Uma Questão de Segundos

Harlan Coben · Capítulo 10 de 53

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Uma Questão de Segundos

capítulo 10

RISADINHAS DE ALGUNS COLEGAS acompanharam Colherada quando ele se aproximou do meu armário, no fim do dia escolar.

Eu o encarei por um momento.

– O que você está usando? – perguntei.

Colherada franziu a testa.

– O que parece ser?

– Uniforme cirúrgico.

– Exatamente – confirmou Colherada. Ele deu um grande sorriso. – É o disfarce perfeito para entrarmos no hospital. Viu, posso fingir que sou médico.

Sou alto. Tenho mais de 1,90 metro e cerca de 90 quilos. Colherada era baixo e muito magro. Dava até a impressão de que um vento forte poderia lhe quebrar um osso. Seus óculos nunca estavam bem posicionados e pareciam grandes demais no seu rosto.

Posso facilmente passar por um garoto com mais de 16 anos. Colherada ainda podia comprar ingressos para o cinema com desconto para crianças com menos de 12 anos sem que o caixa da bilheteria desconfiasse.

– Então vamos visitar Rachel? – perguntou Colherada.

– Sim – respondi.

Ele deu um sorriso largo.

– Pode me chamar de Dr. Colherada. Sabe, para mantermos o disfarce. – Ele olhou de relance para a esquerda e a direita. – Onde está Ema?

Eu me perguntava o mesmo. Esquadrinhei o corredor à procura dela. Nada. Eu havia lhe mandado uma mensagem para se encontrar conosco ali e pegarmos o ônibus juntos, mas ela não respondera.

– Não sei – respondi.

– Então somos apenas você e eu?

– Acho que sim. Espere, pensei que você estivesse de castigo.

– Sim, mas hoje tenho uma reunião na FUMA.

– Ahn?

– Fundação Musicais que Adoro. Não gosto de me gabar, mas sou o fundador e presidente do clube.

Putz.

– Quantos membros esse grupo tem? – perguntei.

Colherada pareceu confuso.

– Era para ter outros membros?

Fechei meu armário.

– Quer entrar para o grupo? – perguntou ele. – Você pode se candidatar a vice-presidente. Você adora musicais, não é? Na próxima semana meu pai vai levar todo o grupo para assistir ao novo musical de Frank Wildhorn. Você sabe quem ele é? De O médico e o monstro? O pimpinela escarlate? Adoro a canção “This Is the Moment”... Você também?

Ele começou a cantá-la.

– É – respondi, para que ele parasse. – Adoro.

Enviei rapidamente outra mensagem para Ema: POR FAVOR, VENHA COM A GENTE.

Nenhuma resposta.

Dei outra olhada para o corredor e suspirei.

– Acho que somos apenas você e eu.

– Shrek e Burro! – gritou Colherada.

– Ah, sim.

– Melhor ainda. – Colherada estalou os dedos. – Dom Quixote e Sancho Pança! Você sabe quem eles são? Esqueça o livro, estou falando sobre o musical, O homem de La Mancha. Você é o bravo Dom Quixote e eu sou seu fiel escudeiro, Sancho. A propósito, a peça ganhou o prêmio Tony de Melhor Musical em 1966, mas provavelmente você sabia disso, não é?

Eu não sabia do prêmio – quem sabia? –, mas o estranho é que conhecia o musical e a história. Dessa vez a analogia de Colherada fazia total sentido: Dom Quixote tinha alucinações e, bem, era louco.

Dei mais uma olhada pelo corredor em busca de Ema. Nada.

– Vamos – chamei.

Dr. Colherada e eu andamos na direção do ponto de ônibus na Northfield Avenue. Quando fizemos a curva, quase chorei de alívio. Lá, esperando no ponto com um ar impaciente, estava Ema.

Corri para ela e a abracei.

– Ema!

Ela pareceu surpresa com o abraço. Também fiquei.

– Você veio!

– É claro que vim. Se vocês dois fizerem isso sozinhos, vão estragar tudo.

Colherada veio e se juntou ao abraço. Quando nos largamos, Ema olhou para a roupa de Colherada e depois para mim. Dei de ombros.

Colherada abriu os braços.

– Gostou? Sexy, não é? Como o personagem de uma série.

– O Dr. McPesadelo – retrucou Ema.

Depois que entramos no ônibus, contei a Ema e Colherada sobre meu encontro com Cabeça Raspada no carro preto. Eles ouviram em silêncio. Quando chegamos ao Saint Barnabas Hospital, tentamos a maneira direta: simplesmente entrar. Não funcionou, o que não foi de surpreender. Havia um balcão na frente, onde era preciso apresentar uma carteira de identidade com foto e um motivo para estar ali, vários seguranças e até mesmo um detector de metais.

Ema franziu a testa.

– Enfim, quem iria querer entrar em um hospital?

– As pessoas roubam suprimentos médicos – respondeu Colherada. – Tentam roubar computadores, remédios ou registros...

– Foi uma pergunta retórica, Colherada.

– Ah.

Ela o olhou de novo.

– Espere, há um estetoscópio em seu pescoço?

– Sim. Por quê? – confirmou Colherada, bastante satisfeito consigo mesmo. – É parte do meu disfarce.

– Onde você conseguiu...?

Ema me olhou. Limitei-me a balançar a cabeça, como se dissesse Não vale a pena. Ela desistiu.

– E agora? – perguntei.

– Sigam-me – falou Colherada.

Nós obedecemos. Saímos, demos a volta e fomos até os fundos. Havia uma grande porta de metal que só se abria por dentro. Colherada bateu três vezes, parou e bateu mais duas vezes. Esperamos. Ele ergueu as sobrancelhas e depois deu mais duas batidas.

Um homem usando um macacão de zelador abriu a porta e nos olhou de cara feia.

– O que vocês querem?

– Sr. Tansmore? Sou eu, Arthur. – Então Colherada tirou o estetoscópio do pescoço, como se o Sr. Tansmore não pudesse reconhecê-lo em seu disfarce inteligente. – Arthur Spindel.

Eu tinha me esquecido de que o nome verdadeiro de Colherada era Arthur, embora só tivesse lhe dado esse apelido alguns dias atrás.

– Ah, oi, Arthur – disse o Sr. Tansmore. Ele olhou para fora a fim de se certificar de que não havia ninguém na área. – Entrem. Rápido.

Foi o que fizemos.

– Está vendo? – sussurrou-me Colherada. – A rede de zeladores.

O Sr. Tansmore nos conduziu pela escada até o porão. Quando chegamos ao degrau de baixo, virou-se e disse, com sua voz grave:

– Você não está aprontando alguma, está, Arthur?

– Não, senhor.

Tansmore não ficou satisfeito, mas também não pareceu muito interessado.

– Se vocês forem apanhados...

– Nunca ouvimos falar no senhor – completou Colherada. – Não se preocupe.

– Está bem. Esperem cinco minutos aqui e então façam o que precisam fazer.

– Obrigado – agradeceu ele.

– Certo. Certifique-se de que seu pai sabe...

– Já cuidei disso.

Olhei para Ema, que deu de ombros. Fazemos muito isso perto de Colherada.

– Alguma novidade sobre Rachel Caldwell? – perguntou ele.

Tansmore apenas balançou a cabeça.

– E o quarto em que ela está?

– Não sei. Ela tem menos de 18 anos, não é?

– É.

– Então deve estar na ala pediátrica. Provavelmente no quinto ou sexto andar. Tenho que voltar ao trabalho.

Ele nos deixou sozinhos no porão.

– O que foi aquilo de “certifique-se de que seu pai sabe” e “já cuidei disso”? – perguntei.

– Tem a ver com a rede de zeladores – explicou Colherada em um sussurro. – Mas jurei segredo.

Ele contou cinco minutos em seu relógio, então nos levou para fora do porão. Quando chegamos ao primeiro andar, Ema perguntou:

– E agora?

Colherada refletiu.

– Precisamos encontrar um terminal de computador.

Isso não foi fácil. O primeiro andar era quase todo de escritórios administrativos, mas todos estavam ocupados ou com alguém perto. Não podíamos simplesmente entrar e usar um.

– Talvez a gente deva ir para a ala pediátrica no quinto andar – sugeriu Colherada.

Podia ser que funcionasse. Não era um plano muito bom, porém eu não sabia o que mais poderíamos fazer. Pegamos o elevador, viramos à esquerda e depois à direita e entramos na ala pediátrica. O contraste era surpreendente. A parte principal do hospital era decorada em tons de bege e cinza banais, condizentes com a atmosfera. A ala pediátrica tinha cores vivas, como as das casas de festa infantis ou de uma sala de pré-escola particularmente alegre.

Eu entendia o objetivo, mas algo nele parecia falso, até mesmo enganoso. Aquilo era um hospital. As crianças ali estavam doentes. Não se podia mascarar isso com cores vivas.

Também não se podia disfarçar o cheiro. É claro que eles usavam um purificador de ar com aroma de cereja, mas ainda assim era possível sentir o cheiro de... bem, hospital. Eu odiava aquele cheiro.

Começamos a andar pelo corredor. A maioria das portas dos quartos dos pacientes estava fechada. Quando uma delas se abriu, tentamos dar uma espiada lá dentro, mas não dava para ver o suficiente para saber quem estava ali.

– Isto é inútil – comentou Ema.

Concordei.

– Precisamos ter acesso a um computador – disse Colherada.

Mas pude perceber que isso não iria acontecer. Todos os terminais estavam bem à vista, sob rígida vigilância. Além disso, exigiam todos os tipos de identificações e senhas para garantir a privacidade dos pacientes.

Não seria fácil.

Continuamos a andar. Uma das enfermeiras nos observou. Devíamos estar chamando atenção. Minhas roupas eram normais, acho, jeans azuis e um casaco de moletom, mas Ema estava toda de preto, com maquiagem pesada, joias de prata e muitas tatuagens, e o Dr. Colherada, bem, você sabe.

– O que estamos procurando? – sussurrou-me Ema.

Eu não tinha a menor ideia, por isso continuamos a andar.

Havia um grande projeto de arte em andamento ali, pensei. Todas as portas tinham um desenho infantil diferente, algumas com cinco ou seis. Representavam elefantes, tigres e vários animais, castelos, montanhas e árvores... Os mais comoventes para mim foram os de casas – sempre um retângulo com telhados triangulares – acompanhadas de uma família feita de bonequinhos de palito, em gramados verdes. O sol brilhante e sorridente no canto também era comum.

As crianças que os desenharam deviam sentir falta de suas casas e famílias.

Eu estava observando as portas quando vi algo que me fez gelar.

Ema me encarou e perguntou:

– O que há de errado?

Por um momento, simplesmente fitei a porta. Ema se virou devagar e seguiu meu olhar. Ela ofegou.

Nessa porta só havia um desenho. Com um elemento. Não havia segundo plano, árvores, montanhas altas, bonequinhos de palito ou um sol sorridente no canto.

Só havia uma borboleta.

– O que...? – Ema se virou para mim.

Não havia nenhuma dúvida: era a mesma borboleta que eu vira na casa de dona Morcega, na sepultura do meu pai e em uma das tatuagens de Ema. A Tisiphone abeona. Só que, por algum motivo, os olhos eram roxos.

De repente, senti um calafrio.

– Mickey?

Eu não sabia o que dizer.

– Não entendi – falou Ema.

– Nem eu, mas temos que descobrir um modo de entrar no quarto.

A porta ficava bem perto do posto de enfermagem da UTI. Ou seja, estava sob vigilância constante. Olhei ao redor e pensei: Dane-se, vou tentar a abordagem direta.

– Vocês dois fiquem fora de vista – mandei.

– Qual é o seu plano? – perguntou Ema.

– Vou simplesmente entrar.

Ema fez uma careta.

– Vale a pena tentar – repliquei.

Ema e Colherada foram para o fim do corredor, onde ninguém podia vê-los. Andei com naturalidade na direção da porta com a borboleta. Eu era o Sr. Relaxado, o Sr. Descolado. Quase comecei a assoviar de tão tranquilo que estava.

– Aonde você pensa que vai?

A enfermeira me encarou, com os braços cruzados. Franziu a testa, como uma bibliotecária que não acredita na justificativa para devolver o livro atrasado.

– Ah, oi – cumprimentei, apontando para a porta. – Estou indo visitar minha amiga.

– Não naquele quarto. Quem é você?

– Espere – falei, estalando os dedos e batendo na lateral da minha cabeça de forma exagerada. – Este é o quinto andar? Eu devia estar no sexto. Desculpe.

Antes de a enfermeira poder dizer qualquer coisa, apressei-me a ir embora. Encontrei com Ema e Colherada no fim do corredor.

– Nossa, você é demais! – exclamou Ema.

– Precisamos de sarcasmo agora?

– Precisamos? Não. Mas isso não significa que não podemos nos divertir um pouco.

– Talvez eu consiga entrar com meu disfarce inteligente – comentou Colherada. – Posso fingir que sou médico.

– Colherada, essa é uma ótima ideia – elogiou Ema.

Olhei para ela, confuso.

– Bem, é uma ótima ideia – disse Ema. – Mas vamos fazer alguns ajustes.