Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 1 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 1

HÁ MOMENTOS QUE MUDAM tudo na vida.

Não estou falando de pequenas coisas, como quando você come pela primeira vez um cereal delicioso, passa para a universidade, apaixona-se por uma garota ou muda-se para uma casa onde morará nos próximos vinte anos. Estou falando de uma modificação completa. Em um segundo, sua vida é uma, e no outro, fica totalmente diferente. Todas as regras, tudo o que você aceitava sobre a realidade não é mais igual.

Como se o que antes era em cima agora ficasse embaixo e o lado esquerdo se tornasse o direito.

Como se a morte se tornasse a vida.

Fitei a fotografia, percebendo que sempre estamos a apenas alguns segundos de uma mudança geral. O que via não fazia sentido, por isso pisquei algumas vezes e olhei de novo, como se esperasse que a imagem se modificasse. Nada aconteceu.

Era uma foto antiga, em preto e branco. Fiz um cálculo rápido e percebi que devia ter sido tirada quase setenta anos atrás.

– Não pode ser – falei.

Eu não estava falando sozinho, caso você pense que sou maluco (você logo pensará isso), mas com dona Morcega. Ela se encontrava bem perto de mim, com seu vestido branco, e não disse nada. Seus cabelos grisalhos compridos pareciam se mover mesmo quando parados. Sua pele era amassada e enrugada, como uma folha de papel dobrada e desdobrada diversas vezes.

Mesmo que você não conheça essa dona Morcega, aposto que conhece alguma dona Morcega. Ela é a velha sinistra que mora na casa sinistra no fim do quarteirão. Toda cidade tem uma. Você ouve histórias no pátio da escola sobre as coisas horríveis que ela fará se o pegar. Quando você é um garotinho, fica longe dela. Quando é um garoto maior – no meu caso, um estudante do segundo ano do ensino médio –, bem, você ainda fica longe porque, embora saiba que é tudo besteira e esteja velho demais para acreditar nisso, a casa ainda o assusta bastante.

Porém, ali estava eu, em seu covil, encarando uma fotografia que não podia ser o que eu achava que era.

– Quem é esse cara? – perguntei.

Sua voz lembrava tábuas velhas rangendo.

– O Carniceiro de Lodz – sussurrou.

O homem na imagem usava um uniforme da Waffen-SS, da época da Segunda Guerra Mundial. Em suma, era um nazista sádico que, segundo dona Morcega, havia assassinado muitas pessoas, inclusive o pai dela.

– E quando essa foto foi tirada? – perguntei.

Dona Morcega pareceu confusa com a pergunta.

– Não tenho certeza. Provavelmente em 1942 ou 1943.

Voltei a encarar a imagem. Minha cabeça girava. Nada fazia sentido. Tentei me firmar no que sabia com certeza: meu nome é Mickey Bolitar. Bom começo. Sou filho de Brad (falecido) e Kitty (no centro de reabilitação) Bolitar e agora estou sob a guarda do meu tio Myron Bolitar (que apenas suporto). Estudo na Kasselton High School e sou o novo aluno tentando se enturmar e, de acordo com aquela foto, estou delirando ou totalmente louco.

– O que há de errado, Mickey? – perguntou dona Morcega.

– O que há de errado? – repeti. – Está brincando, não é?

– Não entendo.

– Este – apontei para o homem – é o Carniceiro de Lodz?

– Sim.

– E você acha que ele morreu no fim da Segunda Guerra Mundial?

– Foi o que me disseram. Mickey, você sabe de alguma coisa?

Lembrei-me da primeira vez em que vira dona Morcega. Estava caminhando para minha nova escola quando ela subitamente apareceu à porta de sua casa decrépita. Quase gritei. Ela ergueu a mão fantasmagórica em minha direção e disse cinco palavras que me atingiram no peito como um soco: Mickey – não fazia ideia de como ela sabia meu nome –, seu pai não morreu.

Foi isso que me fez começar a trilhar o caminho maluco que agora me levara... a esta foto.

Ergui os olhos.

– Por que você me disse aquilo?

– O quê?

– Que meu pai não estava morto. Por que você me disse aquilo?

Ela ficou em silêncio.

– Eu estava lá – falei com a voz trêmula. – Eu o vi morrer com meus próprios olhos. Por que me falar algo assim?

– Conte-me – pediu ela com aquela voz rangente. – Conte-me o que se lembra.

– Está falando sério?

A velha arregaçou a manga da roupa em silêncio e me mostrou a tatuagem que era sua marca de sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz.

– Eu lhe contei como meu pai morreu – disse ela. – Agora é sua vez. Conte-me o que aconteceu.

Senti um calafrio. Olhei ao redor da sala escura. Um disco de vinil girava em uma antiga vitrola, tocando uma canção chamada “Time Stands Still”, do HorsePower. Minha mãe era fã dessa banda. Até participara de festas com o grupo em seus tempos de celebridade, antes de eu nascer e acabar com todos os sonhos dela. No console da lareira de dona Morcega estava aquela maldita foto, dos cinco hippies da década de 1960 usando camisetas tie-dye com aquela borboleta no peito.

– Conte-me – repetiu dona Morcega.

Fechei os olhos e respirei profundamente. Era muito difícil recordar aquilo, e mesmo assim parecia que eu fazia isso todas as noites.

– Estávamos indo de carro para San Diego, só meu pai e eu. O rádio estava ligado. Ríamos. – Era minha lembrança mais forte do que acontecera antes: o modo como ele ria.

– Certo. Então o que aconteceu?

– Um utilitário passou por cima do canteiro que dividia as pistas e bateu de frente em nós. Bam! Mais ou menos assim.

Fiz uma pausa. Era como se eu sentisse o choque horrível, a pressão contra o cinto de segurança, o súbito mergulho na escuridão.

– O carro capotou. Quando acordei, estava preso nas ferragens. Alguns bombeiros tentavam me soltar.

– E seu pai?

Olhei para ela.

– Você conheceu meu pai, não é? Meu tio disse que meu pai vinha aqui quando era criança.

Ela ignorou a pergunta.

– Seu pai – repetiu. – O que aconteceu com ele no acidente?

– Você sabe o que aconteceu.

– Conte-me.

Eu podia visualizá-lo em minha mente.

– Meu pai estava deitado de barriga para cima, com os olhos fechados. Havia uma poça de sangue ao redor da cabeça dele.

Meu coração começou a saltar no peito.

Dona Morcega estendeu sua mão ossuda para mim.

– Está tudo bem.

– Não – disparei, agora com raiva. – Não está tudo bem. Longe disso. Porque, veja bem, havia um paramédico cuidando do meu pai. Ele era louro e tinha olhos verdes e, quando me encarou, balançou a cabeça de um lado para o outro. Apenas uma vez. E eu soube. A expressão dele disse tudo. Estava acabado. Meu pai tinha morrido. A última coisa que vi foi meu pai em uma maca e aquele paramédico o empurrando para longe.

Dona Morcega não disse nada.

– E esta – afirmei, erguendo a foto, com a voz embargada e os olhos se enchendo de lágrimas –, esta não é a foto de um velho nazista. É a foto daquele paramédico.

O rosto de dona Morcega, já muito pálido, pareceu ficar ainda mais branco.

– Não entendo.

– Nem eu. O Carniceiro de Lodz era o paramédico que levou meu pai embora.

A resposta dela me surpreendeu.

– Estou cansada, Mickey. Agora você deve ir embora.

– Está brincando comigo, não é? Quem é esse cara? Por que ele levou meu pai embora?

Ela ergueu sua mão trêmula em direção à boca.

– Às vezes queremos tanto uma coisa que inventamos. Entende?

– Eu não quero que este homem seja o paramédico. Mas ele é.

Ela sacudiu a cabeça, os cabelos na altura da cintura esvoaçando na brisa.

– Nossa memória não é confiável. Você aprenderá isso quando for mais velho.

– Quer dizer que estou errado?

– Se o Carniceiro estivesse vivo, teria quase 90 anos. Seria velho demais para ser um paramédico.

– Espere, eu não disse que ele tinha 90 anos. Tem a mesma idade que este cara.

Dona Morcega me olhou como se agora eu estivesse me comportando como um louco, e percebi que aquilo parecia o delírio de um lunático. A canção terminou e outra começou. Ela deu um passo para trás, arrastando seu vestido branco rasgado no velho chão de madeira. Lançou-me um olhar duro.

– O que foi? – perguntei.

– Está na hora de você ir. E talvez você não me veja por algum tempo.

– Não entendo.

– Você está enganado.

Lágrimas surgiram nos cantos dos meus olhos.

– Você acha que eu conseguiria me esquecer daquele rosto? Do modo como ele olhou para mim antes de empurrar meu pai para longe?

A voz dela agora era ríspida.

– Saia, Mickey.

– Não vou...

– Saia!