O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 8 de 49

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O Guardião

Capítulo 8

Oito horas e seis ocres depois eu não estava mais próximo de alcançar meu objetivo. Eu havia visitado todas as operações ou usado todos os solventes possíveis da Rua do Largo à Rua da Luz, tudo isso sem encontrar nenhuma pista. Alguns cobres costumavam ser o bastante para se conseguir informações - se isso não funcionasse, eu mostrava um papel segundo o qual eu era membro da guarda e me tornava menos afável. Era bastante fácil conseguir respostas - é sempre fácil encontrar respostas que não levam a lugar nenhum.

Garrincha havia me encontrado pouco antes de eu sair do Conde, sem oferecer nenhuma explicação para seu desaparecimento, sem dizer nada, apenas vindo atrás de mim. Ele estava sendo resistente, presumivelmente sem ter previsto que trabalhar para mim seria tão chato. Eu não estava gostando de nosso negócio muito mais do que ele. Quanto mais continuava a busca, mais absurdo parecia ter confiado o resultado da investigação a meus sentidos olfativos, e eu já começava a me lembrar que uma das virtudes de meu negócio por adoção era que as pessoas vinham atrás de mim, e não o contrário. Mas a recordação de uma menina morta e minha obstinação inata me levavam adiante, com a esperança de que eu conseguiria um golpe de sorte apesar dos melhores ditames da razão.

Num balcão gasto estava sentada uma vovó igualmente gasta que não moveu nenhum centímetro de seu rosto acinzentado durante toda a conversa. Não, nenhum dos funcionários dela estivera ausente nos últimos três dias. Na verdade eram duas mulheres apenas, e elas trabalhavam seis dias por semana do amanhecer à meia-noite. Não era uma história interessante o bastante para justificar os três cobres que dei a ela.

Saí da pequena loja no meio da tarde, já pensando que era hora de parar, de voltar para o Conde para recompor, quando o vento mudou de direção e trouxe até mim um cheiro familiar.

Um sorriso se formou nos cantos da minha boca. Garrincha percebeu e empinou a cabeça com curiosidade.

- O que é isso? - perguntou ele, mas eu o ignorei e segui contra a brisa. Duas quadras adiante aquele cheiro ácido estava mais forte.

Mais alguns passos à frente e ele estava quase insuportável. E depois de mais alguns passos descobri o motivo. Estávamos diante de uma enorme fábrica de cola, onde uma portaria de pedra levava a um amplo pátio de trabalho onde um pequeno exército de kirens submergia ossos e medulas em barris ferventes. Eu estava perto. Abri a porta e entrei, com Garrincha logo atrás de mim.

Mostrei rapidamente meus documentos falsos e o gerente setrans formou a imagem da obsequiosidade amigável em pessoa. Falei no pior kiren possível.

- Trabalhadores, todos aqui últimos três dias? Algum não? - coloquei uma prata na mesa e os olhos dele se acenderam.

- Informação importante, preço grande - continuei.

Meio segundo para sua consciência justificar a delação comprada de um membro de sua raça para um estrangeiro, a moeda desapareceu e ele apontou discretamente para um homem no pátio.

Ele era maior que eu, maior que praticamente todos os kirens que eu já havia visto - praticamente todos esses hereges eram baixinhos e fortes. Ele carregava um grande saco de pólvora na direção de um tanque no pátio e seus movimentos pareciam descontentes e cansados. Havia uma espécie de ferimento superficial no lado direito de seu rosto, do tipo que poderia muito bem ter sido feito por uma menina tentando se defender freneticamente de um homem inclinado a machucá-la. É claro que aquilo poderia ter acontecido com qualquer pessoa de mil outros jeitos.

Não era o caso porém.

E eu senti aquele velho arrepio subindo por minha virilha e se espalhando pelo corpo até alcançar meu peito e minhas extremidades. Aquele era o cara - olhos mortiços lembrando vagamente o de seus conterrâneos, a expressão de seu rosto entregando seus crimes até mesmo a distância. Um sorriso peculiar se formou em meu rosto, do tipo que eu não usava desde antes de ser exonerado pela Coroa. Respirei profundamente aquele ar envenenado e mordi um sorriso.

- Garoto, volte para o Conde. Você está dispensado por hoje - ordenei. Depois de ter passado tanto tempo naquela busca, era compreensível que Garrincha quisesse ficar para ver o desfecho.

- Eu vou ficar - desobedeceu.

O kiren olhava para mim agora e eu falava sem tirar os olhos dele.

- Esta não é uma associação entre iguais. Você é meu lacaio. Se eu te mandar engolir carvão quente, você vai correr até a fogueira mais próxima, e se mandar você ir embora, você vai sumir da minha frente. Agora... suma.

Garrincha ficou ali por mais um instante antes de ir embora. Pensei se ele iria voltar para o bar ou se iria ficar zanzando pelas ruas para retribuir meu insulto. Imaginei que ele fosse optar pela segunda possibilidade, mas não estava nada preocupado com aquilo.

O kiren estava tentando decifrar o motivo de meu interesse.

A essa altura seus crimes corriam soltos por sua memória e a cabeça tentava convencê-lo de que minha atenção era inocente, que só podia ser isso, que não havia meios de eu saber.

Pus mais uma prata na mesa e disse ao dono, numa mistura enrolada de nossos idiomas: - Eu não estive aqui.

O gerente curvou-se servilmente e a prata foi parar num dos bolsos de seu casaco, com um sorriso vago no rosto.

Retribui o sorriso, mas sem desviar os olhos de meu alvo.

Uma pausa de uns poucos segundos para lhe acalmar os nervos e depois eu me virei e saí do prédio.

Aquele tipo de operação seria mais bem feito com a ajuda de pelo menos mais três pessoas, uma para observar cada saída e uma terceira para garantir, mas eu não estava preocupado. Parecia improvável que meu homem fosse correr o risco de sair mais cedo do trabalho. Eu podia até imaginá-lo lá dentro tentando convencer a si mesmo de que seus medos não tinham justificativa, que eu era apenas um guai lo ignorante, e que além do mais ele havia sido aplicado e cuidadoso com o corpo, chegando ao ponto de limpá-lo com ácido que ele havia roubado do trabalho.

Sentei-me em um barril no beco de frente para a entrada principal e esperei as sombras se alongarem. Quando eu era agente, uma vez fiquei parado em frente a um puteiro durante dezoito horas vestido como mendigo até minha presa sair e eu ter a chance de acertá-lo na cabeça com uma muleta. Mas aquilo aconteceu quando eu estava em modo de combate - a paciência é uma habilidade que se perde rapidamente quando não se usa. Resisti ao impulso de enrolar um cigarro.

Uma hora se passou, e depois outra.

Agradeci quando o sino em cima do portão tocou, anunciando o fim do dia de trabalho, e os kirens saíram rapidamente pela porta da fábrica. Endireitei meu corpo dolorido e arrumei um lugar no fim daquela multidão. Meu alvo era bem mais alto que seus conterrâneos, uma vantagem para segui-lo da qual não precisava, mas tiraria proveito. A horda rumou ao sul, entrando num bar com inscrições em kiren que eu desconhecia. Sentei do lado de fora e enrolei um cigarro. Depois de alguns minutos terminei de fumar, joguei a ponta fora e entrei.

Era um tipo de taberna comum para os hereges, grandes e mal iluminados, cheios de fileiras de longas mesas de madeira. Um contingente desatento e grosseiro de funcionários levava canecas de kisvas, uma bebida amarga e esverdeada, a qualquer um que tivesse dinheiro para pagar. Peguei uma cadeira encostada na parede dos fundos, ciente de ser o único não-kiren no recinto, mas sem deixar que aquilo me irritasse.

Um funcionário, com uma cara que mais parecia ter sido atingida por um bastão de carvalho, passou perto e eu pedi uma caneca do que se entendia por bebida para os estrangeiros ali.

O pedido foi atendido com uma velocidade surpreendente e tomei um gole enquanto observava o local.

Ele estava sentado sozinho, o que não era surpresa. Seu tipo de depravação costuma marcar as pessoas, e pela minha experiência os outros praticamente conseguem farejar isso. Os outros trabalhadores jamais descreveriam dessa forma, certamente.

Eles iriam dizer que ele era estranho, quieto, não escovava os dentes ou não tomava banho - mas o que eles queriam dizer é que havia algo errado com ele, algo que se pode sentir, mas não exatamente definir em palavras. Os tipos realmente perigosos aprendem a esconder, a camuflar sua loucura em meio ao mar de imoralidade banal que os cerca. Mas esse não era um tipo esperto o bastante para tanto e por isso estava sentado sozinho em um longo banco, uma figura solitária em meio a grupos de trabalhadores embriagados.

O kiren fingiu não notar que eu o vigiava, mas entornou sua bebida numa velocidade que traía sua tranquilidade. Francamente, eu estava impressionado com sua compostura - estava surpreso com sua presença de espírito de manter sua rotina normal depois de sair do trabalho. Verifiquei dentro de minha sacola para ver se estava ali a navalha que eu mantinha presa à lona. Não tinha grande valor como arma, mas ficaria à mão para o que eu planejava fazer a seguir. Ele empalideceu e seus olhos se desviaram dos meus.

Era hora de avançar um pouco mais. Bebi o que restava de meu kisvas, fazendo caretas com o amargo do fim, e saí de onde estava para me sentar ao lado de minha presa. Quando percebeu o que eu estava fazendo, ele encolheu a boca e olhou para baixo, na direção de sua bebida. Os homens que estavam perto dele me olhavam com ansiedade, desgostosos com o fato de seu compatriota lutar contra o antagonismo instintivo de um homem de mesma cor contra um intruso de brancura diferente. Eu os desarmei ao abrir um sorriso, um pouco alto, simulando embriaguez.

- Kisvas, hao chi! Kisvas bom! - falei alto, esfregando a barriga.

Suas suspeitas diminuíram. Eles retribuíram meu sorriso, felizes em ver um homem branco bancando o palhaço. Eles falavam demais, rápido demais para que eu pudesse decifrar o que diziam.

Meu alvo não compartilhou a diversão nem caiu no meu golpe. Eu não queria que ele caísse. Joguei meu corpo em um banco de frente pra ele e repeti meu mantra.

- Kisvas, hao chi - continuei, esticando ainda mais o sorriso ao ponto da imbecilidade. - Nu ren (menina nova) haochi ma? - perguntei. Sua pele amarelada transpirou desespero.

- Kisvas, hao chi! Nu ren, hao hao chi!

O kiren gigante levantou-se abruptamente, escapando por uma estreita abertura entre as longas fileiras de mesas. Eu me levantei e bloqueei seu caminho, ficando perto o bastante para sentir o cheiro de suor de seu corpo sem banho, perto bastante para que ele me ouvisse abandonando a encenação do bêbado e condenando-o num kiren ruim, mas decifrável:

- Eu sei o que você fez com a menina. Você estará morto na próxima hora. Ele bateu com sua pata em meu peito e eu caí na mesa de trás. A multidão gargalhou e eu ri com ela, gargalhando com estardalhaço, curtindo meu teatro, curtindo o negócio todo.

Continuei indiferente, ouvindo as ridicularizações dos hereges, observando pelas grandes janelas ao lado da porta enquanto ele fugia. Assim que ele saiu do meu campo de visão, saí da mesa e corri para a porta dos fundos, passando por uma cozinha imunda e falando algo sobre os problemas de beber tanto. Fui para fora e saí correndo em disparada, na esperança de intercepta-lo onde a rua lateral se encontrava com a principal.

Cheguei até o cruzamento e encostei-me na parede do beco casualmente, como se tivesse passado o dia inteiro ali. O kiren dobrou a esquina com a cabeça torta sobre o ombro e, quando me viu, sua pele ficou tão branca que ele passaria tranquilamente por um rouender. Mordi a língua para não começar a rir.

O medo dele era tão potente quanto uma bebida forte. Por Sakra, eu tinha me esquecido disso - existem prazeres que a vida no crime não proporciona.

Em me curvei quando ele passou por mim e me desencostei da parede. Ele estava praticamente perdido agora, dominado pela culpa e pelo terror. Sem saber se andava ou se corria, ele optou por um método de deslocamento que carecia tanto de velocidade quanto de sutileza. Eu o acompanhei num passo constante, mais rápido que o de um pedestre comum, mas sem fazer força para alcançá-lo.

Depois de algumas quadras, ele entrou em uma viela e caiu em minhas mãos. Ele havia entrado em uma daquelas curiosas ruas comuns em Kirentown que terminam no centro da quadra e não deixam saída nenhuma a não ser voltar para a entrada.

Um sorriso se fez em meu rosto. Com dias de planejamento e todos os recursos da Coroa à disposição eu não teria feito melhor. Diminuí o passo e pensei em como poderia pegá-lo.

Ele era grande, tão alto quanto Adolphus, mas não tão largo.

Mas, como acontece com muitos grandalhões, eu apostaria que ele jamais aprendera realmente a brigar, a antecipar as reações do oponente, a reconhecer as fraquezas e tirar proveito delas, quais partes do corpo de um homem são firmes e quais partes o Criador não fez direito. Ainda assim, a falta de técnica não importaria nada se ele pusesse aquelas mãos monstruosas perto do meu pescoço. Eu precisaria derrubá-lo primeiro. Ele colocou a perna direita na frente - eu trabalharia com aquilo.

Quando dobrei a última esquina, o kiren olhava desesperadamente ao redor em busca de um jeito de escapar. Como a maior parte das pessoas com as mesmas inclinações, ele estava apavorado com o perigo, apesar de todo o seu tamanho, era inclinado a entrar em combate somente quando todas as outras opções estivessem fora de questão. Ele girou em minha direção e pude ver seu tênue controle sobre a sanidade cair por terra.

Gotas de saliva saíram de sua boca enquanto ele esbravejava algum impropério e batia com o punho grosso no peito. Fui tomado por uma sensação de certeza, pelo calor que sinto sempre que chego ao ponto no qual a violência é inevitável. Não havia mais recuo agora para nenhum de nós dois. Levantei a guarda na frente do rosto e fui em direção a ele, circulando para a esquerda para atrapalhar seu equilíbrio.

De repente, de trás de mim veio uma corrente gelada de ar acompanhada de um cheiro de fezes e de carne em decomposição.

Senti um calafrio e me afastei para o lado, cobrindo o nariz com o braço enquanto me abrigava contra a parede de tijolos gastos.

A coisa tinha uns dois metros e meio de altura, mas era difícil dizer o tamanho exato porque ele não andava, mas sim flutuava a alguns centímetros do chão. Sua forma era uma imitação blasfema de um bípede, mas suficientemente alterada para tornar impossível a confusão com um membro da raça humana. Esgueirando-se, com seus braços obscenos para baixo do corpo, cada um com duas mãos em movimento maiores que minha cabeça. É difícil descrever mais que isso, já que a maior parte de seu corpo era coberta por algo que parecia uma espessa capa negra, mas de perto mais se parecia com uma estranha carapaça. Tive vislumbres da estruturada criatura sob o invólucro, rija e branca como osso.

Eu jamais imaginei que fosse ver aquilo novamente. Mais um pedido meu a Sakra que não foi atendido.

Seu rosto era uma paródia contorcida do meu, uma casca apertada firmemente contra os ossos, olhos violentos e cruéis.

Senti uma dor no peito e desabei no chão, a agonia se espalhando por mim de um jeito tão terrível que meu longo histórico de ferimentos parecia não ser nada diante daquilo. Um grito natimorto se aproximou de meus lábios. Por um terrível momento eu pensei em todo mundo que eu trairia, na humilhação que eu aceitaria e em qualquer maldade que eu seria capaz de perpetrar apenas para aliviar aquele tormento. Então aquela coisa desviou-se de mim e seguiu adiante e a tortura terminou de forma tão abrupta quanto começou. Continuei no chão, completamente extenuado.

A criatura parou a alguns metros do gigante. A parte inferior da mandíbula parecia deslocada, puxada uns quinze centímetros para baixo para revelar o vazio arroxeado.

- Não era para a criança ter sido maltratada - disse a criatura. Sua voz era esganiçada como porcelana quebrada e uma mulher ferida. - Como ela sofreu, agora você sofrerá - prosseguiu. O kiren continuava aterrorizado, sem que o medo tivesse sido diluído pela consciência. Com uma velocidade que traiu seu propósito, a coisa parou, agarrando o pescoço do homem com uma de suas mãos. Sem nenhum esforço aparente ela levantou o corpo do chão e o manteve suspenso, inerte.

Durante a meia década que servi na força e durante as longas horas que passei atormentando criminosos nos subterrâneos da Casa Negra, eu acreditava não haver expressão de dor com a qual eu não estivesse familiarizado, mas eu jamais ouvira algo que se comparasse aos gritos do kiren. Ele fez barulhos que penetraram a profundeza dos meus ossos, como parafusos enferrujados, e pressionei as mãos na cabeça com tanta força que pensei que meus tímpanos fossem estourar. O sangue escorria de suas narinas, menos um sangramento de nariz que um machucado nos ossos do nariz, e ele sacudia a cabeça para frente e para trás na tentativa de se livrar das garras da aberração. As tentativas do kiren de se libertar eram tão furiosas que ele perdeu a mão ferida na substância impenetrável de seu inimigo, com seus dedos se quebrando enquanto ele tentava segurar a cobertura negra. Alguma pressão interna aconteceu, seu olho direito explodiu e seus gritos dobraram de intensidade contra a minha cabeça. Então eles cessaram. Os gritos emudecidos e o inchaço de sua garganta indicavam que ele havia sido mordido desde a base da língua e agora estava lutando sem sucesso para engoli-la.

De todos os muitos demônios que habitavam minha memória, não existia análogo a este horror.

Por fim, a coisa sacudiu o que restava do corpo, como um cão terrier faria com um rato. Houve um barulho de ossos se quebrando e o corpo foi jogado no chão, uma massa revirada de orifícios abertos e carne retorcida. Como a missão estava encerrada, a coisa virou-se como uma folha no vento e sumiu de meu campo de visão. O resultado da dor era tão intenso que eu não tive forças nem para acompanhar seu movimento com os olhos.

Encostado na parede, olhando para o corpo destruído do homem que eu vinha seguindo pela metade do dia, pensei que pelo menos o kiren não havia me desmentido. Em todos aqueles anos eu jamais assistira a uma morte tão horrível. Qualquer que seja o tormento que ele esteja passando agora, foi uma libertação daquilo que o mandou para o lado de lá.