Uma Questão de Segundos
capítulo 29
A NAVALHA DE OCCAM.
Meu pai frequentemente repetia isso para mim. O princípio da navalha de Occam afirma o seguinte: “Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor.” Resumindo: a resposta mais simples é a melhor.
Então por que eu nem mesmo havia considerado a simples possibilidade de a fotografia de dona Morcega ter sido manipulada?
Enquanto eu caminhava para a casa de Rachel, eu sentia raiva de dona Morcega e de mim mesmo – principalmente de mim mesmo. Como eu podia ser tão crédulo? Nesta época em que qualquer idiota com um computador pode alterar uma imagem, por que eu havia me apressado a chegar à conclusão de que um nazista da Segunda Guerra Mundial não envelhecera nem um dia em quase setenta anos e agora trabalhava como paramédico em San Diego?
Que tipo de ingênuo estúpido eu sou?
O paramédico louro com olhos verdes não era o Carniceiro de Lodz. Não tinha 90 anos. Não era o mesmo homem que havia torturado e matado um grande número de pessoas na Polônia, na década de 1940, inclusive o pai de Lizzy Sobek. Ema simplesmente usara Photoshop no rosto do homem para tornar a fotografia atual e a enviar para San Diego, certo? Por que alguém não poderia fazer o oposto – pegar a foto de um homem na casa dos 30 e sobrepô-la a uma velha imagem em preto e branco?
Alguém – muito provavelmente dona Morcega ou Cabeça Raspada – me enganara com uma simples foto adulterada.
Por quê? E o que eu poderia fazer a respeito?
Isso teria que esperar. Naquele momento, eu precisava me concentrar em Rachel. Quando cheguei perto do terreno da casa dela, avistei uma viatura saindo. Escondi-me atrás de uma árvore. O chefe Taylor estava no banco do motorista. Não havia ninguém com ele. Quando passou por mim, parecia distraído e... assustado?
Eu não sabia o que concluir. Esperei o carro sair do meu campo de visão antes de me aproximar. O portão de entrada tinha se fechado depois que o chefe Taylor saiu. Apertei uma tecla no interfone e ergui os olhos para a câmera.
– Vou abrir para você – avisou Rachel.
Ela estava me esperando à porta da frente. Se não fosse pela atadura na lateral de sua cabeça, não daria para saber que tinha levado um tiro. É claro que a bala não havia penetrado na pele, só passado de raspão pelo couro cabeludo, mas de algum modo isso tornava tudo mais perturbador. Talvez um centímetro, não mais, havia sido a diferença entre ferimentos leves e a morte.
Esse pensamento me fez querer abraçá-la, mas aquilo não me pareceu certo.
– Fico muito feliz em ver que você está bem – falei.
Rachel deu um sorriso contido e beijou meu rosto. Usava uma blusa de manga curta que deixava visível a marca de queimadura. Sempre tive vontade de lhe perguntar como se queimara, porque aquilo ainda parecia doloroso, mas não era o momento. Seus olhos vermelhos me disseram que ela tinha chorado recentemente, talvez muito.
– Sinto muito por sua mãe.
– Obrigada.
– Acabei de ver o chefe Taylor sair.
Rachel fez que sim com a cabeça e franziu a testa.
– O que ele queria? – perguntei.
– Eu não sei. Ele tem falado muito com meu pai. Sempre que me aproximo deles, dizem que não é nada. Ah, e o chefe Taylor fica me perguntando do que eu me lembro.
O mesmo que fizera no hospital.
– Acredito que isso seja normal. Ele está investigando o que aconteceu.
– Acho que sim – concordou Rachel. Mas não pareceu convencida. – É só que isso é estranho.
– Estranho como?
– Ele parece tenso com alguma coisa.
Rachel encolheu os ombros e me conduziu pelo corredor. Nós paramos em uma porta aberta isolada por uma fita amarela de cena de crime. Dava para ver claramente que fora ali que tudo tinha acontecido. Ainda havia sangue no chão. Aproximei-me de Rachel. Ela começou a tremer. Coloquei meu braço ao seu redor e a puxei na minha direção.
– Por que não vamos para outro lugar? – perguntei da forma mais gentil possível.
– Não, tudo bem. Eu queria lhe mostrar isso.
A casa estava em silêncio.
– Quem está em casa com você? – indaguei.
– Ninguém.
Aquilo me surpreendeu.
– Onde estão seu pai e sua madrasta?
– Minha madrasta precisava de férias, felizmente. Ela está em um spa no Arizona. Meu pai está no trabalho. – Quando Rachel viu o olhar preocupado em meu rosto, fez um gesto com a mão como se dissesse “deixa pra lá”. – Acredite, é melhor assim.
Por um momento, nós dois apenas olhamos para o sangue no chão. Os olhos de Rachel se encheram mais uma vez de lágrimas. Sem saber o que dizer, perguntei:
– Quer me contar o que aconteceu?
– Eu causei a morte da minha mãe. Simples assim.
Agora eu realmente não sabia o que dizer. Voltei a falar, devagar e com cautela.
– Não vejo como isso pode ser verdade.
– Eu a fiz vir aqui. Coloquei minha mãe bem no fogo cruzado.
– Que fogo cruzado?
Rachel balançou a cabeça de um lado para o outro.
– Isso não importa mais.
– É claro que importa. Alguém tentou matar você, e na noite passada... – Eu me interrompi.
– Na noite passada o quê?
– Na noite passada, alguém tentou me matar.
O corpo dela se retesou.
– Do que você está falando?
Eu lhe contei sobre o Carniceiro e o incêndio na casa de dona Morcega. Rachel ficou imóvel, chocada.
– Ela está bem?
– Dona Morcega? Não sei. Não a vi.
– Não entendo.
Olhamos na direção do cômodo.
– Conte-me o que aconteceu – pedi.
– Não me lembro de tudo.
– Conte-me o que você lembra.
Virei-me para Rachel. A luz estava fraca, projetando uma sombra em seu rosto adorável. Desejei muito estender a mão, tocar em seu rosto e puxá-la para perto. Não fiz isso. Fiquei ali e esperei.
– Tenho que retroceder um pouco – disse Rachel. – Primeiro preciso explicar por que minha mãe estava aqui.
– Ok, sem pressa.
– Bem, na verdade, tem pressa, sim. – Ela quase sorriu. – Você não tem testes?
– Tenho tempo.
Rachel fitou a mancha de sangue no tapete.
– Eu fiquei zangada com minha mãe durante muito tempo. Achava que ela havia me abandonado.
Também olhei para o sangue.
– Minha mãe nos deixou quando eu tinha 10 anos. Meu pai me disse que ela continuava a me amar, mas que precisava “descansar”. – Rachel fez um sinal de aspas com os dedos. – Eu não sabia o que isso significava. Quero dizer, de certo modo ainda não sei. Só sabia que ela havia me abandonado. Meus pais se divorciaram e não vi minha mãe por três anos.
– Três anos? Nossa!
– Eu nem mesmo sabia onde ela estava.
Refleti sobre isso.
– No outro dia você me contou que sua mãe morava na Flórida.
– Isso não era totalmente verdade. Quero dizer, ela ficava na Flórida, pelo menos parte do tempo... – Rachel parou e balançou a cabeça. – Não estou contando direito.
– Tudo bem. Não se apresse.
– Bem, então onde eu estava? No divórcio. Quando voltei a ver minha mãe, eu tinha 13 anos. Um dia ela apareceu na saída da escola. Aquilo foi surreal, sabe? Ela estava em pé ali com as outras mães, sorrindo como... uma pessoa louca. Tinha uma aparência horrível. Usava batom vermelho em excesso e estava toda descabelada. Queria me levar de carro para casa, mas fiquei com medo dela. Telefonei para meu pai. Quando ele apareceu, houve uma cena horrível. Minha mãe ficou furiosa. Começou a gritar com meu pai, dizendo que ele a havia trancafiado e que sabia a verdade sobre ele.
A temperatura ambiente pareceu ter caído dez graus.
– O que aconteceu depois? – perguntei.
– Meu pai ficou quieto. Apenas continuou ali e a deixou berrar até que a polícia chegou. Foi terrível. Ela estava com o batom todo borrado, os olhos arregalados... como se nem mesmo pudesse me ver. Mais tarde, depois que ela foi embora, meu pai explicou que minha mãe não fugira simplesmente, mas havia tido um esgotamento nervoso. Disse que ela sempre sofreu de problemas mentais, mas quando fiz 10 anos se tornou maníaca e até mesmo perigosa. Falou que ela tinha passado os últimos três anos entrando e saindo de hospitais.
– Quando você diz perigosa...?
– Não sei o que meu pai quis dizer – apressou-se a responder Rachel. – Ele falou que minha mãe estava descontrolada. Falou que precisou obter uma ordem judicial para ela ser internada e receber tratamento. Fiquei muito confusa. Estava zangada, assustada e triste. Quero dizer, de certo modo aquilo fazia sentido... – Rachel balançou a cabeça. – Isso não vem ao caso. Só pensei: bem, minha mãe é louca. Meu pai, ele se esforça, eu acho, mas está distante. Aquilo não importava. Eu tinha meus amigos e a escola.
Rachel enfim tirou os olhos da mancha de sangue.
– Duas semanas atrás, deixaram minha mãe sair de novo. A essa altura havia todos os tipos de ordens judiciais para ela se manter longe de nós. Não podia me visitar sem a presença de uma assistente social, coisas desse tipo. Mas eu queria vê-la. Então, quando ela telefonou, nós nos encontramos em segredo. Não contei ao meu pai. Não contei a ninguém. – Rachel ergueu os olhos e um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. – Quando nos encontramos pela primeira vez, minha mãe me abraçou e, não sei, isso vai parecer estranho, mas voltei a ser uma criança feliz. Você entende o que eu estou falando?
Pensei no modo como minha própria mãe me abraçou.
– Sim.
– Percebi uma coisa: ninguém mais me abraçava. Não é estranho? Meu pai, bem, isso se tornou embaraçoso quando fiquei mais velha e os garotos nunca queriam apenas abraçar assim, se é que você me entende.
Eu gostaria de não saber. Assenti, sentindo um nó na garganta. Pensei em Troy e percebi o quanto aquilo era incrivelmente egoísta, por isso me forcei a parar.
– Então foi bom ver sua mãe – incentivei-a a continuar.
– Durante alguns dias, foi ótimo. E então algo deu errado.
– O quê?
– Minha mãe começou a endoidar de novo, disse que meu pai era um homem diabólico, que havia mentido sobre ela, a envenenado e dito a todo mundo que ela era louca só para se proteger. Ficou paranoica e começou a me perguntar se meu pai sabia que nós estávamos nos encontrando. Tentei tranquilizá-la, mas ela só ficava dizendo que ele a mataria se descobrisse.
Silêncio.
– O que você fez?
Rachel deu de ombros.
– Tentei acalmá-la. Perguntei sobre seus remédios. De certo modo eu não estava surpresa. Já tinha visto isso antes. Talvez eu também me culpasse.
– Por quê?
– Era como se eu achasse que, se tivesse sido uma filha melhor, talvez...
– Você sabe que esse não é o caso.
– Eu sei. Quero dizer, meu pai me explicou isso uma centena de vezes. Ela estava doente. Isso não era culpa minha ou dele, nem dela. Do mesmo jeito que a mãe de Cynthia Cooper teve câncer, a minha teve uma doença que atacava o cérebro. Ela não pôde evitar.
Pensei em minha própria mãe em uma clínica de reabilitação. Disseram-me o mesmo, que o vício dela em drogas era uma doença. Os especialistas falaram que não era uma questão de força de vontade e eu não deveria levar para o lado pessoal. Mas não importava quanto eu dissesse isso para mim mesmo, quanto ainda a amava e entendia o que acontecera com ela, uma parte de mim sempre achava que no fim das contas minha mãe preferira as drogas ao seu filho.
– Então eu olhei para aquela mulher que havia me criado, a última pessoa a demonstrar uma verdadeira ternura por mim, e de repente comecei a me perguntar algo estranho, algo que nunca havia considerado.
– O quê? – perguntei.
Rachel se virou para mim e vi que seus olhos estavam secos e límpidos.
– E se minha mãe não fosse louca? E se ela estivesse dizendo a verdade?
Fiquei em silêncio.
– E se meu pai realmente tivesse feito algo contra ela?
– Como o quê?
– Não sei. Ela continuava a falar que sabia algo de ruim sobre ele. E se estivesse dizendo a verdade? Meu pai não só a internou em um hospital para doentes mentais como se divorciou e casou de novo. Explicou para mim que, anos atrás, deixou de haver amor entre eles, que ele merecia ser feliz e tudo o mais. Ainda assim, era necessário trancafiá-la? Não podia ter encontrado outro jeito? Ela era minha mãe, a única mulher que havia me amado. Eu não deveria lhe dar pelo menos o benefício da dúvida? Se não acreditasse nela, em quem mais acreditaria?
– Então o que você fez?
Uma lágrima escapou de seu olho.
– Comecei a prestar mais atenção em meu pai.
– Como assim?
Ela balançou a cabeça.
– Isso não importa.
– O quê?
– A polícia diz que foi um invasor, talvez dois. Arrombadores ou algo assim. Veja bem, meu pai ia passar a noite fora, por isso chamei minha mãe para dormir na casa comigo. Ele teria ficado furioso se soubesse. Eu estava no quarto. Minha mãe estava aqui embaixo, vendo televisão. Era tarde. Eu estava falando ao telefone com você quando ouvi vozes. Achei que meu pai tivesse voltado para casa. Desci a escada. Fiz uma curva...
– E...?
Rachel encolheu os ombros.
– Não me lembro de mais nada. Acordei no hospital.
– Você disse que ouviu vozes?
– Sim.
– Mais de uma?
– Sim.
– De homem, mulher?
– De ambos. Uma era da minha mãe.
– E as outras?
– Eu disse para a polícia que não as reconheci.
– Mas?
– Não sei. Uma delas parecia... ser do meu pai.
Silêncio.
– Mas seu pai nunca atiraria em você – argumentei.
Ela não respondeu.
– Rachel?
– É claro que não.
– Você disse que começou a prestar mais atenção em seu pai. Para ver se sua mãe dizia a verdade. Descobriu alguma coisa?
– Isso não importa. A polícia disse que foi um invasor. Provavelmente apenas imaginei a voz do meu pai.
Mas agora eu podia sentir a incerteza em sua voz.
– Espere aí. No hospital, por que o chefe Taylor pediu para você não falar nada para a investigadora Dunleavy?
– Eu não sei.
Comecei a pressioná-la.
– E por que havia aquela borboleta na sua porta?
– Por que você acha?
Apenas olhei para ela.
– Você está trabalhando para o Abeona.
Rachel ficou calada.
– Como eu pude ser tão estúpido? – Quase dei um tapa na minha cabeça. – Não foi por acaso que você ajudou Ashley. Você sabia por que ela estava se escondendo na nossa escola, não é?
Mais uma vez, ela não respondeu.
– Rachel, depois de tudo por que nós passamos, você ainda não confia em mim?
– Eu confio em você – afirmou ela em um tom ríspido – como você confia em mim.
– O que você quer dizer?
– Vai me dizer que me contou tudo? Vai me dizer que confia em mim tanto quanto em Ema?
– Ema? O que ela tem a ver com isso?
– Em quem você confia mais, Mickey? Em mim ou em Ema?
– Isso não é uma competição.
– É claro que não – retrucou ela, sua voz cheia de sarcasmo. – Certo. – Rachel balançou a cabeça. – Falando em estupidez, eu não devia ter lhe contado nada.
– Rachel, me escute. – Coloquei as mãos em seus ombros e a virei de frente para mim. – Quero ajudá-la.
– Não quero a sua ajuda.
Ela se afastou de mim.
– Mas...
– O que está acontecendo aqui?
Olhei por cima do meu ombro. Um homem de terno estava ali, com o punho cerrado.
– Pai? – falou Rachel.
Quando me virei na direção do pai de Rachel para me apresentar, ele enfiou a mão na jaqueta e sacou uma arma. Apontou-a diretamente para meu peito.
Epa.
– Quem é você?
Meus joelhos ficaram moles como borracha. Ergui as mãos. Rachel se pôs na minha frente e exclamou:
– O que você está fazendo? Ele é meu amigo!
– Quem é ele?
– Eu já disse. É meu amigo. Abaixe isso!
O pai dela me olhou de alto a baixo, com aquela arma apontada. Eu não sabia o que fazer. Fiquei ali com as mãos no ar, tentando não tremer. Rachel estava bloqueando meu caminho. Mesmo em pânico, senti-me acovardado. Queria tirá-la da minha frente, mas também temia fazer movimentos bruscos.
Enfim, o Sr. Caldwell abaixou a arma.
– Desculpe. Acho... acho que ainda estou tenso.
– Desde quando você carrega uma arma? – perguntou Rachel.
– Desde que minha filha e minha ex-esposa foram baleadas aqui em casa. – O Sr. Caldwell olhou para mim. – Sinto muito... – Ele parou, como se tentasse lembrar meu nome.
– Mickey – apresentei-me. – Mickey Bolitar.
– Rachel, não me recordo de você mencionar algum Mickey.
– Ele é um novo amigo – explicou Rachel.
Senti uma irritação no tom dela. O Sr. Caldwell também. Pensei que ele fosse perguntar algo mais, mas, em vez disso, se virou para mim.
– Mickey, sinto muito pela arma, de verdade. Como Rachel deve ter lhe dito, tivemos um incidente aqui.
Ele esperou que eu respondesse, mas não o fiz. Rachel deveria ter me dito? Eu não sabia, por isso não confirmei nem neguei que sabia do assassinato.
– Alguém invadiu nossa casa e atirou em minha filha e na mãe dela – contou ele. – Rachel acabou de receber alta do hospital e eu ordenei para não deixar ninguém entrar na casa, por isso quando vi vocês dois discutindo...
– Eu entendo – falei.
Eu não sabia ao certo se entendia. O homem tinha uma arma. Ele a havia sacado e apontado para mim. Eu estava tendo dificuldade em concatenar meus pensamentos.
– Você precisa ir agora – lembrou Rachel. – Sei que tem seus testes de basquete.
Assenti, mas não gostava da ideia de deixá-la sozinha com... seu pai? Examinei o rosto de Rachel, mas ela me deu as costas e se dirigiu à porta. Quando passei pelo Sr. Caldwell, ele me estendeu a mão. Eu a apertei. Ele a segurou com firmeza.
– Prazer em conhecê-lo, Mickey.
É, pensei, nada como apontar uma arma para alguém em seu primeiro encontro. Isso que é “prazer”.
– O prazer foi meu – respondi.
Rachel abriu a porta. Não disse adeus. Não disse que nos falaríamos depois. Fechou a porta atrás de mim, ficando sozinha lá dentro com o pai.
Eu havia começado a andar pelo meio da rua, perdido em meus pensamentos, quando ouvi um carro desacelerando ao se aproximar de mim. Vi dois caras assustadores me olhando de um modo hostil. O cara no banco do carona usava uma bandana e tinha uma longa cicatriz na bochecha direita. O motorista tinha óculos de aviador escondendo seus olhos. Senti cheiro de perigo. Engoli em seco e apressei o passo. O carro acelerou e me acompanhou.
Eu estava prestes a virar bruscamente para a calçada quando o cara com a cicatriz abaixou a janela.
– Aquela é a casa dos Caldwells? – perguntou.
Ele apontou para a residência. Eu não sabia o que dizer, mas achei que poderia confirmar, pois havia um portão de segurança. Assenti.
O cara com a cicatriz não se deu o trabalho de agradecer. O carro se dirigiu ao portão. Fiquei ali e observei, mas então Scarface se virou e me encarou de novo.
– Está olhando o quê?
Comecei a me afastar. De qualquer maneira, eles não passariam pelo portão.
Arrisquei-me a dar uma espiada e vi o portão se abrir. Scarface e seu amigo passaram por ele.
Não gostei disso. Não gostei nem um pouco.
O carro parou e os dois homens saltaram. Peguei meu telefone, pronto para discar 911 ou pelo menos ligar para Rachel. Preveni-la. Mas preveni-la do quê? Eles se dirigiram à porta. Sem raciocinar, comecei a correr na direção da casa dela, mas a porta da frente se abriu e vi o Sr. Caldwell sair. Ele sorriu e cumprimentou os homens. Claramente, eles se conheciam. Houve muitos sorrisos e tapinhas nas costas.
Então o Sr. Caldwell entrou no carro e todos foram embora juntos.