Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 4 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 4

TUDO COMEÇOU COM UMA BATIDA forte na porta.

 

Eu tinha sonhado com meus pais. Estávamos em um lugar a que nunca fomos na vida real – minha mãe, a lendária Kitty Bolitar, jogava tênis.

Antes de engravidar, minha mãe de 17 anos era a melhor jogadora de tênis amador feminino do mundo. Ela abandonou o esporte para me dar à luz. E nunca voltou a ele.

Estranho, não é?

No sonho, minha mãe está na quadra principal em um jogo importante. O público é enorme. Estou sentado na tribuna perto do meu pai, mas ele não me vê. Só olha amorosamente para minha mãe. Meus pais tinham sido muito felizes. A maioria dos casais adultos com filhos não é assim. É claro que eles comem juntos, vão ao cinema e tudo o mais, só que é raro se olharem nos olhos. Só compartilham o ambiente. Talvez haja um comodismo nisso, não sei.

Mas meus pais eram diferentes. Nunca tiravam os olhos um do outro, como se ninguém mais existisse, como se tivessem se apaixonado naquela manhã e estivessem prontos para correr por um campo de margaridas e se abraçar, com uma música brega tocando ao fundo.

Sim, como filho deles, posso afirmar que era constrangedor.

Sempre achei que encontraria um amor assim. Mas agora não quero. Não é saudável. Torna você muito dependente. Você sorri quando a outra pessoa sorri. Ri quando ela ri. Mas se ela para de rir, você também para.

E quando ela morre, uma parte de você também morre.

Foi isso que aconteceu com minha mãe.

No sonho, minha mãe executa um forehand com violência, lançando a bola em um local indefensável.

A multidão grita.

Uma voz diz: “Game, set, match... Kitty Bolitar!”

Minha mãe atira a raquete para o ar. O público se levanta. Meu pai fica de pé e bate palmas, com lágrimas nos olhos. Tento me erguer e aplaudir também, mas não consigo. É como se eu estivesse grudado na cadeira. Olho para meu pai. Ele sorri para mim, mas de súbito começa a flutuar para longe.

– Pai?

Eu me debato, mas ainda assim não consigo me levantar. Ele flutua até o céu. Minha mãe se junta a ele. Ambos acenam para que eu os siga. Minha mãe chama:

– Depressa, Mickey!

Mas ainda não posso me mover.

– Esperem! – grito.

Mas eles continuam a flutuar para longe. Ponho as duas mãos nos encostos para os braços e tento me erguer. Mas estou imobilizado. Meus pais ainda estão à vista, mas agora muito mais longe.

Nunca os alcançarei. Respiro fundo e tento mais uma vez sair da cadeira.

É quando percebo que estão me segurando.

Uma mão está em meu ombro. Ela é forte e me prende no lugar.

– Me solta!

Mas a mão me segura com mais força. Viro-me e ali está, em pé, com aquela mesma expressão arruinadora de esperanças, o paramédico louro de olhos verdes.

Mais batidas na porta.

O paramédico e meus pais desapareceram.

Eu estava de volta ao meu quarto no porão, com o coração disparado. Tomei fôlego e tentei me acalmar. As batidas ficaram mais altas.

Por que Myron não tinha atendido?

Rolei para fora da cama e subi a escada.

Mais batidas impacientes.

– Já vou! – gritei.

Onde estava Myron?

Cheguei à porta da frente. Sabia que devia ter perguntado quem era, mas apenas a abri. Havia dois policiais uniformizados.

Dei um passo para trás.

– Mickey Bolitar?

– Sim.

– Sou o oficial McDonald. Este é o oficial Ball.

– Há algo errado?

– Houve um ataque com tiros. Precisamos que venha conosco.