Uma Questão de Segundos
capítulo 9
AINDA FALTAVAM DEZ MINUTOS para o fim do almoço. Fui para fora fazer alguns arremessos. Dois cartazes estavam afixados por toda parte. O primeiro – que estava deixando a maioria dos alunos entusiasmados – tinha uma foto muito sexy de Angelica Wyatt:
TESTES PARA FIGURANTES
SOMENTE DOIS DIAS!
TALVEZ VOCÊ ENCONTRE ANGELICA WYATT
Seja um astro – ainda que apenas por alguns segundos!
Essa eu passo, pensei.
Além disso, toda a minha atenção – todo o meu foco – estava no segundo cartaz:
TESTES DE BASQUETE SEGUNDA-FEIRA!
15 HORAS
REUNIÃO NO GINÁSIO 1
Somente os alunos do terceiro e quarto ano farão testes para o time principal
Os calouros e alunos do segundo ano farão testes para o time juvenil
Engraçado. Apesar do que havia acontecido nos últimos dias, eu ainda me interessava por basquete. Começaria fazendo testes para o time juvenil, mas, sem querer parecer metido, não planejava ficar lá por muito tempo.
Fiz alguns arremessos sozinho. Não queria que ninguém em minha nova escola me visse jogar antes dos testes. Não me pergunte por quê. Viajava quase todas as tardes para jogar basquete em uma parte violenta de Newark. Era lá que aperfeiçoaria meu jogo.
Como já mencionei, meu tio Myron foi um grande jogador – o que marcou mais pontos na história desta escola, o melhor do time principal da universidade, convocado na primeira rodada pelo Boston Celtics.
Mas, segundo meu pai, eu era melhor.
Vamos ver. Essa era a beleza do basquete. Não tinha a ver com conversas. Tinha a ver com o que acontecia na quadra.
Estava prestes a voltar para dentro quando vi o agora familiar carro preto com as janelas de vidro fumê fechadas. Parei e esperei. Aquele carro com a placa estranha. O carro que me seguia desde que tudo aquilo havia começado. O carro com aquele homem careca misterioso. O carro que tinha me levado ontem para ver dona Morcega.
Ele estava de volta.
Esperei o homem com o cabelo recém-raspado sair. Não saiu. O sinal tocaria dali a um ou dois minutos. O que eles queriam agora?
Comecei a andar na direção do automóvel. Quando cheguei mais perto, a porta traseira se abriu. Deslizei para dentro. O careca estava lá. A divisória erguida mais uma vez não me deixou ver quem dirigia.
– Oi, Mickey – disse Cabeça Raspada.
Eu estava farto dele e de seus súbitos aparecimentos.
– Você se importa de dizer seu nome?
– Como está se sentindo? – perguntou.
– Ótimo. Quem é você?
– Soubemos que Rachel foi baleada.
Esperei que ele falasse mais. Em vão. Examinei seu rosto. Ele era mais jovem do que eu achara inicialmente. Devia ter 30, no máximo 35 anos. Tinha mãos fortes e maçãs do rosto proeminentes e falava com um sotaque que eu em geral associava a cursos preparatórios esnobes.
– Espere um segundo. O tiro que Rachel levou está relacionado com vocês?
– Vocês? – perguntou ele.
– O Abrigo Abeona.
Recentemente, eu soubera que meus pais não eram apenas nômades amantes da diversão que viajavam pelo mundo e de vez em quando praticavam boas ações. Eles dirigiam operações secretas para salvar crianças em perigo, atuando como membros de uma organização clandestina chamada Abrigo Abeona.
Abeona era a deusa romana protetora das crianças. O símbolo secreto da organização era a Tisiphone abeona – uma borboleta um tanto exótica que parecia ter olhos nas duas asas.
Encontrei a borboleta na fotografia dos hippies na casa de dona Morcega. Encontrei outra em uma das tatuagens de Ema. E outra ainda na sepultura do meu pai.
Dona Morcega parecia ser a líder. Cabeça Raspada também trabalhava para a organização. E agora, aparentemente, o Abrigo Abeona havia recrutado meus amigos e eu. Dois dias antes, tínhamos salvado uma garota de um destino terrível. Mas não fora fácil.
– Parece óbvio que você passou a gostar muito de Rachel Caldwell – comentou Cabeça Raspada.
– E daí?
– O quanto você gosta dela?
– Do que você está falando?
– Ela lhe deu alguma coisa?
Fiz uma careta.
– Como o quê?
– Um presente. Um pacote. Qualquer coisa.
– Não. Por que ela faria isso?
Cabeça Raspada ficou em silêncio.
– O que está acontecendo? – perguntei. – Por que Rachel levou um tiro?
– Não sei.
– Não acredito em você.
– Acredite no que quiser. Esses são os riscos que todos nós corremos.
– Do que você está falando?
– Você corre perigo. Ela o avisou sobre isso. – Ela. Ele se referia a dona Morcega. – Mas pode se afastar a qualquer hora.
– Não entendo. Por que fomos escolhidos para nos juntar a vocês?
Ele deu de ombros e olhou pela janela do meu lado.
– Por que qualquer um é escolhido?
– Isso é realmente profundo, mas você está evitando a pergunta. Colherada, Ema, Rachel, eu... por que nós?
– Por que vocês? – Ele continuou a olhar pela janela. Contraiu o rosto e, por um momento, pareceu totalmente perdido. Então acrescentou algo que me surpreendeu: – Por que eu?
O sinal tocou. Ele abriu a porta.
– Volte logo para a sala – exigiu. – Não quero que se atrase. E... Mickey?
– O quê?
– Independentemente do que você fizer, não fale com seu tio sobre nós.