Uma Questão de Segundos
capítulo 28
QUANDO O SINAL DA SAÍDA TOCOU, peguei minha mochila e me preparei para caminhar até a casa de Rachel. Estava fechando o armário quando ouvi a Sra. Friedman dizer:
– Sr. Bolitar? Podemos trocar uma palavrinha, por favor?
Alguns garotos por perto exclamaram “Uuuu, se ferrou”.
Quanta maturidade, não é?
Depois que entrei na sala de aula da Sra. Friedman, ela fechou a porta atrás de nós.
– Descobri algo que você poderia achar interessante – começou.
– É?
– Tenho uma colega que trabalha no Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, em Washington. Você já foi lá?
– Não, senhora.
O rosto dela pareceu muito triste.
– Deveria ir. Todos deveriam. É horrível, porém muito necessário. Você entra naquele museu e sai outra pessoa. Se você tiver uma consciência. Enfim, falei com minha colega e lhe perguntei sobre Hans Zeidner, o Carniceiro de Lodz.
Esperei que ela dissesse mais. Como ela não continuou, falei:
– Obrigado.
A Sra. Friedman cravou os olhos em mim.
– Quer me contar por que está tão interessado nesse assunto?
Quase contei. Pensei em tudo o que eu sabia, em dona Morcega ser Lizzy Sobek e morar tão perto de nós. Pensei no Carniceiro, no meu pai e no incêndio. Mas, no fim das contas, soube que não deveria nem poderia contar.
– Não posso – respondi. – Pelo menos ainda não.
Ao contrário do que imaginei, a Sra. Friedman não fez mais perguntas. Ela abriu a gaveta de sua escrivaninha e disse:
– Aqui.
Havia uma fotografia em sua mão. Eu a peguei. Era outra foto em preto e branco de um homem usando um uniforme da Waffen-SS. O homem na imagem tinha cabelos escuros e um bigode fino. Seu nariz era pontudo e parecido com o focinho de um rato. Seus olhos eram duas bolas de gude pretas.
– Obrigado – agradeci, erguendo os olhos para ela. – Quem é este?
A Sra. Friedman fez uma careta.
– Como assim?
– O homem na fotografia. Quem é?
– Quem você acha que é? – replicou ela. – É Hans Zeidner. O Carniceiro de Lodz.