Uma Questão de Segundos
capítulo 5
POR UM MOMENTO, MINHA VOZ não saiu. Quando consegui falar, disse:
– Meu tio?
– Quem? – perguntou Ball.
– Myron Bolitar. Meu tio. Ele que foi baleado?
Ball olhou para McDonald. Depois se virou para mim e respondeu:
– Não.
– Então quem foi?
– Não estamos autorizados a discutir o caso com você, filho.
– Preciso falar com meu tio.
– O que disse?
Comecei a subir a escada. Os dois policiais também entraram.
– Myron? – gritei.
Nenhuma resposta.
Entrei no quarto dele. A cama de Myron estava vazia. Olhei para o relógio na mesinha de cabeceira. Eram sete horas da manhã. Imaginei que Myron havia acordado mais cedo e saído sem me avisar. Isso não era típico dele.
Voltei para o andar de baixo.
– Está pronto para vir conosco? – perguntou Ball.
– Sou um suspeito?
– Quantos anos você tem, filho?
– Quase 16.
– Você precisa mesmo vir conosco.
Eu não sabia o que fazer, mas que escolha tinha?
– Só vou me vestir – falei.
Corri para o porão. Meu celular estava piscando. Verifiquei as mensagens. Havia duas. A primeira era de Ema. Ela a enviara às 4h17. Aquela garota nunca dormia?
Ema: precisamos encontrar o paramédico que levou seu pai na maca. tenho uma ideia.
Puxa, eu queria muito saber qual era, mas isso teria que esperar.
A segunda mensagem era de Myron: tive que sair cedo e não quis acordar vc. tenha um bom dia.
Fantástico. Tentei telefonar para o celular do meu tio, mas a ligação caiu direto na caixa postal. Quando o bipe soou, eu disse: “A polícia está aqui. Eles querem me levar...” Parei. Afinal, para onde queriam me levar? “Para a delegacia, eu acho. Não querem me dizer o que está acontecendo. Me ligue quando ouvir isto, ok?”
Desliguei.
Ball gritou:
– Precisamos nos apressar!
Vesti-me e voltei para cima. Dois minutos depois, estava sentado no banco traseiro de uma viatura, seguindo pela rua.
– Para onde estão me levando? – perguntei.
McDonald estava ao volante, com Ball ao lado. Nenhum deles respondeu.
– Eu perguntei...
– Seria melhor se você fosse paciente.
Não gostei disso.
– Quem foi baleado? – perguntei.
McDonald se virou. Ele estreitou os olhos.
– Como você sabe que alguém foi baleado?
Não gostei do tom dele.
– Ah, você me disse – respondi. – Quando abri a porta.
– Eu disse que houve um ataque com tiros. Não disse que alguém foi baleado.
Eu ia fazer alguma piada estúpida – falar que eu devia ser clarividente –, mas estava começando a sentir medo. Fiquei quieto. Logo à frente vi a delegacia de Kasselton. Lembrei-me da última vez em que estive lá, duas noites atrás, e também da rixa do chefe Taylor com Myron, e por extensão comigo.
Mas o carro passou direto pela delegacia.
– Para onde estamos indo? – indaguei.
– Acho que você já fez perguntas demais. Apenas espere.