Uma Questão de Segundos
capítulo 8
O QUE VOCÊ FAZ QUANDO RECEBE a notícia de que uma amiga levou um tiro e a mãe dela foi assassinada?
Eu decidi ir para a escola.
Myron me fez uma centena de perguntas, certificando-se de que eu estava bem, mas, no fim das contas, o que eu ia fazer, tirar o que meus colegas chamam de “um dia para descansar a mente”? Vi que chegaram dois torpedos de Ema. O primeiro fora enviado de manhã cedo: descobri uma coisa sobre o paramédico do seu pai que não faz nenhum sentido.
Em geral, eu ficaria alvoroçado com isso, mas a mensagem seguinte, cerca de uma hora depois, era muito mais urgente: MEU DEUS! DIZEM QUE RACHEL LEVOU UM TIRO! ONDE VC TÁ?
O clima na escola era ao mesmo tempo sombrio e surreal. Havia orientadores educacionais à disposição dos alunos caso não conseguissem lidar bem com a notícia dos tiros. Alguns choravam abertamente nos corredores – aqueles de quem era esperado que ficassem muito abalados. Não importava se conheciam bem Rachel; as pessoas reagiam de modos diferentes à tragédia e não era correto julgá-las.
Os boatos se espalhavam por todo o lugar, mas ninguém parecia saber se Rachel tinha sido gravemente ferida. Dois dias antes, Rachel me dissera que seus pais eram divorciados e sua mãe morava na Flórida. Não mencionara nada sobre a visita dela.
O que a mãe de Rachel estava fazendo em Nova Jersey?
Encontrei Ema sentada sozinha no refeitório. Alguns diriam que nos sentamos à mesa dos excluídos ou dos “perdedores”. Talvez, mas, para mim, o refeitório mais parece um estádio. Os alunos considerados “descolados” ficam nas tribunas e cadeiras enquanto os demais se sentam na arquibancada – contudo, eu sempre me divirto mais quando fico na arquibancada.
– Uau – exclamei.
– Pois é. Onde você estava hoje de manhã?
Eu lhe contei sobre o interrogatório da polícia. Nesse meio-tempo, avistei Troy Taylor pelo canto do olho. Ele estava sentado, para manter minha metáfora esportiva, nas “luxuosas cadeiras cativas”. Nossos colegas se dirigiam a ele para cumprimentá-lo e expressar seu pesar.
Olhei para a mesa de Troy e franzi a testa.
– Eles nem mesmo estavam namorando.
Ema me olhou friamente.
– O que foi? – perguntei.
– É isso que importa para você agora? O passado de Troy Taylor com Rachel?
Ela tinha razão.
– Não se esqueça de que Rachel não se sentava aqui. Ela se sentava com eles. – Ema apontou para a mesa de Troy. – Uma vez nos honrou com sua presença e nos deu alguns biscoitos de que precisava se livrar. Isso foi tudo.
– Ela nos ajudou.
– Não importa. – Ema fez um gesto de desdém com a mão. Seu esmalte escuro estava lascado.
Comemos em silêncio por alguns momentos.
– Mickey?
– Sim?
– Você acha que os tiros estão ligados ao que aconteceu na boate? Quero dizer, acha que estamos em perigo também?
– Não sei. Temos que tomar mais cuidado.
– Como?
Ela me olhou com um misto de curiosidade e esperança. Lembrei-me da quarta-feira, da faca encostada em sua garganta, de como Ema quase morrera. Meu coração ficou apertado de novo. Estava prestes a falar algo inútil sobre não se preocupar porque encontraríamos uma solução, mas felizmente fui interrompido.
– Oi, camaradas. Mesmo neste dia terrível, é um prazer ver vocês.
Era Colherada. Ele sempre segurava sua bandeja perto do corpo, temendo que alguém a derrubasse de propósito. Esta era nossa mesa – minha, de Ema e Colherada – no canto mais distante da “arquibancada”. Meu amigo pousou a bandeja e empurrou os óculos para cima. Tinha os olhos vermelhos agora, mas não estava chorando.
– Então, vamos assumir o caso? – perguntou ele.
Ema franziu a testa.
– Do que você está falando?
– Rachel levou um tiro.
– Nós sabemos – replicou Ema.
Colherada olhou para mim e depois voltou a encarar Ema.
– Então estamos de acordo?
– Do que você está falando? – repetiu Ema.
– De Rachel. Ela é parte do nosso grupo.
– Não, Colherada – retrucou Ema, apontando para a mesa do grupo com jaquetas de times da universidade e suéteres de líderes de torcida. – Ela é parte daquele grupo.
Colherada negou com a cabeça.
– Você é que sabe.
Ema ficou em silêncio.
– Temos que agir – continuou Colherada.
– Agir como? – perguntei.
Ele estufou o peito.
– Precisamos descobrir quem atirou nela. Isso é muito importante. Não podemos descansar enquanto não descobrirmos quem cometeu esse ato terrível. Deveríamos fazer um pacto: não desistirmos enquanto Rachel não estiver segura e não soubermos a verdade.
Ema suspirou.
– Já vi que você está pronto para salvar a bela mocinha.
Colherada arqueou as sobrancelhas.
– Sou o herói de todas as garotas.
Ele se virou para mim.
– O que você acha, Mickey?
– Nem mesmo sabemos onde ela está – respondi.
Colherada sorriu.
– Eu sei.
Isso atraiu nossa atenção. Ema e eu nos inclinamos para a frente. Colherada apenas sorriu. Nós esperamos. Ele abriu ainda mais o sorriso.
– Fale, Colherada – pedi.
– Certo, me desculpem. Meu pai. Vocês sabem que ele é o zelador-chefe desta escola, não é?
– É claro que sabemos – respondeu Ema, impaciente. – Fale logo.
– Ah – continuou Colherada, erguendo a colher no ar –, mas vocês sabem da rede de zeladores?
– O quê?
– A rede de zeladores. É muito difícil explicar em detalhes, portanto vou dizer o básico: os zeladores falam uns com os outros. Eles são os olhos e ouvidos de qualquer instituição. Entenderam?
Colherada parou e esperou uma resposta.
– Não – falei.
Ele suspirou.
– Um zelador da rede é amigo do meu pai. Esse zelador em particular, o Sr. Tansmore, trabalha no Saint Barnabas Hospital, em Livingston. Ele disse ao meu pai que é lá que Rachel está.
– Ele falou sobre a gravidade dos ferimentos? – perguntei.
– Não. Mas disse que ela estava com um ferimento de bala. Sugiro que a gente vá visitar Rachel no hospital depois da escola.
Olhei para Troy Taylor. Ele estava me ignorando deliberadamente, mas seu melhor amigo, Buck, me encarava, carrancudo. Ele bateu com o punho na palma de sua mão e articulou as palavras Homem morto.
Bocejei e levei a mão à boca de forma teatral.
– Está cansado? – perguntou Colherada.
– Não. Isso foi para o Buck.
Colherada franziu a testa.
– Buck está cansado?
Sim, Colherada podia ser enlouquecedor.
– Esquece, Colherada.
– Ok. – Ele se inclinou para a frente e disse: – E aí?
– E aí o quê? – respondeu Ema, irritada.
– Vamos ao hospital depois da escola? Vamos tentar descobrir o que aconteceu com nossa companheira derrubada em combate?
– Você está louco? – reclamou Ema. – Não é tão simples entrar em um hospital e visitar uma paciente. Você nem sabe se ela pode ou quer receber visitas, e se quiser, provavelmente prefere seus amigos mais próximos, não nós. Além disso, a polícia, inclusive o pai de Troy, está trabalhando no caso. Policiais de verdade.
Colherada arqueou as sobrancelhas de novo.
– Os policiais não derrotaram Buddy Ray na Plano B. Nós, sim.
– E quase fomos mortos – retrucou Ema.
– Não tema, bela donzela. – Colherada arrastou sua cadeira para perto dela. – Eu salvei a senhorita uma vez. Posso fazer isso de novo.
– Não me faça lhe dar um soco – ameaçou Ema.
Eu fiquei calado. Ema olhou para mim.
– Você não está cogitando fazer isso, certo?
– Não sei – respondi. – Suponha que possamos ajudar.
– Você está brincando, não é?
– Talvez nós também estejamos em perigo. Não podemos ficar de fora. Você mesma disse. Somos todos parte disso.
– Não, eu disse que você e eu somos parte disso. E eu estava falando sobre o paramédico e o Carniceiro de Lodz, e talvez dona Morcega. Não sobre Rachel Caldwell. – Ema se levantou. – Tenho que ir para a aula.
– O quê? A hora do almoço ainda não acabou.
– Para mim acabou. Tenho coisas a fazer.
Ema saiu da mesa.
– O que deu nela? – indagou Colherada.
– Boa pergunta.
– Mulheres. – Ele me cutucou com o cotovelo. – Estou certo, Mickey?
– Certíssimo, Colherada.
Observei Ema se afastar. Quando ela passou pelas “luxuosas cadeiras cativas”, Troy, que supostamente lamentava sua namorada ferida, pôs as mãos em concha na boca e gritou:
– Ei, Ema. Muuu!
Ele e alguns de seus amigos riram.
Buck, também conhecido como Sr. Macaco de Imitação, berrou:
– É, Ema. Muuuuuu!
Outro aluno da mesa fez o mesmo enquanto algumas pessoas batiam as mãos espalmadas contra a de Troy, em um gesto de aprovação.
Levantei-me, sentindo a raiva aumentar. Comecei a ir na direção de Troy e Buck, com os punhos cerrados, pronto para a briga. Mas quando Ema se virou e olhou para mim, parei de andar. Havia algo em seus olhos, um quê de desafio e tristeza.
Sustentei o seu olhar. Vi algo ali, mas realmente não soube dizer o quê. Aquilo me comoveu e ao mesmo tempo me confundiu.
Ema articulou a palavra Não.
Fiquei em pé por mais um segundo, mas agora sabia que precisava voltar a me sentar.
Ema se virou e foi embora, ignorando as gargalhadas cruéis atrás de si. Pensei em seu olhar, sua mágoa, e algo me disse que não tinham nada a ver com Troy ou seus xingamentos imaturos.
– Mickey?
– Sim, Colherada.
– Ao contrário da crença popular, as vacas não têm quatro estômagos. Elas têm quatro compartimentos digestivos.
– Obrigado por me esclarecer isso.