Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 30 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 30

MEIA HORA DEPOIS DE TER uma arma apontada para mim, eu estava no vestiário trocando de roupa para os testes do time principal. Mal podia esperar. Agora, mais do que nunca, precisava do maravilhoso escape que só encontrava na quadra de basquete. Enquanto amarrava os cadarços dos meus tênis de cano alto, senti o estômago embrulhar.

 

Eu estava nervoso.

Não que eu tivesse algum amigo na quadra no dia anterior, mas sabia que aqueles caras do time principal realmente me odiavam. Do outro lado do vestiário, pude ouvir um grupo de garotos, inclusive Troy e Buck, rindo. O som pareceu estranho aos meus ouvidos. Algum dia eu seria parte daquilo? Algum dia seria bem-vindo?

Era difícil imaginar isso.

Terminei de me vestir e respirei fundo. Para passar o tempo, enviei um torpedo para Rachel e mais uma vez quis saber se ela estava bem. Rachel garantiu que sim e que torcia por meu sucesso nos testes. Eu estava prestes a guardar meu telefone quando ele vibrou de novo. Achei que veria mais uma mensagem de Rachel, porém era Ema me desejando boa sorte.

Sorri. obrigado. Então acrescentei: adivinhe?

Ema: o quê?

Eu: a fotografia do velho nazista. usaram photoshop nela. não era o carniceiro.

Ema: NÃO É POSSÍVEL!

Um apito soou a distância. Expliquei rapidamente o que acontecera em mais um torpedo e depois guardei o celular. Estava na hora de ir para a quadra. Quando abri a porta do ginásio, foi como uma daquelas cenas de filme em que o cara entra em um bar e tudo fica em silêncio. Todas as bolas pararam de quicar. Os arremessos foram interrompidos. Tive a sensação de que todos os olhos estavam fixos em mim. Meu rosto ficou vermelho.

Com a cabeça abaixada, corri na direção da cesta livre no canto.

As bolas começaram a quicar de novo e a bater nos aros. Era com isso que eu sempre havia sonhado – ser parte de um time escolar – e acho que nunca me senti tão deslocado. Fui fazendo arremessos e pegando meus próprios rebotes. Desejei saber como Troy e Buck estavam reagindo à minha presença. Arrisquei um olhar de relance para eles.

Troy estava sorrindo para mim de um modo que não gostei.

– Bem, isso é estranho – disse alguém atrás de mim.

Virei-me na direção da voz. Era Brandon Foley, com seus mais de 2 metros. Ele era uma das poucas pessoas com quem eu só conseguia conversar erguendo a cabeça. Não havia muitas pessoas naquela escola para as quais eu tinha de erguer a cabeça para conversar, mas Brandon era uma delas.

– O quê? – perguntei.

– Troy parece feliz – comentou Brandon. – Achei que ele ia ficar furioso em ver você aqui.

Eu não soube como responder. Brandon estendeu a mão.

– Sou Brandon Foley.

– É, eu sei. Sou Mickey Bolitar.

– Bem-vindo.

– Obrigado.

– Troy não é tão ruim.

Mais uma vez, achei melhor não responder. Brandon fez um arremesso e encestou a bola. Atirei-a de volta para ele. Seguimos um bom ritmo e continuamos a arremessar. Não falamos muito. Não era preciso.

– Mickey?

Era Stashower.

– O treinador Grady quer que você vá à sala dele.

Stashower desapareceu. Olhei para Brandon. Ele encolheu os ombros.

– Provavelmente o treinador quer apresentá-lo para o time ou algo do tipo.

– É – concordei, esperando que ele estivesse certo. – Obrigado por fazer arremessos comigo.

– De nada.

Ao sair da quadra, vi Troy pelo canto do olho. O sorriso dele pareceu ainda maior.

Corri para a sala de Grady.

– Queria me ver, treinador?

– Sim, Mickey. Entre, feche a porta e se sente.

Fiz o que ele pediu. Grady usava calças de moletom cinza e uma camisa polo com o camelo de Kasselton. Por alguns instantes, ele permaneceu calado. Ficou com a cabeça abaixada, olhando para a escrivaninha.

– Você leu isto, Mickey?

– O quê, treinador?

Com um grande suspiro, Grady se levantou de sua cadeira. Veio até mim e me entregou o manual do estudante da Kasselton High School. Olhei para o livro e depois para ele.

– Você leu? – perguntou ele de novo.

– Dei uma olhada, eu acho.

Ele voltou a se sentar à escrivaninha.

– Leu a parte sobre conduta?

– Acho que sim.

– No ano passado, dois seniores do time de futebol americano foram pegos bebendo cerveja perto do campo. Foram suspensos por seis jogos. Um garoto do time de hóquei se meteu em uma briga em um cinema. Foi fora do espaço da escola, mas isso não importava. Ele foi expulso do time. Temos uma política de tolerância zero. Você entende isso, não é?

Assenti lentamente. Pensei no sorriso de Troy. Agora eu entendia o que significava.

– Você foi preso na noite passada, não foi, Mickey?

– Mas eu não fiz nada.

– Isto não é um tribunal. Os garotos que foram pegos bebendo não foram levados a julgamento. Todas as acusações contra o jogador de hóquei que se meteu na briga foram retiradas. Aquilo não importou. Você entende isso, não é?

– Mas a prisão foi um mal-entendido.

– E seu pequeno atrito com Troy Taylor na semana passada?

Senti meu coração afundar.

– Nós já falamos sobre isso – repliquei, ouvindo o pânico em minha própria voz.

– Certo, e pude lhe dar o benefício da dúvida. Mas falei com o chefe Taylor hoje. Ele me contou que na semana passada você se envolveu em vários incidentes. Disse que você dirigiu um carro sem ter idade suficiente para possuir uma carteira de motorista. Que você usou uma identidade falsa para entrar em uma boate. Apenas uma dessas infrações já o faria ser expulso do time.

O medo apertou meu peito.

– Por favor, treinador Grady, posso explicar tudo.

– Você fez essas coisas ou o chefe Taylor está mentindo?

– Não é tão simples assim.

– Sinto muito, Mickey, mas estou de mãos atadas.

– Treinador. – Pude ouvir a súplica em minha voz. – Por favor, não...

– Você está fora do time.

Engoli em seco.

– Por quanto tempo?

– Por toda a temporada, filho. Sinto muito.