Uma Questão de Segundos
capítulo 36
DAVA PARA SENTIR O CHEIRO das ruínas queimadas da casa de dona Morcega.
Eram oito horas – não estava muito tarde. A noite caíra. Eu tinha uma lanterna, mas por enquanto, na calçada, a luz do poste era suficiente. Algumas vigas de madeira permaneciam em pé, erguendo-se na escuridão como dedos da mão de um gigante.
– Oi.
Virei-me. Era Ema.
– Oi. Como você passou por Niles?
– Você está brincando? Ele está tão feliz por eu ter um amigo que quase me empurrou porta afora.
Sorri. Pensei em como havia sido maravilhoso o abraço que tínhamos dado mais cedo e tentei analisar meus sentimentos. Ema era minha amiga. Minha melhor amiga. Era daí que vinha aquela forte sensação de calor, certo?
Nós nos aproximamos lentamente da casa. Mantive minha lanterna desligada porque não queria que os vizinhos nos vissem. Paramos em frente ao cordão de isolamento. Ema se virou para mim, deu de ombros e passou por baixo dele. Eu a segui pela varanda e para dentro da casa. Havia escombros por todo o lugar.
– Esta era a sala de estar – informei.
A luz estava ficando bem fraca agora. Ainda não queria usar a lanterna e achei que talvez a luz do meu celular fosse suficiente. Ema também usou o dela.
– O que é isto? – perguntou.
A moldura estava estilhaçada, mas logo reconheci a fotografia desbotada dos cinco hippies.
– É...? – Ema apontou para a mulher atraente com camiseta justa, no meio do grupo. No peito dela estava estampada a borboleta Abeona.
– É. Acho que é dona Morcega.
– Uau! Ela era gata.
– Vamos mudar de assunto – pedi, e Ema sorriu.
Tentei pegar a moldura pelos lados, mas grande parte dela se soltou. Tirei a fotografia e a enfiei em meu bolso. Achei que em algum momento poderia ser útil.
A velha vitrola estava danificada. Não havia nenhum disco nela, mas consegui encontrar os álbuns dos Beatles, dos Beach Boys e do The Who. Duvidei que ainda estivessem em condições de uso. Procurei pelo que dona Morcega sempre colocava para tocar – Aspect of Juno, do HorsePower –, mas havia sido totalmente queimado ou...
Ou o quê?
– Devemos ir para a garagem? – perguntou Ema.
Neguei com a cabeça. Esse era o plano original. Nós iríamos para a garagem e tentaríamos entrar e encontrar o túnel. Mas o túnel pelo qual eu passara levava da garagem ao porão abaixo de nós e a uma porta que não existia mais entre a cozinha e a sala em que estávamos. Com a garagem trancada, seria mais simples e talvez mais produtivo seguir na direção oposta, começando na sala de estar e descendo para o porão, para aonde chegaríamos?
Certo, a porta do porão não existia mais. Assim como a maior parte da cozinha. Tentei visualizar a planta da casa antes do incêndio. Aproximei-me do lugar onde achei que costumava ficar a porta do porão. Os restos do segundo andar e do telhado tinham desabado sobre ela. Comecei a afastar o compensado, tentando cavar os escombros. Ema se juntou a mim.
Trabalhamos em silêncio, colocando de lado o entulho. Quando parei e refleti, me dei conta de que estávamos atrapalhando a polícia. Eu já estava bastante encrencado, mas Ema, não.
– Acho que devemos parar – falei.
– Ahn?
– Estamos comprometendo a cena do crime.
– Você está brincando, não é?
Ema continuou a cavar.
– Falando sério, isto foi um erro.
– Você não me contou o que aconteceu com o detetive Waters.
Ema tentava me distrair, mas tudo bem.
– Ele ficou muito perturbado comigo.
– Perturbado como?
– Como se quisesse que eu não me envolvesse.
– Como se estivéssemos certos em relação ao pai de Rachel?
– Sim.
– Nossa.
– Lembra que contei sobre aqueles dois valentões que falaram com o Sr. Caldwell logo depois que eu saí?
– O que têm eles?
– O Sr. Waters tinha uma foto do cara com a cicatriz. Disse que era perigoso.
– Então eles devem ser traficantes de drogas.
– Ou pelo menos bandidos.
– E você viu o pai de Rachel sendo todo amigável com eles.
– Sim.
– O que nos faz acreditar que Rachel descobriu algo que incrimina o pai, algum tipo de pacote que confirmou o que a mãe disse sobre ele?
– Sim – repeti, de volta ao chão, removendo entulho.
Tentei entender aquilo. O que Rachel havia feito com o pacote? O pai dela tinha explodido de raiva quando ele sumira?
Scarface tinha se irritado?
Ema parou de cavar.
– Mickey?
Afastei os pensamentos e olhei para a frente. Agora o entulho se fora. Vi os degraus que levavam ao porão. Abaixei-me mais, peguei minha lanterna e iluminei o buraco.
Não dava para enxergar muito.
– Vou descer – afirmei. – Sozinho.
– Você é fofo quando banca o machão comigo, mas não. Vou também.
– O chão aqui em cima pode estar frágil e desmoronar.
Ema me olhou como se alguém – creio que eu – tivesse lhe dado um soco no estômago.
– Você acha que vou quebrar o chão?
– O quê? Não. Ouça, preciso que você fique de guarda.
Isso não a satisfez.
– O quê?
– Alguém pode aparecer. Fique de guarda. – Eu agarrei os ombros dela e a fiz me encarar. – Por favor. Apenas desta vez. Por mim?
– Apenas desta vez o quê?
– Não seja um pé no saco. Só não quero que você se machuque.
As lágrimas nos olhos de Ema partiram meu coração, mas ela assentiu.
– Tudo bem, vá, ficarei – ela enxugou os olhos – de guarda.
Não esperei que Ema mudasse de ideia. Comecei a descer rapidamente a escada para o buraco negro. Quando fiquei fora de vista, acendi a lanterna de novo. Desci devagar.
– O que você está vendo? – perguntou Ema em um sussurro.
– Me dê um segundo.
Como era de se esperar, o porão era lúgubre, empoeirado e velho. Tinha canos enferrujados, cacos de vidro e caixas de papelão velhas cheias de só Deus sabia o quê. Havia teias de aranha nos cantos e lama no chão, que poderia ser fuligem molhada do incêndio, mas suspeitei que fosse um pouco mais antiga. Ok, a garagem estaria atrás de mim e, portanto, à esquerda, a porta para aquele túnel.
Eu a encontrei.
– Mickey?
– Achei a entrada.
– Espere por mim.
– Não. Fique aí em cima.
A porta era feita de algum tipo de aço reforçado, foi o que lembrei de minhas visitas anteriores com Cabeça Raspada. Também havia outras portas e corredores, mas ele não tinha me deixado passar por eles. Mexi na maçaneta. Sem sucesso. Sacudi-a.
– Está trancada – informei.
– E agora? Ah, chega. Vou aí também.
Ema começou a descer a escada. Apontei a lanterna na direção dela... e foi então que vi. Parei, voltei a lanterna para o ponto no chão e olhei. Ema surgiu atrás de mim.
– O que é isso?
Eu não disse nada.
– Espere – falou Ema. – É uma foto de Ashley?
Fiz que sim com a cabeça. Ashley. A garota por quem nós – Rachel, Colherada, Ema e eu – tínhamos arriscado nossas vidas.
– Essa é a foto que você viu no andar de cima? – perguntou ela.
Assenti, estarrecido.
– Então de algum modo a foto dela sobreviveu ao incêndio.
– Não.
– O que quer dizer com “não”? Você falou que viu a foto lá em cima com, digamos, milhares de outras, certo?
– Certo.
– Então, como ela está aqui embaixo, de algum modo sobreviveu ao incêndio.
– Não.
– Por que você continua dizendo isso?
– Havia milhares de fotos lá em cima. Mas só uma conseguiu flutuar até o porão, passar por todo o entulho e terminar no chão bem na frente da porta para o túnel?
Agora Ema parecia cética.
– Esqueça as chances de qualquer foto fazer essa viagem – continuei. – Quais são as chances de ela ser justo a da garota que resgatamos?
Ema engoliu em seco e perguntou:
– Você tem uma explicação melhor?
– Sim.
– Qual?
Senti um arrepio só de pensar naquilo.
– Alguém a deixou para nós.
– Por que alguém faria isso?
Peguei a fotografia de Ashley e a virei. Atrás havia uma borboleta com dois olhos nas asas. A borboleta Abeona. Parecia com as outras que eu tinha visto, mas a cor era um pouco diferente.
Os olhos eram roxos. Como os da borboleta na porta do quarto de hospital de Rachel.
Isso me atingiu como uma onda na praia.
– Ah, meu Deus – exclamei.
– O que foi?
– Acho que sei onde Rachel escondeu o pacote.