Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 39 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 39

NÃO SEI QUANTO TEMPO se passou.

Quando os policiais chegaram, me cercaram e disseram para eu abaixar a arma. Obedeci. O resto foi apenas uma névoa obscura. Óculos Escuros e Scarface foram algemados. Paramédicos correram para Colherada. Ema ficou sentada, segurando a cabeça dele, tentando estancar o fluxo de sangue. Também corri na direção de Colherada porque, por um momento – um momento muito breve –, temi que um dos paramédicos fosse o homem louro que levara meu pai. Temi que ele fosse embora com Colherada de maca e eu nunca voltasse a vê-lo.

Mickey, o que você fez?

Eu tinha sido avisado, não tinha? O detetive Waters havia me dito claramente para não me envolver, mas eu não o ouvira. Uma coisa era pôr minha vida em risco. Mas veja o que eu fizera com Colherada.

Acho que nunca me perdoarei.

Não sei quantos policiais apareceram. Lembro-me das luzes intermitentes de uma longa fila de ambulâncias rasgando o céu tranquilo da noite. Nas horas seguintes – não sei dizer quantas –, respondi a perguntas. Eu indagava repetidas vezes: “Como ele está?”

Mas não quiseram me falar qual era o estado de Colherada.

Na maior parte do tempo, eu disse a verdade, mas então me perguntaram:

– Como vocês entraram na escola?

– Arrombei a porta – menti.

– Garoto – disse-me o policial, sério –, arrombar a porta da escola é o menor dos problemas do seu amigo.

Vários policiais chegaram e saíram, inclusive o chefe Taylor e o detetive Waters. O humor deles variava entre a irritação e a satisfação – porque tínhamos sido imprudentes e feito Colherada levar um tiro e porque tínhamos resolvido o caso de quem havia atirado na Sra. Caldwell e em Rachel. Dois criminosos haviam sido capturados e passariam um longo tempo na prisão. As câmeras de vigilância comprovariam isso, além do fato de que eles portavam armas Smith & Wesson calibre 38, do mesmo tipo usado para atirar na Sra. Caldwell e em Rachel.

Em dado momento, tio Myron apareceu. Ele assumiu os duplos papéis de guardião em pânico e advogado. Disse-me imediatamente para parar de falar com a polícia. Mas eu lhe fiz um sinal com a mão para não se preocupar. Eles precisavam saber. Então tio Myron se sentou perto de mim e também ouviu.

A última pessoa a me interrogar foi o detetive Waters. Quando ele terminou, perguntei:

– Isso ajuda a resolver seu outro caso?

– Que caso?

– O do Sr. Caldwell. Ele é um traficante de drogas, não é?

O Sr. Waters olhou de relance para Myron e depois de novo para mim.

– Isso não é da sua conta.

– Vai prendê-lo?

– Sob qual acusação?

Eu o encarei.

– Acabei de lhe dizer. As coisas naquela sacola de ginástica...

– O que tem?

– Vieram da casa dele.

– Você tem alguma prova? Como vamos provar que elas pertenciam a Henry Caldwell? Se você tivesse deixado a sacola aqui e nos contado sobre ela, talvez algo pudesse ser feito. E agora?

Ele balançou a cabeça e saiu pela porta.

Quando Ema e eu nos encontramos na sala de espera do hospital, o sol estava a pino. Tio Myron e Angelica Wyatt quiseram nos levar para casa, mas não estávamos dispostos a abandonar Colherada. Ficamos sentados: Ema e eu em um canto, Angelica – usando óculos escuros e um lenço na cabeça como disfarce – e Myron em outro.

– Uau – disse Ema.

– É.

Os olhos dela estavam vermelhos de choro e exaustão. Imaginei que os meus também estivessem.

– Ele vai ficar bem – assegurei.

– É melhor que fique, ou vou matá-lo.

Alguns minutos depois, vimos uma mulher negra e magra entrar na sala de espera como um zumbi, parecendo muito pior do que nós. Era a mãe de Colherada. Nós nunca conversamos com ela, mas eu a tinha visto abraçar o filho quando o deixei em casa. A desolação estava estampada em seu rosto. Seus olhos tinham aquela expressão muito distante que às vezes você vê em documentários de guerra.

Olhei para Ema. Ela respirou fundo e fez um sinal afirmativo com a cabeça. Nós nos levantamos juntos e começamos a ir na direção da mãe de Colherada. Pareceu demorar uma eternidade para alcançá-la, como se, quanto mais andávamos, mais longe ela ficava.

Quando finalmente nos postamos na frente da Sra. Spindel, ela estava com a cabeça abaixada. Não sabíamos o que dizer, por isso ficamos apenas em pé ali, esperando. Pouco tempo depois, ela ergueu os olhos para mim e, quando me reconheceu, seu rosto se obscureceu.

– Você é Mickey – afirmou ela. – E você é Ema.

Ambos assentimos.

– O que vocês estão fazendo aqui?

– Nós só queríamos saber como Colherada, quero dizer, Arthur, está passando.

Ela fitou Ema e depois me encarou.

– Ele... ele não está bem.

Foi como se o meu coração estivesse no alto de uma longa escada e alguém o jogasse lá de cima.

– Ele saiu da cirurgia, mas os médicos... eles não sabem.

– Se houver alguma coisa... – tentei falar, mas não consegui continuar. Meus olhos começaram a marejar.

– Não entendo por que vocês estavam na escola tão tarde – falou a mãe de Colherada.

– Foi culpa minha – revelei, em lágrimas.

Ema estava prestes a acrescentar algo, mas eu a cutuquei no braço.

Vi uma sombra perpassar o rosto da Sra. Spindel e então ela disse algo que eu não esperava, mas certamente merecia.

– Ah, eu sei que foi culpa sua.

Fechei os olhos com força, suas palavras me atingindo como socos.

– Até uma semana atrás, eu nunca tinha ouvido falar em você. Agora Arthur não fala de outra coisa. Ele queria que todos começassem a chamá-lo de Colherada. Disse que seu novo amigo tinha lhe dado esse apelido.

Meu coração se espatifou no último degrau da escada e agora estava sendo pisoteado por um coturno.

– Você era amigo de Arthur – continuou ela. – Talvez o primeiro verdadeiro amigo desde a quarta série. Provavelmente você não sabe o quanto significava para meu filho. Ele o respeitava. Adorava você, e como lhe retribuiu? Você o usou. Você o usou para abrir um estúpido armário e agora veja o que aconteceu. – Ela desviou os olhos, desgostosa. – Espero que o que estava lá tenha valido a pena para você.

Abri e fechei a boca duas vezes, sem conseguir falar nada. O que poderia dizer?

– Acho que vocês dois deveriam ir embora – falou ela.

– Não.

Virei-me na direção da voz e reconheci o Sr. Spindel, o pai de Colherada.

Ela ergueu os olhos para seu marido e esperou.

– Arthur acabou de acordar – avisou o Sr. Spindel, virando-se e me encarando. – E ele está insistindo em falar com Mickey.