Uma Questão de Segundos
capítulo 13
ALCANCEI COLHERADA E EMA no estacionamento.
– Não fiquem parados – mandei. – O chefe Taylor deve estar atrás de nós.
Corremos pelo quarteirão e voltamos para a Northfield Avenue. Havia uma lavanderia na esquina. Nós nos agachamos atrás do prédio.
– Rachel estava naquele quarto? – perguntou Ema.
Assenti e lhes contei tudo o que tinha acontecido.
– Então, de algum modo, o Abeona também está envolvido nisso? – indagou ela.
– Parece que sim – respondi.
Colherada estava calado. Parecia um pouco confuso. Fiquei preocupado. Ele não tinha pedido por nada daquilo. Era verdade que nenhum de nós tinha, mas ele parecia perdido. Nossa amizade, se é que tínhamos uma, havia começado apenas alguns dias antes, quando ele se aproximou de mim na cafeteria e me ofereceu... sua colher. Tinha sido assim que nosso relacionamento começara – e fora daí que havia tirado o apelido dele.
– O que você acha que deveríamos fazer? – perguntou-me Ema.
– Detesto interromper vocês – falou por fim Colherada –, mas a esta altura a reunião da Fundação Musicais que Adoro já teria terminado. Meus pais devem estar esperando por mim.
– Fundação Musicais que Adoro? – repetiu Ema.
Balancei a cabeça, querendo dizer “não pergunte”.
Quando o ônibus chegou, entramos e iniciamos a volta para casa. Descemos onde havíamos começado a aventura, na esquina da Kasselton Avenue com a Northfield Avenue. Pensei em passar pela residência de dona Morcega e em visitá-la antes de ir embora. Mas eu não sabia o que dizer. Estava exausto, assustado e confuso.
Ao nos aproximarmos da rua de dona Morcega, meu celular tocou. Era tio Myron. Eu ia ignorá-lo, mas isso não adiantaria nada.
– Alô? – atendi.
– Achei que a esta altura você já estaria em casa – disse Myron.
– Estou a caminho.
– Quer que eu vá buscá-lo?
– Não, estou bem.
– Mas está vindo?
– Sim.
– Ótimo. Tenho uma coisa para falar com você.
Troquei o telefone de mão. Agora dava para ver a casa sinistra de dona Morcega.
– Está tudo bem?
– Sim.
– Ok, então. Vou chegar logo.
Desliguei. Como sempre, a casa de dona Morcega parecia mal-assombrada. O vento aumentara e, por um momento, cheguei a achar que uma rajada a derrubaria. Havia um salgueiro curvado no quintal da frente e, eu sabia, um bosque nos fundos. A noite começara a cair.
Ema e Colherada ficaram na calçada do outro lado da rua. Quando me aproximei, notei que não havia nenhuma luz acesa. Estranho. Em geral dona Morcega mantinha uma luz em seu quarto. Mas esta noite não. Bati à porta, sentindo a varanda tremer sob meus pés. Uma das colunas já havia caído.
Não houve nenhuma resposta.
Voltei para onde Ema e Colherada estavam. Começamos a andar pela rua, em silêncio. De repente – sim, como sempre –, Ema falou:
– Vejo vocês mais tarde.
Ela tomou o rumo do bosque, sem dizer nada.
Tive vontade de lhe perguntar para onde estava indo ou se eu poderia acompanhá-la, mas já havia feito isso antes. Ela ficaria zangada comigo. Eu a observei desaparecer na vegetação densa.
Sem saber ao certo o que fazer, deixei minha curiosidade levar a melhor sobre mim. Sabia que provavelmente aquilo era errado, uma espécie de quebra de confiança e amizade. Como eu já disse, todos nós guardávamos os nossos segredos. Mesmo assim, perguntei:
– Colherada?
– Sim?
Eu ainda podia desistir, mas não fiz isso.
– Qual é a da Ema?
– O que você quer dizer?
Apontei para o ponto onde ela havia acabado de desaparecer.
– Onde ela mora, quem são seus pais, esse tipo de coisa.
Ele empurrou os óculos para cima. Pareceu perdido em seus pensamentos.
– Colherada?
– Ninguém me falou diretamente, portanto tudo o que sei apenas ouvi por acaso.
Pensei nisso, nesta cidade, no que ela havia feito com ele. Colherada era mais ignorado que intimidado ou zoado. Semana após semana, mês após mês, ano após ano... era ignorado ou sofria algo pior. Ele havia encontrado um escape em coisas que não lhe davam as costas – musicais, livros, fatos aleatórios, sua imaginação. Era como uma esponja, absorvendo todas essas informações, mas não tinha ninguém em quem despejar, por assim dizer.
Exceto naquele momento, eu achava. Ele tinha a mim.
– Bem – comentei –, você é um bom ouvinte ocasional.
Essa expressão existia?
Colherada sorriu.
– É mesmo? Você acha?
– É claro. Então me conte. O que você ouviu por acaso sobre Ema?
Ele fez uma careta, como se estivesse refletindo.
– Ninguém parece saber muito – disse, com uma voz distante. – Mas... há histórias.
– Como o quê?
– Você sabe que o nome verdadeiro dela é Emily, não Ema, certo?
Eu sabia. Aparentemente, Buck lhe dera esse apelido na aula de espanhol, notando que seu verdadeiro nome era Emily e ela era meio emo.
– Ela se mudou para a cidade há três anos. Nunca me convidou para ir à casa dela. Grande surpresa, não é? Mas não sou o único que nunca foi lá. Não conheço ninguém que tenha ido. Dizem que ela mora em um barraco no bosque e o pai faz algo contra a lei. Como produzir bebidas alcoólicas ilegais ou coisa do gênero.
Franzi a testa.
– Produzir bebidas alcoólicas ilegais?
– É, destilar bebidas ilegalmente. Separar líquidos por um processo de evaporação...
– Ok, ok – falei, erguendo uma das mãos para que ele parasse. – Isso parece um pouco estranho.
Agora os olhos de Colherada estavam arregalados.
– Também dizem que o pai dela é alcoólatra e que bate muito nela. E que ela fez todas aquelas tatuagens para encobrir as marcas.
Isso podia ser verdade? Eu não sabia o que falar, mas de súbito senti um aperto no peito.
– Uma vez digitei o nome dela no Google – comentou Colherada. – Emily Beaumont. Mas não encontrei nada relevante. Na verdade, não havia nenhuma menção a Beaumont na cidade.
– Nenhuma?
– Nenhuma – confirmou. – Resumindo, não sei “qual é a da Ema”. Mas gosto muito dela, você não?
– Gosto – respondi. E então, por mais que parecesse brega, acrescentei: – Gosto muito de você também.
Minhas palavras o surpreenderam. Colherada olhou para mim, piscou algumas vezes e depois estufou o peito.
– Também gosto muito de você.
Ficamos imóveis, sem dizer nada.
– Estamos tendo um bom momento, não é, Mickey?
– Certo. Acho que está na hora de ele acabar.
– Concordo. – Depois, completou: – Mickey?
– Sim?
– Não acha que está na hora de me contar sobre o Abeona?
Colherada tinha razão. Ele mais do que merecia saber.
– É, Colherada. Talvez a gente deva falar sobre isso.
– Enquanto caminhamos – disse ele. – Tenho que ir para casa, está lembrado?
– Ok. A reunião da Fundação Musicais que Adoro terminou.
– Exatamente. Você quer ser o vice-presidente?
– Claro, por que não? Isso vai ficar bom no meu formulário de candidatura à universidade. Mas só tem uma coisa.
– O quê?
Coloquei meu braço por cima dos ombros dele.
– Temos que pensar em outro nome...