Uma Questão de Segundos
capítulo 48
NA MANHÃ SEGUINTE, ACORDEI cedo e vesti um dos velhos ternos de Myron. Estava um pouco grande no peito e na cintura, mas serviu. O armário de tio Myron estava cheio de gravatas cor-de-rosa e verdes da empresa de roupas de um amigo, mas consegui encontrar uma mais escura e sóbria adequada para a ocasião.
Meu celular tocou. O visor mostrava: KASSELTON HIGH SCHOOL.
– Alô?
– Mickey, é o treinador Grady.
– Ah. – Sentei-me. – O que posso fazer pelo senhor?
– Acabei de falar pelo telefone com o chefe Taylor. Taylor me falou que todas as acusações contra você foram retiradas. Na verdade, ele acha que você foi bastante injustiçado.
Apertei o telefone com mais força.
– Mickey?
– Estou ouvindo, treinador.
– Bem, quando eu estou errado, reconheço. Você não está mais suspenso do time. Nós o veremos no treino segunda-feira à tarde.
Quase pulei de alegria, mas então me lembrei de onde estava e do que aconteceria e então parei, agradeci ao técnico por ligar e terminei de pôr minha gravata.
– Quer uma carona? – perguntou tio Myron.
– Prefiro ir a pé.
– Não sei se entendo por que você vai. Quero dizer, isso é de fato triste, mas o garoto desapareceu 25 anos atrás. Obviamente você não o conhecia.
Não me dei o trabalho de retrucar.
– Mickey?
– Sim?
– Conhecendo ou não esse garoto, você parece muito feliz para quem está indo a uma cerimônia em memória de alguém.
Decidi lhe contar.
– O treinador Grady acabou de ligar. Estou de volta ao time.
Sem aviso, Myron me envolveu com seus braços e me puxou para perto. No início, meu corpo se retesou, mas logo relaxou. Ambos entendíamos como o jogo era importante. Nem mesmo Ema entendia tão bem quanto Myron. Eu não cheguei a abraçá-lo também, mas fiquei parado e o deixei me abraçar. Depois pensei em como Colherada gostava de abraços e afastei gentilmente meu tio.
Corri durante a maior parte do caminho para a cerimônia, extravasando aquela emoção estúpida, e quando reduzi minhas passadas, lembrei por que estava ali. Pensei na falsa fotografia do Carniceiro. Pensei em dona Morcega, tentando adivinhar onde ela estaria. Pensei em Ema, que queria saber a identidade do pai, e em minha busca pela verdade sobre o meu próprio pai. Pensei em Colherada e senti uma pontada de dor tão fundo em meu coração que mal pude respirar. E, principalmente, pensei em Rachel, em como o pai dela desejava protegê-la e no que eu deveria fazer em relação a isso, se é que era para eu tomar alguma atitude.
O sino da igreja tocou. O sol incidia na torre como se zombando da tristeza. Havia uma fotografia ampliada de Dylan Shaykes em um cavalete na frente da porta. Era a mesma imagem do garoto de cabelos cacheados e olhar triste que eu vira no corredor de dona Morcega.
A igreja estava quase toda cheia. O organista tocou algo apropriadamente triste. As pessoas se comunicavam por meio de sussurros, embora estivessem ainda mais quietas e respeitosas do que em geral se portavam em uma igreja. Sentei-me em um banco perto dos fundos e examinei o ambiente. A mesma fotografia de Dylan Shaykes estava no altar.
Olhei ao redor procurando um rosto familiar, mas até agora ele não aparecera.
A música do órgão parou exatamente às nove da manhã. Os sussurros deram lugar ao silêncio. A cerimônia começou. A mãe de Dylan tinha falecido, mas o pai dele, o homem de quem as autoridades suspeitaram no início, estava sentado na parte da frente, no centro. Ele tinha fartos cabelos grisalhos, quase brancos, e usava um paletó de tweed.
A primeira pessoa a falar foi um amigo de infância de Dylan. O contraste era surpreendente. Nós olhamos para a foto de um garoto desaparecido de 9 anos e agora esse homem na casa dos 30 falava sobre ele – sobre como Dylan gostava de beisebol e colecionava cartões dos jogadores, sobre como gostava de andar pelo bosque e estudar borboletas.
Aposto que uma em particular.
A sala estava ainda mais silenciosa agora, como se o próprio prédio prendesse a respiração. Vinte e cinco anos atrás um garotinho fora raptado do pátio de uma escola. Então, como se seguindo uma deixa, aquele garotinho entrou na igreja.
Fiquei paralisado.
Ele permaneceu em pé nos fundos por um momento, agora adulto, antes de encontrar um lugar no último banco. Usava óculos escuros. Ninguém além de mim o viu entrar. Ninguém além de mim sabia quem ele realmente era.
Quando o primeiro amigo parou de falar, deslizei devagar para fora do meu banco e fui para trás. Vi a surpresa no rosto dele ao me avistar. Ele se levantou e começou a se dirigir à saída. Saiu depressa para o sol quente. Eu o segui.
À frente dele, estava o carro preto familiar.
– Pare – pedi.
Cabeça Raspada se virou devagar. Ele tirou os óculos escuros e se aproximou de mim. Não daria para notar se a pessoa olhasse casualmente para ele. Os cabelos cacheados não existiam mais. O garoto na fotografia era magro como um espantalho e esse homem era alto e forte. A única coisa que poderia traí-lo, quando ele estava sem os óculos, era seu olhar. Ainda era um pouco triste.
– Então agora você sabe – disse Cabeça Raspada.
– Eu sei, mas não entendo.
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dele.
– Se você está vivo – continuei –, por que não contou para ninguém? O que aconteceu com você?
Ele não respondeu.
– O Abrigo Abeona o salvou?
– Acho que se poderia dizer que sim.
– E onde está dona Morcega? Não estou entendendo nada. A foto que ela me deu havia sido adulterada. Não era do Carniceiro.
Ele ergueu uma sobrancelha.
– Tem certeza?
– Como assim?
– O homem na foto é o Carniceiro.
– Mas...
– Ele é o seu Carniceiro, Mickey. Era isso que ela queria que você entendesse.
Cabeça Raspada, também conhecido como Dylan Shaykes, foi até a porta de vidro da igreja e olhou para o pai sentado no banco da frente.
– Todos nós temos o nosso Carniceiro.
Senti todo o meu corpo começar a tremer. Lembrei-me das palavras dele depois de Rachel ser baleada. Eu perguntara por que nós – Colherada, Ema, Rachel e eu – tínhamos sido escolhidos. “Por que vocês?”, respondera ele. E então, parecendo arrasado, acrescentara: “Por que eu?”
Engoli em seco.
– Você foi raptado ou salvo?
Ainda olhando para o pai, ele falou:
– Às vezes nem eu sei.
– Dylan?
Ele fechou os olhos.
– Não me chame assim.
– Meu pai ainda está vivo?
Ele ficou em silêncio.
– Vou para Los Angeles. Vamos abrir a sepultura do meu pai.
Dylan se virou na minha direção.
– O que descobriremos? – perguntei.
Ele pôs as mãos em meus ombros e sorriu.
– A verdade. – Soltou-me e começou a ir para o carro preto. – Boa sorte, Mickey.
– Onde está dona Morcega?
– Ela está bem. Voltará logo com outra missão para vocês.
– Meu amigo levou um tiro.
– Eu sei.
– Como ele está?
– Ele não está bem, mas...
– Mas o quê?
Dylan parou e voltou-se para mim.
– Há uma coisa que você deve saber sobre nós, sobre todos os escolhidos para o Abrigo Abeona.
Aguardei.
– O que é?
As portas da igreja se abriram e os paroquianos começaram a sair.
– Somos mais fortes do que pensamos – respondeu Dylan, acomodando-se no banco traseiro do carro preto. – E não importa aonde sejamos levados, sempre devemos buscar a verdade.