Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 34 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 34

QUANDO NILES PAROU na frente da casa em um Volkswagen Beetle verde-limão, fiquei aliviado. Temi que fôssemos naquela limusine e imaginava a gozação de que seria alvo se aparecesse para jogar naquela coisa. Ainda assim, a cor era um pouco extravagante e pedi para o mordomo me deixar a dois quarteirões de distância para poder ir a pé.

– Por que estamos aqui? – perguntou Niles.

– Mickey tem um grande jogo de basquete.

– E ele foi à sua casa atrás de uma carona?

– Depois eu explico. – Ema se virou para mim. – Divirta-se. Niles e eu vamos esperar aqui.

– Vamos esperar?

– Vocês não precisam esperar – retruquei. – Posso conseguir uma carona de volta.

– Não, não, nem sonharíamos com isso – disse Niles, com sarcasmo. – A Srta. Emily pode me entreter contando como vocês dois se conheceram.

Ema revirou os olhos. Saí do carro e corri na direção da escola. Tyrell me cumprimentou à porta. Estava usando um uniforme branco de basquete com a palavra Weequahic no peito.

– Vocês são vermelhos – avisou ele, atirando-me um colete de treino para vestir por cima da minha camisa.

O amistoso entre a Weequahic High e os jogadores que eles conseguiram encontrar já estava em seu quarto final. Olhei rapidamente para a arquibancada. O Sr. Waters estava lá. Fiz-lhe um breve aceno e ele respondeu com um sinal de cabeça. Durante um intervalo, entrei no jogo. Vi Tyrell rindo com seus companheiros de equipe e senti meu rosto se avermelhar. Eles juntaram suas mãos, gritaram “Defesa!” e depois correram. Eram companheiros de equipe. Tyrell gostava de jogar basquete de rua comigo, mas aquilo ali era diferente. Era seu time da escola. O que importava.

Como pude deixar escapar minha chance?

Eu ainda tinha meus anos de júnior e sênior, mas pareciam muito distantes, impossíveis de imaginar agora. Talvez minha mãe melhorasse, nos mudássemos para um lugar onde eu pudesse recomeçar... mas ainda faltavam seis meses para ela deixar a reabilitação. Talvez meu pai...

Talvez meu pai o quê?

Eu estava com dificuldade de me concentrar na partida. Continuei pensando em meu pai, que em tese jazia naquela sepultura em Los Angeles, e me perguntei se algum dia saberia com certeza se ele havia morrido. Em geral eu me esqueço de tudo quando jogo. Porém, naquele dia não.

Não joguei bem. Nós, os jogadores de fora, fomos esmagados, mas, pela primeira vez em minha vida esportiva excessivamente competitiva, não me importei. Só queria perguntar ao Sr. Waters sobre Henry Caldwell. O som do apito final foi misericordioso. Entrei na fila e cumprimentei a outra equipe. Quando cheguei a Tyrell, ele perguntou:

– O que há de errado?

– Nada.

Ele franziu a testa.

– Então por que você não está nos testes hoje?

– Fui expulso do time.

– Por quê?

– É uma longa história.

– Ah, puxa vida, Mickey, sinto muito.

– Vou ficar bem – menti.

– Ei, Tyrell. – Era um dos companheiros de equipe dele. – O treinador quer uma rápida reunião.

Tyrell me encarou, preocupado.

– Falaremos sobre isso daqui a alguns minutos, está bem?

Ele se afastou correndo com seu colega. Comecei a pensar em uma forma de me aproximar do Sr. Waters e no que lhe dizer, mas não foi preciso. Assim que Tyrell desapareceu de vista, ele veio rapidamente até mim.

– Como vai, Mickey?

– Bem, obrigado.

– Como está sua amiga Rachel?

Dessa vez sem rodeios.

– Melhor.

– Eu soube que ela recebeu alta.

– Sim, estive com ela hoje, mais cedo. Até conheci o pai dela.

Isso despertou o interesse do Sr. Waters.

– Como ele está lidando com toda essa situação?

Eu deveria contar que o Sr. Caldwell havia apontado uma arma para mim? Não tinha certeza, por isso decidi simplificar:

– Ele pareceu muito tenso.

– Tenso como?

– Nervoso.

– Nervoso como?

– Não sei... Sobressaltado. Talvez com um pouco de medo. Acho que não se pode culpá-lo. Sua ex-esposa acabou de ser assassinada. Sua filha levou um tiro. – Inclinei a cabeça. – Sr. Waters, posso fazer uma pergunta?

Ele ficou em silêncio.

– Como conheceu Henry Caldwell?

Waters não gostou do questionamento.

– Quem disse que eu o conheço?

– Quando me levou para casa ontem, o senhor me perguntou como estava Henry. Como sabia o primeiro nome dele?

O Sr. Waters me lançou um olhar duro.

– Sr. Waters?

– Isso não importa, Mickey.

– O senhor o está investigando?

– Isso não é da sua conta.

– Rachel é minha amiga.

– E daí? Você vai descobrir quem atirou nela? – Ele arqueou uma sobrancelha. – Isso não é brincadeira, Mickey. Aquelas pessoas jogam pesado.

– Que pessoas?

Ele balançou a cabeça de um lado para o outro e de repente não era mais o pai gentil, e sim o policial durão.

– Eu que faço as perguntas. Quando você esteve na casa dos Caldwells, viu mais alguém?

– Como quem?

– Apenas responda à pergunta.

– Não, só Rachel e... – Então me lembrei. – Espere, havia dois caras sinistros falando com o Sr. Caldwell depois que fui embora.

– Qual era a aparência deles?

– Tipo, sei lá, punks. Um usava bandana na cabeça e tinha uma cicatriz na bochecha.

O Sr. Waters engoliu em seco quando eu disse isso. Pegou seu smartphone e começou a digitar.

– Foi esse o homem que você viu?

Ele me mostrou a foto no telefone. Não havia a menor dúvida. Era o Scarface.

– É, foi. Quem é ele?

O rosto do Sr. Waters se tornou sombrio.

– Ele é um homem muito mau, Mickey.

– Mas quem é ele?

– Quero que você fique longe dele, está me ouvindo? Você não acreditaria no mal que ele é capaz de fazer.

Se o Sr. Waters estava tentando me assustar, conseguiu.

– Ele teve alguma coisa a ver com o que aconteceu com Rachel?

Mas o Sr. Waters não caiu na minha conversa.

– Fique fora disso, Mickey. – Havia raiva em sua voz. – Não vou repetir. Pare de brincar ou alguém vai se ferir.