O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 46 de 49

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O Guardião

Capítulo 46

Agachei-me ao lado de um arbusto a uns vinte metros do portão dos fundos da mansão de Beaconfield. Havia camuflado meu rosto com a tinta e os arames que eu levava nas mãos reluziam ao luar. Eu tentava contemplar um jeito por meio do qual Dunkan não tivesse que morrer. Até aquele momento, porém, nenhuma ideia me ocorrera.

Eu não podia deixá-lo desacordado. Isso não funcionava do jeito que as pessoas achavam, com um golpe rápido na nuca e a vítima acorda uma hora depois só com uma dor de cabeça. Na metade das vezes elas se movem se você não as atinge direito e quem fica parado ali feito um bobo é você. Se você não a deixar desacordada, ela provavelmente vai voltar a si a tempo de causar problemas. E se você a derrubar e ela ficar, isso provavelmente significa que o cérebro dela foi danificado e ela vai passar o resto da vida se borrando nas calças, e eu aposto meu dinheiro que isso não é nada melhor do que estar morto.

Tudo aconteceria no limiar. Mesmo se tudo desse certo, seria a coisa mais perto do extremo que eu já havia feito. Mas eu tinha empenhado minha palavra a Adeline.

A noite estava avançando e cada minuto que passava era uma mais para Beaconfield decidir a melhor forma da usar Garrincha para alimentar a abominação de Brightfellow. A munição que eu levava dava-me a chance de lutar, mas não se alguém me visse enquanto estivesse me preparando. Amaldiçoei a ironia do destino de ter sido invocada a presença daquela sorridente sentinela ali, e não ao lado de uma fogueira bebericando seu uísque, mas não havia nada que pudesse ser feito.

Fechei os olhos por alguns instantes.

Então me levantei, arremessei uma pedra na área externa e atraí a atenção da sentinela, que veio se aproximando, dez metros, cinco metros e logo eu estava por trás dela aplicando uma firme gravata.

O estrangulamento foi silencioso, mas demorado. Dunkan levou muito tempo para morrer. Primeiro ele pegou os arames, com os dedos arranhando furiosamente a garganta fechada. Depois de algum tempo os braços dele caíram de lado e ele parou de lutar. Mantive a gravata com firmeza até ele ficar roxo e suas pernas tremerem em um espasmo final. Depois eu o abaixei no chão, atrás de um muro onde ninguém pudesse ver seu corpo.

Desculpe-me, Dunkan. Eu gostaria que tivesse sido de outra forma. Apaguei a lanterna sobre o portão aberto. Os outros guardas logo notariam a ausência de luz. Desejei que o assassinato de meu amigo tivesse me rendido pelo menos tempo suficiente.

Rastejei pelo perímetro, assegurando o que precisava para que tudo funcionasse. Ninguém percebeu. A segurança era falha. Beaconfield podia ser burro o bastante para não perceber que eu iria até ele. Pelo menos era o que eu esperava.

Depois de tudo preparado voltei para a porta dos fundos e arrombei a fechadura, não tão habilmente quanto o Doutor, mas sem nenhuma dificuldade. Comecei a contar os segundos em minha cabeça assim que entrei, avançando com as costas nas paredes, parando a cada barulho. As defesas estavam estranhamente frágeis, sem patrulhas nem ninguém plantado ao pé da escada.

Quando abri a porta do escritório do Espada ele estava em pé de frente para as amplas janelas instaladas atrás de sua mesa, bebendo algo em um copo com gelo e vendo a neve cair. Ele girou a cabeça com limitada celeridade. Houve um momento do mais puro choque quando ele me reconheceu. Então um sorriso se fez em seu rosto. Ele virou o restante de sua bebida e colocou o copo sobre a mesa.

- Esta é a segunda vez que você entra em meu escritório sem ser convidado.

Fechei a porta atrás de mim.

- É só a primeira. Ontem eu mandei um homem aqui.

- É assim que os amigos se comportam? Tirando vantagem da hospitalidade para roubar a correspondência íntima dos outros?

- Nós não somos amigos.

Ele pareceu um pouco chateado.

- Não, eu suponho que não sejamos, mas isso é apenas circunstancial, realmente. Acho que se as coisas tivessem se desenrolado de outra forma você me consideraria um homem totalmente razoável. Afável até.

Dois minutos e meio passados.

- Vocês de sangue azul são muito tortos pro meu gosto. No fundo eu sou uma criatura simples.

- Sim, correto e leal. É justamente como eu me referiria a você. Estávamos os dois esperando para ver qual dos dois iria acabar primeiro com a pretensa amabilidade. Dentro da minha cabeça o relógio continuava andando. Três minutos agora.

O Espada reclinou-se contra a mesa.

- Tenho de admitir: estou surpreso em relação a como você decidiu participar disso.

- Eu admito que é um jeito um pouco direto, mas não se pode dizer que eu tenha tido muita escolha.

- O Comandante o mandou aqui então? Fico chocado com a lealdade que aquele maluco inspira. Não é ele que vai perder a vida em sua missão suicida.

- Nada de lealdade. Eu praticamente tive de obrigá-lo - um vacilo de surpresa cruzou o rosto dele. - E o que o faz ter tanta certeza de que sou eu quem não vai sair andando daqui?

Ele explodiu numa gargalhada.

- Ninguém aqui está dizendo que você é incompetente, mas não vamos exagerar seu talento.

Três minutos e meio.

- Você diria isso aos homens que mandou para me matar?

Ele fechou os olhos, numa rara demonstração de lamentação.

- Aquilo foi ideia de Brightfellow. Ele queria desde o início que eu tivesse ido atrás de você. Depois que Mairi nos avisou que você estava atrás de nós... achei que pudéssemos assustá-lo, ou comprá-lo. Suponho que você tenha mais medo do Comandante do que de mim.

- Você está certo quanto a isso - disse eu. - Onde está o feiticeiro, aliás?

- Não tenho a menor ideia. Não o vejo desde a festa. Acho que ele fugiu. Nem todo mundo tem estômago para o desfecho.

- Nem todo mundo tem - concordei, imaginando que ele estivesse mentindo, acreditando que o feiticeiro estava enfiado no porão com as mãos no pescoço de Garrincha.

Beaconfield levou a mão à empunhadura de sua espada.

- Não somos tão diferentes quando você finge. Nós dois somos lutadores, crianças nascidas dos gritos dos homens e do derramamento do sangue. Não pode haver desonestidade entre nós, não pode haver prevaricação na perfeição do golpe nem no candor do contragolpe. E por isso falo contigo como irmão. Os homens que você matou, meus amigos, não eram minha mais pálida sombra. Ninguém é. Nunca houve ninguém tão bom quanto eu, ninguém em nenhuma era, desde que o primeiro homem acertou o segundo com uma pedra. Sou a máquina mortífera perfeita, o ápice do predador, um artista na mais antiga e nobre das atividades humanas.

- Você ensaiou isso de frente para o espelho?

- Olhe como fala.

- Conheci gente do seu tipo durante minha vida inteira, garotos inúteis que pegavam um pedaço de lâmina nas mãos e decidiam que era isso que os tornava homens. Você se acha especial só porque sua mão é um pouco mais rápida? Passo por uma dúzia de pessoas iguais a você no desjejum todas as manhãs. A única diferença entre você e eles é o preço do seu casaco.

- Então por que você insiste em conversar se sou de tão pouco interesse?

- Por que será? - já haviam se passado cinco minutos. Pelo caralho de Sakra, por que estava demorando tanto? Se Beaconfield não fosse um megalomaníaco tão desesperado eu já estaria morto. Não tinha ilusões quanto ao resultado. - Por que você fez tudo isso? - perguntei. - Eu entendo os eventos. Estou apenas tentando colocar em perspectiva.

- O que eu poderia dizer? Eu precisava de dinheiro, eles tinham, ou pensei que tinham. Nunca tive o desejo de trair o país, mas eis que, como você gosta de dizer, certas coisas acontecem.

Eu já estava contando os segundos desesperadamente agora.

- Não estou interessado em suas patéticas tentativas de espionagem. Como você se envolveu com Brightfellow? Quando vocês começaram a mexer com as crianças?

Ele me olhou com uma expressão de curiosa surpresa e, para meu terror, percebi que ele não estava fingindo.

- Que crianças?

O chão abaixo de nós desabou, atirando-me de costas contra a parede. Desconfio que na história do combate nunca houve uma linha de logística mais incompetente do que a que me afetou durante a Guerra. Durante cinco anos nós tínhamos que seguir em frente sem os suprimentos mais básicos: ataduras, pregos, camuflagem.

Dois dias em Donknacht e o fluxo de suprimentos não parava.

Selas para cavalos mortos, armaduras que ninguém sabia vestir, caixas de meias de lã, como se a Guerra tivesse multiplicado nosso número de braços ao invés de diminuí-lo. Quando me dei conta, dispunha de pequenos itens suficientes para abrir uma loja, assim como de outros produtos normalmente achados nas prateleiras dos mercadores locais: mais de dez quilos de pólvora e os componentes explosivos necessários para detoná-la.

Parte disso usei quando ainda era um gélido. Outra parte usei para forjar meu nome depois de que deixei o serviço à Coroa. O restante eu usei para apresentar ao Espada os benefícios da guerra moderna.

A explosão nos jogou cada um para um extremo oposto da sala, mas eu já estava esperando que ela fosse acontecer e consegui me levantar primeiro. Peguei uma adaga em minha bota e avancei sobre Beaconfield com toda a velocidade que pude. Ele estava caído num canto, grogue, mas consciente.

Aquilo não era bom. Eu queria que a descarga o tivesse apagado por tempo suficiente para que eu me certificasse de que ele não representava uma ameaça. Inverti a empunhadura da adaga e saltei sobre ele. Os olhos dele palpitaram, mas ele reagiu com extraordinária velocidade, desviando meu golpe e prendendo minha arma de mão entre os dedos.

Ele era mais forte do que eu imaginava, e isso porque eu imaginei que ele fosse um lutador. Não era apenas habilidoso com a espada, o que eu já sabia, mas um lutador, o tipo de homem que ataca quando está ferido, que não retrocede ante a dor ou o choque. Ele tinha coragem, apesar de não se poder afirmar isso pela forma como se vestia. Acho que isso merece ser lembrado, apesar de não apagar muita coisa. Tentei acertar um soco na garganta do Espada, mas ele conteve o golpe com sua costumeira e surpreendente agilidade.

Não sei como teria terminado se tivesse sido uma luta honesta, mas o jogo limpo não é bem o meu forte. A segunda bomba explodiu, bem debaixo de nós desta vez. Eu estava olhando para o teto e houve um clarão em meus olhos, uma luz tão forte que pareceu me surpreender, além de me cegar. Logo a luz começou a diminuir, mas um terrível zumbido em meus ouvidos persistiu. Encostei a mão neles. Não havia sangue, mas isso também não queria dizer nada. Na Guerra vi muitos homens ficarem surdos sem nenhum sinal claro de ferimento. Dei um grito, minha garganta raspou, mas não ouvi o som.

Manter o controle, manter o controle. O zumbido vai parar ou não vai. Se ficar aqui você vai morrer de um jeito ou de outro. Levantei-me sabendo que estava inutilizado para uma luta, pedindo a Meletus que o Espada estivesse pior que eu.

E ele estava. O piso do escritório estava estourado, com buracos na madeira e estilhaços por todos os lados. Uma lasca de madeira do tamanho de um braço estava enfiada na barriga de Beaconfield. Ele estava com as costas arqueadas sobre uma viga e sustentação caída e o sangue escorria por sua boca. Corri em direção a ele, com o equilíbrio bastante abalado.

- Onde está o Garrincha? - perguntei. - O garoto, onde está?

O Espada ainda teve forças para um último sorriso, e o manteve pelo tempo que foi capaz, pronunciando as palavras devagar o bastante para que eu as entendesse apesar do zumbido nos ouvidos:

- Você mata melhor do que investiga.

Eu não teria como contestar aquela.

Sua energia toda se esgotou e Beaconfield desabou sobre a lasca enfiada em seu torso. Depois de alguns segundos ele estava morto. Fechei seus olhos e me levantei.

Nenhum homem desperdiça seu último suspiro com uma mentira. Ele repassou o segredo só de raiva, num último golpe antes de se encontrar com Aquela que Espera por Trás de Todas as Coisas. Ele não estava com Garrincha. Eu havia deixado escapar alguma coisa. Eu havia deixado alguma coisa passar terrivelmente, mas não sabia dizer o quê.

O tempo estava passando e era provável que alguém tivesse notado a explosão na mansão do lorde Beaconfield. Desci as escadas cientes de que estaria morto se me enfiasse em confusão.

A parte de trás da casa parecia ter desabado inteira. Toneladas de madeira e tijolos sepultavam o corredor que levava aos fundos. No saguão principal as antes belas tapeçarias estavam destruídas pela fuligem. Cacos de vidro dos candelabros quebrados estavam por todos os lados. Uma das explosões deu início a um incêndio na cozinha e as chamas rapidamente avançavam para tomar o restante da casa.

O mordomo do Espada estava prostrado ao lado da porta, com a cabeça curvada de um jeito que nenhum contorcionista jamais conseguiria imitar. A morte parecia uma punição injusta por sua arrogância e por seus modos desagradáveis, mas poucos de nós têm o que merecem. Passei por cima dele e saí na neve.

Eu tropicava na direção do portão quando percebi que o zumbido em meus ouvidos havia diminuído, não muito, mas o suficiente para que eu soubesse que não estava me iludindo. Eu não estava surdo e tinha vontade de me agachar e chorar para agradecer ao Primogênito por me poupar disso. Em vez disso, porém, continuei indo pelo gelo, pulei a cerca quando vi luzes pela trilha diante de mim e voltando ao Conde o mais rápido que um homem aturdido era capaz.