Uma Questão de Segundos
capítulo 42
TIO MYRON FICOU EM SILÊNCIO durante a volta de carro para casa. Esperei muitas perguntas e um longo sermão, mas, como ele estava comigo durante todo o interrogatório, talvez tivesse concluído que não havia muito a questionar.
Àquela altura, eu não dormia havia mais de 24 horas. A fadiga estava se instalando, fazendo meus ossos parecerem pesados. Tio Myron parou o carro e disse:
– Você estava tentando ajudar uma amiga.
Aquilo pareceu mais uma afirmação do que uma pergunta, então eu permaneci calado.
– Eu entendo – continuou Myron. – A necessidade de salvar pessoas. Acho que é genética.
Eu não sabia se tio Myron queria dizer que eu a havia herdado dele, do meu pai ou de ambos.
– Você acha que está fazendo o bem. Entendo isso também. Mas quando você altera o equilíbrio...
Esperei um instante e respondi:
– Você acha que as pessoas deveriam recuar e apenas deixar as coisas seguirem seu curso?
– Não.
– Então o que está querendo dizer?
– Talvez nada. Ou talvez eu precise que você entenda que o que está tentando fazer não é fácil. Não é simples. – Ele se mexeu no banco. – Imagine que há um monte de bibelôs em uma prateleira instável.
Arqueei uma sobrancelha.
– Bibelôs?
– Apenas acompanhe meu raciocínio, está bem? Se um deles se inclinar e começar a cair, você deve tentar pegá-lo. Mas se fizer isso com muita força ou desajeitadamente, poderá derrubar mais bibelôs. Talvez salve o primeiro, mas acabará quebrando outros.
Ele olhou para mim e eu o encarei.
– Tenho uma pergunta – comecei.
Myron ficou sério.
– Qual?
– Quando você diz bibelôs, está se referindo àqueles de que a vovó gosta tanto?
Ele suspirou.
– Acho que eu estava pedindo por isso, não estava?
– Porque não quero salvar nenhum desses. Eles me assustam.
Myron riu.
– Certo, certo.
– Não conte para a vovó, está bem?
– Espertalhão.
Nós saímos do carro e entramos em casa. Comecei a me dirigir ao porão quando Myron me fez uma última pergunta:
– Isso tudo tem algo a ver com dona Morcega ou seu desejo de exumar o corpo do seu pai?
Esse era um bom questionamento, que merecia uma resposta sincera.
– Eu não sei.
No porão, desabei na cama. Tinha que parar de pensar em Colherada. Se continuasse a pensar nele deitado no hospital, não faria nada. Colherada havia suportado a dor e pedido para me ver por um motivo. Não queria que desistíssemos. Queria que descobríssemos quem tinha atirado em Rachel. Apesar de eu querer me recolher e desistir, precisava atender àquele pedido.
Então qual era o próximo passo?
Meu celular tocou. Quando vi no visor que era Rachel, me sentei e atendi. A voz dela estava agitada e zangada.
– Como você pôde fazer isso comigo?
– Rachel?
– Há policiais por toda a minha casa.
– Eles estão fazendo perguntas sobre a sacola de ginástica?
– Tentaram fazer, mas meu pai não deixou que falassem comigo. Por que você fez isso, Mickey? Por que não pôde apenas deixar isso pra lá?
– Estamos tentando ajudar. Estamos tentando...
– Sabe de uma coisa? – disparou ela. – Não quero falar sobre isso. Só telefonei para saber como Colherada está.
Pensei de novo no olhar da mãe de Colherada. Algum dia eu me esqueceria dele?
– Não sei. Ele está em uma condição crítica.
– Coitado.
– Só estávamos tentando ajudar a encontrar os atiradores.
– Quem lhe pediu para fazer isso?
Mas eu estava farto de ficar na defensiva.
– Você sabe a resposta, Rachel.
Ela sabia. O Abrigo Abeona.
– Estamos juntos nisso. Você podia ter confiado em nós. Podia ter nos dito que acreditava em sua mãe e que escondeu a sacola.
– Eu estava tentando proteger você.
– E eu estava tentando proteger você – repliquei, lembrando-me da metáfora boba de Myron com bibelôs. – E veja aonde isso nos levou.
Silêncio.
– Você foi ao Abeona pedir ajuda, não foi? – perguntei.
– Sim. Mas dona Morcega me disse para deixar isso pra lá. Como se eu pudesse. Como se eu pudesse me esquecer de que meu pai trancafiou minha mãe em um hospício durante tantos anos. Então escondi a sacola de ginástica no armário. Só até poder convencê-los de que isso era importante para mim ou, sei lá, ganhar algum tempo. Mas fiz besteira, Mickey. E aqueles dois homens foram atrás da minha mãe.
– Não.
– Não o quê?
– Eles não mataram sua mãe.
– Do que você está falando? O chefe Taylor está aqui. Ele disse que o caso está encerrado.
O chefe Taylor de novo.
– O que mais ele disse?
– Que eles estavam com a arma do crime. Que o teste da balística provará.
– Provará?
– Sim.
– Como ele sabe o que o teste provará?
– Isso não é óbvio?
– Eles não a mataram, Rachel. Colherada percebeu isso. Quem matou sua mãe ainda está livre.
– Isso é impossível.
Comecei a explicar todas as coisas erradas no cenário oficial. Rachel ouviu em silêncio. Quando terminei, ela perguntou em uma voz surpreendentemente calma:
– Você acha que meu pai atirou em nós?
– Não sei. Quero dizer, pode ter sido um acidente.
– Não vejo como. Alguém no outro lado da sala atirou em mim, mas minha mãe levou um tiro à queima-roupa na cabeça. Como isso poderia ter sido um acidente?
– Talvez – arrisquei, lembrando-me da teoria de Ema – sua mãe tenha sido alvejada de propósito, mas você, acidentalmente.
Ficamos em silêncio. Rachel tinha certa razão com relação aos fatos, mas algo ainda me incomodava.
– Mickey?
– Sim?
– Eu amo meu pai.
– Eu sei.
– Ele nunca me machucaria, mas...
– Mas o quê?
– Mas ele e o chefe Taylor são bons amigos. E ambos têm agido de modo muito suspeito.
Apertei o telefone com um pouco mais de força. O Sr. Caldwell e o chefe Taylor eram amigos e, de algum modo, Taylor acabou sendo o primeiro policial a chegar à cena do crime. Essa era uma grande coincidência.
Eu estava gostando cada vez menos do caso.
– Acho que devemos falar com a polícia.
– Falar o quê? Somos apenas crianças. Não temos nenhuma prova. A primeira coisa que qualquer policial fará será contar para o chefe Taylor.
Isso era verdade.
– Ainda acho que essa é nossa melhor opção.
– Não, não é – retrucou Rachel, sua voz se tornando mais animada, como se um interruptor tivesse sido acionado. – Mickey?
– Sim?
– Você topa se meter em mais encrenca? Porque tenho uma ideia.