Uma Questão de Segundos
capítulo 25
COMO VOCÊ PODE IMAGINAR, tio Myron me encheu de perguntas. Apesar do que Angelica Wyatt havia dito, eu ainda não confiava nele. Sabia que deveria confiar. Sabia que na hora do aperto tinha telefonado para ele para pedir ajuda. Mas tanto dona Morcega quanto Cabeça Raspada me alertaram a não contar nada para Myron.
Houve um momento em que fraquejei e quase contei tudo. Só que Myron, sem querer, me deu outro motivo para mantê-lo no escuro.
– Seu pai entrou naquela casa quando era criança – lembrou-me Myron. – Ele nunca me contou o que viu.
Bem lembrado. Se meu pai nunca contou para tio Myron, bem, eu também não contaria.
Por fim, Myron ergueu as mãos em sinal de rendição e voltou para a sala de estar. Eu me perguntei como deveria agir. Não podia apenas deixar aquilo pra lá, porque a verdade era que precisava do meu tio. Aproximei-me dele e me sentei no sofá. Alguns anos atrás, Myron tinha comprado dos meus avós a casa onde passara a infância. Isso significava que ele e meu pai haviam sido criados ali e, sim, isso era um pouco estranho. Os dois irmãos tinham passado horas naquele cômodo vendo televisão. Era difícil imaginar a cena.
Eu não estava certo de como tocar no assunto, então comecei pelo território familiar que sabia que o interessaria.
– Fui bem nos testes hoje.
– Foi? – Como previ, isso despertou sua atenção. – Você treinou com os juvenis?
Assenti.
– Mas o treinador Grady disse que quer falar comigo amanhã.
Myron sorriu.
– Acha que ele quer colocá-lo no time principal?
– Não sei – respondi, embora suspeitasse justamente disso. Tio Myron também.
– Mas você jogou bem?
– Acho que sim.
– Isso é ótimo.
Silêncio. Ok, já bastava de aquecimento.
– Preciso pedir um favor a você – comecei. – Sei que vai parecer loucura, mas preciso que confie em mim.
Myron se endireitou e se inclinou para frente.
– O que é?
– Eu quero... quero exumar o corpo do meu pai.
Minhas palavras o atingiram como um tapa.
– O quê?
Pensei em voltar atrás. Puxa, eu devia ter pensado melhor nisso.
– Quero que o corpo dele seja trazido para cá – menti. – Para que seja enterrado mais perto de nós.
Myron me encarou.
– É sério?
– Sim, é claro.
– O que mais, Mickey?
– Nada.
– O que mais, Mickey? – A voz de Myron foi mais firme.
Como explicar?
– Eu nunca o vi – respondi lentamente. – Eu... eu preciso saber que é ele que está naquele caixão.
Myron esperou um segundo. Quando falou de novo, sua voz estava mais suave:
– Quer dizer, como se precisasse pôr uma pedra sobre isso?
– É. Pôr uma pedra sobre isso.
– Não acho que ver o corpo dele agora vai ajudar.
– Myron, me escute, está bem? Apenas... me escute.
Myron esperou.
– Preciso saber que é o meu pai que está naquele caixão.
Ele pareceu confuso.
– Como assim?
Fechei os olhos.
– Pedi para você confiar em mim. Por favor.
Myron examinou meu rosto por alguns instantes. Encarei-o, resoluto. Esperei por mais perguntas, mas ele me surpreendeu:
– Está bem. Vou me informar sobre o protocolo legal amanhã.