Uma Questão de Segundos
capítulo 18
OLHEI FIXAMENTE para o desenho.
– Segundo as crianças – continuou a Sra. Friedman –, as borboletas as guiaram para a segurança. Borboletas. No meio do inverno.
Fiquei imóvel.
“Abeona”, pensei, embora soubesse que aquilo era impossível.
– Acredita nisso, Sra. Friedman?
– Em que parte? Que havia borboletas? Na Polônia, no meio do inverno? Não, isso é impossível.
– Então a história sobre o resgate...
– Eu não sei. – Ela inclinou a cabeça. – Há muitos casos na história de ilusões em massa por causa de histeria, especialmente quando se trata de crianças em perigo. Grande parte do que consideramos “inexplicável” na verdade é trauma psicológico. E borboletas são comuns nessas ilusões. Apenas sabemos que o trem foi parado e essas crianças foram resgatadas.
– Mas não sabemos sobre as borboletas ou Lizzy Sobek – completei.
Olhei para o desenho, pensando que talvez eu soubesse.
– O que as pessoas que acreditam nas lendas acham que aconteceu com Lizzy Sobek?
– Elas acham que Lizzy Sobek continuou a lutar ao lado da resistência. Que foi morta em um ataque posterior – ela ergueu os olhos do desenho – pelo Carniceiro de Lodz.
O mesmo homem que matou o pai de Lizzy. O mesmo homem que nunca envelheceu e esperou o momento propício, durante setenta anos, para levar meu pai na maca?
Eu estava deixando escapar algo.
– E o que aconteceu com o Carniceiro?
– Esse é um dos grandes mistérios da Segunda Guerra – respondeu ela. – Ninguém sabe.
Ao longe, agora eu podia ouvir os alunos rindo, o som ecoando pelos corredores. Ali estávamos nós, conversando sobre um homem que assassinara inúmeras pessoas, e havia risadas próximas.
– Alguns dizem que o Carniceiro morreu durante a guerra. Outros, que ele escapou das forças aliadas e fugiu para longe. Depois da guerra, Simon Wiesenthal e os caçadores de nazistas procuraram por ele. Houve boatos de que estava na Argentina, mas nunca o encontraram.
O sinal tocou, sobressaltando-me. Nós dois ficamos parados por um momento, mas estava na hora de encerrar aquela discussão, deixar o horrível passado para trás e de algum modo voltar à vida normal no ensino médio.
– Está se sentindo bem, Sr. Bolitar?
Ainda atordoado, respondi:
– Sim, obrigado, Sra. Friedman.
Cambaleei para fora da sala e comecei a andar pelo corredor. Quando cheguei ao refeitório, Ema percebeu imediatamente que algo estava errado. Colherada... ahn, não. Contei sobre minha conversa com a Sra. Friedman.
– Então o que você acha que tudo isso significa? – perguntou Ema.
Nenhum de nós tinha uma resposta. Colherada estava comendo um sanduíche de manteiga de amendoim e geleia, o pão tão bem cortado e em ângulos tão perfeitos que me perguntei se alguém o havia medido com um transferidor. Ele me cutucou e mudou de assunto.
– Você vai tentar entrar para o time de basquete hoje?
Ema ergueu os olhos e esperou minha resposta.
– Sim.
Algo perpassou o rosto dela. Não sei bem o quê. Ela sabia a resposta. Sabia o quanto o basquete era importante para mim. Durante a minha vida inteira eu havia esperado ficar em um lugar por tempo suficiente para jogar em um time. Esse era um dos principais motivos de a minha família ter voltado para os Estados Unidos. Meus pais queriam que eu tivesse uma vida normal por algum tempo, jogasse em um time de basquete do ensino médio e talvez conseguisse uma bolsa para a universidade. Esse era o plano.
– Você compreende – disse Colherada, engolindo um pedaço do sanduíche – que alguns dos seus jogos poderão interferir em suas obrigações como o novo vice-presidente do nosso clube. Talvez haja conflitos.
– É, Colherada, esse é um risco inevitável.
Aquela resposta não o deixou feliz.
– Está insinuando que o basquete é mais importante para você do que a FUMA?
– FUMA? – perguntou Ema.
– Estamos mudando de nome – expliquei.
A mesa com as “luxuosas cadeiras cativas” parecia mais alegre hoje. Acho que aqueles caras não conseguiam ficar deprimidos por muito tempo. Troy Taylor agora se exibia girando uma bola de basquete com um dedo. Ele curvou o braço atrás das costas e manteve a bola girando, e depois a rolou por cima do peito, passando-a para a outra mão. Quando terminou, todos aplaudiram. Ele fez uma mesura e olhou para mim como se quisesse avaliar minha reação. Não esbocei nenhuma.
– Ei – disse Colherada –, algum de vocês vai fazer o teste para aquele novo filme da Angelica Wyatt?
– Estou fora – retruquei.
Ema franziu bastante a testa.
– É claro que não.
– Eu poderia fazer – continuou Colherada. – O único problema é que...
– O quê?
– Bem, suponha que Angelica Wyatt fique muito apaixonada por mim. Como vou explicar para ela que ainda sou menor de idade?
Aquilo foi demais para Ema. Ela se levantou e foi embora.
No final do dia, fui para o vestiário masculino me vestir para os testes. O lugar estava cheio. Quando entrei, Troy e Buck me viram e me lançaram olhares assassinos.
Puxa, aquilo ia ser divertido.
Senti borboletas no estômago, mas, depois de saber sobre Lizzy Sobek, acho melhor usar outra metáfora. Digamos apenas que eu estava nervoso. Muito, muito nervoso.
Coloquei um short e meus tênis de basquete.
– Porcaria – ouvi uma voz dizer.
Virei-me. Era Buck.
– O que disse?
– Seus tênis. – Buck apontou para eles. – Onde os comprou? Em uma liquidação?
Muitos risos.
– Ahn, sim – respondi.
Embora eu não tivesse achado minha resposta inteligente, Buck pareceu confuso.
– Bem, eles são horríveis.
– Obrigado. – Apontei para os pés dele. – Os seus são muito bonitos.
Buck se inclinou para perto de mim, sua boca a centímetros da minha.
– Por que você não faz um favor para todos aqui e vai para casa?
Inclinei-me para longe dele.
– E por que você não faz um favor para todos aqui e chupa pastilhas de hortelã?
Saí correndo para o ginásio antes de ele poder reagir. Dezenas de garotos estavam se aquecendo. Dirigi-me à cesta mais distante do vestiário. Alonguei-me e fiz alguns arremessos. Mas estava nervoso e a bola batia no aro.
Do outro lado da quadra, ouvi risos abafados e Buck gritou:
– Belas tijoladas!
Nossa, eu tinha que relaxar.
Um apito foi soprado. Alguém gritou “Sentem-se todos na arquibancada!” e nós obedecemos. Troy e Buck se acomodaram na primeira fila, então fui para a última. O treinador apareceu e o ginásio ficou em silêncio.
– Bem-vindos ao basquete, cavalheiros. Eu sou o técnico Grady. O treinador-chefe aqui em Kasselton. Ao meu lado está o técnico Stashower. Ele cuidará do time juvenil.
Grady usava calças de moletom cinza com elástico nas pernas e um casaco de capuz preto com bolsos. Seus cabelos rareavam e os poucos fios restantes estavam compridos e colados no couro cabeludo.
– Daqui a alguns minutos, vamos dividir vocês – continuou ele. – Os calouros e os alunos do segundo ano irão para o Ginásio 2. – Ele apontou para o pequeno espaço adjacente ao lugar em que estávamos. – Os alunos do terceiro e quarto ano ficarão aqui.
A voz do treinador ecoou do modo como uma voz sempre ecoa em um ginásio de ensino médio. Todos os ginásios são iguais. Todos têm aqueles tijolos grossos, bancos compridos de madeira e cheiro de meias sujas e desinfetante. Olhei ao redor, observando aquele local que queria tanto chamar de lar. Um grande cartaz que dizia MAIORES PONTUADORES chamou minha atenção. Onze alunos na história desta escola tinham atingido mil pontos. Nove rapazes e duas garotas.
Um jogador tinha marcado mais de dois mil. Adivinhe quem?
Sim, meu tio Myron – o maior pontuador de todos os tempos. Parei quando vi o nome de Edward Taylor. Era o pai de Troy e... o chefe Taylor. Ele estava em segundo lugar, com 1.758 pontos em sua carreira. Continuei percorrendo a lista. Havia Troy Taylor, a entrada mais recente, com 1.322 pontos e um asterisco que levava a uma nota, onde se lia que ele ainda era um jogador ativo e por isso o número aumentaria.
Suspirei. Aquilo era como uma lista dos meus inimigos. Fiquei surpreso com o fato de o Carniceiro de Lodz não ter marcado mil pontos!
– Como a maioria de vocês sabe, há um grupo estelar de seniores voltando a este time. No ano passado, ganhamos o campeonato do condado pela primeira vez em uma década.
O treinador Grady apontou para a nova faixa campeões do condado na parede distante. Contei seis outros campeonatos do condado, o primeiro em 1968.
– Todos os participantes daquele time estão de volta conosco este ano – continuou ele –, e quando a temporada terminar queremos finalmente pendurar outra faixa de campeonato estadual naquela parede.
Ele apontou para duas grandes faixas de campeonato estadual que humilhavam as do condado. Sim, a Kasselton só havia ganhado dois estaduais em sua história, ambos uns 25 anos atrás. Fiz a conta, mas já sabia qual seria a resposta. Adivinhe quem estava nos dois times? Vamos, você nunca vai adivinhar.
Nossa, como você adivinhou?
Tio Myron. Foi muito difícil?
– Esse é o nosso objetivo – prosseguiu o treinador. – Um campeonato estadual. Não nos contentaremos com menos.
Isso produziu aplausos, os mais entusiasmados vindos de Troy, Buck e os outros jogadores que haviam voltado ao time e estavam sentados na frente. O restante de nós, agora de repente se sentindo intruso entre os seniores “escolhidos”, foi um pouco mais contido.
– Agora, antes de nos dividirmos e começarmos os testes, o capitão do time, Troy Taylor, gostaria de se dirigir a todos vocês. Isso é importante, portanto prestem atenção. Troy?
Troy se levantou devagar, se virou, ficou na nossa frente e abaixou a cabeça, como que em oração. Por alguns momentos, não se moveu. Que diabo era aquilo? Ele parecia tentar reunir uma força interior.
Ou talvez estivesse se preparando para gritar de novo “Ema! Muuuu!”.
Cara, eu não gostava mesmo daquele sujeito.
Por fim, Troy quebrou o silêncio.
– Como vocês sabem, este é um momento muito difícil para a Kasselton e, pessoalmente, para mim. Uma linda garota foi baleada e quase morta.
Ah, não. Ele não vai falar o que estou pensando...
– Uma garota de quem gosto muito. Uma garota que torcia para este time e, bem, para seu namorado sortudo...
E ele falou mesmo.
– Uma garota que tem sido uma parte importante da vida de Troy Taylor...
Espere, ele acabara de se referir a si mesmo na terceira pessoa? Tive vontade de dar um tapa na cabeça dele. Que idiota pedante! Olhei para os rostos dos meus colegas que fariam testes, achando que veria expressões de tédio ou zombaria. Mas não era o caso. Eles estavam prestando toda a atenção.
– Bem, aquela garota especial que roubou meu coração está em uma cama de hospital, lutando pela vida.
Troy fez uma pausa e eu me perguntei quando ele tinha contratado um professor de arte dramática. Virei para um dos garotos na arquibancada, revirando os olhos, mas ele me encarou irritado.
Eles estavam acreditando naquilo!
– Apesar de seu estado, Rachel e eu temos mantido contato, é claro.
Ahn? Que mentiroso! Ou... espere, espere um seg...
– Então quero que todos saibam que Rachel vai sobreviver. Ela me prometeu isso. Prometeu que voltará, vestirá seu uniforme de líder de torcida e comemorará quando Troy Taylor acertar seu típico arremesso de três pontos...
Eu me perguntei se alguma vez na vida já tivera tanta vontade de bater em alguém.
– Por isso, quero que todos mantenham Rachel em seus pensamentos. Estamos dedicando esta temporada a ela. Todos os nossos uniformes terão isto neles.
Troy apontou para o lado direito do seu peito, onde as iniciais RC – Rachel Caldwell – haviam sido bordadas na camisa de treino.
Fala sério.
– E quero que usem essas iniciais com orgulho. Quero que pensem em Rachel naquela cama de hospital, e que isso os faça jogar ainda melhor, com mais garra...
Troy começou a morder os lábios, como se tentasse conter as lágrimas. Buck se levantou para confortá-lo, mas Troy fez um gesto com a mão para que se afastasse e apontou para o céu.
– Cuide de minha Rachel, Senhor. Traga ela de volta para mim.
Houve um momento de silêncio... e então os garotos sentados comigo irromperam em estrondosos aplausos. Eles começaram a assoviar e gritar “Troy! Troy! Troy!”. Ele ergueu a mão para agradecer a ovação, como se tivesse sido escolhido para apresentar o Oscar. Fiquei sentado ali, pensando que poderia vomitar no primeiro dia de testes.
O treinador Grady soprou seu apito.
– Ok, já chega – disse em um tom que me fez ter a esperança de que ele não acreditasse naquilo. – Deem cinco voltas na quadra. Depois os juvenis deverão se dirigir ao Ginásio 2 e começaremos com arremessos de bandeja.