingindo, Guiscard jogou seu cigarro fumado até a metade no chão, me mediu de cima a baixo com a delicadeza de sempre e depois viu Garrincha.
- Quem é esse? - perguntou ele, quase decente, antes de se flagrar e voltar os lábios à posição ensaiada de desprezo.
- Você não consegue perceber as semelhanças? - respondi, empurrando Garrincha para frente. - O nariz refinado, a graça e o porte que evidenciam o sangue nobre. Você é um rapaz de quatorze anos, ela é uma arrumadeira de pé torto e boca grande. Quando seus pais ficam sabendo de tudo, eles a mandam para um convento e o fruto do romance é mandado para longe - disse eu, remexendo os cabelos do menino. - Mas agora ele está de volta. Acho que vocês dois têm muito o que conversar.
Garrincha deu um sorriso maroto. Guiscard sacudiu a cabeça, desdenhoso de qualquer encenação que não fosse a sua.
- É bom ver que você manteve o seu senso de humor. Achei que com tudo o que anda acontecendo você não teria muito tempo para essas brincadeiras infantis.
- Nem me diga. Já tive que trocar de calças duas vezes hoje.
Ele estava quase no limite de todo o humor de que era capaz sem contar com ajuda externa. Ao perceber isto, entrou.
- Eu volto dentro de alguns minutos - eu disse ao garoto. - Tenha juízo e evite fazer qualquer coisa que possa levar o Adolphus a querer me espancar até a morte depois.
- Não deixe o homem da neve lhe intimidar - disse ele.
Gargalhei, chocado com sua manifestação e vagamente orgulhoso por ver que o menino comprava minhas brigas como se fossem as dele.
- Eu não me deixo intimidar por ninguém - respondi. Se bem que, de fato, a maior parte da minha vida nos últimos tempos parecia consistir em fazer exatamente o contrário.
Ele ficou um pouco envergonhado e olhou para baixo. Entrei no prédio atrás de Guiscard.
Os videntes são uma raça estranha, tão estranha que seu quartel-general fica fora da Casa Negra, e não apenas porque suas funções incluem a inspeção e a dissecação de cadáveres.
Eles eram envolvidos em casos grandes: assassinatos, agressões, estupros ocasionalmente. Às vezes eles conseguiam visões, imagens ou memórias sensoriais, informações fragmentadas que em poucos casos eram totalmente coerentes, mas de vez em quando ajudavam. Eles não eram artistas, pelo menos não da forma que eu conhecia a Arte. Eles não tinham a capacidade de influir no mundo físico, mas sim uma espécie de receptividade passiva a ele, um sentido extra que falta ao restante de nós.
Abençoados por essa falta, eu diria. O mundo é um lugar feio e deveríamos ser gratos por qualquer coisa que limite nossa compreensão. É melhor fugir pela superfície do que mergulhar nas águas poluídas. O “dom” dos videntes é de um tipo que torna impossível levar a vida normalmente, pois as correntes ocultas da existência borbulham em momentos inoportunos. Aqueles que nascem com esse “dom” inevitavelmente acabam indo trabalhar para o governo, simplesmente porque executar qualquer tipo de outro trabalho seria praticamente impossível. Imagine tentar vender calçados a um homem e ter visões dele espancando seus filhos, ou da mulher dele esquartejada dentro de uma bolsa. Trata-se de um jeito desagradável de viver, e a maior parte deles é composta de bêbados insensíveis ou de lunáticos na fronteira entre a sanidade e a demência. Tive alguns deles como clientes, raiz de uróboro principalmente. Mas quando passam para coisas mais pesadas, não demora muito para que o comando comece a ir atrás deles, ou para que eles decidam contornar as autoridades saltando em um rio ou cheirando meia garrafa de Sopro de Fada. É um destino bastante comum para essa espécie. Na verdade, poucos deles morrem de causas naturais.
De qualquer forma, os videntes são bastante úteis no que diz respeito a uma investigação, desde que você não dependa demais deles. À segunda vista é uma coisa muito melindrosa e para cada pista decente que recebe você fica sujeito a dois caminhos sem saída e a uma pista falsa. Uma vez eu passei um mês remexendo em cada buraco da parte habitada pelos ilhéus na Cidade Baixa para depois descobrir que o homem com quem eu trabalhava nunca tinha visto um Mirad antes e tinha confundido a pele bronzeada do assassino com o negro da pele de um marinheiro. Depois desse caso eu parei de gastar muito tempo com a Caixa, mas não que minha presença fosse muito requisitada por ali depois que eu atirei o vidente em questão pela janela do primeiro andar.
Entrei em uma antecâmara controlada por um velho ilhéu que se precipitou pela cadeira onde tirava uma soneca e destrancou a porta interna. Havia um monte de trancas e o porteiro estava no limite entre o venerável e o antigo, então tive a chance de ter uma conversa com Guiscard.
- Quem nós iremos ver? - perguntei.
Saber de algo que eu não sabia deixou Guiscard um pouco animado.
- Crispin quer a melhor de todos. Então procurou Marieke. Você se recorda dela? Ela devia estar apenas começando quando lhe passaram o machado.
- Acho que não.
- Eles a chamam de Cadela de Gelo.
Era o tipo de gozação que eu já podia ver circulando entre os gênios da Casa Negra, misógina e nada original. O fato de eu não ter rido aparentemente deixou Guiscard um pouco ofendido e ele mudou de assunto.
- Como foi que aconteceu, aliás?
- Como aconteceu o quê?
- Sua demissão.
O ilhéu chegou ao último ferrolho e abriu a porta, mostrando dificuldade com o ferro pesado.
- Eu envenenei o Príncipe Consorte.
- O Príncipe Consorte não está morto.
- Ah, é? Então quem foi mesmo que eu matei? Ele levou algum tempo para entender aquela.
- Você não deve falar desse modo da corte real - farejou ele, como se tivesse levado o melhor da história. Ele então saiu num passo veloz e desceu pelo corredor de pedra úmida. Quanto mais avançávamos, mais pesado ficava o cheiro do lugar, uma desagradável mistura de bolor e carne humana. Guiscard passou diante de uma dúzia de portas antes de escolher uma para abrir.
A sala revelava uma organização obsessiva que aponta certamente tanto para uma mente clara quanto para o caos. Havia fileiras e mais fileiras de caixas catalogadas no alto de prateleiras espanadas e o chão era tão limpo que era possível comer nele, se por alguma razão você tivesse vontade de jantar no chão. Além da perfeição, não havia nada que sugerisse que alguém trabalhava ali: a mesa gasta encostada na parede de tijolos não tinha nada pessoal em cima e nem mesmo os detritos de sempre, como canetas, tinta, papéis e cadernos, que dariam o significado que ali seria um lugar de trabalho. Podia-se muito bem imaginar que aquele lugar não fosse nada além de um estoque bem mantido, a não ser pelo cadáver colocado sobre uma laje no centro da sala e pela mulher inclinada sobre o corpo.
Jamais se poderia dizer que ela era bonita, pois tinha muito osso onde se esperava encontrar carne, mas ela talvez pudesse flertar com a beleza sem a carranca que desfigurava seu semblante. A julgar pela altura e pelo tom da pele, tão clara que era possível ver o azul das veias em seu pescoço, ela era vaalã. E ela também não era da cidade, se eu fosse chutar. Fiquei pensando em qual série de eventos a teria feito deixar o frio norte e as ilhas rochosas habitadas por seu povo. Olhada em detalhes, ela tinha alguns traços encantadores: um porte gracioso, membros longos e bonitos, mechas de um cabelo louro-avermelhado caindo pelos ombros. Enfim, uma abundância de belos traços físicos, mas todos eles submersos pela magreza de seu corpo. Ela levantou os olhos quando a porta se abriu, um olhar examinador com olhos que muitos chamariam de azul, mas que era, na realidade, praticamente acromáticos. E logo a seguir voltou a se concentrar no cadáver em cima de sua mesa.
Eu não considerei totalmente impossível discernir a origem de seu apelido. Guiscard me deu uma sutil cotovelada e pude perceber que seu risinho de canto de boca estava de volta, como se estivéssemos compartilhando alguma espécie de piada, mas eu não gostava dele e, mesmo que gostasse, eu não tinha tempo para brincadeiras. Então ele finalmente falou:
- Vidente Uys?
Ela deu um rosnado e continuou fazendo suas anotações.
Nós ficamos esperando para ver se ela seria capaz de permitir que as cortesias sociais teóricas se impusessem sobre a natureza desconfiada da espécie humana. Quando ficou claro que isso não aconteceria, Guiscard pigarreou e continuou. Em contraste com a vidente, eu não pude deixar de me impressionar com a delicadeza com que ele moveu aquele catarro. Fiquei pensando em quanto tempo na escola de etiqueta ele precisou para conseguir controlar aquele truque.
- Este é...
- Eu reconheço seu convidado, Agente - ela interrompeu enquanto rabiscava uma folha de papel com sua caneta como se estivesse se vingando de algum episódio passado de crueldade.
A seguir, depois de deixar claro que nos considerava muito menos importantes do que a conclusão de procedimentos burocráticos, ela aceitou nos dar atenção. -Eu já o vi por aqui antes a nos brindar com sua presença, alguns anos atrás.
Aquilo era uma surpresa. Sou um bom fisionomista, muito bom. Essa foi uma das relativamente poucas exigências curriculares que mantive, apesar de minha mudança de emprego. É claro que aqueles últimos seis meses em Operações Especiais foram... agitados. Sakra sabe que eu perdi coisas muito mais importantes.
- Portanto a apresentação é desnecessária. Mas já que vocês estão aqui, talvez possam me esclarecer que porra ele está fazendo aqui na Caixa, pois, a julgar pela quantidade de vezes que ouvi o nome dele ser amaldiçoado por membros de sua organização, ele não anda nas graças da Casa Negra? - perguntou ela a Guiscard.
Dei uma leve risada, em parte porque achei engraçado e em parte porque eu queria desmenti-la. E de fato ela pareceu chocada com minha reação, ao perceber que sua capacidade de ofender ficou bem aquém do esperado.
Guiscard coçava a penugem embaixo de seu nariz pensando em um jeito de responder. Ele não estava bem certo do que eu fazia ali nem quem havia decidido me colocar na investigação.
Obviamente, no entanto, o decoro e seu imperturbável senso de auto importância o impediam de dizer algo assim.
- Ordens de cima - ele respondeu.
Ele apertou os olhos em uma fúria controlada, preparando-se para dar vazão total a seu rancor. Então ela congelou, piscando como se estivesse perdida e colocando a mão na mesa em busca de apoio. Ela se levantou lentamente e começou a me olhar com uma intensidade perturbadora.
Eu já havia visto ataques suficientes como aquele para saber que ela estava vendo alguma coisa.
- Se você tiver os números da loteria de amanhã, te dou a metade - falei. Ela continuou olhando para mim, aparentemente sem ter prestado atenção na brincadeira.
- Tudo bem - disse ela enfim. Depois ela se voltou para o corpo na mesa:
- O nome da menina era Caristiona Ogilvy, treze anos, descendência tarasaihgn. Ela foi levada a dois dias, de um beco perto da loja de seu pai. Não há sinais de luta em seu corpo nem evidências de que ela tenha sido levada à força.
- Alguém a dopou? - perguntou Guiscard.
Ela não gostava de ser interrompida, nem se isso fizesse parte de um diálogo normal.
- Eu não disse isso.
- Suponho que ela não se deixaria ser assassinada sem alguma espécie de protesto - rebateu ele.
- Talvez ela confiasse em quem quer que a tenha levado - disse eu. - Mas devo supor que você tenha uma teoria e que a queira compartilhar.
- Estou chegando lá. O ferimento na garganta foi o que causou a morte dela...
- Você tem certeza disso? - interrompeu Guiscard. Ele estava brincando. Sentia-se intimidado por ela e tentava amenizar o clima, mas ela não era capaz de enxergar isso, condicionada que estava a interpretar tudo o que pudesse como um insulto.
Seu lábio superior, que estava grudado no inferior de um jeito plácido, ainda não exatamente afável, curvou-se para trás e revelou seus caninos. Faíscas saíram de seus olhos em antecipação ao conflito iminente.
Por mais que me agradasse a ideia de ver Guiscard derrubado com uma ou duas pancadas, o dia tinha sido longo e eu realmente não tinha tempo para aquilo.
- O que mais você pode nos dizer?
Ela voltou a olhar para mim, com uma delicadeza discreta e movimentos astutos que lembravam os de uma ave de rapina em busca de uma presa, mas eu não era Guiscard e depois de alguns segundos ela aparentemente percebeu. Economizando um rápido olhar para o agente, que, se sua cabeça não estivesse enterrada por completo na bunda, ficaria grato pelo desvio, ela continuou:
- Como eu dizia, o ferimento na jugular foi o que a matou. Não havia outros ferimentos no corpo, nem sinais de trauma sexual. Ela foi morta e depois desovada no início da manhã.
Fui adiante:
- Estamos presos às evidências físicas? Você captou alguma coisa do corpo?
- Não muito. O eco do vazio pesa tanto sobre ela que sufoca praticamente quase todo o resto. E mesmo que deixando isso de lado, não consigo captar muita coisa. Quem fez isso apagou os rastros.
- O kiren, o que levou a Tara, trabalhava em uma fábrica de cola. Concluí que ele esfregou desinfetante no corpo dela, ou algum outro produto químico que atrapalhou seu trabalho. É possível que isso tenha acontecido novamente.
- Não vejo como. Não trabalhei no caso Potgieter e não tive a oportunidade de trabalhar na cena. O truque com o ácido poderia funcionar com alguns de meus colegas menos talentosos, mas eu conseguiria achar um jeito. Mas eu estive no lugar da morte do homem que a matou e a... coisa que o matou tinha a mesma ressonância que ouvi em Caristiona.
Imaginei aquilo. Não havia uma chance em mil de aquelas mortes não estarem conectadas, mas era bom ter uma confirmação oficial.
- Você encontrou mais alguma conexão com Tara? - perguntou Guiscard, que já tinha ficado para trás.
- Não, a amostra que peguei dela já estava em decomposição. - Ela sacudiu a cabeça, novamente nervosa. - Eu poderia ter muito mais sucesso se você tivesse colhões para me trazer um pedaço dela, ao invés de deixá-la apodrecendo no chão.
Não criamos caso com isso, mas a melhor coisa para um vidente não é cabelo, é carne. E não precisa ser muita, apenas um pouquinho. Os bons insistem nisso e, quando eu era um gélido, dava um jeito de levar um pedaço sempre que possível. Pode ser um dedinho, às vezes uma orelha caso você ache que a vítima não vai ficar num caixão aberto. Eu não tinha a menor dúvida que, se mexesse nas prateleiras meticulosamente catalogadas daquela vidente, encontraria recipientes e mais recipientes de pedaços de carnes e tendões flutuando em salmoura.
Aquele último insulto levou Guiscard a uma resposta.
- E o que eu deveria ter feito, Marieke, entrado com uma tesoura de tosquiar no meio do funeral?
Os olhos da Cadela de Gelo se fecharam quase inteiros e ela tirou o lençol de cima do cadáver, deixando-o cair no chão. Debaixo dele a criança repousava rigidamente, com a boca e os olhos fechados, a pele branca como sal, os tufos de pelos púbicos.
- Estou certa de que ela aprecia sua disposição de manter o decoro - disse Marieke, cruel, mas sem ser enérgica. - Assim como a próxima será, não tenho dúvida - prosseguiu ela.
Guiscard desviou o olhar. Era difícil fazer outra coisa.
- Você havia comentado que não tinha muito a nos dizer. O que você está deixando de fora? - perguntei depois de achar que já havia se passado tempo suficiente.
Minha pergunta foi totalmente inocente, mas ela precisou de um tempo para raciocinar, examiná-la de todos os ângulos, ter certeza de que não havia nada que ela pudesse tomar como ofensa ou algum insulto não intencional a que ela pudesse se apegar e disparar de volta.
- Como eu disse, não captei nada vindo do corpo e as visões que eu tive se mostraram inúteis. Mas tem uma coisa estranha, uma coisa que eu nunca tinha visto antes.
Ela ficou em silêncio e eu imaginei que era melhor deixá-la usar o tempo que fosse do que tentar acelerá-la e arriscar uma reprimenda.
- Havia um... - ela parou novamente, tentou traduzir seus pensamentos para um idioma que não dispunha de termos suficientes para acomodar toda a extensão de suas sensações. E prosseguiu: - Uma aura, uma espécie de calor, que anima o corpo. Nós podemos captá-la, de vez em quando segui-la, acompanhá-la de volta a partir do local da morte, vê-la nas coisas que a pessoa morta gostava ou que tinha a seu redor.
- Você quer dizer uma alma? - perguntou Guiscard, cético.
- Não sou uma porra de um sacerdote - rebateu ela, apesar de que, francamente, os impropérios já deixavam isso bem claro. - Eu não sei que merda é, mas eu sei que deveria estar aqui agora e não está. O responsável por isso levou mais do que a vida dela.
- Você quer dizer que ela foi sacrificada?
- Não posso afirmar isso. Essas coisas são raras. Em tese, o assassinato ritual de um indivíduo, especialmente de uma criança, criaria um reservatório de energia, de um tipo de energia que poderia ser usado para iniciar um trabalho de imenso poder.
- Que tipo de trabalho?
- Não há como saber. E se houver como, eu não sei a resposta. Pergunte a um artista. Eles podem falar melhor sobre isso do que eu.
Eu faria exatamente isso, assim que tivesse uma oportunidade. Guiscard olhou para mim para ter certeza de que não havia mais nada. Balancei a cabeça e ele começou a retirada.
- Sua ajuda foi de grande valor, vidente, como sempre - disse ele. Guiscard era inteligente o bastante para saber o valor de se manter uma relação de trabalho com alguém competente como a Cadela de Gelo, por mais que todas as suas idiossincrasias deixassem algo a desejar.
Marieke retribuiu a gratidão:
- Vou conduzir mais alguns rituais, ver se consigo captar algo mais antes de ela ser enterrada amanhã. Mas não vou me prolongar. Quem quer que tenha feito isso fez bem, foi perfeito.
Fiz um aceno de despedida que ela ignorou e segui com Guiscard em direção à porta. Eu já estava pensando em minhas próximas ações quando ela me chamou.
- Você, pare - ela mandou, e estava claro a qual de nós dois era dirigido o comando. Sinalizei para Guiscard continuar em frente e ele saiu da sala.
Marieke me deu um olhar longo e penetrante, como se tentasse enxergar minha alma por dentro do corpo. O que quer que ela tenha captado de minha massa de ossos e músculos em processo de envelhecimento parece ter sido suficiente, pois depois de um momento ela foi até o corpo.
- Você sabe o que é isto? - perguntou ela, chamando minha atenção para a parte de dentro da coxa da menina e para uma série de manchas vermelhas que descaracterizavam sua pele.
Tentei falar, mas não consegui.
- Descubra que porra está acontecendo - disse ela, com sua constante amargura substituída pelo medo - e descubra logo.
Eu me virei e saí da sala.
- O que ela queria? - Guiscard perguntou, mas eu passei por ele sem responder.
Garrincha estava em pé ao lado dele e se preparava para dizer alguma coisa, mas eu coloquei uma mão em seu ombro e o puxei comigo. Ele era esperto o bastante para entender que era para ficar de boca fechada.
O que foi bom, pois naquele momento eu estava tão incapacitado para manter um diálogo quanto para voar. O pensamento que martelava minha cabeça era grandioso demais para dar espaço para qualquer outra coisa e acabou com o que me restava de equilíbrio, já judiado por todos os acontecimentos do dia.
Eu já havia visto aquelas manchas antes. Eu as vi uma noite no meu pai quando ele voltou da fábrica, depois na minha mãe, alguns dias depois. Vi aquilo recobrir o corpo deles como se fosse uma segunda pele, linhas de pústulas que criavam cascas que fecharam seus olhos e secaram suas línguas até que eles ficassem loucos de sede. Vi aquilo derrubar tantos homens que depois de algum tempo já não tinha mais ninguém para fazer os enterros. Vi aquelas pequenas manchas acabarem com a civilização. Eu as vi destruir o mundo.
A peste estava de volta a Rigus. No caminho para casa fui pensando em todas as orações para o Primogênito que eu me lembrava, se bem que elas não serviram para nada da outra vez.