Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 35 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 35

NÃO ESPEREI TYRELL PORQUE não queria lhe contar toda a história da expulsão. O Sr. Waters permaneceu rígido comigo.

– Se você vir ou ouvir alguma coisa, me telefone. Este é o meu número.

Ele ia me entregar seu cartão de novo, mas peguei minha carteira e lhe mostrei que já o tinha.

– Também coloquei seu número na lista de contatos do meu celular – falei.

– Ponha-o na discagem rápida – preveniu-me o Sr. Waters pela segunda vez.

Corri de volta pelo quarteirão. O Beetle verde-limão se destacava lá como, bem, um Beetle verde-limão. Quando deslizei para o banco traseiro, Ema perguntou:

– Como foi o jogo?

Lancei-lhe um olhar curioso quando meu celular vibrou. Ema me encarou e depois fitou meu telefone e, assim, captei a mensagem. Peguei o celular e vi que ela tinha me enviado um torpedo: não diga nada sobre os tiros na frente de niles. ele iria ficar preocupado. vamos nos falar depois e tentar entrar no túnel de dona morcega esta noite. só fale besteiras agora, como se vc fosse um típico garoto obcecado por esportes.

Franzi a testa. Ema deu de ombros.

– É – disse Niles, começando a dirigir –, como foi seu importante jogo de basquete?

– Bem, obrigado.

– Foi um jogo muito curto, não foi?

– Ah, sim.

– E eu não fazia ideia de que a Srta. Emily promovia sua evolução no basquete.

– Sim, ela é uma grande, ahn, promotora.

– A Srta. Emily está cheia de surpresas hoje – comentou Niles, virando na Rota 280. – E acho que devo acreditar em cada palavra que ela diz.

– Niles – falou Ema.

– Não, não, Srta. Emily, sou apenas um criado. Não me deve nenhuma explicação.

Enviei uma mensagem para Ema: niles não está engolindo.

– Você acha? – perguntou Ema, sem se dar o trabalho de responder por torpedo.

No banco do motorista, Niles sorriu.

Ficamos em silêncio na viagem de volta. Niles me deixou na casa de tio Myron. Sentei-me na cozinha e tentei entender o que vinha acontecendo. Nada me ocorreu. Peguei o telefone e liguei para o centro de reabilitação da minha mãe. Pedi para me transferirem para o quarto dela.

– Um momento, por favor.

Dois toques, alguém atendeu e suspirou fundo.

– Você sabe que não pode falar com ela, Mickey.

Eu sabia. Minha mãe havia tido uma “recaída” – em suma, voltara a usar drogas horas depois de sua primeira alta – e agora estava no isolamento. A mulher do outro lado da linha era Christine Shippee, a diretora do lugar.

– Eu só queria ouvir a voz dela – repliquei.

– Você sabe que não pode.

Sim, mas eu sentia falta dela, especialmente agora que parecia que tudo estava desmoronando sobre mim. Antes de o meu pai morrer, minha mãe era muito vibrante, sensata e maravilhosa – eu diria que era a mãe perfeita, mas muitos acham isso, não é?

– Como ela está?

– Você sabe que também não posso responder a isso.

– O que pode me dizer?

– Sou muito boa em matemática.

– Não, não é.

– Sim, é verdade. Como você está, Mickey?

– Como acha que estou?

– Você não parece bem.

– Vou ficar.

– Seu tio.

– O que tem ele?

– Eu sei que você o culpa muito, mas ele não é um mau sujeito.

– Obrigado.

– Ele é simpático.

– Bem, isso muda tudo – disse eu.

– Converse com ele, Mickey.

Então Christine desligou. Olhei para o telefone e franzi a testa. Tentei não pensar no que minha mãe poderia estar passando. Eu tentara ajudá-la. Arranjara um emprego e nos sustentara. Eu a tirara de bares, motéis e trailers e a levara para casa. Eu a limpara e a fizera tomar banho, se vestir e sair de casa, tudo na esperança de que ela saísse do fundo do poço. Mas isso simplesmente não estava acontecendo. Eu era, segundo Christine Shippee, um facilitador do vício. Não estava tão certo disso, mas decidi dar ouvidos à suposta especialista. Então, por mais que isso fosse contra a minha tendência natural, agora eu não estava interferindo.

Exceto, bem, quando eu fraquejava e telefonava. Como hoje.

A porta da frente se abriu.

– Olá? – gritou Myron. – Mickey?

– Estou na cozinha.

Tio Myron entrou às pressas com um sorriso esperançoso no rosto.

– Como foi o basquete?

Não me orgulho de dizer que minha reação instintiva foi mentir. Não queria falar sobre aquele assunto. Não queria que tio Myron me passasse um sermão sobre tudo de errado que eu havia feito, ou pior, olhasse para mim com pena. Mas não tive forças para mentir, e ele logo descobriria.

– Fui expulso do time.

O olhar dele foi mais de choque do que de piedade.

– O quê? O que aconteceu?

Então eu lhe contei por alto, esperando o inevitável “Eu avisei, você conhecia as regras, o que esperava?”, mas isso não aconteceu. Os músculos de tio Myron começaram a se retesar. Quando mencionei o envolvimento do chefe Taylor, vi a veia em seu pescoço pulsar de raiva.

Quando terminei, houve silêncio. Eu lidava bem com o silêncio. Tio Myron, não. Ele não conseguia ficar de boca fechada, pois se sentia desconfortável. Mas ele permaneceu calado, imóvel, e pela primeira vez percebi o que devia tê-lo tornado um grande jogador de basquete. Havia uma fúria nele agora que me fez querer recuar. Seus olhos tinham ficado sombrios e a expressão no rosto dele não só desafiava o mundo como afirmava que podia vencê-lo.

– Ed Taylor – disse por fim tio Myron, entre dentes.

– Tudo bem – falei, o que era algo estúpido, principalmente por ser uma bela mentira.

– Vou falar com ele.

– Quem? Espere, com o chefe Taylor?

Ele não respondeu.

– Por favor, não faça isso. Essa briga é minha.

– Com Taylor? – Ele balançou a cabeça. – Não, é minha. Você é apenas um espectador na linha de fogo.

– Isso não vai fazer nenhuma diferença. Eu quebrei as regras. Foi o treinador Grady que deu o telefonema, não Taylor.

Tio Myron ficou mudo.

– Myron?

– Você se lembra do que me pediu ontem? – perguntou Myron.

Por um segundo, fiquei confuso com a mudança de assunto. Mas então me lembrei.

– Sobre exumar o corpo do meu pai?

– Sim. Por que você quer exumá-lo?

– Eu já expliquei.

– Para pôr uma pedra sobre isso.

– Certo.

Tio Myron balançou a cabeça.

– Não se pode exumar um corpo apenas por um motivo como esse. Há normas rígidas. Aquele cemitério em particular não admite exumações. Mesmo se admitisse, precisaríamos obter permissão do parente mais próximo, que é sua mãe. Você quer lhe pedir para assinar uma permissão desse tipo agora?

Senti minha esperança diminuir.

– Não.

– Então vou perguntar de novo: por que você quer exumar o corpo do seu pai?

Dei de ombros.

– Que diferença isso faz agora?

Myron pareceu estar pesando suas palavras em uma balança.

– É que há uma chance de eu conseguir fazer isso.

– Como?

– Tenho um amigo. Ele é muito bem-relacionado...

– Angelica Wyatt?

– Não.

Quase lhe perguntei se ele sabia sobre Ema, sobre a atriz ter uma filha, mas a identidade dela era um segredo e eu não queria dizer nada que não devesse.

– Então quem?

– Você não o conhece. É o amigo que me pediu para vigiar Angelica.

– Ele pode conseguir que o corpo do meu pai seja exumado?

– Se eu insistir, sim. Mas preciso saber seu verdadeiro motivo, Mickey. Eu assumiria qualquer risco por você sem motivo algum. Mas não posso pedir ao meu amigo para fazer o mesmo. Você entende isso, não é?

Assenti. Nós nos sentamos à mesa da cozinha. A cozinha havia sido modernizada nos últimos cinco anos, porém, ainda assim, era a cozinha da infância do meu pai. Ele tinha passado inúmeras horas ali com sua família. Esse foi um pensamento banal, mas por um momento me deixou arrasado.

– Não estou certo de que meu pai está naquela sepultura.

Tio Myron abriu e fechou a boca, sem dizer nada. Então, conseguiu falar:

– Não entendo.

– Sei que isso parece loucura, mas preciso ter certeza de que meu pai está naquele caixão.

Myron piscou os olhos duas vezes.

– Você tem algum motivo para acreditar que ele não esteja?

Eu não sabia ao certo o que responder. Não podia falar sobre o paramédico louro porque Myron nunca acreditaria em mim, e, mesmo se acreditasse, tanto dona Morcega quanto Cabeça Raspada tinham me dito para não contar a ele. E meu pai nunca havia falado a ele sobre o Abeona. Devia haver um motivo, certo?

– Mickey?

Sustentei o olhar de Myron.

– Sim, tenho – respondi.

Então Myron me pegou desprevenido com sua próxima pergunta.

– Tem algo a ver com o incêndio na casa de dona Morcega?

– Por que você acha isso? – perguntei.

– Eu já disse. Seu pai visitou aquela casa e voltou mudado. Agora de repente você se sente atraído por ela também. – Myron se inclinou um pouco mais para perto de mim. – Você conheceu dona Morcega?

– Sim – respondi antes de conseguir me conter.

– O que ela disse a você?

Balancei a cabeça, lembrando-me dos avisos.

– Por favor, Myron. Por favor, peça ao seu amigo para nos ajudar.

– Preciso saber mais.

– Não pode simplesmente confiar em mim?

– Esse não é o problema. Você sabe disso.

Eu não soube o que retrucar. O celular de Myron vibrou. Ele leu a mensagem de texto e suspirou.

– É Angelica. Tenho que ir. Ainda não acabamos, ok?

– Ok.

Ele se levantou e me olhou como se me visse pela primeira vez.

– Mickey?

– Sim.

– Vou falar com meu amigo. Farei o possível para ajudar você.