Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 7 de 53

Páginas do PDF

Uma Questão de Segundos

capítulo 7

NÃO CONSEGUI ME mover.

A porta da sala de interrogatório se abriu e um jovem policial apareceu na soleira.

– Chefe Taylor? Ligação para o senhor.

Com um último olhar duro, Taylor me deixou sozinho com Anne Marie.

Engoli em seco.

– Rachel está...?

Por um momento, a mulher não disse nada. Ela havia falado que era da Divisão de Homicídios. Eu sabia latim. Homo significava “ser humano” e cidium, “matar”. Assassinato.

Eu não costumo chorar. Na verdade, quase nunca choro. Meu pai e tio Myron choravam assistindo a comerciais de TV sentimentais. Eu não. Eu me fecho. Mas naquele momento senti as lágrimas forçando passagem.

– Ela está viva – informou a investigadora.

Quase desmaiei de alívio. Já ia fazer mais perguntas, porém Anne Marie ergueu a mão para que eu ficasse em silêncio.

– Não estou autorizada a conversar sobre Rachel, Mickey. O que preciso é que você me ajude a descobrir quem fez isso com ela. Entendeu?

Concordei. Então lhe contei tudo de que me lembrava sobre o breve telefonema. Falei sobre os caras que havíamos ajudado a prender. Bem que tio Myron me avisara. Depois de algo assim, não tem como você apenas seguir em frente. As ações têm consequências.

Alguém descontara em Rachel?

– Fale-me mais sobre Rachel – pediu a investigadora.

– Como o quê?

– Vamos começar pela vida social dela. Rachel é popular?

– Muito.

– Com que tipo de pessoas ela anda?

– Realmente não sei. Como eu disse, sou novo na escola.

Anne Marie olhou de relance para trás, na direção da porta, como se esperasse que ela abrisse. Nada aconteceu. Então, prosseguiu:

– E quanto ao namorado de Rachel, Troy Taylor? Como ele é?

Mesmo com todo aquele perigo e medo, senti meu rosto queimar ao ouvir o nome do filho do policial. Troy Taylor era um aluno do último ano, capitão do time de basquete, e considerava sua missão tornar minha vida um inferno.

– Acho que eles não estão mais namorando – respondi, esforçando-me para não trincar os dentes.

– Não?

– Não.

– Você está bem, Mickey?

Eu estava com os punhos cerrados.

– Estou.

Ela inclinou a cabeça.

– Você é o namorado dela agora?

– Não.

– Porque você parece um pouco enciumado.

– Não estou – respondi, um pouco ríspido. – O que isso tem a ver com o que aconteceu a Rachel?

– Sei que você agrediu Troy Taylor.

Aquilo me surpreendeu.

– Não o agredi. Foi legítima defesa.

– Entendo. Mas não houve uma briga?

– Não exatamente. Talvez uma rápida...

– E essa briga foi por causa de Rachel Caldwell?

– Não. Ele pegou o laptop da minha amiga Ema e...

– E você bateu nele.

– Não. Não foi bem assim.

– Entendo – disse ela de um modo que sugeria o contrário. – Segundo o chefe Taylor, você teve vários problemas com a lei.

– Isso não é verdade.

– Não? – Ela baixou os olhos para um papel. – Aqui diz que você foi preso por violação de direitos de propriedade...

– E solto – retruquei. Aquilo havia acontecido na casa de dona Morcega. – Eu só estava batendo na porta.

Ela continuou a ler:

– Também dirigiu sem carteira de motorista válida, sendo menor de idade. E praticou invasão de domicílio e usou uma identidade falsa para entrar em uma boate.

Decidi ficar de boca fechada. Podia explicar aquilo tudo, mas ela nunca entenderia. Droga, nem eu entendia.

– Tem algo a dizer a seu favor, Mickey?

– Onde está Rachel?

Anne Marie balançou a cabeça. Mais uma vez a porta atrás dela se abriu. Ball entrou na sala, junto com meu tio. Myron olhou por um instante para a investigadora e foi logo na minha direção.

– Você está bem? – perguntou.

– Estou.

Tio Myron se empertigou e encarou Anne Marie. Oficialmente, ele era advogado, embora não exercesse a profissão – trabalhava como agente de atletas e artistas. Pigarreou e indagou:

– O que está acontecendo aqui?

A mulher sorriu para ele.

– Já acabamos. Seu sobrinho pode ir embora.

Ela começou a se levantar.

– Investigadora Dunleavy? – chamei.

Ela ficou imóvel.

– Quem foi morto?

Seus olhos se estreitaram.

– Como você sabe...?

Foi a minha vez de erguer a mão.

– Você disse que duas pessoas foram baleadas. Também disse que era uma investigadora da Homicídios. Isso significa que alguém foi morto, certo?

– Nem sempre – respondeu, com uma voz suave.

Myron estava perto de mim. Nós dois a encaramos.

Anne Marie olhou para baixo e juntou seus papéis, sem pressa. Por fim, falou:

– O atirador também atingiu a mãe de Rachel. E, sim, ela está morta.