Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 21 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 21

EU NÃO TINHA DEVER DE CASA, por isso fiz uma busca na internet por imagens de Hans Zeidner e do Carniceiro de Lodz. Surgiram muitas fotografias apavorantes do gueto de Lodz. Eram todas em preto e branco. Eu diria que pareciam saídas de um pesadelo, mas acho que nem mesmo meus piores sonhos poderiam competir com aquilo. Muitas delas mostravam crianças assustadas e famintas. Pensei em Lizzy Sobek e me perguntei como devia ter sido a vida dela naquele gueto.

 

Só havia uma fotografia que podia ser do Carniceiro de Lodz.

Era a mais horripilante que eu já vira. Tinha sido tirada em novembro de 1941, no mercado Baluty, em Lodz. Dezoito judeus foram enforcados naquele dia, por tentarem escapar. Nessa imagem, três deles estavam pendurados pelo pescoço no que parecia ser uma barra que sustentava balanços. No fundo, avistei a multidão tristemente reunida – até mesmo crianças –, forçada a assistir àquilo como um alerta. E lá, em pé, bem perto das pessoas mortas, de costas para a câmera, se encontrava um homem com o uniforme da Waffen-SS.

De repente, tive dificuldade de respirar.

Desliguei o computador. Não havia mais nenhuma fotografia do rosto do Carniceiro. Então como dona Morcega tinha uma?

Tudo remetia a ela, não é? Dona Morcega havia me colocado neste caminho na primeira vez em que a vi, saindo por aquela porta com seus cabelos grisalhos compridos e vestido branco, apontando o dedo ossudo para mim...

Mickey? Seu pai não morreu. Ele está muito vivo.

Ei, espere.

Eu me lembrei de outra coisa. Quando vi Ema hoje, mais cedo, de algum modo ela me pareceu diferente. Eu não sabia dizer por quê, mas agora...

Peguei meu celular e enviei uma mensagem de texto para Ema. Dizia apenas “vc tá aí?”, porque podia haver outra pessoa em casa que bisbilhotasse as mensagens dela e ficasse zangado se alguém fizesse perguntas mais pessoais.

Ema respondeu rapidamente: o que aconteceu?

Eu: vou pra casa de dona morcega. quer ir?

Ema: não posso.

Aquilo era estranho. Em geral, Ema podia sair a qualquer hora.

Digitei: tá tudo bem?

Ema: tá. vamos amanhã depois da escola.

Eu estava prestes a lhe dizer que Rachel teria alta, mas então me recordei de que Rachel havia insistido: não conte a ninguém que te enviei uma mensagem. ninguém mesmo.

Isso também incluiria Ema? Não sei, mas a palavra ninguém parecera muito clara.

Digitei para Ema: não posso.

Eu ia perguntar sobre o que havia notado, o que achara diferente na aparência dela, mas queria conferir pessoalmente. Isso podia esperar.

Ainda pensando nos boatos que Colherada ouvira, acrescentei: vc tá bem?

Ema: sim. e vc?

Eu: também.

Houve uma pausa e então Ema escreveu: que troca de mensagens fantástica.

Dei uma gargalhada.

Ema: vc vai pra casa de dona morcega de noite sem mim?

Pensei sobre isso, mas não por muito tempo. Não podia apenas ficar sentado ali. Tinha que agir: sim.

Mais um intervalo. Então, chegou outra mensagem: tenha cuidado. estou com um mau pressentimento.