Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 26 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 26

DE REPENTE PERCEBI QUE ESTAVA exausto e faminto. Tio Myron pediu comida chinesa suficiente para doze pessoas. Tentei comer em silêncio, mas Myron teve que me lembrar, como sempre, que aquele era o restaurante chinês favorito do meu pai e que ele gostava especialmente do camarão com molho de lagosta.

 

Quando terminei de comer, pensei em telefonar para Ema e deixá-la a par do que acontecera, mas era tarde e eu estava muito cansado. Aquilo podia esperar. Depois de saber dos boatos que Colherada ouvira sobre a vida familiar de Ema, eu queria continuar mantendo contato com ela, mas temia que isso pudesse lhe causar algum tipo de problema.

Chegou uma mensagem de Rachel: ainda vamos nos encontrar amanhã depois da escola?

Eu: sim. como vc tá?

Rachel: bem. tenho que ir. amanhã.

Quando o sinal da escola tocou, às 8h30 da manhã seguinte, eu estava de volta à minha sala. Era engraçado como a escola podia suavizar tudo, mesmo aquilo pelo que eu estava passando. Dentro daquele prédio de tijolos aparentes, a vida parecia normal. A escola era entediante, mas também um refúgio. O resto da minha vida podia estar desabando, porém ali tudo era maravilhosamente comum e até mesmo banal.

Em geral, eu almoçava com Ema e Colherada, mas hoje eu deveria me encontrar com o treinador Grady. Parte de mim ficou aliviada por poder evitá-los. Não me entenda mal. Eu confiava nos dois e eles mereciam saber de toda a verdade, mas Rachel tinha me pedido para não dizer nada sobre encontrá-la depois da escola. Eu não podia ignorar isso, certo?

Em suma, a melhor solução poderia ser também a mais covarde: evitá-los.

A caminho da sala do técnico, passei por um local familiar e senti uma estranha saudade. Era o armário de Ashley. Ashley meio que tinha sido minha namorada antes de desaparecer. O Abrigo Abeona – isto é, Ema, Colherada, Rachel e eu – a salvou, eu acho. Na última vez em que a vi, ela se despediu de mim com um aceno e foi embora em uma van dirigida por outro membro do Abeona.

Agora, apenas alguns dias depois, não havia mais sinal algum de Ashley. Seu armário tinha uma fechadura nova. Imaginei que outra garota havia entrado para a escola e ocupado o espaço dela. Ashley se fora como se nunca tivesse estado ali. Gostaria de saber seu paradeiro agora. Eu me perguntei se ela estava bem.

Bati na porta do treinador Grady.

– Entre.

Normalmente, as pessoas não queriam estar naquela sala. O Sr. Grady também era o vice-diretor encarregado da disciplina. Se você fosse chamado para lá, em geral era para levar uma detenção ou ser suspenso.

O Sr. Grady me olhou por sobre os óculos de leitura em forma de meia-lua.

– Feche a porta – pediu.

Obedeci. Ele me convidou a sentar. Passei os olhos pela sala. Não havia nenhum retrato de família, troféus ou fotos de antigos times de basquete – nada pessoal.

– Então – disse ele, entrelaçando as mãos e repousando-as sobre a mesa –, como você se sentiu em relação aos testes de ontem?

Eu não sabia ao certo como responder.

– Foram divertidos.

– Você claramente joga basquete há muito tempo.

– Sim.

– Você viajou muito pelo mundo quando era mais novo, não é?

Assenti.

– Passei muito tempo no exterior e joguei em muitos times.

– Certo.

– Qual foi o maior tempo que jogou com o mesmo grupo de garotos?

– Dois meses.

Ele fez uma careta, como se esperasse essa resposta.

– Esse foi um dos motivos de termos voltado para os Estados Unidos – expliquei. – Sabe, meu pai queria que eu tivesse a experiência de me instalar, permanecer no mesmo lugar e jogar em um verdadeiro time do ensino médio.

– Como... ah, não sei, os seniores?

Fiquei em silêncio.

– Esse grupo de garotos joga basquete junto desde a quinta série. Eles venceram juntos em todos os níveis e agora, bem, isso é com eles. No ano que vem todos seguirão seus caminhos.

Não havia nada a acrescentar, então fiquei calado.

– Também lhe expliquei recentemente que não gosto de ter calouros ou alunos do segundo ano no time principal. Nas dezenas de anos em que sou o treinador aqui, ainda não vi nenhum segundanista no time principal, e este ano, com cinco jogadores do time do ano passado voltando...

Ele parou de falar. A conversa não estava seguindo o rumo que eu esperava.

– Bom, vi seu tio jogar quando ele estava aqui. Sei que ele foi um talento único em sua geração. Depois de observar você ontem, acho que você também pode ser. Ainda não sei. Não quero me precipitar. Mas meu trabalho como treinador deve ser justo e dar a todos uma chance. Se o que vi ontem foi um golpe de sorte ou caso a competição não tenha sido tão boa, bem, nós descobriremos. Por enquanto, não vejo por que não lhe dar pelo menos uma chance de tentar entrar para o time principal.

Tive vontade de socar o ar e gritar “UHUL!”, mas consegui manter minhas emoções sob controle.

– Obrigado, treinador.

– Não me agradeça. Você merecerá isso ou não. – Ele voltou a olhar para baixo e começou a escrever. – Os testes para o time principal serão às quatro e meia. Até lá.

Levantei-me e caminhei na direção da porta.

– Mickey?

Virei-me.

– Sei que você já teve problemas com alguns dos seniores. Garotos como Troy e Buck.

– Sim, senhor.

– Eles são um grupo muito fechado... Troy, Buck, Brandon, Alec. Não vão ficar felizes com essa mudança. Se você entrar para o time, tirará o lugar de um dos amigos deles.

Dei de ombros.

– Não posso fazer muita coisa.

– Pode, sim, Mickey. Precisamos de coesão para sermos bem-sucedidos na quadra. Tente se lembrar disso. Seja superior.