Uma Questão de Segundos
capítulo 24
CONTEI A TODOS SOBRE O HOMEM LOURO, mas eles não prestaram atenção. Ainda com o rosto vermelho, o chefe Ed Taylor pegou suas algemas.
– Você está preso – disse-me. – Vire-se e ponha as mãos às costas.
Ele esticou o braço para pegar o meu, mas tio Myron se meteu entre nós.
– Qual é a acusação?
– Está brincando, não é? Que tal incêndio criminoso, para começar?
– Você o viu atear fogo?
– Não, mas ele estava fugindo.
– Talvez porque... ah, não sei, o fogo o tivesse queimado? – perguntou asperamente Myron. – O que queria que ele fizesse, que o apagasse?
Taylor cerrou os punhos.
– Bem, Bolitar, e quanto ao resto? Resistência à prisão, agressão a um policial...
– Você pulou em cima dele no escuro – retrucou Myron. – E tudo o que Mickey fez foi tirá-lo de cima dele. Em momento algum o agrediu. Se você está constrangido porque um adolescente levou a melhor...
O rosto do chefe Taylor ficou ainda mais vermelho. Ah, aquilo não estava ajudando.
– Vou levá-lo, Bolitar. Saia da minha frente.
– Para onde vai levá-lo?
– Para a delegacia, para a autuação inicial, e depois uma audiência para fixar fiança em Newark.
– Fiança? Isso não é um exagero, Ed?
– Ele poderia tentar fugir.
– Pelo amor de Deus, ele é um garoto! – Myron pôs a mão em meu ombro. – Não diga uma só palavra, Mickey, está me ouvindo? Nenhuma palavra. – Ele se virou para Taylor. – Eu seguirei seu veículo. Como advogado dele, eu o proíbo de interrogá-lo.
Taylor segurava as algemas.
– Mãos atrás das costas.
– Está falando sério, Ed? – perguntou Myron.
– Esse é o procedimento. A menos que você ache que seu sobrinho merece tratamento especial.
– Tudo bem – resignei-me, pondo as mãos às costas.
O chefe Taylor me algemou. Um de seus subordinados me levou para o banco traseiro de uma viatura e se sentou perto de mim. Meu rival se sentou na frente.
Olhei de novo para a casa incendiada. Pensei naquelas fotografias – na de Ashley, na daquele garoto com cabelos cacheados e olhar triste. Pensei em tudo que havia visto e ouvido ali e no que aquilo significava. Imaginava que aquela casa era a sede do Abrigo Abeona. Agora se fora, incendiada por...
Quem? O Carniceiro de Lodz? Um homem que devia ter 90 anos, mas que nem parecia ter 40? Aquilo fazia algum sentido?
E, acima de tudo, a pergunta que repetidamente me ocorria: o que ele havia feito com meu pai?
– Não consigo acreditar nisso – disse Taylor.
Encarei Taylor pelo espelho retrovisor no centro do carro. Desejei perguntar do que ele estava falando, mas me lembrei do que Myron dissera sobre ficar calado.
O policial perto de mim colaborou:
– Não consegue acreditar em quê?
– Bolitar. O tio do garoto.
– O que tem ele?
– Ele está nos seguindo em uma limusine.
Não era fácil me mexer com as mãos algemadas, mas consegui me virar o suficiente. O chefe Taylor tinha razão. Realmente estávamos sendo seguidos por uma grande limusine preta.
– Então, Mickey – disse ele –, esta é a segunda vez que eu o pego perto daquela velha casa. Quer me dizer por quê?
– Não, senhor.
– Talvez você tenha uma queda por velhas – continuou ele, e em sua voz zombeteira pude ouvir o eco do “Ema, muuu!” de seu filho. – É isso, Mickey? Você gosta de vovozinhas?
Não reagi à provocação. Até o policial perto de mim franziu a testa por causa dessa abordagem grosseira.
A delegacia ficava em frente à Kasselton High School. Algumas horas antes, eu tinha celebrado em silêncio minha estreia no basquete em um ginásio a alguns metros do local para onde estava sendo levado pelos policiais. De fato, a vida dá voltas.
Taylor deslizou para fora da viatura e fechou a porta. Alguns segundos depois, o policial sentado perto de mim me ajudou a sair. A limusine estava bem atrás de nós. A porta traseira foi aberta e Myron saiu.
– Agora você tem uma limusine, Bolitar? – caçoou o chefe Taylor. Ele passou a mão pelo teto do carro. – Você realmente deve se achar o máximo.
– Não é minha.
– Não? Então de quem é?
– Na verdade – e agora achei ter visto o esboço de um sorriso no rosto de Myron –, pertence a Angelica Wyatt.
– Sim, é claro, e eu sou George Clooney – debochou Taylor.
A janela traseira com vidro fumê foi abaixada. Quando Angelica Wyatt pôs seu rosto maravilhoso para fora, sorriu e disse “O senhor é o chefe de polícia da cidade? Prazer em conhecê-lo”, achei que Taylor teria um infarto.
– Ahn, Srta. Wyatt... Puxa, é mesmo a senhorita? Todos nós somos grandes fãs seus, não é, rapazes?
Agora havia cinco policiais ao redor da limusine. Todos assentiram, como marionetes. Angelica lhes deu outro sorriso. Disse algo mais que não consegui ouvir, mas alguns dos policiais começaram a rir. Encarei tio Myron e ele revirou os olhos.
Angelica fez um comentário sobre como os homens ficavam bonitos de uniforme. Vi o chefe Taylor alisar os cabelos e estufar o peito. É sério isso? Nós, homens, somos assim tão facilmente seduzidos? Então pensei em Rachel Caldwell. Ela não tinha feito algo parecido comigo quando nos conhecemos? E eu não caíra direitinho?
Apostava que Ema teria algo mordaz, engraçado e verdadeiro a dizer sobre isso.
Myron e eu ficamos afastados. Eu ainda estava com as mãos algemadas. Angelica continuou a conversar com Taylor. Ele riu de novo como um colegial.
– O que vai acontecer? – perguntei a Myron.
Aquele pequeno sorriso voltou ao rosto dele.
– Aguarde.
Três minutos depois, o chefe Taylor veio e abriu minhas algemas. Ele se virou para Myron.
– Você é o representante legal dele?
– Sou.
Ele não era. Isso era parte do acordo. Eu ficaria com ele, mas minha mãe ainda teria minha guarda. Mesmo assim, com ela em reabilitação, Myron era o que mais se aproximava de ser meu representante.
– Você tem que entrar e assinar alguns papéis prometendo que ele comparecerá quando precisarmos, esse tipo de coisa.
Myron e eu nos contivemos para não perguntar o que acontecera com a audiência em Newark. Sabíamos a resposta: Angelica Wyatt.
– Espere no carro – disse-me Myron.
Um chofer de quepe abriu a porta. Entrei e me sentei ao lado de Angelica. Aquilo era estranho para mim, portanto também devia ser para ela. Angelica Wyatt era uma estrela de cinema e estar em sua presença era, bem, como estar na presença de uma estrela de cinema, algo grandioso, formidável e irreal. Não era culpa dela. Nem minha. Era apenas esquisito. Perguntei-me como ela devia lidar com isso todos os dias. Isso lhe dava grandes poderes – vejam como me libertou –, mas também devia ser um fardo.
– Você está bem? – perguntou ela.
– Sim, senhora. Obrigado por sua ajuda.
Eu nunca tinha me sentado no banco traseiro de uma limusine. Era feito de couro de qualidade. O carro tinha uma pequena televisão e vidros de cristal grossos.
– O que aconteceu? Você estava na casa?
Mais uma vez, eu não queria mentir, mas também não estava preparado para contar a verdade. E não conhecia aquela mulher.
– Achei que tinha visto fogo, então tentei ajudar.
Angelica pareceu não acreditar.
– Entrando na casa?
– Sim. Para, ahn, ver se havia alguém lá.
– Por que simplesmente não chamou os bombeiros?
Ops.
– Por que telefonou para seu tio e disse que precisava de ajuda?
– Acredite em mim: se eu tivesse outra pessoa para quem ligar... – Parei de falar, desejando ter ficado de boca fechada.
– Mickey?
Eu me virei para Angelica. Ela me encarou de um modo que pareceu ao mesmo tempo reconfortante e familiar. Eu gostava dos olhos dela, não só porque eram castanhos e bonitos, mas porque sentia um calor humano.
– Sei que não é da minha conta, mas seu tio está tentando.
Eu não disse nada.
– Ele é um bom homem. Você pode confiar nele.
– Sem querer ofender – expressão usada quando se está prestes a ofender alguém –, mas a senhora não conhece realmente a situação.
– Sim, Mickey, eu conheço.
Pensei sobre isso. Angelica tinha me dito que era amiga da minha mãe quando ela engravidara de mim.
– Ele cometeu um erro – falou ela. – Um dia você entenderá isso. A vida não é como os filmes. Os jovens pensam que os adultos têm todas as respostas, mas a única diferença entre ambos é que os adultos sabem que não há respostas fáceis.
– Mais uma vez, sem querer ofender, porém há muito tempo eu não acho que os adultos sabem todas as respostas.
Ao ouvir isso, ela quase sorriu.
– Nós erramos. É isso que quero dizer, Mickey. Todos nós erramos. Tentamos fazer o melhor que podemos e o amamos muito, mas ainda assim somos seres fracos e imperfeitos.
Angelica baixou os olhos. Seu rosto se entristeceu e, por um momento, achei que ela fosse chorar.
– Srta. Wyatt?
– Todos nós cometemos erros. Seu tio não foi o único.
A porta da limusine se abriu e tio Myron olhou para dentro.
– Está tudo bem aí?
Então eu pude ver por que Angelica Watt era uma grande atriz. Seu rosto se iluminou e ninguém poderia dizer que, alguns minutos antes, ela parecera totalmente arrasada.
– É claro que sim – respondeu ela, deslizando sobre o banco para abrir espaço para ele. – Mickey e eu só estávamos conversando.