Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 23 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 23

EU NÃO CONSEGUIA respirar.

 

Dessa vez não havia a menor dúvida: era o mesmo homem da fotografia antiga – e ele não havia envelhecido nem um dia.

Por um tempo, meu cérebro simplesmente travou. Não me perguntei como aquilo era possível. Não me perguntei se estava sonhando. Não pensei em correr atrás dele, gritar ou qualquer outra coisa. Fiquei apenas paralisado, fitando os mesmos olhos verdes com contorno amarelo que vi no dia em que meu pai morreu.

Quando ele se afastou da cortina, meu cérebro destravou. Por apenas um segundo, ergui os olhos para a janela e pensei na possibilidade de minha mente estar me pregando peças.

Não havia como.

Corri de volta para a porta e dessa vez não hesitei. Inclinei meu ombro e me joguei contra ela. A porta só cedeu um pouco, a madeira se partindo em lascas. Lutei contra elas, passando pela abertura. Fiquei parado no vestíbulo da frente. A sala de estar ficava à minha esquerda. A vitrola ainda tocava. Na lareira, vi aquela mesma fotografia dos hippies com as camisetas de borboleta.

Ouvi um barulho acima de mim.

Ele ainda estava no andar superior.

Ok, e agora?

Eu podia muito bem esperar ali, não é? Ele teria que descer a escada. Eu só precisava aguardar e exigir respostas.

Isso realmente daria certo?

Não sabia, mas ocorreu-me um pensamento. Precisava de ajuda e logo pensei em uma pessoa: tio Myron.

Isso me surpreendeu, mas, afinal, quem mais eu tinha? Ema e Colherada não poderiam vir em meu socorro. Se eu telefonasse para o Sr. Waters, bem, eu havia acabado de invadir uma casa, certo? Poderia ser preso.

Outro barulho no andar superior.

Agarrei o celular e liguei para Myron. Ele atendeu no segundo toque.

– Mickey?

– Estou na casa de dona Morcega – sussurrei.

– O quê? Por quê?

– Não posso explicar. Por favor, venha para cá. Preciso de ajuda.

Esperei mais perguntas, mas elas não vieram.

– Chegarei em quinze minutos – avisou ele.

Desliguei.

E agora?

Espere. Fique perto da escada e espere. Ou Myron chegará a tempo e subiremos a escada juntos ou o Carniceiro terá que descer.

Mas suponha que dona Morcega esteja lá em cima. Suponha que ele a tenha atacado ou feito coisa pior.

E se, naquele exato momento, ele a estivesse estrangulando? Eu ia apenas ficar ali e deixar isso acontecer?

Olhei para a velha escada. Nem mesmo parecia capaz de sustentar meu peso. Ainda estava decidindo o que fazer quando um som decidiu por mim.

No andar superior, ouvi uma janela se abrir com um rangido.

Era o Carniceiro tentando fugir?

Não, nem pensar. Não havia como eu deixar aquele cara fugir quando eu o havia encurralado.

Subi a escada correndo. Parte do meu cérebro me dizia para ir mais devagar, ser cauteloso, não subestimar meu oponente. Sim, eu era jovem, mas tinha treinado em todo o mundo como lutar.

O que meu treinamento me aconselhava agora?

Isso não importava, porque, quando cheguei ao corredor acima, fiquei paralisado com o que vi. Meus pés pareciam pregados ao chão.

– Que diabo...?

Não sei o que eu esperava. Acho que algo igual ao andar inferior: escuro, sombrio, talvez com um velho papel de parede e castiçais antigos pendurados nas paredes. Mas não foi o que vi.

Vi fotografias. Centenas. Não. Milhares. Milhares e milhares de fotografias.

O corredor estava totalmente coberto de imagens de crianças e adolescentes. Elas estavam por toda parte, em todos os espaços disponíveis, não apenas ocupando as duas paredes de alto a baixo, mas até mesmo coladas no teto.

Estendi minha mão e as toquei. Havia fotos em cima de fotos. Camadas e camadas delas – eu não sabia dizer quantas. Eram de vários tamanhos. Em preto e branco, coloridas, desbotadas e ainda vibrantes. Algumas alegres, outras tristes. As crianças eram de todas as raças, credos, nacionalidades e até mesmo gerações.

As duas portas do quarto estavam entreabertas, o que talvez explicasse a corrente de ar que parecia haver naquele corredor. Algumas das imagens começaram a se soltar, caindo aos meus pés. Uma era de um garotinho com no máximo 9 anos, cabelos cacheados e olhar triste. Por alguma razão o menino me pareceu familiar.

Algo no rosto dele...

Outra fotografia pousou com delicadeza perto dessa. E depois mais outra. Olhei para baixo e vi uma que me espantou.

Era de Ashley na escola – minha ex-namorada que todos nós tínhamos salvado na Go-Go Lounge Plano B.

Fitei o rosto bonito dela, perdido por um segundo, confuso.

Um som no fim do corredor me tirou do estupor. Não era hora de me preocupar com um punhado de imagens. Pelo menos ainda não. Depois daquela série de fotografias, ficava a porta do quarto de dona Morcega.

Ele – o Carniceiro, o Paramédico, fosse quem fosse – estava naquele cômodo.

Dirigi-me para lá. Os retratos ainda caíam das paredes e do teto, quase como se fossem pele descascando. Vários caíram sobre meu rosto. Ergui minha mão como um escudo e cheguei à porta. Fiquei em dúvida sobre como entrar e depois simplesmente empurrei-a.

O quarto estava vazio.

Não havia mais vento porque alguém acabara de fechar a janela. Ou essa pessoa tinha saído por ela ou ainda estava no quarto.

Corri para lá, fechando a porta atrás de mim. Se ele tivesse conseguido pular, não poderia ter ido longe. Teria que estar no quintal. Olhei pela janela.

Nada.

O medo me fez gelar. Nada. Isso significava que ele ainda estava naquele quarto. Aos poucos, dei as costas para a janela.

O cômodo tinha um papel de parede amarelo ou velho; não dava para saber. Na mesinha de cabeceira, havia duas fotografias. Uma delas era em tom sépia e eu já vira antes – a família Sobek antes do início da Segunda Guerra Mundial. Samuel, Esther, Emmanuel e a pequena Lizzy. A outra imagem estava desbotada: era de dona Morcega, na casa dos 50 ou 60, em pé ao lado de uma árvore com aquele mesmo garotinho de olhar triste e cabelos cacheados cuja foto eu acabara de ver no corredor.

Fiquei imóvel e me esforcei para ouvir algum som.

Onde o Carniceiro estava escondido?

Fiquei bem perto da cama e, por um momento, perguntei-me se ele estaria debaixo dela. Olhei de relance para meus pés, começando a achar que aquele seria um esconderijo muito óbvio, quando duas mãos agarraram meus tornozelos e me puxaram com força.

Soltei um grito e perdi o equilíbrio. Meu cotovelo bateu na mesinha de cabeceira, derrubando a luminária e mergulhando o quarto na escuridão total enquanto eu aterrissava no piso de madeira.

As mãos continuaram a puxar, me arrastando.

Em pânico, comecei a chutar, esperando atingir algo ou talvez libertar meus tornozelos. Mas ele continuava a agarrá-los. Eu não conseguia ver nada. Só sentia que era puxado.

Meu corpo estava quase todo debaixo da cama.

Afinal, o que ele tentava fazer?

Eu não sabia e não estava interessado em saber. Queria me libertar. Chutei, me contorci e gritei até que enfim liberei um tornozelo, e depois o outro. Corri até o canto oposto. Fiquei encolhido ali, com os joelhos no peito, esperando.

Não tinha certeza de qual seria meu próximo movimento. Meus olhos ainda não estavam acostumados à escuridão. Mantive as mãos em uma posição defensiva. Meu adversário ainda estava no quarto, mas eu não sabia onde. Tinha que estar preparado. Mais uma vez tentei ficar imóvel e ouvir, mas agora minha respiração estava alta demais.

Então a porta do quarto rapidamente se abriu e fechou.

Levantei-me e corri na direção dela. Desajeitado, agarrei a maçaneta...

E ela não se moveu.

Tentei girá-la com mais força, mas não deu certo. Do outro lado da porta ouviu-se um estalido. Cheirei o ar e senti algo que me fez arregalar os olhos. Recuei e de novo usei meu ombro. Nada. Dei um passo para trás e me atirei sobre a porta outra vez.

A porta abriu. Tropecei e caí no meio do corredor com todas aquelas fotografias.

E elas estavam em chamas.

O fogo se alastrava, as labaredas rapidamente subindo pelas paredes até o teto, o papel fotográfico agindo como querosene. As fotografias estalavam, encolhiam e escureciam, enchendo o corredor de fumaça. As labaredas logo me ladearam, bloqueando meu caminho de volta para o quarto. Usei o braço para cobrir a boca e procurei uma saída.

Eu estava cercado por paredes de chamas.

Lembrei-me de uma dica de uma palestra sobre segurança a que assisti quando estava na quarta série: permaneça abaixado e engatinhe. Fiz isso, mas sem saber se iria adiantar. O fogo estava por toda parte e o calor era insuportável. A fumaça começava a me sufocar. O caminho de volta para o quarto fora engolido pelas chamas – e ocorrera o mesmo com o trecho até a escada.

Enquanto o fogo se aproximava, vi uma abertura à minha direita.

Um vão de porta.

Rolei para o que achei ser um quarto de hóspedes. Não consegui ver muito – ainda estava abaixado e a fumaça era densa –, mas pude perceber que, ao contrário do restante da casa, o cômodo era vivamente pintado de vermelho, amarelo e azul. Meus olhos começaram a lacrimejar por causa da fumaça. Tentei prender a respiração e me arrastei um pouco mais. Minha mão tocou em algo... esponjoso, talvez? Borrachudo? Ouvi um guincho e olhei para baixo.

Era um pato de borracha. O chão estava coberto de brinquedos.

Não tive tempo nem para registrar minha confusão. O fogo entrou rugindo no quarto como se estivesse me seguindo. Rolei sobre minhas costas e chutei as chamas que lambiam avidamente meus pés. Minhas costas bateram em uma parede.

Eu estava encurralado.

Em segundos, as chamas me engoliriam por completo. Gostaria de poder dizer o que pensei naquele momento, com a morte me rondando. Não acho que minha vida passou diante de meus olhos. Nem mesmo acho que visualizei minha mãe na reabilitação, meu pai no acidente ou algo desse tipo. O medo – puro medo – dominou todos os meus pensamentos, menos um.

Eu tinha que encontrar um modo de sair dali.

Consegui abrir meus olhos lacrimosos. As chamas estavam mais perto. Olhei para cima e, em meio à densa fumaça, vi uma janela.

Li em algum lugar que nenhum computador pode superar o cérebro humano na rapidez de certos cálculos. O que aconteceu depois talvez tenha levado um décimo de segundo, provavelmente menos. Na minha mente, veio à tona a imagem da fachada da casa de dona Morcega – a vista da rua – e logo me lembrei da posição das janelas do segundo andar. Eu me dei conta de onde estava, a que altura e de que se saísse por essa janela chegaria ao topo da varanda da frente.

Com as chamas quase sobre mim, pulei para a janela e a puxei para cima.

Ela não se moveu.

Dava para ver que não havia nenhuma trava. A janela estava emperrada.

Sem tempo para pensar ou tentar algo mais, bati minhas costas com força no vidro. Senti a janela se estilhaçar enquanto eu caía para fora. O oxigênio alimentou o fogo, mas fiquei deitado no telhado. As chamas se projetaram sobre mim.

O telhado era inclinado e comecei a escorregar. Usando as mãos para encontrar a borda, deixei-me levar pela força da gravidade. Ao começar a cair, torci o corpo para que meus pés ficassem abaixo de mim. Aterrissei no quintal da frente e rolei. Depois fiquei em pé e olhei para a casa.

Ela fora totalmente engolida pelas chamas.

Ao longe, ouvi sirenes. Não tinha a menor ideia do que fazer. Eu me virei para a esquerda, não vi nada, me voltei para a direita e ali, encarando as chamas, estava o Carniceiro.

Por um momento, olhei para ele, sem conseguir me mover. Eu estava bem fisicamente. Talvez com um arranhão ou uma queimadura de pouca importância, mas sabia que ficaria bem. Talvez eu estivesse tomando fôlego, talvez aturdido demais. Mas continuei ali sem me mover, a menos de 5 metros do homem que levara meu pai embora e acabara de tentar me matar.

As sirenes soaram de novo e de repente o Carniceiro se virou e saiu correndo.

Aquilo me tirou do atordoamento. Pensei de novo: não, de jeito nenhum. Não o deixaria fugir. O Carniceiro podia ser rápido, porém eu era mais, e tinha a vontade a meu favor. Não havia como ele escapar impune daquilo.

Achei que o Carniceiro se dirigiria ao bosque, só que ele foi para o quintal vizinho. Não hesitei. Não mais. Corri com todas as minhas forças atrás dele. Atravessamos três quintais em disparada.

Eu estava me aproximando cada vez mais.

Ouvi vozes atrás de mim. Alguém gritou “Pare!”. Não parei. Só obedeceria quando o Carniceiro obedecesse. Ele pulou sobre uma sebe. Fiz o mesmo. Apenas 3 metros nos separavam quando ele enfim entrou no bosque. Aquilo não iria adiantar. Eu estava ali. Iria alcançá-lo, derrubá-lo e...

Caí com força. Alguém me atacara. Estava sentado em cima de mim.

– Pare! Polícia!

Olhei para o rosto... do chefe Taylor!

– Não se mova! – gritou.

– Solte-me! Você tem que ir atrás dele!

Mas ele me ignorou.

– Eu disse “não se mova”. Fique deitado no chão e ponha as mãos em sua cabeça.

– Ele está fugindo!

– Agora!

Taylor começou a me virar de barriga para baixo. Deixei que me virasse e continuei a lutar, a tentar tirá-lo de cima de mim. Ergui-me de um pulo.

– Não podemos deixá-lo ir! – berrei, virando-me na direção do bosque.

Porém, agora havia mais dois policiais. Um agarrou minhas pernas, o outro me golpeou no tronco. Caí de novo no chão. Taylor estava em pé acima de mim, com o rosto vermelho de raiva. Ele recuou como se para me chutar, e então ouvi outra voz gritar:

– Fique longe dele, Ed!

Era tio Myron.

Taylor se virou. Tentei me levantar e continuar a correr atrás do Carniceiro, porque não havia tempo para me explicar, não mesmo, e pensei que a polícia me seguiria e eu poderia fazer isso depois. De fato consegui me desvencilhar, mas, quando olhei para o bosque, não havia ninguém, nenhum som. Hesitei, procurando pelo Carniceiro, dando à polícia uma nova chance de me agarrar.

Contudo, não adiantava mais lutar.

A noite estava silenciosa. A casa de dona Morcega ardia, desmoronada. E o Carniceiro se fora.